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1. Innledning

2.3 Oppsummering av teori

Trinta anos depois do primeiro reencontro de Nilo Pereira com o vale do Ceará-Mirim, vemos o texto escrito em 1939 republicado em um livro no qual o autor reúne as imagens da cidade onde viveu a sua infância, imagens da infância apreendidas naquele período de sua vida e reinventadas no decorrer da vida do adulto que volta sempre, carregando junto consigo as novas e velhas imagens – misturadas, como misturada e difusa é a temporalidade em que se constrói Imagens do Ceará-Mirim. Essas imagens difusas, de múltiplas faces, são resultado da busca pelo tempo que se foi, da viagem que o autor empreende na escrita e na memória para reencontrar a cidade da infância e o Nilo que lá habitava.

O homem que volta carrega também múltiplos Nilos, que se escondem sob esse que se diz menino ainda no Vale. Em uma das resenhas que Gilberto Freyre produziu sobre uma biografia do Barão do Rio Branco em 1946, criticando o tipo de biografia que ele chamou de triunfal, a que busca mostrar a vida do biografado como uma constante harmoniosa, retilínea, apresentando um homem sem fracassos e sem contradições, ele escreveu que “nenhum homem [...] é até ao fim da vida um só homem ou uma só pessoa, mas vários homens, várias pessoas. E pessoas desiguais,

      

108 ROCHE, Daniel. Humeurs vagabondes: de la circulation des hommes et de l’utilité des voyages, p. 12. “Ela torna

contraditórias, diversas, que nem sempre se completam” 109. Escrever sobre o outro é, muitas vezes, o momento de falar sobre nós mesmos, um disfarce que usamos para poder justificar nossos próprios pensamentos e valores. Nas linhas que escreve sobre a biografia de Rio Branco, encontramos Gilberto Freyre num de seus exercícios intelectuais preferidos: falar sobre si mesmo.

Ao afirmar que o homem é não apenas um, mas vários homens habitando em um mesmo corpo, ele afirma que a riqueza do ser humano vem exatamente do diálogo estabelecido entre essas várias facetas, ao longo da vida. Somos aquilo que as circunstâncias exigem e nos permitem ser. Assumimos vários papéis e, muitas vezes, papéis aparentemente contraditórios entre si. E Nilo Pereira, que em determinado período da vida foi amigo pessoal de Gilberto Freyre, além de companheiro de trabalho no Seminário de Tropicologia, no Instituto de Pesquisas Sociais Joaquim Nabuco (hoje Fundação Joaquim Nabuco) e no Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco, não foi diferente disso. Assim como se faz na biografia tradicional criticada por Freyre, em seus livros de memórias, em suas viagens de retorno, o intelectual cearamirinense buscava transformar a dispersão do homem e do mundo deixado por ele numa realidade harmoniosa, distante das tensões, das contradições da vida do adulto. Essa dispersão, ele busca corrigir através da escrita, reelaborando a realidade vivida e rememorada.

O curioso é que cada texto que compõe o livro que Nilo Pereira chamou de livro de memórias, de livro “do coração”, é um fragmento de imagem, um fragmento de viagem, das viagens que ele fez a Ceará-Mirim. Essas viagens fazem parte do itinerário que o memorialista repetia todos os anos na travessia do Capibaribe ao Ceará-Mirim, travessia que parece ter sido um dos sentidos de sua vida. A partir daí, das viagens físicas e emocionais pelo Vale, começa a tomar forma uma literatura toda perpassada pelo traço do memorialismo.

Dizemos então que Imagens do Ceará-Mirim é livro que foi escrito a cada viagem realizada ao vale do Ceará-Mirim, a cada volta. O texto Guaporé, de 1939, é a primeira imagem do livro a se formar. Esse processo vai sendo mantido nos anos posteriores. As viagens continuam sendo o momento de criação dos textos evocativos de Nilo Pereira. A cada reencontro com o Vale, surgia mais uma das pinturas que

      

109 FREYRE, Gilberto. Rio Branco: a estátua e o homem (1946) In: PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia.

comporiam o painel apresentado em Imagens do Ceará-Mirim, o que estamos chamando aqui de rituais de retorno.

A visão que Nilo constrói do vale é a do exilado, de quem vê as terras de sua origem à distância, acentuando os laços, o afeto com o lugar, dando a ele uma aura mágica que o leva de volta ao tempo de menino. Nesses rituais de retorno, fazia-se o caminho de volta, levando até Ceará-Mirim as verdades apreendidas no lugar distante, buscando harmonizar o Nilo que nasceu no Vale e aquele que voltava, a cada ano. Por isso rever os caminhos e paisagens da infância, buscando ter de volta o conforto e a paz de espírito da vida uterina, do lugar das origens, no caso de Nilo, o Vale, descrito por ele como berço da criação do indivíduo e da cidade. Para o exilado, há sempre a sensação de algo perdido, de uma ausência, como se o afastamento do lugar de origem provocasse “uma fratura incurável entre um ser humano e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser curada” 110.

Já na velhice, as viagens ao passado eram uma maneira de encontrar o bálsamo para uma alma que vivia atormentada pelos rumos que a humanidade tomava. O intelectual que se orgulhava de ser chamado de pensador católico, como foram Jackson de Figueiredo e Alceu de Amoroso Lima, seus ídolos de juventude, vivia o conflito de ser um homem cristão, católico, conservador, numa sociedade que se liberalizava, que via no divórcio, nos anticoncepcionais, nos motéis, nas drogas, instrumentos de liberdade. Essa, para Nilo Pereira, era mais uma faceta do progresso destruidor que embaçava o discernimento do homem, que substituía a fé no Deus cristão pela fé na máquina, na ciência, na liberdade excessiva. Na década de 1980, na coluna Notas

Avulsas, que o escritor manteve no Jornal do Commercio por quase trinta anos,

encontramos um depoimento muito representativo dos valores morais e religiosos defendidos por ele e que nos dá a justa medida da tensão vivida pelo intelectual espiritualista que via na passagem do tempo, no avançar da tecnologia, nas transformações de valores e costumes, a instituição de uma realidade em que a moral, o respeito e a fé se desintegravam.

Aos setenta e um anos, o sentimento de exílio, de deslocamento temporal e espacial que sempre marcou sua escrita se faz ainda mais presente. No entanto, esse deslocamento espacial e temporal ganha novos contornos. Foi reforçado pelos

      

sentimentos que o homem velho nutria em relação à sociedade em que vivia. Não era somente a saudade do mundo dos engenhos, a sensação de perda de um grupo que viu desaparecer os símbolos do seu status social e econômico que estava presente em sua escrita, naquele momento. Falava-se agora de um mundo desorientado espiritualmente, de uma liberdade que desvirtuava, das mudanças que faziam toda uma geração que nasceu e cresceu sob os ensinamentos cristãos perder completamente suas referências. O Nilo que se apresenta então parece já cansado, um estranho em seu próprio tempo: “Costumo dizer que pertenço a uma geração feliz. A uma geração que amou os pais. Que estudou as suas humanidades. Que aprendeu um pouco de latim. Que soube obedecer. Que teve o temor de Deus” 111. Nessa sociedade, a fé cristã, a religiosidade, o temor a Deus que sempre direcionou a vida de Nilo Pereira, e de muitos homens de sua geração, já não era uma premissa, um elemento indispensável. Isso, para o intelectual cearamirinense, soava como o ultraje da humanidade.

Reclamar a paz espiritual de outros tempos não significava, segundo ele, recusar-se a vivenciar a passagem do tempo, as mudanças trazidas por ela, pois “O mundo – é claro – tinha que mudar. Nada fica estagnado”. No entanto, “uma coisa é mudar e outra é negar à condição humana a beleza da vida, o sentido do ser, colocado diante dos desafios do mundo moderno” 112. Nilo expressava em seu artigo de 25 de agosto de 1980 sua total descrença nos rumos tomados por aquela sociedade. O homem que se rendia aos excessos da liberdade do mundo moderno, colocado em sua escrita como um mundo desvirtuado pela falta de direcionamento cristão, perdia a beleza da condição humana, mergulhado nos vícios que a falta de regras incitava. Ele associa a condição humana, a beleza do ser, aos princípios da moral cristã. Um mundo que não se orientava mais pela religiosidade, pelo espiritualismo representado pela fé católica, cristã, originava uma sociedade permissiva e libertina, livre da consciência proibitiva do pecado, freqüentadora de “bares, inferninhos, motéis [...] cheios de homens e mulheres que se consideram livres, isto é, libertos de preconceitos e tabus” 113.

O pecado, para Nilo, ganhou uma dimensão social. Não era mais o indivíduo que estava à mercê das fraquezas que o levariam a tal falta, mas toda uma sociedade que se guiava pelo pecado, como esses homens e mulheres que freqüentavam esses antros,

      

111 PEREIRA, Nilo. Avulsas. Jornal do Commercio, 25 ago. 1980. 112 Idem.

como ele os chamou, nos quais “há uma liberdade exaurida e uma vida manchada pela negação da ordem moral” 114. O artigo mordaz que Nilo escreve sobre a nova moral que vinha se estabelecendo chama a atenção a todo o momento para os malefícios dessa falsa liberdade que é a falta de limites e regras morais, elementos facilmente abstraídos da doutrina cristã. Ele falava de uma sociedade pecadora: “Infelizmente já não há mais pecado. O homem não peca mais. Quem peca é a sociedade. O tal ‘pecado social’ permite que se alastre a permissividade, porque quem vai ser julgado é a sociedade” 115. Para fechar a coluna Avulsas do dia 25 de agosto de 1980, demonstrando toda a sua descrença nessa sociedade sem Deus, ele nos diz que quem partilha desses valores permissivos dessa sociedade moderna “não acredita em Deus. Nunca viu um catecismo”

116.

Atormentado, essa é a palavra adequada para definir a condição espiritual e social de Nilo Pereira no momento em que escreveu esse artigo. Desde muito cedo, ainda na adolescência, iniciou a sua cruzada cristã. Ao iniciar-se no jornalismo na década de 1920, muito provavelmente com algum auxílio das suas relações com a Igreja Católica e a Mocidade Cristã, escreveu seus primeiros artigos e editoriais para o jornal católico daquela época, o Diário de Natal. Os intelectuais católicos de Natal se uniam na missão de dar uma orientação cristã aos seus leitores, por meio da imprensa. A imprensa que servia de veículo para a disseminação do ideário cristão era chamada por aqueles que a faziam de a boa imprensa, expressão muito adequada para demonstrar o que esses homens ansiavam dessa instituição e também para qualificar as suas próprias atividades de doutrinamento pelos jornais. Como vimos no artigo apresentado anteriormente, a catequese que Nilo empreendia por meio de sua escrita, com o passar dos anos, vai sendo reforçada (na velhice, já fazia parte de um esforço individual, diferente dos artigos doutrinadores que escreveu no período em que esteve inserido na política do Estado Novo em Pernambuco 117). Talvez porque já não houvesse muitos dispostos a ouvir os seus preceitos da moral cristã. Nesse sentido, enquanto se perde a aquiescência em relação aos valores conservadores e cristãos, os brados de Nilo Pereira em relação a esse desvirtuamento parecem ganhar maior expansão em sua escrita, que parece ser o seu refúgio de um mundo pernicioso e desvirtuado. Voltar ao passado,

       114 Idem.

115 Idem. 116 Idem.

escrever sobre ele, era um meio de viajar para fora daquela realidade que mais e mais lhe desagradava. A escrita foi sempre o seu refúgio.

As viagens sistemáticas ao Ceará-Mirim funcionariam então como uma maneira de realizar a grande viagem em busca do mundo interior. Voltar ao Ceará- Mirim, seja pela escrita, seja num automóvel que o levasse até o vale da infância, significava rememorar, reviver o tempo de sua geração católica. Empreender essa viagem também representava o cumprimento do périplo intelectual, como se acreditava no início do século XX: era preciso conhecer outros mundos além do seu para que este pudesse ser compreendido em sua essência. E o outro, este espiritual que Nilo realizava ao voltar ao Ceará-Mirim, buscando também os cenários onde tantas vezes entoou as rezas do novenário de Maria.