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Quando atentamos para as características específicas de cada uma das abordagens comentadas no segmento anterior, percebemos que elas divergem entre si em muitos aspectos, principalmente quanto à distância que cada uma percorreu rumo à virada pragmática. Não há como negar que a teoria dos jogos de linguagem está à frente das demais.

Benveniste, com uma abordagem do ponto de vista da lingüística, ainda se mantém distante da dimensão pragmatista inaugurada por Wittgenstein. O sujeito de Benveniste, como já vimos, é alguém que, de modo absoluto, manipula o aparelho formal da língua como instrumento para atingir seus objetivos comunicativos. Em Benveniste (1995), ao comentar a teoria dos atos de fala, o autor critica a diluição das distinções entre atos constatativos e performativos, proposta por Austin, o que demonstra sua visão dualista da linguagem. Admitir a fusão entre declarar e fazer seria entender que a linguagem desempenha outras funções além da de referir; seria assumir a não-separação absoluta entre sujeito e objeto, entre semântica e pragmática. Seu posicionamento, no entanto, contrário a tudo isso, afasta-o de Austin e o aproxima de Searle, o que significa que o distancia também da perspectiva wittgensteiniana.

Austin, conforme já mostramos, evolui de uma visão dicotômica sobre os atos de fala – constatativos versus performativos35 – para uma concepção performativa de linguagem, o que, de acordo com a opinião de autores como Ottoni (1996, 2002), Cardoso (2003) e Macondes (1996)36, constitui uma importante mudança na concepção de linguagem do filósofo. Por outro lado, a idéia de traçar um arcabouço teórico capaz de dar conta, a priori, dos possíveis atos de fala situa o autor, a nosso ver, num ponto ainda não tão avançado, no caminho aberto por Wittgenstein, para a perspectiva pragmática. Searle, por sua vez, como já sabemos, leva, de certa forma, a teoria dos atos de fala de volta para o paradigma da lógica proposicional, o que o afasta naturalmente desse novo paradigma.

O fato é que o “salto” conceitual dado por Wittgenstein, que, como observa Fabrício (2006, p. 56), abala “a tradição representacionista em seu próprio território, sem a pretensão de apresentar um modelo alternativo”, não parece ter sido alcançado pelos filósofos de Oxford. Araújo (2004, p. 196) admite que os autores da teoria dos atos de fala “representaram um retrocesso com relação a Wittgenstein II”. Para a autora, esses filósofos, apesar de terem avançado em relação aos lógicos quando consideraram “o falante e o uso em situação”,

35 Essa é uma das dicotomias que, no entender de Martins (2004), caracterizam a perspectiva essencialista: a

possibilidade de se produzirem sentenças puramente constatativas pressupõe um sujeito de fora dos atos lingüísticos, manipulando a linguagem de forma absoluta, de acordo com regras predefinidas, como um simples instrumento de comunicação.

36 Cf. Ottoni (1996). Ao prefaciar essa obra de Ottoni, Marcondes demonstra concordância com o autor quanto às

críticas que este faz aos “desenvolvimentos propostos por outros autores, dentre eles sobretudo John Searle” (MARCONDES, D., In: OTTONI, 1996, p. 9).

enveredaram pelo mesmo caminho que estes últimos quando adotaram a “concepção causal de referência”, que é baseada na “relação entre sentenças ou proposições e os estados de coisa” (p. 197). Diferentemente do que fez Wittgenstein II, eles “não dispensaram o próprio PROBLEMA da referência” (p. 197, grifo da autora).

A teoria wittgensteiniana é, alíás, considerada avançada, mesmo quando se comparam as idéias do autor de Investigações Filosóficas com as de outros nomes que, reconhecidamente, adotam uma visão não-positivista da realidade. Um exemplo interessante é visto em Araújo (2005), que rebate as críticas de Habermas ao que este chama de ‘paroquialidade dos jogos particulares de linguagem’ (HABERMAS, 1990, p.79), e, ainda, à suposta “insuficiência” que o autor em questão vê na “concepção de significado como uso”. Araújo tece sua argumentação, mostrando que tais críticas não teriam razão de ser, simplesmente por se fundarem em pressupostos outros, que não os assumidos por Wittgenstein. O “pragmatismo formal” de Habermas (grifo da autora), preso aos critérios de validade e intenção, estaria na base do julgamento desse autor sobre a teoria wittgensteiniana. Ao contrário do que afirma Habermas, Wittgenstein, por seu “antifundacionalismo”, seria “o representante legítimo da virada pragmática”, conclui Araújo (2005, p. 116).

A atualidade do pensamento de Wittgenstein é também reconhecida por Fabrício (2006), quando a autora coteja a concepção de linguagem desse filósofo com as de Nietzsche e de Foucault. Admitindo uma aproximação entre os três, no que diz respeito ao caráter desestabilizador “de certa metafísica que ainda nos ronda” (FABRÍCIO, 2006, p. 53), a autora considera que Wittgenstein, além de conferir à linguagem “um lugar central na experiência humana e no desenvolvimento da cultura”, “elaborou uma crítica mais incisiva e radical [do que o fizeram Nietzsche e Foucault37] ao essencialismo” (p. 56), o que o colocaria em acordo com as tendências mais atuais nos estudos da linguagem.

Voltando à questão da dispensa do problema da referência, é compreensível que, ao abandonar a idéia de “afigurar” o mundo pela linguagem, Wittgenstein tenha relegado a referência à condição de problema periférico. “Com a mudança de paradigma, com a virada

37 A autora destaca a contribuição do pensamento dos três filósofos – Nietzsche, Foucault e Wittgenstein – para a

pragmática, a função expositiva da linguagem é um tipo de gramática dos jogos de linguagem, não tem nenhum privilégio transcendental”, esclarece Araújo (2007, p. 21).

Se considerarmos o falar como uma atividade que desenvolvemos de forma imbricada com outros tipos de comportamento próprios do nosso cotidiano, em colaboração com as pessoas que nos rodeiam, não há por que pensarmos que cada ato de nomeação será realizado mediante operações lógicas, que garantirão o acesso a uma e somente uma mesma entidade mundana (grifo nosso). Segundo explica Davidson (2006, p. 4), a “verdade” e a “objetividade” na comunicação humana dependem tão somente de que as pessoas, na condição de membros de uma “comunidade de entendimento”, compartilhem “expectativas”, o que, acrescentamos, acontece normal e freqüentemente em nossas trocas diárias, como parte de nossa rotina de falantes.

Chegamos assim a uma dimensão mais ampla no percurso conceitual da referência, que é a do discurso, em substituição ao nível dos atos de fala, que certamente não abarcaria um contexto tão complexo.

Araújo (2004, p. 200) observa que Wittgenstein, apesar de “sua crítica à linguagem privada e sua noção bastante elástica da linguagem [...], não se ocupa do discurso entendido como dimensão por detrás dos jogos”. A nosso ver, a dimensão discursiva não poderia estar “por detrás” dos jogos, mas, como possibilidade de emergir, é parte do próprio processo de jogar. O que a autora parece ter querido dizer é que falta o desenvolvimento das possibilidades abertas por essa teoria. Sob esse novo ponto de vista, referir seria produzir discurso, fabricar realidades fluidas, que se configuram e reconfiguram a todo instante. E, nesse terreno movente, constituir-se e reconstituir-se como sujeito social, no curso das interações.

Araújo (2004) sugere três abordagens que, segundo ela, alcançariam a dimensão discursiva: a teoria do discurso de Foucault, a teoria da ação comunicativa de Habermas e, em um nível bem mais específico, a abordagem da referenciação, proposta por Mondada e Dubois ([1995] 2003).

Sob esta última perspectiva, Mondada e Dubois nos convidam a deixar de lado a referência tal qual é vista pelas abordagens ditas informacionais e voltar nossa atenção para os processos sociocognitivos de construção conjunta dos referentes – os “objetos de discurso” – no curso de nossas práticas sociais. Essa abordagem, que será explicitada de forma mais detalhada no capítulo 2, insere-se, a nosso ver, no coral de vozes desestabilizadoras da hegemonia essencialista de que fala Martins (2004).