Cada conta no colar da resistência, que se vem tecendo em Canto Verde, interfere na forma como vemos algum aspecto da vida comum. E isso possui sua forma. Seu lugar de incrustar-se – feito ostra – no cotidiano e na ruptura deste, que tem na festa um ponto importante. Temos visto como a experiência com a educação pôde conversar com a da saúde, e também a experiência das duas foram intensificando o valor da cultura local. Mas há a festa. Considerar a diversidade de expressões culturais que fazem parte do patrimônio cultural da comunidade da Prainha do Canto Verde seria agora fazer uma experiência com a poética do lugar. Assim é que são festas, danças, brincadeiras, cantigas de roda, música, poesia e todo o amor à religiosidade se diz como sinal de vida, ao modo do litoral cearense. Esses saberes e expressões culturais construídas ao longo do tempo, a partir de suas experiências transmitidas, em sua maioria das vezes de pais para filhos, são expressões que consolidam não só a cultura como crítica social, mas como festa, ruptura para o tempo livre, o tempo do diálogo entre as gerações e as histórias que gestam também o indizível. Ou o sentido não acessado pelo conceito.
Elejo agora cinco signos da arte para dizer do olhar que se diz na brincadeira. Os papangus são esse momento e essa cena: ele espia o indizível, aquilo que ficou amordaçado como caso na comunidade, ou como algo reprimido; e, na festa dos papangus se conta isso, sob forma risível.
A queimação dos Judas e os papangus são uma atração que acontece no sábado santo aqui na Prainha, que a gente chama de Sábado Aleluia. Rapaz é uma das festas que eu mais gosto e é antiga aqui também. E a gente ver, né? Todo mundo gosta. Os meninos já começam a se preparar desde cedo. As crianças esperam acabar a festa para ficarem com as roupas dos grandes, aí quando é no outro sábado fica cheio de menino brincando. É uma tradição bonita, mas hoje o pessoal não brincam mais como antigamente. Hoje tem muita bagunça, era pro pessoal fazer mais direito. Mesmo assim ainda é bom, né? A gente fica naquela ansiedade esperando chegar. Na festa, aquilo que não se teve coragem de dizer que se viu ou que se viveu é dito. Pois quando interessa a todos, o que se escondeu pode fazer viver coisas que ficaram abafadas, sem a visão da terra, como planta do mar. (Zé da Nega, pescador e compositor).
A festa como relatado acima, acontece no sábado de aleluia que é antecedente a páscoa, porém não é um ritual litúrgico, apenas faz parte do folclore da comunidade, num jogo de insulto e medo, onde todos se envolvem, os mesmos também vão para as comunidades vizinhas fazendo brincadeiras, cantando e etc.
No período da tarde eles ficam nas dunas até o horário de voltar para o circo (local enfeitado com palhas de coqueiro onde o Judas será queimado). Neste local são lidas rimas produzidas pelos brincantes com fatos do cotidiano de pessoas da comunidade, com bastante humor tornando assim uma festa muito harmoniosa e engraçada.
Eu gosto muito da hora dos versos. Vou te falar, quando sai aquelas história do povo aqui da praia, as comédia é grande (risos), vou só pra ver. Uma vez saiu um verso meu, duma presepada que eu fiz, aí a galera não perdoou não, colocou nos versos do Judas. Eu na hora fiquei com raiva, mas depois a gente rir, é uma brincadeira boa da comunidade. É uma diversão pra gente. O Seu Iaga quando era vivo, fazia uns versos bom, viu. Prestava atenção nas coisas que engraçada que o povo fazia durante o ano e ia só guardando, aí no final saia. Era muita risada. (Pescador, 45 anos de idade).
E o pescador segue relatando como acontecia essa festa nos inícios de Canto Verde, que acontecia com algumas diferenças de hoje. Vejamos:
Antigamente tinha outra brincadeira que o pessoal fazia na sexta-feira santa chamada de Serração, onde as pessoas que iam brincar papangus iam na casa de alguns moradores, cavavam um buraco em frente a porta e chamavam um monte de palavrão para que o morador ficasse com raiva.
Aí quando o cabra respondia, eles perguntavam: - “Onde é que serra?”
E o dono da casa respondia com palavrões, quando o morador abrisse a porta; os que estavam fora corriam e o morador caía dentro do buraco. Essa brincadeira era feita para a gente dar risada mesmo. Uns ficava com raiva, mas era bom.
Também isso de assustar, de ver tudo o que acontece, espiando ali, sem ninguém dá fé, isso é muito bom no papangu. Porque é um teatro. (Pescador, 45 anos de idade).
Em várias localidades da região é realizada a festa dos papangus, mas o diferencial da comunidade da Prainha do Canto Verde é que eles ainda se vestem de modo singular, com materiais colhidos na beira do mar, com palhas secas de bananeiras e outras plantas do mar, criando assim uma narrativa cênica que começa no juntar das palhas que são expostas para secar, no próprio fazer das roupas e das máscaras, no testamento que conta os casos vistos e que estavam escondidos, até a queimação do Judas - tudo artesanalmente realizado pelos brincantes.
E se pudemos pinçar os papangus como um signo da teatralidade e da poesia do lugar, que mostra uma arte que interfere na vida comunitária, trabalhando conteúdos difíceis, mas importantes, podemos sair da festa popular, mediada pela teatralidade dos papangus, para chegar ao rito.
Fonte: Márcia Lima