Considerando a importância dada por Sowa (2000) à linguagem no entendimento da ontologia, faz-se a seguir uma discussão sobre uma meta-abordagem para o problema linguís-
tico – a perspectiva da Ontologia da Linguagem.
As bases para a Ontologia da Linguagem, segmento da Filosofia, foram lançadas por Rafael Echeverria, Fernando Flores e Julio Olaya, na década de 80. De acordo com os postu- lados e premissas apresentados como fundamentos da Ontologia da Linguagem, o ser humano torna-se quem é em função dos seus relacionamentos com os outros, ou seja, por meio da lin- guagem. Considerando-se que a linguagem é a base para a representação do conhecimento humano, parte-se da premissa que todo o processo de GC baseia-se num modelo de natureza lógico e linguístico (SIQUEIRA, 2008).
Ontologia da Linguagem foca sobre o ser humano e não sobre a linguagem, diferente- mente da Linguística e da Filosofia da Linguagem, que têm como preocupação principal a linguagem em si. Os postulados básicos da Ontologia da Linguagem são (ECHEVERRIA, 1997):
Os seres humanos são seres linguísticos. A linguagem determina a forma de pensar dos seres humanos e é a chave para entender os fenômenos humanos. Os seres humanos são diferentes de todos os outros seres, pois são seres linguísticos, vivem da linguagem e dela dependem para a sua vida. Mas os seres humanos não são apenas seres linguísticos, pois usam a linguagem, mas são diferentes dela. É a linguagem que promove sentido e toda a forma de compreensão; são as construções linguísticas que permitem acesso aos fenômenos da vida.
A linguagem é geradora de realidades. A linguagem permite descrever e modificar rea- lidades. Ao se inferir que “a linguagem cria realidades” está-se modelando, desenhando o futuro. A forma de operar a linguagem modela a nossa identidade e a do mundo em que vivemos. A linguagem é o instrumento que permite perceber o mundo e expressar o que pensamos e sentimos. As diferentes linguagens criam diferentes mundos.
Os seres humanos criam-se a si mesmos na fala e através dela. O ser humano, ao domi- nar a linguagem, a utiliza para criar o seu próprio futuro e, por meio de relacionamentos (coordenação), modificar a si próprio e a outros indivíduos. Este postulado, estabelecido na Ontologia da Linguagem, é uma decorrência do segundo, ou seja, se a linguagem é ação, dessa ação resulta mudança. Pela fala e através dela, os serem humanos criam-se a si mesmos e a seus contextos históricos. Pela linguagem (ação), o homem promove mu- danças e determina o seu futuro. Ao interpretar a realidade o homem a domina, tem po- der sobre ela, evidencia a força do “papel do observador”. O indivíduo, ao construir sua visão de mundo está exercendo o poder de criar uma realidade. Nessa perspectiva, não é possível falar de um único mundo, e sim de diferentes mundos.
Para Echeverria (1997), a linguagem não é decorrente somente da capacidade biológi- ca, mas da interação social entre seres humanos, sendo, portanto, um fenômeno social, não biológico.
A linguagem não é uma propriedade individual, mas resultado da interação entre indi- víduos dentro de um espaço social. Os signos representam conceitos, que representam os ob- jetos e é por meio desses que a comunicação se efetiva, pois na medida em que os indivíduos compartilham conceitos, dá-se a comunicação.
O desenvolvimento da linguagem está associado a condições da evolução biológica es- trutural e histórica do ser humano. A linguagem é um traço evolutivo, baseando-se em condi- ções biológicas específicas. Surge da interação social. Os valores, normas e comportamentos são determinantes do grau de sucesso do processo de transferência do conhecimento.
O indivíduo é uma construção social. Ele se define a partir da cultura linguística na qual se desenvolve, assim como de sua posição no sistema de “coordenação da coordenação do comportamento”. Dessa forma, para que se compreenda o indivíduo, deve-se conhecer os discursos históricos que o constituem. Os seres humanos constituem suas identidades ou indi- vidualidades a partir de diferentes culturas linguísticas e por ocuparem diferentes posições na estrutura social. O indivíduo é resultado de suas relações com os demais. Evidencia-se a exis- tência de uma relação de reciprocidade entre os sistemas linguísticos e o comportamento dos indivíduos.
A partir da Ontologia da Linguagem o ser humano compreende sua realidade e é capaz de modelá-la, coordená-la e até modificá-la. A linguagem é a ferramenta para a representação e organização da realidade criada pelo homem. O ser humano interpreta a realidade, deposi- tando nela traços de sua estrutura biológica, da sua cultura linguística e da sua própria história pessoal. A Ontologia da Linguagem oferece uma perspectiva capaz de embasar o desenvolvi- mento de métodos e técnicas para a solução de problemas práticos dos ambientes de GC.
A Ontologia da Linguagem coloca-se como um modelo baseado na linguagem, que pode contribuir para o entendimento do ser humano e as ações linguísticas envolvidas na cria- ção de realidades (SIQUEIRA, 2008). O desenho dos espaços de GC deve situar-se dentro de uma determinada ontologia. Através da criação de um modelo da realidade (uma ontologia), a linguagem poderá contribuir para que os sistemas de informação se tornem eficazes no senti- do de compreender o fluxo da informação, onde o conhecimento, em essência, é determinado pela inter-relação humana, e a informação é compreendida como a representação objetiva do conhecimento, a partir de uma dada linguagem.
representação do mundo exterior com a finalidade de entender melhor a sua existência e as ações linguísticas envolvidas na criação da realidade. O construto teórico da Ontologia da Linguagem oferece ferramentas poderosas para uma maior efetividade da GC.