4.2 Thresholding Procedure
4.3.4 Deterministic chirp in additive Gaussian white noise
A constituição do Instituto de Educação e Reabilitação de Cegos do RN (IERC) como lugar de pesquisa remonta ao período do Estágio de Conclusão do Curso de Graduação em Artes Plásticas, no ano de 2006, quando demos continuidade à prática da dança por mais seis meses.
O IERC foi criado em 1952, por iniciativa do Dr. Ricardo César Paes Barreto, que se sensibilizou com a situação de abandono das pessoas com deficiência visual que procuravam o Posto de Saúde no qual ele trabalhava. Seu objetivo era promover alguma ocupação aos que o procuravam, com oficinas de artesanato e música.
No decorrer desses sessenta anos, o IERC tem procurado trabalhar para uma nova inserção social da pessoa com deficiência visual, oferecendo diversas atividades pedagógicas, tais como: leitura e escrita em braile, sorobã, reorientação e mobilidade, estimulação precoce, atividades da vida diária, aulas de artesanato, natação, música, teatro e informática. Além disso, atende as crianças com o ensino regular até o 5º ano.
O atual momento do IERC configura-se como uma mudança mais efetiva no conceito de educação especial para educação inclusiva. Essa passagem acontece à medida que as portas se abrem para novas interações sociais, tanto preparando os alunos e usuários do Instituto para se inserirem com autonomia na sociedade, como também para fomentar atividades que convidem a sociedade para dentro da instituição. Nesse paradigma, o IERC tem ampliado suas ações ao se tornar um ponto de fomento à cultura como Ponto de Cultura Evidência Cultural.
A escolha do IERC como lugar de pesquisa foi elucidada por se tratar de um lugar ao qual recorrem as pessoas com deficiência visual por motivos diversos: educação, socialização, cultura, trabalho; portanto é um lugar de referência. E, sendo frequentado por pessoas que vivem experiências semelhantes, tanto de exclusão como de modos de apreensão do mundo, poderíamos experimentar a prática da dança circular e objetivar os seus efeitos
na ampliação dos movimentos com características específicas ao contexto em que estão inseridas.
Selecionamos oito dançarinos que estiveram presentes em mais da metade dos encontros e que estiveram também presentes nos encontros preparatórios, quando elucidamos as razões desta pesquisa. Contudo, mantivemos o atelier aberto durante todos os encontros, permitindo a participação de todos que sentissem o desejo de dançar, ainda que a decisão de entrar na roda surgisse após ter iniciado as atividades do atelier, não seria impedimento para o ingresso de novos participantes. De outro modo, estaríamos novamente cerceando a dança e a experiência da dança circular, fugindo às concepções que permeiam este trabalho. Ademais, a participação de dançarinos passantes permitiria muitos aprendizados pelas mudanças que estes causavam à roda.
O número de dançarinos do atelier chegou a 17. Com a frequência média de 7 dançarinos, os quais participaram de 10 encontros (2 horas cada encontro), compartilhando 8 danças, as quais serão detalhadas no próximo capítulo, no contexto da descrição do atelier.
Adiante apresentaremos os dançarinos participantes: Mada, Sane, Bela, Poa, Fedo, Nato, Ada e Edi. Vale acrescentar que as análises e conclusões deste trabalho foram conhecidas e aprovadas pelo o grupo, e só então, solicitamos a assinatura da autorização de divulgação das falas e imagens. Neste momento, tivemos a autorização para explicitar os nomes. Contudo, daremos nomes fictícios aos dançarinos participantes. Edi, 34 anos, está no IERC há sete. Interrompeu seus estudos na quarta série do Ensino Fundamental quando foi diagnosticada retinose pigmentar, que afetou sua capacidade de ver quase que totalmente. Ela narra uma infância tranquila e afirma que só depois do diagnóstico é que sua visão se torna um problema. As atividades da escola, até então, eram desenvolvidas com esforço, mas era possível realizá-las.
A decisão de ir para uma Escola Especial, dedicada ao ensino exclusivo de pessoas com deficiência visual, veio com o diagnóstico. Edi conta que precisou “repetir tudo de novo ao ingressar no IERC”. Embora lacônica em suas palavras, não deixa de se pronunciar quando solicitada, mesmo com
silêncios. Começou a frenquentar IERC entre os 12 e 13 anos de idade, considerando muito difícil a adaptação, pois estranhava a forma “como os meninos andavam segurando nas paredes”, disse Edi. Aos 17 anos foi trabalhar num laboratório de medicamentos e, por essa razão se afastou do Instituto, voltando dez anos depois. Conta que vai a festas e à praia na companhia de suas irmãs e que não tem problema em sair sozinha.
Ada tem 31 anos e faz parte da seleção do Rio Grande do Norte de Golbol, um esporte que, como no futebol, consiste em marcar gols no campo da equipe adversária. Na Associação dos Deficientes Visuais do Rio Grande do Norte - ADEVIRN, também faz judô e capoeira. Já no IERC, ela tem aulas de música e informática. A manifestação da esclerose múltipla afetou a visão completa do seu olho esquerdo e gerou um comprometimento no seu olho direito.
Em 2008, esteve no IERC por um curto período de tempo, retornando em 2010. Obteve a aposentadoria de enfermeira antecipada e lamenta correr o risco de perder este seu direito, caso apareça um trabalho, uma vez que o benefício é modesto e exige complementação. Manifesta o desejo de continuar trabalhando na área da saúde, talvez como psicóloga.
Ada lamenta seus esforços para aprender o novo modo de se locomover e desenvolver as atividades com autonomia e, estranhamente, ser mal interpretada por isso. Sua infância foi de brincadeiras. Já a adolescência foi muito restrita à doutrina da igreja, quando as roupas que usava marcaram a repressão que sofria. “Hoje não quero nem ver um vestido. Dei todos e agora só uso calças”, diz Ada.
Dos 20 anos de Nato, contam-se doze no IERC, onde atualmente faz aula de mobilidade. Não frequenta outro lugar e depende da mãe para chegar à instituição. Ela gosta de acompanhá-lo, disse ele. Não pensa em trabalhar, “não tem trabalho pra gente como eu”, disse Nato. Deseja casar e ter filhos. Perdeu a visão em virtude do glaucoma congênito. Fala do glaucoma como algo inevitável, dizendo ter feito “três cirurgias e duas operações”.
Fedo tem 25 anos. Relatou que “perdeu” a visão ao nascer. “Minha córnea se partiu em cinco pedaços e ficou tudo preto”. Ingressou no IERC com 21 anos. Até então não fazia nenhuma tarefa em casa, onde a mãe cuidava de
tudo e por isso não foi fácil aprender a ter autonomia nas atividades simples da casa. Contudo, isso não anulou a sua satisfação de aprender. Seu pai e seus dois irmãos são lembrados como pessoas que o estimularam a se expressar com gestos, o que lhe dá uma facilidade de comunicação. No IERC, sua primeira escola, tem aula de braile, informática e já praticou golbol.
Poa tem 25 anos e está no IERC há 15. Ficou cega aos 9 anos em virtude de um craniofaringioma, que precisa ser acompanhado continuamente. Narra a infância com entusiasmo e lembra-se de suas brincadeiras de menina. A doença afetou abruptamente seus olhos, obrigando-a a aprendizagens totalmente novas de um momento para o outro. Expressa muita gratidão aos pais, dizendo que tem ao seu lado dois anjos.
Junto às atividades desenvolvidas no IERC, também frequentou a escola pública, deixando os estudos por não compreender os enunciados das tarefas solicitadas pela professora. Participa de todas as atividades que são oferecidas no Instituto, inclusive, foi aluna das aulas de dança circular, desenvolvidas em 2006. Atualmente, é integrante do grupo de teatro. Poa sempre coloca em prática os conhecimentos dos cursos que faz. Com os conhecimentos da aula de vídeo, ministrada por Renato Maia, fruto de sua pesquisa de mestrado pela UFRN, Poa, junto a outros colegas, assumiu o registro fílmico do atelier desta pesquisa. Fazer o que gosta são seus planos para um futuro que acontece no dia a dia. Enfatiza que não deseja fazer outras atividades fora do Instituto porque “aqui no Instituto eu posso ser como sou”, disse Poa.
Bela tem 26 anos e é mãe de dois filhos. No IERC participa das aulas de braile, informática e artes. Não guarda boas recordações da infância. A sua passagem pela escola foi marcada por atitudes depreciativas dos colegas diante da sua dificuldade de ler. Glaucoma e miopia foram o diagnóstico dado ao seu comprometimento nos olhos.
Bela relata a dificuldade de conseguir trabalho, do descrédito dado ao desempenho das tarefas que faz e da falta de solidariedade “diante de uma dificuldade que qualquer pessoa está sujeita”, disse. Sua fala é marcada por experiências da descriminação que sofre: “o que eu acho pior é todo mundo
ficar me lembrando que eu sou cega. Eu sei que sou cega. Eu só preciso ter oportunidade de fazer o que eu sei fazer”.
Bela levanta muitas indagações sobre o comportamento das pessoas que se recusam a ajudá-la com uma informação. “Acho que pensam que sou um marginal. Não sei? Será que é porque eu fico coçando o olho e ele é um pouco estrábico? Será?”. Afirmou que nunca teve experiência de dança e o lugar que frequenta fora do IERC é a igreja da qual faz parte. Atualmente está trabalhando como recepcionista na Associação de Deficientes Visuais do Rio Grande do Norte - ADVIRN.
Sane tem 39 anos. Está há cinco anos no IERC. Em consequência do diabetes, ela desenvolveu retinose, que levou à perda total da visão. Seu rim também ficou comprometido e ela necessita fazer hemodiálise periodicamente. Refere-se a esses dias como algo “[...] muito pior que ser cega”.
Eu sou cega, mas eu faço tudo, boto brinco, tiro brinco; me arrumo, escolho minha roupa e até vejo o que não via antes. Mas a hemodiálise [...] a gente não pode fazer nada. Fica parado na cadeira vendo a hora passar. Aqueles fios todos. Tenho tontura [...] Isso é que é ruim (SANE).
No interior, ela teve uma infância com brincadeiras típicas e uma vida de muita fartura e muito trabalho. O comércio do pai envolvia todos da família. É a única mulher dos quatro filhos. No entanto, o universo masculino e uma mãe severa não impediam que vivesse as aventuras da juventude. O apoio do “pai-amigo”, como a ele se refere, facilitou sua participação em festas, passeios e outras atividades próprias da idade. A retinose marca sua vida adulta, fazendo com que ela aprenda com o escuro, com a solidão, com outras situações que a fazem descobrir seu potencial diante do novo modo de apropriar-se do mundo e dialogar com ele: “Vou me batendo e vou andando”. Diz que sem a visão não tem mais vergonha e que agora fala com as pessoas sempre brincando, o que antes não acontecia.
Mada é uma mulher de 43 anos. Enquanto fala sobre sua vida no interior onde nasceu, percebemos imagens no seu corpo que mostram as suas histórias. São muitas as experiências junto a seu pai na agricultura. Veio morar na cidade em decorrência de algumas dificuldades enfrentadas pelo pai. Em
Natal teve uma filha e assumiu sozinha a educação dela, se esforçando para que nada faltasse. Trabalhou como empregada doméstica e hoje tem um benefício que a deixa tranquila. Ao perceber que estava perdendo a visão, dizia para si: “eu não vou passar necessidade enquanto meu pai estiver vivo. Eu volto pro interior porque eu sei plantar feijão e colher feijão, sei plantar algodão e colher algodão, vou pro rio e pesco o peixe”.
Sobre a análise das narrativas dos dançarinos participantes da presente pesquisa, constatações marcantes foram feitas sobre os efeitos da dança nas suas vidas e capacidades. Mais adiante, contudo, será feita essa análise de suas capacidades e dos preconceitos que enfrentam. Vale acrescentar que a cada encontro no atelier a necessidade de especificar o grau de deficiência se tornava mais difícil e, por vezes, dispensável. Estávamos em interação, em diálogo permanente, nos valendo de modos diferentes de comunicação, este era o ponto de partida. Por essa razão, não adentramos na deficiência visual de cada um, nem em que época se desenvolveu.