Como podemos compreender da narrativa contada por Lemos (2010), a idéia inicial, que surge com a microinformática, era popularizar a tecnologia para que ela não ficasse restrita ao ambiente institucional. E a compreensão das informações não ficasse restrita aos programadores. A popularização das tecnologias e conhecimento faria com que acontecesse uma diversificação da produção de conteúdo. Agora, boa parte, dos usuários está encantada com a possibilidade está visível e ser detectado. As novas mídias estão propiciando um novo sistema de trocas. A “informação”, certo conteúdo, é trocada por audiência ou repercussão.
A pessoa pública, antes, restrito aos meios convencionais, passa a ser uma possibilidade para todos. E uma busca para alguns. O publicitar é percebido e apreendido. Em relação à fotografia, as pessoas percebem que é disso que se trata colocá-las em mídias sociais. E tomam suas posições. Jade Giovannini (estudante cearense, 19 anos) acha muita exposição, por isso não costuma colocar fotos em suas mídias. Mas as imagens que a interessam são as de moda. O que nos leva a pensar a ligação do seu gosto por moda com sua opinião e o quanto alguém que gosta de moda, aparentemente, não gosta de exposição.
E Francisco Constantino (monitor de informática, comunicação digital, cearense, 22 anos) utiliza essa possibilidade para mostrar o que fotografa ou para divulgar eventos. Ele, também, acredita que as mídias sociais sejam um grande meio pra mostra os meus trabalhos. Ao ler suas respostas esta parecia está muito ligada a participação dele em um coletivo que trabalha com eventos e utiliza a internet como um dos principais meios de divulgação. Uma perspectiva de comunicação que remete a apropriação das ferramentas para as demandas do cotidiano. Diferente da utilização das ferramentas para romper com o anonimato.
Muitas vezes, parece que os usuários usam a rede para buscar a grande mídia. A pluralidade das mídias sociais vira sinônimo de seleção na qual aquele que conseguir ser detectado, no meio da “multidão” ou pela “multidão”, ganha o “grande prêmio”. Os quinze minutos de fama. Suas expressões, assim, são produtos. Emplacar um novo hit, conseguir muitos seguidores no Twitter, conseguir uma regularidade de acesso no YouTube, ou seja, visibilidade na rede, pode significar ganhos financeiros. O público produz o conteúdo e ele, também, se torna conteúdo. Uma produção que elucida questões relativas a mundialização da cultura. Pois, segundo Ortiz (1998), a mundialização da cultura no cotidiano.
Figura 13 – Montagem: No Amazonas é assim, a gente faz de tudo para usar o pen-drive. Disponível em:
<http://www.facebook.com/photo.php?fbid=284433284933845&set=a.284385868271920.68108.2843
85348271972&type=1&ref=nf>Acesso em: 29 de nov. 2011.
Podemos visualizar na montagem (No Amazonas é assim, a gente faz de tudo para usar o pen-drive) um exemplo dessa relação de aspectos locais e globais, proporcionando o glocal. Uma questão global como a tecnologia é utilizada para propagar um estereótipo de atraso tecnológico do estado de Amazonas, no âmbito local. A relação nem precisa retratar o cotidiano para caracterizar um aspecto glocal. Faz uso do imaginário para gerar conteúdo e acessos. A sátira propaga, assim, um estereótipo que apela para uma linguagem humorística que pode ser encarada como uma construção de mau gosto. Os conceitos geram na rede antagonismos e polêmicas. Eles dividem e demonstram aversões silenciadas pela conveniência.
Como afirma Canclini (2007), o contato das diferenças de uma forma mais contundente acirra as animosidades. A globalização e seus processos proporcionam uma maior disponibilidade de informações de outros grupos ou identidades. Isso demonstra o tamanho da distância que eles possuem. As novas mídias viram palco da vazão da intolerância e do preconceito, pois despertam uma sensação de proteção e impunidade.
Figura 14 – Manifestação de aversão. Disponível em:
<http://www.facebook.com/photo.php?fbid=2691290451938&set=a.1917772314468.2113688.154681
5429&type=1&theater>. Acesso em: 08 de dez. 2011.
Questões transnacionais de ódio ganham novas significações. A xenofobia, por exemplo, no Brasil é estendida aos nordestinos. A fotografia, também, passa a ser usada para disseminar ódio e para denunciar essas situações. A imagem, a cima, é de um perfil que denuncia declarações preconceituosas aos nordestinos. O exemplo demonstra como as reflexões contidas no estudo são amplas e não estão restritas as imagens fotográficas. Treze horas depois da postagem a imagem já foi compartilhada por 4.738 perfis.
Diante do contexto das mídias sociais, a fotografia se apresenta como uma forma de expressão. Isso é caracterizado mesmo que não seja uma foto em que a pessoa que publica fotografa ou é fotografada – ao colocá-la na rede ou propagá-la o usuário está se expressando através dela -, buscando a sociabilidade. Como Mayllane Sousa (Estudante piauiense, 18 anos) afirma, a fotografia digital representa uma “forma de interação social”.
Olhemos para a sociedade contemporânea através do diálogo entre uma nova forma de cultura e o globalizar-se, enxergando as relações de apropriação estabelecidas com a fotografia – não como objeto (imagem), mas como uma forma de expressão -, no ciberespaço. Assim, percebemos uma sociedade que, como as novas mídias, é um grande palco onde os atores sociais desempenham papéis e transitam entre processos de ordem local, global e glocal. A cibercultura é o cenário e a globalização é o enredo. A fotografia é um dos elementos de cena mais recorrentes e com forte apelo. Mas nesse teatro todos podem ocupar qualquer uma das funções. É isso que significa dizer que na cibercultura o conteúdo é do público e o público, também, é conteúdo.
A narrativa nos apresenta um contínuo e contundente entrelaçar de laços sociais. Pois, a sociabilidade ou socializar é o denominador comum da apropriação das fotografias como forma de representação digital. O socializar se manifesta antes de qualquer objetivo ou motivação. As fotos que não possuem esse objetivo não são colocadas nas mídias sociais. Pois, qualquer objetivo ou motivação, no contexto das mídias sociais, só é cumprido com a interação. Como foi argumentado no sentindo de existir e enquanto existência no ciberespaço. Portanto, buscar respostas para as configurações e significações da imagem fotográfica nas mídias sociais é criar questionamentos sobre um aspecto sociocultural das criações identitárias na sociedade contemporânea.