Na esteira da definição de debates, Seilles (2012) criou o debate 2.0. Em sua defini- ção, o debate 2.0 une dois conceitos: a Web 2.0 e os debates. O que diferencia a Web 2.0 da que a antecede é principalmente o fato de que o conteúdo das páginas naquela é gerado pelo usuário (OREILLY, 2007). Antes da Web 2.0, a Internet era provida de um conjunto de pá- ginas estáticas, escrito por uma pessoa e acessível a todos os outros, mas somente para leitu- ra. Com a chegada, em 1995, dos primeiros Wikis e fóruns, torna-se possível não só ler pá- ginas, mas modificá-las, editá-las, comentá-las e completá-las.
É importante frisar essa nova fase da Internet, pois, antes, os grupos difusores eram privilegiados em detrimento da comunicação entre as pessoas. A Internet pré-Web 2.0 era,
30 assim como os meios de comunicação predecessores, uma mera difusora de informações, ou seja, a comunicação se realizava em um só sentido (da mídia para os consumidores das in- formações). Ela era apenas uma continuação das quatro revoluções dos meios de comunica- ção que apareceram nos últimos 500 anos: imprensa, telégrafo, rádio e televisão (HOW... 2009). Com o advento da Web 2.0, houve o fortalecimento do capital social, a valorização do indivíduo e a contribuição coletiva (HOW... 2009). Esse novo conceito permitiu que as pessoas pudessem suportar e sere suportadas nas suas ideias, contribuindo para a ampliação de uma comunidade social mais barata, ubíqua e global. Profissionais da mídia começam a fazer menor número perante os cidadãos (“os amadores”) do mundo, pois qualquer um pode contribuir, não há mais a necessidade de estar vinculado a uma empresa de comunicação para pronunciar seu contento a respeito de um assunto. A figura 1 ilustra como as conexões da atual Internet se organizam. Percebe-se claramente pela figura que as comunicações transcorrem em todos os sentidos, o que realmente evidencia a real capacidade de comunica- ção das pessoas, valorizando o capital social que elas representam.
Figura 1 – Conexões da Internet
Fonte: JURVETSON (2015)
Nesse sentido, hoje, as diversas aplicações da Web baseiam-se no conceito de edição ou criação coletiva de conteúdo. Wikis permitem que um grupo de usuários coescrevam uma página. Fóruns fornecem a possibilidade de um grupo de usuários deixarem mensagens para construir uma discussão. Blogs deixam que qualquer pessoa crie uma página e que outros coloquem seus comentários. Sítios de música fornecem aos usuários a possibilidade de opi-
31 nião sobre as músicas. Os sítios de varejo permitem opinar sobre um produto comprado ou sobre a qualidade do serviço prestado. Nas redes sociais, é possível, em qualquer página, dizer se você gosta dela clicando no botão “Curti”, como é feito no Facebook. Nesse contex- to de colaboração, alguns já dizem que o usuário não é um mero consumidor, mas também um ator informacional, chamando-o de “consommacteur”, isto é, aquele que consome e pro- duz informações (SEILLES, 2012).
Os exemplos citados e muitos outros levaram à definição prática do conceito de Web 2.0: a melhoria do serviço pelo uso (SEILLES, 2012). Em outras palavras, o usuário de um serviço cria, pelo uso, novos dados que são fundamentais para a melhoria do serviço (por exemplo, sistemas de recomendação para as vendas online analisam o histórico de compras e traços de uso para recomendar outras compras pertinentes). Nessa junção de consumidor e ator, surge o debate 2.0, uma ferramenta da Web 2.0 onde os participantes consomem e atu- am produzindo mais informações. Os debates 2.0, ora chamado de debates online, são dedi- cados principalmente à concertação que visa obter a opinião dos cidadãos sobre determina- dos assuntos. Cabe observar que o termo debate, por si só, é geralmente associado apenas às concertações originadas por gestores ou decisores políticos e é raramente associado aos an- seios dos cidadãos que desejam participar ativamente do processo por meio de uma tomada de decisão coletiva (SEILLES, 2012). Entretanto, com a evolução para a Web 2.0, parece haver uma forte tendência do público em relação a esse cenário. Isso se dá por meio de pro- jetos livres, coletivos ou associações que se unem e se servem das atuais ferramentas online disponíveis.
Objetivando promover debates democráticos na Web, Seilles (2012) desenvolveu uma ferramenta de debates 2.0, batizada de Argumentea. Seu principal propósito era apoiar à gestão de interações de cidadãos existentes nas zonas costeiras de diferentes países. Essas interações permitem uma ampliação do debate participativo e seu trabalho focou na concep- ção e desenvolvimento de ferramentas de apoio à concertação, promoção de debates, promo- ção de escrita colaborativa e criação de uma ligação funcional entre os cidadãos, gestores e líderes. De cunho democrático, a ferramenta Argumentea incorpora algumas funcionalidades da Web 2.0 que são essenciais para permitir a participação dos stakeholders. Entre as funci- onalidades são destacadas a capacidade de anotação, expressão de opiniões e discussão so- bre os pontos de vista.
A anotação, já bastante utilizada na Web, possui como principal característica a ca- pacidade de ampliar a comunicação e a colaboração escrita. A ferramenta Argumentea utili- za a anotação como ponto de partida para a interação dos participantes do debate. Seilles
32 (2012) cita dois tipos básicos de anotação: a discursiva e a semântica. A primeira diz respei- to à prática interativa semelhante à postagem de opiniões dos fóruns ou blogs. Esse tipo de anotação permite aos usuários exprimir suas opiniões sobre trechos e frases de outros parti- cipantes. A anotação semântica, por sua vez, refere-se ao uso de tecnologias da Web Semân- tica1. Trata-se de tornar explícita a informação concernente a um documento ou a um trecho dele. Essas informações, chamadas de metadados, são adicionadas através das anotações semânticas, a fim de explicitar, para um programa, as informações sobre o contexto de pro- dução. Por exemplo, as anotações semânticas podem especificar quem é o autor do docu- mento, em que data ele foi produzido e os temas abordados. Seilles usa ambos os tipos de anotação como uma solução deestruturação dedebates, permitindo que diferentes pontos de vistas sejam colocados sobre um ou mais argumentos construídos pelos participantes. A Fi- gura 1 ilustra um substrato da ferramenta utilizada em um dos debates conduzidos pelo tra- balho de Seilles.
1 Web Semântica, chamada de próxima geração da Web, visa resolver os problemas de interoperabilidade de documentos online propondo tecnologias que permitem representar os seus dados em um formato padronizado. Por meio dela, os programas e os seres humanos podem facilmente compreender a semântica e os dados desses documentos. Assim, a natureza de um documento, temas abordados e relações que este apresenta com outros podem ser representados segundo os padrões propostos pela Web Semântica (DECKER et al., 2000; SEILLES, 2012).
33 Figura 1 – Substrato de um debate realizado com o uso da ferramenta Argumentea
Fonte: SEILLES (2012)
O trabalho aqui proposto utiliza os resultados originados de um debate realizado a partir de uma ferramenta de debates como a Argumentea. Objetiva-se ser capaz de sumarizar os debates utilizando a estruturação realizada pela ferramenta e sua capacidade de anotação. A anotação levada em consideração é a do tipo discursiva, pois somente o conteúdo de um debate é relevante para ser constado em um sumário. Assim, o trabalho foca nas seguintes características de um debate estruturado pela ferramenta de Seilles (2012):
(i) Debates são discussões derivadas de argumentações; (ii) As argumentações são compostas de anotações discursivas;
(iii) Anotações permitem a descrição de opiniões, sendo expressas por um ou mais partici- pantes;
(iv) As opiniões são relativas a trechos dos debates;
(v) Para cada opinião, pode ser colocada uma nova proposição, cujo teor pode levar a um ou mais argumentos.
A seção a seguir ilustra como um debate e suas proposições podem ser estruturados segundo Seilles. Nessa seção é apresentada, também, uma possível composição lógica das proposições e como ela poderá contribuir para o futuro da sumarização de debates.
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