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Chapter 3 Experimental Apparatus and Analytical Methods

3.2 Reaction systems

A idéia de que as informações são dadas ou novas, que já esteve associada à relação tópico-comentário e que foi depois ampliada para os limites do texto (visto este em sua materialidade), vem sofrendo mais e mais alterações, à medida que se amplia o conceito de texto. Chafe (1987) leva a questão para o terreno da mente e considera que fenômenos como informações novas e dadas, tópicos e comentários etc. constituem manifestações de processos psicológicos. Em razão disso, tais fenômenos, na opinião do autor, não poderão ser entendidos sem que se compreendam também esses processos subjacentes.

Numa perspectiva cognitivista e tomando por base a linguagem oral72, esse autor redefine as categorias dado e novo e propõe uma terceira, intermediária entre as duas. Para ele, quando alguém fala, expressa, por meio de sintagmas nominais, verbais e adjetivais, idéias sobre “objetos, eventos e propriedades” (objects, events and properties), ou seja, ‘conceitos’ (concepts). Esses conceitos podem estar ‘ativados’ (active), ‘semi-ativados’ (semi-active) e ‘não-ativados’ (inactive) (CHAFE, 1987, p. 25).

Essa classificação está intimamente ligada à noção de “unidades de idéia” (Idea

units). De acordo com Chafe (1985, p. 106), a fala espontânea se desenvolve como uma seqüência de impulsos, “jorros” (spurts) de palavras que apresentam uma “única curva de entonação coerente” (single coherent intonation contour). Tais momentos de fala, que são intercalados com algum tipo de hesitação, constituem as “unidades de idéia”, as quais corresponderiam ao volume de informações que um falante é capaz de operar em um único foco de consciência.

Chafe (1987) explica sua teoria sobre estados de ativação por meio de uma narrativa oral. Trata-se, segundo ele informa, de uma história contada no contexto de um jantar informal, num momento em que as pessoas discutiam a importância de os professores, na universidade, terem contato pessoal com os alunos. Para melhor compreendermos a proposta, reproduzimos em (3) parte dessa narrativa, transcrita pelo autor. Conforme ele esclarece, a transcrição está dividida em unidades de entonação, numeradas de acordo com a seqüência narrativa. Os pontos indicam as pausas; os hífens, o alongamento do segmento anterior; já os acentos marcam os picos de entonação.

(3) 1. … It’s funny thoug. … Mas é engraçado

2. … I dó think that makes a difference.. but. … Eu acho que faz diferença.. mas.

3. ... Í can recall … uh-- … a big undergraduate class that Í had, … Eu consigo lembrar ... ah ... de uma turma que eu tive, 4. … where.,éverybody lóved the intrúctor,

… onde., todo mundo adorava o professor,

5. … a--nd he was a … real .. uh óld world … Swiss-- … guy,

… e-e ele era um... verdadeiro... ah sujeito... do velho mundo... suíço--, 6. … this was uh.. a biólogy course.

… Era uma ah.. disciplina de biologia.

7. … a--nd he left áll the--sort of uh-- … real cóntact with stúdents.. up to

.. his assístants.

… E-e ele deixava todo--tipo de ah--...contato real com os alunos.. para.. seus monitores.

(8. … Mhm,) ( ... Ahã, )

9. … A--nd .. he would come into cláss, … E-e.. ele vinha para a aula,

10. …a--t .. uh—you know three or f … a-a..mm - sabe três ou q

11. .. precísely one minute after the hóur, .. precisamente um minuto depois da hora, 12. or something like thát,

ou algo do tipo,

13. … a--nd he--.. wou-ld .. immédiately open his … nótes ap, … e-e ele--(... imediatamente abria suas.. notas,

14. … in the front of the róom, … na frente da sala,

15. .. and he st, .. e ele co,

16. .. and évery… évery lécture, .. e toda…toda aula,

17. … áfter the fírst, … depois da primeira, 18. .. stárted the same wáy. .. começava do mesmo jeito.

(CHAFE, 1985, p. 23).

Conforme esclarece o autor, “em condições ideais” (under ideal conditions) (CHAFE, 1987, p. 26), todos os conceitos que fazem parte de uma determinada unidade de idéia que está sendo verbalizada estão ativos para o falante. De seu ponto de vista, o falante

pode também avaliar o estado de ativação de tais conceitos para o ouvinte e, assim, marcá-los, lingüisticamente, em termos de informação dada ou nova.

Um conceito ativado é, segundo o autor, aquele que está no foco da consciência de uma pessoa. Seria considerada dada uma informação que estivesse ativa na mente do falante e tida, por este, como ativa também na mente do ouvinte. O uso de formas atenuadas73 tais como os pronomes átonos como I (linha 2); e he (linha 5), por exemplo, indicaria que o narrador teria considerado os referentes por estas designados já ativados na consciência dos ouvintes. No primeiro caso, a justificativa seria o fato de tratar-se de uma referência a um participante do discurso. A saliência do referente seria algo natural74. No segundo caso, a explicação seria a de que o pronome remete à entidade instructor, recentemente citada no discurso anterior (linha 4) e, portanto, presente na consciência do ouvinte75.

Já o conceito semi-ativado, apesar de fazer parte de um conhecimento básico, estaria na consciência periférica, podendo passar facilmente ao nível de ativação. Segundo o autor, o estado de semi-ativação pode ocorrer em duas circunstâncias: (1) pode resultar de um processo de desativação – nesse caso, uma informação que antes estava no foco da consciência não passaria imediatamente para o estado de completa desativação, mas ficaria durante algum tempo na memória periférica; (2) pode surgir da evocação de um esquema conceitual – ou seja, de um conjunto de expectativas inter-relacionadas. Em ambos os casos, essa informação poderia ser considerada acessível, o que significa dizer que haveria uma demanda cognitiva menor para recuperá-la do que, por exemplo, quando se tratasse de uma informação totalmente inativa.

73 Para o autor, “A atenuação envolve, pelo menos, baixa acentuação. Tipicamente, embora nem sempre, também

envolve a pronominalização e a omissão de verbalização (o máximo grau de atenuação)” (CHAFE, 1987, P. 26). (The attenuation involves, at the very least, weak stress. Typically, though not always, it also involves either pronominalization or omission from verbalization altogether (the maximum degree of attenuation)).

74 Segundo explica o autor, os referentes de primeira e segunda pessoas assumem naturalmente, no contexto da

conversação, o status dado.

75 Cf., a esse respeito, Ariel (1996; 2001), que considera a recentidade um dos fatores de acessibilidade dos

No texto em apreço, o autor cita como exemplo de conceito semi-ativado que passa novamente ao estado de ativado a propriedade old world, que é primeiro citada na linha 5

5. …a--nd he was a … real .. uh óld world … Swiss-- … guy

e é relembrada muito depois, na linha 34, que não faz parte do trecho que tomamos de empréstimo, mas que reproduzimos aqui:

34. ...II guess that ís the ..old world stýle,

Como observa o autor, a propriedade old world stýle (estilo velho mundo) estaria semi-ativada. Pela distância temporal que ocorreu entre a primeira menção e a segunda, tal informação, apesar de não ter sido desativada, deve ter sido retomada a partir do estado de semi-ativação.

Como exemplo de conceitos que teriam atingido o status de semi-ativação a partir da evocação de um esquema conceitual, Chafe cita as entidades que teriam sido “chamadas” da memória a partir da introdução, na narrativa, da entidade a big class that I had. O autor lembra que tal referente já é tratado como ativo, porque a conversação anterior já versava sobre o tema sala de aula. Daí, então, elementos como the intructor (unidade 4), his assístants (unidade 7), class (unidade 9), que estão naturalmente relacionados ao esquema em questão, assumem todos o estado de semi-ativação.

Por fim, o conceito não-ativado, de acordo com Chafe , faz parte do conhecimento arquivado na memória de longo termo. Para que uma determinada informação passe desse estado para o estado “ativado” há, segundo o autor, uma grande demanda cognitiva. Esse esforço seria comprovado, primeiro, pela existência das pausas intercaladas entre os momentos de verbalização das unidades de entonação; segundo, pelo fato de apenas um conceito poder mudar do estado “não-ativado” para o “ativado” durante uma pausa. No exemplo citado pelo autor, a forma de expressão foi marcada por pronúncia acentuada e por uma maior extensão dos sintagmas, como ocorre em uh óld world … Swiss-- … guy (unidade 5).

Uma crítica que se costuma fazer à proposta de Chafe é que esta se insere numa visão psicologizante do fenômeno lingüístico, na medida em que considera as expressões lingüísticas como simples manifestações dos fenômenos da mente. De fato, as categorias postuladas pelo autor, apenas três, dizem respeito aos estados da mente.

Ariel (2001) reclama dessa divisão tripartida, que para ela não dá conta dos múltiplos aspectos que o autor considera relacionados ao nível de ativação. Entre esses aspectos estariam a “identificabilidade” e a “contrastividade” dos referentes. Como ela observa, o próprio Chafe chega a apresentar um contra-exemplo à teoria, quando mostra o caso de “pronomes acentuados” que, fugindo à regra, não seriam “contrastivos” e que, portanto, fariam parte de uma categoria intermediária.

Com efeito, ao postular a existência de apenas três estados da mente, o autor minimiza a complexidade do fenômeno, o que constitui um reducionismo criticável. Sobre essa questão, vale a pena conhecer a opinião de Davidson (2006, p. 1), que, mesmo reconhecendo a existência de estados mentais, compreende que não há “leis conectando eventos mentais [...] com eventos físicos”. Como adverte esse autor, o “mental” é “holístico”, o que significa dizer que

As crenças individuais, as intenções, as dúvidas e os desejos devem suas identidades em parte a sua posição em uma ampla rede de disposições adicionais: o caráter de uma dada crença depende continuamente de outras crenças; as crenças têm o papel que desempenham por causa de suas relações com os desejos e intenções e percepções (DAVIDSON, 2006, p. 2).

Isso explica por que o autor postula a não-redutibilidade do mental ao físico. No caso em foco, não haveria a garantia de correspondência biunívoca entre o estado de ativação de um referente e a expressão desse estado por meio de uma de forma lingüística predeterminada. Cavalcante e Koch (2007, no prelo), assumindo o ponto de vista da cognição incorporada, tecem à abordagem de Chafe uma crítica que, de certa maneira, endossa as idéias de Davidson. As autoras questionam o uso do termo “consciência” para expressar os graus de ativação. Afinal, dizem elas, essa “‘consciência’ do outro”, que nos permite ajustar a

linguagem às necessidades da intercompreensão, “parece ser algo natural, culturalmente adquirido, constitutivo do próprio funcionamento da língua”.

As duas se insurgem, na verdade, contra o que constitui uma característica própria do chamado paradigma simbolista, comum às abordagens lógico-retóricas e às cognitivistas. Em ambos os casos, há um sujeito cartesiano, capaz de “desenhar” os atos comunicativos e de decidir, reflexivamente, sobre o uso das formas lingüísticas. Não haveria aí a “rede de disposições adicionais”, nem as relações entre as crenças, nem as ligações entre estas e os “desejos, intenções e percepções”, elementos aos quais se refere Davidson (2006), mas apenas um conhecimento reflexivo (crenças isoladas), que proporcionaria a identificação inequívoca do estado de ativação correspondente a uma determinada forma lingüística.

Retomando o que já dissemos anteriormente, sabemos que esse “espírito” está presente, de certa forma, em maior ou menor grau, em todas as abordagens que selecionamos para comentar. O que queremos mostrar é que o fato de um modelo se assentar numa visão mais fraca ou mais forte desse paradigma pode, respectivamente, aproximá-lo ou distanciá-lo de uma concepção de linguagem na perspectiva situada. A proposta de Chafe, com seu pareamento rígido entre estados mentais e formas lingüísticas, está, para nós, distante de tal perspectiva.