5. Possible RDF drying methods in Norcem plant
5.4 RDF drying system selection for Norcem plant
Acesso, logo existo? A pretensão aqui não é reformular o pensamento filosófico por trás da celebre frase, ou retórica filosófica, “Penso, logo existo”. A intenção é parodiar e analisar a construção nos seus desdobramentos de sentido. Pela frase, fazemos o entendimento que ao pensar o indivíduo configura e confirma a sua existência. E, também, podemos considerar a existência dos indivíduos enquanto seres que pensam.
Ao parafrasear Descartes, o objetivo é fomentar a reflexão do que poderíamos ou a que poderíamos ligar o existir no ciberespaço. Como ou enquanto o que o usuário da rede existe? A fim de elucidar essas questões torna-se pertinente a compreensão da palavra acesso. Ela, em
si, permitiria que ao estar conectado o usuário pudesse ter a certeza de sua existência. Mas o acesso pelo acesso, simplesmente, só me garante chegar ou entrar em um lugar. O que é necessário para participar, mas não permite garantir à formulação ou formação de algo suscetível a participação. Esse participar pressupõe uma “construção” a qual se terá o acesso. Assim a unidade do caráter da existência no ciberespaço estaria, muito mais próxima em se acessar um conteúdo ou ter um conteúdo acessado. Essa interação garante a formulação e a constatação.
Portanto, o interagir configura e confirma o existir no ciberespaço. Pois, ao interagir com alguém se pressupõe que os dois tenham acesso. Alguém teve que estar conectado para postar algo que seja passível de interação. O outro, também, tem que se conectar para responder, efetivamente, ao estímulo. Assim, podemos concluir que só é possível interagir, diretamente, com usuários que possibilitaram a interatividade, ou seja, praticaram alguma ação no ciberespaço. E ao interagir, também, se está proporcionando e fomentando a continuação desses ciclos de diálogos, interações, digitais.
Como podemos apreender com Canclini (2007), falar de globalização e seus processos é falar, sobretudo, de pessoas envolvidas em relações de troca e circulação. Um conjunto de sistemas que homogeneízam e, ao mesmo tempo, fragmentam. Então, falar de pessoas que interagem na rede, também, é elucidar aspectos da globalização. Pois, nos referimos a pessoas que trocam bens e mensagens com pessoas de todos os lugares, que acessam a comunicação de massa, que produzem uma comunicação alternativa, que compartilham experiências e consomem a dos outros, que compram e que vendem, ou seja, pessoas envolvidas em trocas e tráfego.
O ciberespaço, também, é um espaço que homogeneíza e fragmenta. Pois, nele temos o “acesso” a todos e, ao mesmo tempo, só podemos acessar ao todo em parcelas ou divisões, os seus nichos. Essas porções são “conectadas” de acordo com nossas identidades. Apresentadas por Canclini (2007) como transterritorialistas e multilinguisticas. As identidades pós-modernas18 transcendem as possibilidades da clássica ligação da identidade com uma
18 Aquelas que se contextualizaram no contexto dos processos globalizadores. Ou seja, o termo pós-
moderno está muito mais ligado a uma iniciação da ligação da identidade as características apresentadas do que ao entendimento ou apreensão da relação espaço-tempo. Pois, é preferível tratar as questões sob o olhar da contemporaneidade.
definição socioespacial. Isso amplia a necessidade de buscar elementos ou códigos externos que dialoguem com os códigos locais. Uma busca para produzir representações que possam ser propagadas para um número maior de pessoas, sem que seu uso implique em significados divergentes. Mas existem fotografias que tem o objetivo de fazer com que as pessoas assumam uma posição. Essas, geralmente, estão envolvidas em questões políticas e, ou, religiosas.
Figura 11 – Campanha #florestafazdifereca. Disponível em: <
http://www.flickr.com/photos/florestafazadiferenca/6473438197/>Acesso em: 01 de dez. 2011.
A imagem acima denota de forma bem clara o caráter fragmentário das mídias sociais, fora de uma concepção econômica. No caso de campanhas como a da “#florestafazdiferenca”, as pessoas são divididas entre as que concordam, discordam e as que são indiferentes.
A manifestação das representações das identidades, como visto em Hall (2003), estão ligadas as relações de espaço-tempo. Assim, as construções identitárias na rede demonstram as moldagens e remodelagens que as representações da identidade estão ligadas na contemporaneidade. Configurada como uma transição incessante entre significados e significações. Um transitar que confunde fronteiras e proporciona diálogos hibridistas, o que Hall (2003) define como tradução. Isso completa o que Canclini apresenta como uma lógica identitária na contemporaneidade. Ou seja, pessoas que dialogam com diversas identidades para conseguir “retalhos” de seus aspectos e “costurar”, assim, uma mistura de tudo que o identifica. Pois, identidades puras, tomadas em sua íntegra, não condizem com as demandas do cotidiano.
A palavra “diálogos”, usada para caracterizar a relação entre identidades, nos remete a fala e a voz. Isso nos leva a pensar na voz que se manifesta no ciberespaço. Sem poder recorrer ao falar, propriamente dito, uma proto-voz19 manifesta-se na cibercultura. Ela
enunciaria os diversos verbos e as suas diversas conjugações em nossas vivências no ciberespaço. Um falar construído por dígitos e cliques que ganham formas bem mais amplas e significativas do que a soma das unidades de seus componentes. Assim, reproduzem timbres e entonações que não correspondem, necessariamente, as quais manifestaram ao clicar, digitar, anexar, compartilhar, “curtir”, postar, editar e enviar.
Para executar ações em mídias sociais o usuário precisa se adequar as possibilidades de interação que cada uma oferece. Isso equivale a elaborar um perfil ou interagir com conteúdo que não necessita de cadastro para se ter acesso. Cria-se, então, uma representação que será responsável por “efetuar” as ações. E ela se apropria de diversas linguagens para representar as ações na rede. Essas expressões têm a função de aproximar a informação de uma ação no entendimento de quem toma conhecimento delas. A fotografia nas mídias sociais seria, assim, uma das formas em que a proto-voz no ciberespaço se apresenta. Uma forma de expressão que, assim como as outras, carrega informações de quem a propagou. Pois, como já dizia Recuero (2009), perfis ou “endereços” nas mídias sociais são o conjunto de pistas do “eu” a ser percebido pelos outros usuários. Por isso é tão importante dialogar com os aspectos do ciberespaço que compõem e representam a formação identitária. A fotografia no mundo digital será mais aprofundada no próximo tópico.
Voltemos um pouco o raciocínio. Mas quem seria o “eu” nas mídias sociais? Seria o perfil ou o usuário? Uma resposta inocente forma-se então: sou eu. Canclini (2007) trata de atores sociais como as pessoas envolvidas em “acontecimentos” ou ações do âmbito social. E Recuero (2009) fala como os atores nas redes sociais precisam ser vistos de forma diferenciada, devido a necessidade da mediação tecnológica dos computadores. Assim, os atores são representados por suas criações identitárias. Cada uma só representa um ator, mesmo se elas forem construídas por mais de uma pessoa. Isso complica, ainda mais, o raciocínio. E, ao mesmo tempo, ajuda a esclarecê-lo, pois sabe-se que sem a figura do usuário não existira perfil ou ciberespaço. Mas sem aquilo que representa o usuário não existiria o
19 Sem manifestar a fala, uma extensão do falar se manifesta. Assim, algumas expressões são tomadas
como discurso. Portanto, ao representar o dizer, manifesta-se a necessidade de vinculá-lo a uma voz. É essa representação de uma voz no ciberespaço que estamos chamando de proto-voz.
“eu” do ciberespaço. Uma verdadeira simbiose. E isso complica o pensamento, mas devemos atentar que tanto o que representa como o que é representado são construções. Assim, por exemplo, se não existisse a rede social que participamos, também, não existiria o “usuário” que ela representa, pois aquilo que a compõe é uma criação identitária produto da sua relação com o meio e as formas como nos enxergamos.
Podemos visualizar esse raciocínio ao perceber o perfil das mídias sociais como um espelho. Um espelho que reflete identidades. Mas, nesses espelhos, as construções das imagens ficam, totalmente, por conta de cada pessoa que resolve usá-los. As pessoas teriam a possibilidade de interagir enquanto montam a sua identidade no dia a dia e isso, também, colaboraria para construção identitária. Essas criações, assim, remetem a tudo que quisermos, até a quem as constrói.
As construções identitárias que remetem a quem a constrói parecem mudar algumas concepções do eu20. Existe algo de diferente em conjugar verbos na primeira pessoa do
singular, pois o “eu” já não refere-se a mim enquanto indivíduo. Ao criar um avatar21
podemos continuar acreditando que nos caracterizamos enquanto seres únicos? Quando são encontradas pessoas com o mesmo nome, homônimos, toma-se o nome da mãe como referência para saber quem é quem. E para diferenciar pessoas de suas representações criadas para o mundo virtual, como se faz? Elas são “só” representações? Nós também não somos uma representação do que acreditamos que somos ou do que seria conveniente que fossemos em cada momento? Assim, no contexto das construções identitárias das mídias sociais, representações ou perfis dos usuários, temos que conjugar o verbo na primeira pessoa do singular mais de uma vez. Pois não adianta “só” passar no vestibular, por exemplo, é preciso também mostrar que o “eu” do ciberespaço, o perfil, passou. As pessoas começam relacionamentos duas vezes, a primeira quando se define a relação e a segunda quando isso é declarado por suas vozes na rede e, assim, por diante: Nossas ações seguem sendo duplicadas pelas suas representações.
20 Refere-se a primeira pessoa do singular ou a pessoa que pratica ação.
21 Representação pictórica de si – no sentido de representá-lo mas não precisa ser uma representação
A fotografia, também, seria uma duplicadora das ações do dia a dia, quando usada para representá-las. O que diverge de Kossoy (2007) que vê na fotografia a captura da imagem fugidia, sem intervenções de artistas. Mas nas mídias sociais ela não tem o papel de “eternizar” momentos. Ela passa a significar a ilustração de algo que se deseja compartilhar. A sua propagação nas mídias denota o que Kossoy trata como o sentimento de posse do que é fotografado. Portanto, enviar ou propagar uma fotografia do ciberespaço é afirmar a sensação de propriedade do que a imagem representa. Claro que esse sentimento não é literal, mas uma extensão do que a representação significa. Assim, quando produzimos ou encontramos imagens fotográficas próximas de nós e a publicitamos na rede estamos afirmando esta proximidade, e quando elas representam momentos podemos encará-las como duplicadoras.
Portanto, construir uma identidade nas mídias sociais implica em realizar ações na primeira pessoa do plural, mesmo que isso seja feito de forma implícita. Quando passamos a multiplicar as ações ou dividi-las com a rede, o cotidiano torna mais verossímil o “eu”. Isso ajuda a construir uma argumentação para a busca do instantâneo na publicação de conteúdos das mídias sociais. Com a interação entre o homem e a máquina, tratada como tecnossocial por Lemos (2010), facilitada, as pessoas têm a possibilidade de atualizar representações no ciberespaço com maior frenquência e em mais situações como em trânsito. Então, não basta publicar o cotidiano, uma menor distância temporal entre momentos e suas representações, também é importante para aproximar o “eu real” do “eu digital”.