Entre uniões e separações, aglutinações e distanciamentos, incorporações e perdas, fazer sobreviver uma coletividade era a questão da qual se originaram todas as demais no processo de organização da proposta do Circuito BodeArte. Uma pergunta que o próprio
Coletivo ES3 fizera a si no momento de sua criação, e que de algum modo fazia-se presente no avanço da ação que gerou o evento.
Fazer sobreviver, viver além da expectativa e precariedades, uma coletividade não foi tomado pela produção do evento como um exercício de controle, uma tarefa a ser comandada, regida e vigiada para que pudesse existir e permanecer existindo. Ao propor aproximações e encontros entre diferentes fazeres e percepções o BodeArte não podia mensurar até onde caminhariam os desenvolvimentos de tal ação, isto é, embora tomasse o encontro como situ- ação gerativa e criativa, adotar essa estratégia era abrir mão do controle sobre a sobrevivência dessa coletividade, era distribuir entre cada uma de suas partes o ser/estar dessa ampla potência de existência grupal (PELBART, 2008).
Mesmo propondo espaços de aproximação e convivência entre os performers, através dos fóruns, palestras, oficina, e redes on-line não havia qualquer garantia de que essas ações poderiam ser apenas paliativas de sujeitos interessados em colocar seu trabalho em exposição e evidência naquele espaço. A existência do Circuito não foi uma possibilidade segura de existência, era, antes de tudo, uma existência condicional e em risco de perder-se pela complexidade de fatores dos quais dependia.
Como vários sujeitos, com seus próprios modos de fazer, viver, produzir, criar, ver, ser, refletir, podem tomar conta de tecer uma mesma rede, de compor um mesmo circuito, cada um ao seu modo e esse objeto ainda manter-se sobre as mãos e corpos de diferentes alterações e modificações? Como pode esse Circuito BodeArte sofrer tantas interferências de tantas ordens e desordens praticadas por cada um dos sujeitos que tentam com ele cooperar, e ainda ser tomado como a mesma situ-ação entre todos eles?
A produção do evento percebeu que inferir atitudes de comando e de regimentação nessa potência de vida que buscava provocar seria uma centralização de uma estrutura que colapsaria, devido a suas dimensões e desproporções entre partes, diante da própria mão que tentasse orientá-la como um todo. Era necessário perder sua perspectiva de todo, perceber que as diferenciações tinham sua própria política para criar no intervalo do entre, antes da forma do todo, na “performa” das forças e experiências em interação.
Foi necessário ao ES3 aprender a se comover, cada um ao seu modo e com suas distinções, com esse movimento sobre o qual não podia ter controle e ver realizar-se ao mesmo tempo o evento, sem as perdas inerentes a cada escolha contida nessas ações. Comover-se como atitude de produção, “mover-se com”, pensar-se como performer cooperando com uma performance mais ampla e mover-se com ela, perceber o que ela poderia precisar, onde ela poderia caminhar, como ela poderia versar suas passagens.
Com sua produção co-movida entre tantos performers mais que compõem o Circuito BodeArte, o Coletivo ES3 percebeu o evento também como forma transitória de vida, essa união passageira que, pela insistência em não construir conjuntamente um todo igual, propõe a arquitetura de elementos transitórios, como as dunas móveis que cercam a cidade do Natal, que nunca é toda, é sempre um movimento de deslocar-se de si para outros territórios, gerando outras dunas, entrando nas casas e se depositando como poeira, caindo nos rios, entrando nos olhos, manchado as roupas, adentrando as frestas do asfalto e dos paralelepípedos. Arquitetura de duna móvel, arquitetura de um mover-se de si, foi a estrutura de evento que propôs o Circuito BodeArte.
Como colocamos anteriormente, o desejo da produção do evento era o de fazer encontrarem-se diferentes perspectivas de performance, e que as trocas desse encontro fossem o motor do que é o Circuito, não há BodeArte sem os movimentos que traçam passagem de um performer ao outro. Esses movimentos que se tornam o agente condicional de existência(s) do evento são o que chamamos neste subtítulo de porítica.
Em diversos momentos no transcurso desse capítulo temos falado sobre criação de políticas, ações políticas, reiteradamente trazendo à tona esse termo que acaba por se vincular de maneira muito forte às discussões de formulação de conceitos e ações que formariam as edições regionais do BodeArte. A política para a produção do Circuito BodeArte era esse espaço de conexão coletiva, dos comportamentos e ações que interagem na vida e produzem seus modos de existir e possibilidades de escolha e leitura do mundo.
Criamos o termo porítica conduzindo uma variação do termo “política”. É um jogo morfológico e semântico com aquilo que compreendeu o ES3 como política ao planejar o Circuito BodeArte, e que refere-se a uma política feita através dos poros, isto é, entre corpos, nas mínimas ações do corpo em contato com o outro.
A porítica é uma política de potências de vida que se encontram e se contaminam, corpos em processo, sujeitos cuja forma de estar é vulnerável e de agir é lançar-se de encontro ao outro. Pensar na possibilidade de uma porítica é admitir uma forma de pensamento/ação que não é daquele performer, ou daquele outro, mas do entre, do encontro deles.
Essa porítica parece para nós aquela a que se pretendeu o Circuito Regional de Performance BodeArte como ação em performance pelo país, como espaço de encontro entre performers. Uma porítica que é esforço de uma ação do evento e da produção como performance, pois como coloca Maria Beatriz de Medeiros (2008): “A performance se quer troca no espaço gasoso do entre dois. Não se trata de impor uma faceta de realidade nem uma possibilidade como verdade. Trata-se de compor em um entrelaçar”.
Estar entre corpos é uma ação do corpo no mundo, seja nas pontes cognitivas do aprendizado, seja nas sequências genéticas dos reflexos motores ou dos instintos (DAMÁSIO, 1996), seja com o mundo e seus objetos, o corpo não está sozinho, está presente num contínuo movimento de encontro com o mundo, performando processos e criando políticas de vida e sobrevivência neste.
É essa política que chamamos porítica, porosa em seus corpos: corpos em processo, corpos em troca. Poros que ativam, contaminam, expandem, e jogam com as metáforas do corpo para estabelecer outros espaços e tempos para a performance arte no Brasil. Poros que na sua origem grega significam passagem, caminho, brecha, e que estão na superfície desse toque do encontro com o outro, na iminência de uma abertura e diluição entre o que está dentro e fora do corpo, fisicamente e conceitualmente.
2.6 – Algumas considerações.
Assim, encerramos esse capítulo pensado como tática de narração (PAIM, 2012) de alguns dos fatos, fatores, conceitos e discussões movidos para articular a experiência do Circuito BodeArte ocorrida nos anos de 2011 e 2013.
Esse momento da dissertação deu sequência à construção do primeiro capítulo, no qual nos preocupamos em pensar de que maneira se construiu a história do Circuito BodeArte, na reconstituição do processo que lhe deu origem e através de seus dados, e das múltiplas possibilidades de leitura e questionamento que estes nos fornecem.
No entorno das linhas desse capítulo fica a tentativa de explicitar ao leitor o formato e a complexidade constituída em nosso objeto de pesquisa.
Os princípios envolvidos na criação do BodeArte nos mostram um forte eixo de discussão centrado não apenas no fazer este evento voltado a performance arte acontecer, como produto, mas em articular as instâncias de seu processo de tal modo que o fazer do Circuito, as trocas de informação, o modo como percebe o encontro entre as subjetividades de cada performer, a coletividade, se tornam uma performance.
O Circuito BodeArte é a performance de riscos de corpos em constante diferenciação que ao mesmo tempo em que afirmam a si mesmo e suas práticas, procuram um encontro, mesmo à distância, com o outro corpo, com outros modos de criar e sobreviver na performance arte em distintos contextos.
Nesse sentido, o Circuito BodeArte deixa de ser necessariamente somente um evento de performance, e passa a tornar-se aquilo que chamaremos de metáfora do pensamento em performance, um modo de se pensar e criar coletividades em performance, um modo de circuitar informação e encontrar potências para além da precariedade, uma passagem, uma brecha, um poro, por onde podemos sentir o calor de uma presença distinta da performance em espaços de resistência, sobrevivência e ausência.
Na sequência desse segundo momento intentamos a abertura ao leitor dessa questão referente as metáforas do pensamento em performance, nos locomovendo por diversas delas que se conectam ao Circuito BodeArte, e nos aproximando por essa via daquilo que consideramos a carne da ideia de uma performance-como-BodeArte.
CAPÍTULO 3 - EM SITU-AÇÃO: SOBRE METÁFORAS DO PENSAMENTO EM