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6.   OPPSUMMERING OG DISKUSJON

6.6   R ESULTATENES VALIDITET

Depois que a Cia. Artehúmus foi contemplada com o VAI e os novos integrantes se juntaram aos membros da “velha guarda”, o processo criativo do espetáculo

208Segundo Ninin: “... em 2003 fui convidada a compor a Artehúmus, a partir de um projeto da Cia.

contemplado pelo programa da SMC [Secretaria Municipal de Cultura] de Valorização de Iniciativas Culturais (VAI) (...). Eu entrei na Cia. por meio do convite de Evill Rebouças, que, na época, era meu colega de turma na UNESP. Tornamo-nos amigos e companheiros da arte desde o primeiro ano. No terceiro ano, quando fiz uma personagem deficiente física e mental para um exercício cênico de aula (disciplina História da Evolução do Teatro Mundial, com Alexandre Mate), a partir da obra de Woyzeck, do autor alemão Georg Büchner, Evill Rebouças me disse que escrevera uma personagem deficiente para

Evangelho para lei-gos para que eu atuasse. E, assim, iniciamos nossos trabalhos artísticos...” (NININ, 2015, entrevista).

209 Outros artistas passaram pela Companhia, todavia, muitos deles permaneceram pouco tempo no

coletivo, razão pela qual os mesmos não serão alvo de análise mais detida – exceção feita a Cristiano Sales e Natália Guimarães, integrados entre 2012 e 2013. Em 2012, após quase dez anos, Ninin e Mussi saíram da Companhia para alçar novos voos profissionais e artísticos.

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Evangelho para lei-gos teve início. Nesse momento a Companhia ainda tateava na pesquisa continuada do teatro de grupo. Segundo Ortega:

Foi ali que eu comecei a entender o que era o dramático... O que não era o dramático... Mas tudo ainda pela intuição. E acredito que o Evill também. Aí a gente foi sacando mais ou menos... A gente começou pensar no pós- dramático... O Evill veio com esse assunto... Que eu não conhecia [...]. O

Evangelho, acho que foi um despertar, assim. Era um... “teatro cabeça”. O “teatro cabeça” naquele momento. De qualidade [...]. A gente não sabia onde iria chegar. [...] Eu sacava que tinha uma intuição, assim (ORTEGA, 2015, entrevista).

Nascido da experiência cruzada na ELT e na Unesp, Evangelho para lei-gos já carregava características do teatro de pesquisa, tais como a fragmentação do texto210 e o emprego do espaço não convencional211. Com a chegada dos novos integrantes, os aspectos contemporâneos foram ampliados e a pesquisa de campo212 e a criação coletiva213 também passaram a nortear a montagem do espetáculo. Mas, embora os artistas tivessem algumas referências prévias – e, portanto, já imaginassem possíveis caminhos para a criação de Evangelho –, boa parte do processo criativo respondia a um impulso intuitivo, afinal, essa era a primeira vez que a Cia. Artehúmus construía um trabalho nos moldes de produção do teatro de grupo. Assim, foi no próprio fazer teatral, no dia a dia, em cada ensaio, que os participantes do coletivo foram compreendendo como se dava essa nova dinâmica cênica e, juntos, começaram a investigar expedientes e autores do teatro contemporâneo, entre eles, o pós-dramático de Hans-Thies Lehmann.

Depois de oito meses de ensaios perseguindo a trilha do teatro de pesquisa – ou, como definiu Ortega, do “teatro cabeça” – e de uma busca incessante para apresentar a

210Segundo Moreno: “[O Evangelho] foi o primeiro espetáculo que nós fizemos todo fragmentado e isso é

uma característica da dramaturgia do Evill, essa coisa toda fragmentada (...). O Evangelho já traz essa característica do fragmento dramatúrgico...” (MORENO, 2014, entrevista).

211Segundo Rebouças: “Foi a primeira vez que a gente foi para o espaço não convencional. Enquanto a

gente estava fazendo peça em palco italiano, a gente estava no rame-rame do palco italiano mesmo (...).

Antes de dormir: teatro realista. Dandara também (...) (REBOUÇAS, 2014, entrevista).

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Os integrantes da Artehúmus fizeram uma pesquisa de campo no Abrigo Municipal Zacki Narchi que acolhia os antigos moradores da favela de mesmo nome que havia sido incendiada no final de 2002. Segundo Rebouças: “A partir desse contato com os moradores, aprofundamos a construção de algumas personagens e o surgimento de outras, além da inserção de cenas que não existiam nas duas primeiras versões e ainda, e com maior representatividade, a verticalização do tema” (REBOUÇAS, 2005, p. 36- 37).

213 Com o movimento do teatro de grupo a criação coletiva tornou-se comum e a Artehúmus escolheu

seguir essa trilha. No entanto, Mussi afirmou: “No Evangelho tinha uma dramaturgia já, um texto fechado, os personagens já tavam meio definidos (...). Acho que tinha uma direção mais pontual, assim... Tinha essa liberdade do diálogo, de criação, mas o Evill tinha um papel mais organizador nesse processo. Era uma estrutura que já era mais fechada nesse sentido” (MUSSI, 2015, entrevista). Assim, embora os membros da Companhia tivessem liberdade para criar, o fato de Rebouças ter escrito e montado o texto anteriormente, isto é, de estar mergulhado no processo há mais tempo do que os outros, bem como o fato de os artistas serem todos iniciantes nesse tipo de teatro, contribuíram para que as funções ainda fossem bem delimitadas.

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peça em um banheiro público na cidade de São Paulo, o espetáculo Evangelho para lei- gos estreou no banheiro do Viaduto do Chá, em 18 de setembro de 2004, e ficou em cartaz até 21 de novembro do mesmo ano – sempre aos sábados e domingos. Aliás, pela primeira vez a Artehúmus ficava em temporada na capital paulistana aos finais de semana e isso certamente diz respeito à linguagem e o local escolhidos pelo grupo (um ambiente muito específico e sem a concorrência de outros coletivos). O grupo reservava 32 lugares ao público e, segundo Rebouças, eles estavam quase sempre todos ocupados – majoritariamente por alunos e profissionais do universo do teatro, amigos e convidados dos artistas e moradores das imediações do banheiro. Assim, nesse período, embora a Artehúmus ainda estivesse iniciando seu trajeto no “teatro de arte”, já começou a ser vista por alguns agentes da cena teatral paulistana. Quanto à repercussão da mídia, ocorreu um trânsito interessante: os jornais do ABC não deram o mesmo espaço oferecido anteriormente para as peças da Artehúmus, pois somente o Diário do Grande ABC publicou uma matéria sobre Evangelho para lei-gos (02 de outubro de 2004); já os periódicos da capital paulistana deram algum destaque ao espetáculo e este foi comentado na Ilustrada da Folha de S. Paulo (18 de setembro de 2004), no Estadão Oeste do O Estado de S. Paulo (22 de outubro de 20014), no Metro News (29 de outubro de 2004) etc214. Isso indica que, nesse momento, a relação da Cia. Artehúmus com o ABC cedia espaço à sua participação e aceitação na capital paulistana.

214 Também foram lançados alguns informativos em sítios eletrônicos, a saber:

www.sampacentro.terra.com.br e nas páginas internacionais do Dave Barry (www.davebarry.com), Gazeta de OLT (www.gdo.ro), Commonwealth Times (www.commonwealthtimes.com) e Arhiva Adevarul (www.adevarulonline.ro). Foram também publicados pequenos informes no Guia da Folha (outubro de 2004); no Guia Off (outubro, novembro e dezembro de 2004); na Veja São Paulo (06 de outubro de 2004), no Guia Boca a boca (outubro e novembro de 2004) e no Guia Cultura dia-a-dia (novembro de 2004).

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Evangelho para lei-gos (2004). Na foto (da esquerda para a direita): Roberta Ninin e Gilda

Vandenbrande. Fonte: acervo da Cia. Artehúmus de Teatro. Foto de Jeffrson Copolla.

Em um momento de transição entre dois tipos diversos de produção teatral, em Evangelho para lei-gos a Artehúmus estava com um foco que decididamente não era ganhar dinheiro: buscava experimentar novas possibilidades estéticas. Todavia, o VAI não supria as necessidades materiais dos artistas215 que, então, combinaram outras atividades, dentro e fora do “teatro de arte”216.

215 A atriz Solange Moreno afirmou: “Foi tão pouquinho o valor do VAI, eu não sei quanto foi total, mas

eu me lembro que [...] o Evill chegou para mim e falou assim: “Ah... vai dar uma ajudazinha de custo para cada um [...] Pelo projeto todo” (MORENO, 2014, entrevista).

216 Do ponto de vista do sustento material, os artistas da Artehúmus investiram em diversas atividades

dentro e fora do teatro de pesquisa para sobreviver. Segundo Rebouças: “No Evangelho a gente ganhava uma ajuda de custo [...]. Continuei fazendo coisas como ator, como dramaturgo... Nesse espetáculo eu já estava escrevendo bastante, tudo mais [...]. E ao mesmo tempo em que eu estava [...] dirigindo o

Evangelho para lei-gos, eu estava fazendo O Bem Amado como ator. Concomitante. Para sobreviver. A

disparidade do “comedião” pra uma coisa que é fio da navalha. Nossa... É muito louco. Muito louco mesmo (...). Acho que o Bem Amado foi o ápice do comercial [...]. O Bem Amado eu digo que talvez tenha sido o mais comercial de todos porque tinha um plano de mídia, foi pensado para ser montado na época da eleição... Então a produtora ia em todos os programas de auditório vestida de Odorico Paraguaçu para falar da peça... Nesse sentido que eu estou falando. Porque eu acho que o texto do Dias Gomes é muito interessante por sinal.” (REBOUÇAS, 2014, entrevista). Além do espetáculo O Bem Amado, Rebouças, recém-formado na Unesp, trabalhou na Secretaria Municipal de Cultura de São Bernardo do Campo (SMC/SBC) como oficineiro, na Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo (SMC/SP) com o projeto Teatro Vocacional, como roteirista do programa de televisão Disney Channel e como ator na peça

Canastra Musical (ao lado de Silva), assim como escreveu vários textos dramatúrgicos etc. Moreno

trabalhava com “teatro empresa”, enquanto Silva continuava à frente da Cia. Pic Nic, trabalhou no projeto Teatro Vocacional, foi orientador artístico do projeto Ademar Guerra e oficineiro de clown para estudantes de psicologia na faculdade Metodista de São Bernardo do Campo etc. Ortega, recém-formado na EAD, trabalhou como ator no teatro e fez propagandas para TV e, pouco tempo depois, abriu uma produtora de elenco voltada exclusivamente para filmes publicitários de televisão etc. Mussi recebia bolsa de estudos por conta de uma pesquisa de iniciação científica que fazia no Instituto de Artes e depois

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Quando a temporada de Evangelho para lei-gos findou, a Artehúmus tinha a intenção de continuar com a pesquisa e, não por outro motivo, os artistas inscreveram o projeto na Lei de Fomento ao Teatro da cidade de São Paulo e (talvez denotando a ingenuidade dos debutantes), também tentaram o patrocínio privado, por meio da Lei Rouanet. Nenhuma das tentativas se concretizou e abriu-se um momento de incerteza acerca do futuro do grupo. Nessa época, no início de 2005, Rebouças ingressou no mestrado em Artes da Unesp e, com isso, deu mais um passo decisivo tanto para a sua própria trajetória quanto para a história do grupo: o vínculo do diretor com a universidade e com a pesquisa se estreitou bastante e, assim, além de verticalizar seus estudos nos expedientes do teatro contemporâneo, pode refletir e divulgar o trabalho da Artehúmus por meio de sua dissertação217, que propõe uma reflexão conceitual a partir da comparação entre o processo de criação do Evangelho para lei-gos e o relato de três montagens do grupo Teatro da Vertigem, todas dirigidas por Antônio Araújo – com quem, vale lembrar, Rebouças teve aulas na ELT. Assim, Rebouças inseria a Cia. Artehúmus numa outra perspectiva do teatro de pesquisa, tornando o grupo seu objeto de estudo acadêmico.

A intensa interlocução de Rebouças com estudantes e professores do Instituto de Artes da Unesp culminou em um convite para que a Artehúmus se apresentasse no “Projeto de Ocupação do Arena 3 em 1: Um por (Todos)² por Hum!!!”. Nessa ocasião, os grupos de teatro Canhoto Laboratório de Artes da Representação, Cia. Andarilhos e Núcleo Cênico Arion foram selecionados em um edital para ocupar o Teatro de Arena por um semestre e outros grupos foram convidados para complementar a programação. Como o “Canhoto Laboratório” era formado exclusivamente por estudantes do Instituto de Artes e dirigido pelo professor Alexandre Mate e pelo menos dois dos quatro coletivos convidados tinham integrantes da Unesp – a Artehúmus e o Piap (grupo de percussão do Instituto de Artes da Unesp) –, é razoável imaginar que a rede de relações entabuladas com esses coletivos tenha permitido à Companhia Artehúmus apresentar No reino de carícias, Pingo pingado, papel pintado e As relações do Qorpo Santo218 no

trabalhou em algumas escolas de teatro como professor. Roberta Ninin, recém-formada na Unesp, trabalhou na SMC/SP e na SME/SP no projeto Formação de Público e logo em seguida tornou-se professora de educação artística nas redes estadual e privada de ensino.

217 A dissertação se intitulou A encenação no espaço não convencional e foi publicada pela Editora Unesp

em 2008.

218 O espetáculo As relações do Qorpo havia sido apresentado em 2003 no elevador e na lanchonete do

Sesc Consolação no projeto “Mostra Sesc de Artes Latinidades” com direção de Rebouças e atuação de Djalma de Lima e Fábio Supérbi, todos da mesma turma da Unesp. Segundo Rebouças: “O [professor] Alê Mate sabia que eu curtia muito o Qorpo Santo e ele falou assim: ‘Chama esse menino, aí!’. Aí a gente

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Teatro de Arena Eugenio Kusnet. A oportunidade no Teatro de Arena permitiu aos membros do coletivo consolidar os laços com vistas a dar continuidade ao grupo219.

Ademais, foi nessa ocupação que Rebouças conheceu Bernadeth Alves (diretora do Núcleo Cênico Arion), com quem fez uma parceria artística e, juntos, elaboraram o projeto denominado Ateliê Compartilhado220 para enviar ao Fomento. Além dos grupos de Rebouças e Alves, também participou dessa proposição o coletivo Teatro de Epifanias – dirigido por Lilih Curi. Depois de três tentativas frustradas, em meados de 2006 o projeto foi contemplado221. Assim teve início o processo criativo de Amada, mais conhecida como mulher e também chamada de Maria, primeiro projeto “fomentado”, ou seja, apreciado pela Lei de Fomento da Cia. Artehúmus de Teatro. Dessa vez, apenas o que veio a se tornar o “núcleo duro” do grupo participou do processo de criação: Rebouças assinou a dramaturgia e a direção do trabalho enquanto Moreno, Silva, Ortega, Mussi e Ninin atuaram no espetáculo.