4. EMPIRI
4.2 Hvilke barrierefunksjoner har blomsterfatene?
4.2.2 Barrierefunksjon II: Opplevd trygghet / utrygghet
No artigo de 1939, Nilo Pereira evoca um Ceará-Mirim diferente do que ele encontra ao voltar à cidade de origem, quase duas décadas depois de tê-la deixado. O que vemos é o Ceará-Mirim dos tempos dos engenhos, não da infância do autor, mas do tempo dos senhores e barões do açúcar – estes, ainda percorrendo com suas caleças as ruas íngremes da cidade que desce para o Vale. Esse reencontro não é apenas com a cidade. O Nilo que volta ao Ceará-Mirim é “um homem em busca de si mesmo”, que se reencontrava “nessa fuga do tempo, que passa depressa” 90.
Em Imagens do Ceará-Mirim, a viagem de 1939, entendida aqui como um marco na escrita memorialística de Nilo Pereira, é novamente narrada sob a forma de reminiscência. Ao ler a passagem que está no artigo Guaporé, publicado naquele ano no jornal A Republica, transplantada para o livro de 1969, temos a impressão de que o autor está narrando as impressões deixadas por aquela viagem, que foram se formando em seu espírito ao longo dos trinta anos que separavam o momento da viagem da escritura das memórias. Mas o que temos são impressões de viagem transformadas em memória, escolhidas pelo autor como suas memórias. Trazemos então novamente a citação já apresentada para tentarmos entender se o jovem cronista de 1939 se repete, inteiramente, no homem maduro que nos induz a pensar que, aos 60 anos, tinha chegado para ele o momento de reviver o passado:
Revi a cidade com a sua Igreja, que é um grande marco da espiritualidade da terra; com o seu cemitério, em cujas lápides se inscrevem nomes ilustres na política e na economia do Rio Grande do Norte; com as suas ruas largas como as de um burgo medieval; com o seu casario, onde não há um estilo próprio como em Mariana, Ouro Preto, Olinda, mas onde o perfil semicolonial recorda a fisionomia das velhas cidades, cheias de tradições, onde tudo fala – as pedras, as árvores, os pássaros. Mas, sobretudo vi o vale do Ceará-Mirim, dum 88 PEREIRA, Nilo. Manhã da criação. A Republica, 25 set. 1949.
89 Idem.
verde tranquilo e lúcido, onde aqui e ali se levantam os velhos engenhos da cana do açucar com o seu perfil senhorial 91.
Ele realmente estava relembrando, evocando um passado reconstituído através do sentimento de saudade, do signo da ausência. Mas a lembrança era já antiga, reminiscência de reminiscência. O homem que reescreve e reapresenta o texto sobre a casa grande do engenho Guaporé e a cidade do Ceará-Mirim não é apenas um, mas vários que habitavam dentro dele: o menino nascido no vale que fugia da casa de São José, a “casa da rua”, para visitar a “avó Dobé”, no casarão de engenho; o jovem de 30 anos que revê a cidade em que nasceu após uma década de sua mudança definitiva do estado; e o intelectual de 58 anos que resolve passar a vida a limpo contando suas memórias. Podemos enxergar a cidade do Ceará-Mirim e o próprio Nilo Pereira em três momentos da sua história, a partir da leitura de Imagens do Ceará-Mirim e dos textos que compõem o livro.
Aparece no trecho apresentado o discurso do filho pródigo que tece um longo comentário elogioso às tradições da terra, lembrando os nomes ilustres da cidade (agora já cravados nas lápides do cemitério), comparando a arquitetura do casario cearamirinense a cidades de arquitetura colonial como Olinda e Ouro Preto. Para ele, não importa se o estilo da arquitetura cearamirinense é apenas semi-colonial, carregava ainda a doçura e simplicidade da arquitetura colonial brasileira que aparece nas páginas de Casa-Grande & Senzala, assinalando a cor da tradição. Para Freyre, a arquitetura das casas grandes seguia o modelo daquela desenvolvida aqui pelos jesuítas, “a expressão mais alta e erudita de arquitetura no Brasil colonial” 92. Para o neto de barão que retorna ao Ceará-Mirim até as pedras são impregnadas de tradição. O discurso de exaltação fica ainda mais acentuado quando o objeto da descrição é o Vale: “Mas, sobretudo vi o vale do Ceará-Mirim, dum verde tranqüilo e lúcido, onde aqui e ali se levantam os velhos engenhos da cana do açúcar com o seu perfil senhorial” 93. A tradição do período colonial, forjada na obra de Gilberto Freyre, resvala no Ceará-Mirim que surge das memórias de Nilo Pereira.
Levemos em consideração as imagens evocadas nas duas passagens de texto do autor, apresentadas anteriormente: a que compõe o artigo de 1939 e a que constitui as
91 Idem, p. 39.
92 FREYRE, Gilberto.Casa grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. 49
ed. São Paulo: Global, 2004, p. 37.
páginas do livro de memórias de 1969. Em 1939, Nilo está distante da infância no vale há aproximadamente duas décadas. A cidade que ele descreve é aquela que se construiu no tempo dos engenhos. Ele se recorda dessa cidade a partir das histórias contadas em família, dos serões nos quais se falava do fastígio de outros tempos, de barões, de senhores de engenho, de escravos de família, de festas suntuosas no Vale, de visitas ilustres como a do bispo pernambucano José Pereira de Barros.
Falava-se ainda das perdas sofridas pela família, a perda traumática do engenho Verde Nasce, a retirada humilhante para a casa simples da cidade – essa, a cidade da infância, nas primeiras duas décadas do século XX, que assistiu à chegada de D. Maria Amélia, viúva de Victor José de Castro Barroca, trazendo sua família e pertences para a Rua São José: “Nas conversas de família [...] quase não se falava em outro assunto senão no que estava perdido” 94. Essas são as razões por trás do discurso do filho que voltava depois de um longo período de abandono. Diferente da versão bíblica, na fábula de Nilo e do Ceará-Mirim, a cidade é que se tornou empobrecida. É esse empobrecimento que sua escrita busca encobrir, talvez um desejo de amenizar o sentimento de culpa por ter deixado para trás a cidade, os engenhos que se transformaram em ruínas.
O tempo narrado por Nilo é também o tempo em que chegavam “o cinema mudo onde as valsas nem sempre tinham o que ver com o filme; [...] os primeiros automóveis e caminhões” 95, a máquina de escrever e, antes de tudo isso, o milagre da luz elétrica. A cidade estava dividida entre as dádivas do progresso e a ruína dos engenhos, que pareciam andar lado a lado 96. Ceará-Mirim já figurava nos jornais locais como um “cemitério de tradições”. Nilo agora nos apresenta uma cidade “onde tudo fala”, fala da tradição, fala daquilo que jaz no cemitério, fala da morte que se estendeu sobre toda a cidade. Vemos outra vez a tensão entre a vida e a morte conduzindo a narrativa do intelectual.
Conseguimos ver também a Ceará-Mirim do século XIX, quando do Vale despontavam “nomes ilustres na política e na economia do Rio Grande do Norte”, nomes de cearamirinenses – terra que deu ao estado bacharéis em direito, médicos,
94 PEREIRA, Nilo. Imagens do Ceará-Mirim, p. 53. 95 Idem, p. 12-13.
presidentes de província, senhores de engenho, um barão do açúcar. Logo em seguida, vemos a cidade já decaída das riquezas dos tempos em que dezenas de engenhos esparziam sua fumaça pelo Vale, onde ressoavam ainda os nomes ilustres, mas que só podiam ser vistos no “cemitério, em cujas lápides se inscrevem”. A necrópole se estende por toda a cidade. Essa era a Ceará-Mirim de 1939. Nos dois momentos assinalados podemos ler nas entrelinhas do texto a transição do engenho para a usina, do fastígio para a ruína.
Em 1969, o Ceará-Mirim se reveste por completo da imagem de “cemitério de tradições”. O que se via pelas ruas da cidade já ia muito distante do mundo que ele, Nilo Pereira, insiste em retratar e que, quanto mais distante, mais força ganha na literatura produzida por ele, que já não era mais o menino do vale, por isso se voltava para os cenários da infância na tentativa de recuperar os “pedaços da alma perdidos na fuga” 97.