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Chapter 3 Experimental Apparatus and Analytical Methods

3.4 Anion chromatography

Entre as críticas que mencionamos no segmento anterior, consideramos mais importantes as duas primeiras, que se voltam para as bases conceituais da abordagem de Ariel. A ênfase na função referencial é um dos problemas apontados no modelo. Trata-se de uma matéria que põe em discussão as concepções de linguagem e de signo, levando, naturalmente, à questão polêmica da representação. De acordo com as teorias clássicas, a linguagem espelha o mundo e, assim, as palavras representam os objetos da realidade. Essa visão realista da linguagem não encontra mais eco nos estudos lingüísticos atuais. Como ressalta Cardoso (2003, p. 115), “A realidade não pode mais ser concebida como um objeto dado, esperando para ser reconhecido e interpretado”.

Por outro lado, também reconhece essa autora que a crítica exacerbada à tese realista pode levar ao outro extremo, isto é, à negação de qualquer tipo de vínculo entre o discurso e a realidade e, portanto, à negação do próprio referente. Contrapondo-se à visão “antiepistemológica” das correntes pós-modernas, que negariam qualquer função

representacional da linguagem por considerarem que “aquilo que chamamos de ‘realidade’ é um construto de nossos discursos” (p. 116), a autora argumenta que,

enquanto esse novo signo [o signo pós-moderno] aboliu o referente, o senso comum não desistiu do conceito de representação, e continua a fazer usos legítimos dele, assegurando que os signos de que se serve representam coisas e fatos do seu dia-a-dia” (p. 118).

Apoiada em Eagleton (1997), Cardoso (2003) admite que, se por um lado é inaceitável a idéia de um significante transparente, que em nada altere o significado, por outro lado é também inadmissível a concepção de significado como “mero produto ou criação do significante”, que pressuponha a não-existência da realidade anterior ao discurso (p. 119).

Longe de tentar abolir a noção de representação e, assim, subvalorizar a função referencial da linguagem, Cardoso (2003) vincula a instabilidade referencial ao próprio processo de representar. Com base na concepção de signo de Voloshinov, que para ela garante ao mesmo tempo a representação e a refração do referente, a autora define o ‘real’ como “um conjunto específico de práticas (não-discursivas e discursivas) que fornecem a razão para o que se diz e que constituem o seu referencial”. Tais práticas, previne, “não são estáveis, fixas, mas estão sujeitas a serem transformadas interpretativamente, a serem moldadas pela prática da própria representação” (p. 121).

Esse modo de ver o fenômeno da representação encontra apoio em Varela (1998), que estabelece a distinção entre as concepções fraca e forte do termo. Numa visão fraca, segundo esse teórico, representar teria mais o sentido de interpretar. Assim, o termo usado com esse sentido não negaria o postulado atuacionista de que a realidade é dinâmica e se constrói no curso de nossas relações fluidas e contínuas no mundo. Conforme reconhece o autor, podemos dizer que representamos a realidade quando tentamos compreendê-la, isto é, quando assumimos o papel de “observador”, nas palavras de Maturana (2001, p. 55). É importante observar que, embora descarte a existência de símbolos na linguagem, Maturana não nega que “há mais dimensões [na linguagem] que a verbalização” (2001, p. 100), o que, de certa maneira, autoriza-nos a usar o termo representação para denotar o falar acerca de algo, o ir além da própria experiência sensório-motora, enfim, o “coordenar ações na convivência”,

estabelecendo consensos, que é, segundo o próprio autor (2001, p. 96), o que fazemos na linguagem.

Teixeira (2004, p. 42) também reforça a mesma tese de Cardoso e de Varela. Apesar de reconhecer que a representação, em seu sentido tradicional, “não pode mais ser a arché ou o fundamento da ciência cognitiva”, admite que essa ciência “não pode prescindir de uma (ou alguma) noção de representação”, sem correr o risco de desmoronar “sob o peso do relativismo e do culturalismo”.

A partir das considerações desses três autores, entendemos que a valorização da função referencial não constitui, necessariamente, uma característica negativa. Chamamos a atenção para alguns posicionamentos assumidos por Ariel e aqui já comentados, tais como a não-discretização dos estados mentais, a não-especialização das formas lingüísticas em função da origem “geográfica” dos tipos de conhecimento supostamente partilhados, a possibilidade de interações complexas entre os chamados fatores de acessibilidade e, ainda, a noção de discurso como uma realidade para além da materialidade lingüística. Tudo isso, a nosso ver, mostra uma preocupação com os aspectos pragmáticos do discurso, o que torna a Teoria da Acessibilidade menos determinista, mais flexível e, conseqüentemente, mais condizente com a reflexão sobre os processos referenciais, se comparada às demais abordagens aqui já comentadas.

Por outro lado, com base em Ariel (2001), pensamos ser até certo ponto questionável a afirmação de que a autora descuida de outras funções que não a referencial. Nesse trabalho, conforme já mencionamos, embora dispensando maior atenção aos aspectos epistemológicos do acesso ao referente, ela reconhece, ilustrando inclusive com exemplos, que outros fatores, além dos relacionados à acessibilidade (questões sócio-culturais, por exemplo), podem também condicionar o uso de determinadas formas referenciais em vez de outras116.

116 Compreendemos que o que de fato incomoda os críticos é o papel efetivo desses elementos nos processos

referenciais. Do ponto de vista da cognição situada e incorporada, paradigma ao qual se filiam, não há simplesmente um meio influenciando a identificação dos referentes; estes emergem da interação entre as práticas lingüísticas e não lingüísticas que fazem parte da vida cotidiana das pessoas.

A respeito da pouca atenção dispensada aos aspectos interacionais, alegada por Apothéloz e Pekarek-Doehler (2003) e também por Zamponi (2003), diríamos que essa crítica torna-se pertinente, se contarmos que os fatores de acessibilidade dizem mais respeito aos recursos usados pelo falante/escritor para “instruir” o ouvinte/leitor a recuperar da memória determinadas conhecimentos. Falar de instrução e de recuperação de informações é diferente de falar de consensos e de negociação de sentidos, que é na verdade o que visivelmente ocorre na conversação em tempo real.

Por outro lado, quando se trata da linguagem escrita, não há como negar que essas negociações se desenvolvem mais com base em suposições acerca de como reagirá o leitor. Tais suposições, conforme pensa Ariel, estariam sinalizadas no texto pelo uso de determinadas expressões referenciais em vez de outras. Parece ser por isso que Apothéloz e Pekarek- Doehler (2003, p. 10) reclamam do uso de dados “monologais” (referindo-se aos corpora escritos117) pelas abordagens ditas “cognitivo-informacionais”.

Entre as críticas de Cornish, merece destaque a observação de que Ariel não distingue com clareza “antecedente” de “referente”. De fato, a noção de antecedente é complexa, mas nos parece compreensível, se recorrermos aos princípios básicos da teoria. Uma idéia chave, que é sempre enfatizada por Ariel, é a de que não importam os “lugares” de onde vêm as informações que nos dão acesso aos referentes. O contexto é uma realidade cognitiva (ou intercognitiva, podemos assim considerar) que se estrutura a partir de diferentes semioses. O antecedente anafórico seria, então, uma entidade discursiva, alguma percepção que aconteceria a partir de uma expressão da superfície textual ou de qualquer outra fonte (saliência física, memória de longo termo, contexto cultural), que levaria à identificação do referente. Esse amálgama de informações de todos os tipos, de todas as origens e em todos os níveis textual- discursivos, conforme já comentamos, constitui, para nós, um dos pontos importantes da abordagem; é um dos aspectos que a diferencia dos demais aqui já comentados e que a credencia como ponto de partida para a análise de dados autênticos, que são naturalmente

117 A respeito do uso do termo “monologais” para aludir aos gêneros escritos, cabe aqui uma crítica. Se

considerarmos a concepção bakhtiniana de língua, que é praticamente consensual entre as correntes voltadas para a enunciação e o discurso, temos de assumir que todo e qualquer discurso, independentemente do gênero, é dialógico, porque o dialogismo é constitutivo do discurso. Seria, portanto, inadequado dizer que existem textos “monologais”.

complexos. A nosso ver, essas relações complexas e indeterminadas, não-modularistas, que são postuladas pela autora, aproximam seu discurso da perspectiva da cognição situada.

Uma outra crítica de Cornish, a reclamação de que Ariel não prioriza o cotexto, tem para nós importância secundária na avaliação da teoria. A nosso ver, mostra, na verdade, que a noção de discurso subjacente à proposta da autora extrapola os limites da materialidade textual118, o que, para nós, constituiria uma virtude.

Já para a não-inclusão dos SNs indefinidos no continuum, que é também objeto de crítica de Cornish, uma explicação plausível seria a de que, ao excluir as formas indefinidas da escala de acessibilidade, Ariel estaria considerando que tais expressões, por serem vistas na literatura corrente como especializadas na introdução de referentes, não deveriam ser tidas como marcadoras de algum nível de acessibilidade, porque assinalariam exatamente a ausência de givenness. Ao contemplar somente as formas definidas, a escala de acessibilidade daria conta apenas dos referentes que de algum modo, implícita ou explicitamente, fossem vistos como fazendo parte do discurso corrente.

Há que reconhecer que as formas indefinidas não desempenham apenas a função de introduzir referentes novos no discurso. Sobre essa questão, já fizemos uma breve discussão em (3.4). Como vimos, já há estudos que mostram o uso de expressões indefinidas para retomar referentes já mencionados no texto. Sob esse aspecto, não resta dúvida de que a não- alusão a essas formas referenciais na proposta de Ariel constitui uma lacuna.

Ressaltamos mais uma vez, entretanto, que o que consideramos mais importante na teoria (e o que de fato nos interessa) não é o continuum de formas, mas o avanço em termos de concepção de discurso. Quando se trata da crítica ao continuum, seria, para nós, mais pertinente questionar a proposta em si. Embora admitamos que as formas portam algum conteúdo semântico e, ainda, que algumas delas possam superar outras quanto ao grau de

118 Como já esclarecemos, a origem da informação (cotextual, situacional ou cultural) não é importante para

Ariel, visto que para ela o contexto, embora contando com uma mescla desses tipos de informação, é uma realidade discursiva, na qual não se separa o que é lingüístico do que é cognitivo. Dispensar atenção especial às informações cotextuais, em detrimento das demais, seria contradizer esse princípio; seria negar a própria noção de discurso como algo que está além da materialidade fônica ou gráfica.

informatividade, rigidez e atenuação, não vemos como quantificar essas características em

termos de escala. Mesmo que a escala tenha sido construída a partir de dados reais, não há garantia de que o resultado seja o mesmo em qualquer contexto de uso. A nosso ver, a escala contradiz, inclusive, as considerações da autora, sobre o chamado significado literal em seus trabalhos mais recentes119.

Apesar das lacunas que apresenta, a maior parte decorrente de suas bases cognitivistas, a proposta de Ariel se diferencia, positivamente, de todas as abordagens anteriormente aqui comentadas. Estas, de uma forma ou de outra, “amarram” as formas lingüísticas à correspondência com estados mentais predeterminados e/ou com “endereços contextuais” fixos.

Mesmo admitindo a distância que ainda separa a perspectiva da Teoria da Acessibilidade de uma abordagem totalmente orientada, em seus fundamentos, pelos paradigmas mais atuais, entendemos que a interação entre os fatores e a não-discretização dos “lugares” fontes de givenness quebra a rigidez comum aos modelos clássicos e abre espaço para as incertezas, para as explicações mais contingentes, criadas de forma específica para cada ação discursiva de referir. No próximo capítulo, analisamos alguns processos referenciais, em textos autênticos, tomando como apoio essa teoria.

Capítulo 4

A acessibilidade discursiva e os usos referenciais na CVL

O percurso que cumprimos até aqui, no desenvolvimento desta pesquisa, já demonstrou, segundo acreditamos, que o foco de nossa atenção são os aspectos conceituais da referência. Com efeito, as reflexões que desenvolvemos ao longo dos três capítulos anteriores foram guiadas pela tentativa de compreender, primeiro, a evolução do conceito de referência; depois, o funcionamento desse fenômeno, que, na perspectiva da cognição incorporada e situada, passa a ser visto como o processo pragmático-discursivo da “referenciação”; finalmente, entre as várias propostas de abordagem que revisitamos, buscamos entender o nível em que estas se aproximariam ou se distanciariam de um perfil mais condizente com o caráter dinâmico e instável dos atos referenciais.

Ao cotejarmos, no capítulo anterior, as seis propostas de abordagem, destacamos a teoria da acessibilidade, de Ariel, como aquela que nos parece oferecer maior poder explicativo para os fenômenos referenciais, dados os motivos já comentados: a concepção de discurso como uma realidade que se instaura para além da materialidade lingüística e a idéia de não-correspondência, tanto entre estados mentais discretos e expressões referenciais, como entre estas e os tipos de givenness.

No presente capítulo, passamos a lidar com os dados que nos serviram de base para a pesquisa. Na primeira parte, informamos os procedimentos metodológicos, ao mesmo tempo em que caracterizamos brevemente a lista de discussão. Mostramos, por meio de exemplos retirados do corpus, aspectos importantes do funcionamento da lista de discussão Comunidade Virtual da Linguagem (CVL), os quais, segundo a nossa percepção, influenciam de maneira importante os processos referenciais.

Essas informações abrem caminho para a compreensão da segunda parte do capítulo, em que discutimos alguns aspectos da referenciação à luz da teoria da acessibilidade e com o apoio dos dados da CVL.