Como foi apontado anteriormente o Circuito BodeArte foi um evento que em suas edições realizadas manteve-se de forma independente de financiamentos públicos e de empresas privadas, existindo apenas através de um modelo de parcerias e do investimento financeiro pessoal de seus produtores e participantes, estes últimos no que concerne a cobertura de seus gastos pessoais para envio de materiais e estadia na cidade.
Começamos esse subtópico denotando que o Circuito BodeArte foi realizado sob esta premissa de organização financeira não por opção, mas pela não disponibilidade de formas de financiamento voltadas diretamente a performance arte dentro do cenários das políticas culturais públicas nas esferas municipal, na cidade do Natal, e estadual, no estado do Rio Grande do Norte. A única relação nutrida no pleito desses financiamentos e possibilidade de realização de um evento que pudesse pagar pelo trabalhos dos profissionais envolvidos, foi a já descrita aprovação de uma terceira edição do Circuito BodeArte em lei de incentivo à cultura do Rio Grande do Norte, cujo resultado já foi apontado no Capítulo 1.
Dentro desse espectro de configuração o BodeArte encontrou no sistema de parcerias uma perspectiva de redução de seus custos que, como evento equivalente à um festival nacional, eram amplos. O Circuito BodeArte garantiu através do escambo sua sonorização, divulgação, hospedagem, e até mesmo custos de passagem aérea, trabalhando com a moeda de troca da projeção das marcas de empresas e entidades públicas federais apoiadoras do evento.
Contudo, como citado, havia a necessidade de um investimento pessoal por parte dos artistas para participar presencialmente do evento. Esse custo que não podia ser coberto, mas apenas amenizado, pelo sistema de parcerias se configurava como outra questão a se enfrentar nas reuniões que definiram o formato do CRPB.
Como se poderia requisitar a um artista de outro estado, e/ou de outra região, que participasse de um fórum que antecedia o evento, além de comparecer ao próprio evento, sem oferecer-lhe qualquer forma de compensação financeira em forma de pró-labore, ou cachê?
Foi nesse espaço de fogo cruzado que surgiu a sugestão, durante as discussões que conduziriam a primeira edição do BodeArte, de utilização das redes disponíveis por meios on- line para tentar suprir essa conectividade que era exigida, mas não era financiada. As redes sociais on-line, e e-mails, que permitiam comunicação e troca com os inscritos no evento eram utilizados pela sua “gratuidade”31 e localidade.
Com relação à “gratuidade” pressupunha-se que todos os inscritos teriam acesso, mesmo que de forma diferenciada, à internet, considerando que o único meio de divulgação do evento e inscrição neste era on-line. A localidade se liga aos espaços virtuais de comunidades on-line, interfaces e redes sociais que permitiam a comunicação à longa
31A “gratuidade” entre aspas, pois obviamente o acesso à internet exige a posse, ou locação momentânea, de estrutura móvel ou fixa para acesso.
distância sem eventuais cobranças de custos ao usuário por seus usos, permitindo que estivéssemos, mesmo que através de mediações, no mesmo local ao mesmo tempo.
No intuito de ativar essa tática de ultrapassagem de uma problemática financeira foram utilizadas interfaces de programas como o Skype (live streaming), Twitcam (live streaming), e sites de redes sociais como o Facebook, o microblog Twitter.
Tenha sido através da transmissão ao vivo de discussões nos fóruns, em conversas com outros coletivos e performers inscritos, no envio em tempo real de comentários e questionamentos em discussões presenciais, na comunicação com a produção e outros performers, no compartilhamento de imagens, na transferência de vídeos, na transmissão de performances em live streaming, essas tecnologias e interfaces de conexão on-line funcionaram como uma porta para o compartilhamento de informação para além do plano da falta de investimentos.
Nesse movimento de sobrevivência expresso desde o seu nome, o BodeArte era visto desde o início como um espaço de hackeamento de usos, hábitos e comportamentos que teriam que ser retrabalhados por uma ótica de produção da precariedade de recursos, a ótica de uma engenharia reversa dos objetivos que queriam ser atingidos e como isso poderia ser feito com os materiais disponíveis.
Embora obviamente essa forma de contato não possua os mesmos atributos e possibilidade de um contato presencial, possibilitou o compartilhamento de informações e situações com menor implicação de custos para ambas as partes, produção e performers. Essa tática de engenharia reversa, do resultado almejado para os modos de alcançá-lo utilizando outras formas de consegui-lo, foi outra ponte do pensamento e elaboração construído pelo BodeArte na etapa de sua elaboração.
O princípio prevalece: aproximar-se e fazer encontrar e conviver, mesmo que através de distintos modos, e através de diversas maneiras de mediação, os fazeres e processos de criação de performance nessa coletividade. Compartilhar à distância se torna uma ação política de percepção dos cenários de possibilidades de criação e pesquisa no espaço da precariedade de financiamentos para performance brasileira.
Traçando essa passagem o Coletivo obteve para o evento uma conectividade ágil e que, ao mesmo tempo, agregava a troca entre práticas artísticas, assim como de conteúdos e dados, que permitiram a criação de uma inteligência de produção sobre os contextos muito distantes, ou mesmo os mais próximos, mas dos quais o ES3 não possuía campo de visão teórica ou prática a respeito.
Dessa feita, a possibilidade de convivência a distância pelas redes on-line abriu a possibilidade também para a criação de uma “cartografia política” dos cenários de produção no campo da performance arte nos pontos do Brasil onde haviam interlocutores no circuito. Reiteramos a premissa que discutimos no capítulo anterior, de que os trabalhos de performance na contemporaneidade brasileira representam também atos de narração e colocação política sobre os próprios contextos de produção de performance e suas características, não se tornando representantes de uma ampla coletividade, mas permitindo visibilidade para as singularidades dos modos de fazer no contexto do qual deriva.
Com sua proposição para contornar situações nas quais não dispunha de investimento monetário para colocar em prática, o ES3 e os participantes do Circuito BodeArte criaram com esse jogo de trocas por meios on-line e esse insistência na convivência uma profícua política de cognição dos contextos de performance no Brasil, que distante do formato enciclopédico do catálogo, ou do portfólio, permite trocas mais aceleradas e dinâmicas que acabam por circuitar modos de outra forma isolados de criação no campo da performance.
Na terceira edição do Circuito BodeArte o compartilhamento através dessas tecnologias se tornou uma questão fulcral para a existência do evento, sendo este completamente realizado a distância, in absentia, sem que nenhum dos participantes envolvidos estivesse na mesma localidade geográfica para discussão. Com um processo de inscrição semelhante as demais edições, foi a partir do fórum de performance promovido pelo Circuito BodeArte que a terceira edição começou a estabelecer um destaque para esta outra forma de diálogo.
Também existente na segunda edição do evento, o fórum de performance on-line era um meio de conhecer e acessar o trabalho do outro, que era complementado pelo fórum de performance presencial, onde os participantes que advinham de outros estados poderiam depurar mais profundamente algumas das questões que surgiram no fórum on-line.
Figura 5 - Imagem do II Fórum de Performance On-line BodeArte realizado entre abril e maio de 201232.
FONTE: Fórum de Performance On-line do II Circuito Regional de Performance BodeArte -
https://www.facebook.com/groups/315203508545419/.
32 Discussões disponíveis no endereço: https://www.facebook.com/groups/315203508545419/. Acessado em 12 de dezembro de 2013.
Figura 6 - Imagem do II Fórum de Performance On-line BodeArte realizado entre abril e maio de 201233.
FONTE: Fórum de Performance On-line do II Circuito Regional de Performance BodeArte -
https://www.facebook.com/groups/315203508545419/.
Na terceira edição, tornando-se a única forma de contato entre os performers participantes esse formato ganhou grande expressividade, reunindo discussões extensas sobre determinados trabalhos e vídeos de depoimento performático dos performers. Esse espaço de trocas propicia, assim como o encontro corpo-a-corpo, a possibilidade de conversar e conhecer abertamente os demais participantes do Circuito, assim como a possibilidade da continuidade de conversas em grupos específicos (através da conversa in box).
33 Discussões disponíveis no endereço: https://www.facebook.com/groups/315203508545419/. Acessado em 12 de dezembro de 2013.
Figura 7 – Discussão de depoimento no Fórum de Performance On-line BodeArte, realizado entre novembro e dezembro de 201334.
FONTE: Fórum de Performance On-line do II Circuito Regional de Performance BodeArte -
https://www.facebook.com/groups/356718291131342/.
34 Discussões disponíveis no endereço: https://www.facebook.com/groups/356718291131342/. Acessado em 15 de dezembro de 2013.
Figura 8 - Discussão de depoimento no Fórum de Performance On-line BodeArte, realizado entre novembro e dezembro de 2013.
FONTE: Fórum de Performance On-line do II Circuito Regional de Performance BodeArte -
O princípio de mantém, compartilhar perspectivas, textos, vídeos, imagens, mesmo à distância conseguir estabelecer contato com outras formas de pensamento e acionamento em performance, numa engenharia reversa do encontro presencial, que embora impossível de recriar pela mediação do computador e das próprias demandas e limites da rede social, pode ter instâncias, da maneira como estabelece trocas, postas para funcionar através de outras passagens, nesse caso possibilitadas pelo acesso a internet.
Embora não possa recriar o encontro presencial, a mediação on-line desse encontro possui outras potencialidades de diálogo, ampliando a discussão para um espaço de multiplex code (COHEN, 2002), onde se reúnem e se resignificam múltiplas mídias para comentar/discutir uma questão. Vídeos, imagens, links que saltam para outras páginas, conversas abertas, conversas in box, todos se somando num espectro de informação que se reúne, se soma e se modifica simultaneamente, criando uma relação hipertextual ampliada que não cessa de mover-se de si mesma. Vejamos, por exemplo, a continuidade da conversa apresentada acima nas imagens do fórum de performance da terceira edição do Circuito BodeArte.
Figura 9 - Discussão de depoimento com imagens em comentários no Fórum de Performance On-line BodeArte, realizado entre novembro e dezembro de 2013.
FONTE: Fórum de Performance On-line do II Circuito Regional de Performance BodeArte -
https://www.facebook.com/groups/356718291131342/.
Os links comentados na imagem por sua vez derivam na direção das seguintes páginas, contendo poemas e fotografias:
Figura 10 – Imagens de páginas on-line cujos links foram compartilhados como respostas na discussão de postagens no Fórum de Performance On-line BodeArte, realizado entre novembro e dezembro de 2013.
FONTE: Fórum de Performance On-line do II Circuito Regional de Performance BodeArte -
Transformando-se ainda em outras mídias as falas de alguns participantes do fórum de performance do Circuito BodeArte em 2013 se tronaram também material compositor da exposição “Corpos Ausentes”, onde se juntaram às cem fotografias de todos os performers adesivadas em paredes, extintores, janelas e fachadas da Pinacoteca do Estado do Rio Grande do Norte, gerando ainda uma outra forma de comunicar-se fora da relação entre performers que baseia o fórum, e passando a um contato com o público visitante da própria exposição. Figura 11 – Os chamados “Verbetes de Performance” adesivados em diversos espaços nas salas de exposição da
terceira edição do Circuito BodeArte, que derivam em sua maioria de textos criados em comentários durante discussões de postagens no Fórum de Performance On-line BodeArte35.
Fonte: Página da exposição “Corpos Ausentes” referente ao III Circuito Regional de Performance BodeArte -
http://www.flickr.com/photos/circuitobodearte/sets/72157638384617855/
Não apenas através das redes sociais essa dinâmica de compartilhamento à distância se caracteriza, na mesma edição de 2013 do Circuito BodeArte, o Coletivo ES3 lançou uma convocatória aberta, e de participação não obrigatória, direcionada aos participantes já inscritos no evento, para que juntos eles pudessem criar o texto de apresentação da exposição.
35 O material completo, junto a essas imagens, está disponível em:
http://www.flickr.com/photos/circuitobodearte/sets/72157638384617855/. Acessado em 18 de dezembro de 2013.
Através desse mailing list fragmentos de texto versando sobre essa ideia de ausência posta em discussão pelo Circuito foram chegando na caixa de e-mails do evento e organizados pelos integrantes do ES3 para formarem o texto que seria a fala dos performers ao público a respeito da exposição “Corpos Ausentes”.
O texto é assinado pelos performers Adriana Ayub (PE), André Bezerra (RN), Andreia Aparecida (SP), Carolina Moya (SP), Chrystine Silva (RN), Coletivo PataPalo (SP), Gilmara Oliveira (MG), Lilian Soarez (SP), Lucio Agra (SP), Marcelle Louzada (CE), Nina Caetano (MG), Raisa Inocêncio (RJ;CE), Yuri Tripodi (BA). Apresentamos abaixo em imagens apenas o início desse texto, tendo em vista a sua grande extensão36.
Figura 12 – Texto de apresentação da exposição “Corpos Ausentes” que marcou a terceira edição do Circuito BodeArte, acessado pelo público nas salas da Pinacoteca do Estado do Rio Grande Norte.
FONTE: Programa On-line da exposição “Corpos Ausentes” referente ao III Circuito Regional de Performance BodeArte - http://issuu.com/circuitobodearte/docs/apresenta____o_-_iii_circuito_bodea.
Todo o material referenciado nas imagens mostram como esse princípio de compartilhamento de informação e transformação das dinâmicas de comunicação através das redes sociais e outros formatos de encontro on-line permitiram ao Circuito BodeArte,
sobretudo em sua terceira edição, tornar-se um amplo campo de troca e aprendizado sobre os complexos e intrincados contextos de criação em performance arte no Brasil.
Claramente sem a percepção de uma ação e movimento que interliga uma coletividade o compartilhamento se torna apenas espaço de acesso de dados, é preciso pensar que as subjetividades envolvidas nesse processo em seu contato não estão apenas compartilhando conteúdo informacional, mas partilhando uma experiência de criação e aprendizado coletivos.