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R ESSURSGRUNNLAG

1. METODE

1.1 R ESSURSGRUNNLAG

Em virtude da ampla contribuição conferida às diversas áreas a que se propôs investigar durante sua trajetória intelectual, Pierre Bourdieu, sociólogo francês, é considerado um dos mais importantes estudiosos da Sociologia do século XX e também um dos mais citados.

No campo da Educação, seu contributo é admirável, ao ponto de outros sociólogos de renome, e mesmo não adeptos de sua teoria, reconhecerem o valor de seu legado, a exemplo da seguinte afirmação de Francois Dubet:

Todo sociólogo da educação passa pela teoria da reprodução e se confronta a ela, pois não há realmente outra que seja, ao mesmo tempo uma teoria da escola, uma teoria da mobilidade social, uma teoria da sociedade e uma teoria da ação (DUBET, 1998, p. 46).

O que Dubet ressalta é a importância da teorização de Bourdieu para a Sociologia da Educação, tomando-a como base para discussões que considerem aceitá-la, confrontá- la ou mesmo complementá-la.

A problemática teórica desenvolvida nos escritos de Bourdieu consiste, essencialmente, em encontrar a mediação do agente social com a sociedade, do homem com a história. Esse conhecimento, chamado praxiológico, tem como foco não somente o sistema de relações objetivas, que a visão objetivista constitui, mas também articula dialeticamente essas estruturas e as disposições estruturadas que tendem a reproduzi-las. Se, por um lado, o conhecimento praxiológico não anula as aquisições do conhecimento objetivista, conservando-as, por outro, ele as supera, associando o que aquele teve que eliminar para obtê-las. É, por assim dizer, um produto do duplo processo de interiorização da exterioridade e de exteriorização da interioridade (BOURDIEU, 1972).

Do confronto objetivismo/fenomenologia, que contrapõe sujeito e sociedade, Bourdieu constitui uma teoria da prática, uma ciência da dialética da interioridade e da exterioridade, recuperando a ideia de habitus que ressalta a dimensão de um aprendizado passado. O habitus se inscreve, assim, como um conceito capaz de harmonizar o antagonismo aparente entre realidade exterior e as realidades individuais, compondo-se, desta forma, como

[...] princípio de geração e de estruturação de práticas e de

representações que podem ser objetivamente “reguladas” e “regulares”

sem que por isso sejam o produto da obediência a regras, objetivamente adaptadas a seu objetivo sem supor a visão consciente dos fins e o domínio expresso das operações para atingi-lo, mas sendo, ao mesmo tempo, coletivamente orquestradas sem serem o produto da ação organizadora de um maestro (idem, p. 175).

O conceito de habitus na obra de Pierre Bourdieu assume papel fundamental e encontra suas raízes na Escolástica. Exprime a noção grega “hexis utilizada por Aristóteles para designar então características do corpo e da alma adquiridas em um

processo de aprendizagem” (SETTON, 2002, p.61). Esse habitus, moral incorporada que se tornou hexis, postura e gesto, é explicitado por Bourdieu (1983, p. 104) em sua composição:

Por que ir buscar esta velha palavra? Porque esta noção de habitus permite enunciar algo que se aparenta àquilo que evoca a noção de hábito, distinguindo-se desta num ponto essencial. O habitus, como diz a palavra, é aquilo que se adquiriu, mas que se encarnou no corpo de forma durável sob a forma de disposições permanentes.

O sociólogo parece responder a inquietações que não eram dele, mas dos que procuravam ainda compreender a relação entre esses dois termos que se aproximam na escrita mas que semanticamente se estruturam de modo diferente. De fato, ele retoma

mais uma vez a explicação demonstrativa do que estabelece a diferença entre hábito e habitus:

Mas, por que não dizer hábito? O hábito é considerado espontaneamente como repetitivo, mecânico, automático antes reprodutivo que produtivo. Ora, eu queria insistir na idéia de que o habitus é algo que possui uma enorme potência geradora. (ibid p. 105.)

Do ponto de vista de Bourdieu (1983), a ideia de habitus deve estar distanciada de uma concepção mecanicista, reprodutivista, e ser considerada em seu aspecto

dinâmico, “capaz de expressar o diálogo, a troca constante e recíproca entre o mundo objetivo e o mundo subjetivo das individualidades” (SETTON, 2002 p.61).

Uma vez que o habitus orienta a ação de cada agente, é também produto das relações sociais e tende a assegurar a reprodução de tais relações objetivas que o arquitetaram. Deste modo, ele se exprime como social e individual, referindo-se a um grupo, a uma classe ou a pessoa. No âmbito do individual,

[...] os agentes sociais são dotados de habitus, inscritos nos corpos pelas experiências passadas: tais sistemas de esquemas de percepção, apreciação e ação permitem tanto operar atos de conhecimento prático, fundados no mapeamento e no reconhecimento de estímulos condicionais e convencionais a que os agentes estão dispostos a reagir, como também engendrar, sem posição explícita de finalidades nem cálculo racional de meios, estratégias adaptadas e incessantemente renovadas, situadas porém nos limites das constrições estruturais de que são o produto e que as definem (BOURDIEU, 2001, p. 169).

O habitus está, pois, na origem das relações constituídas e incorporadas pelos agentes durante sua trajetória social. Este processo de ajustamento ocorre por via das relações com outras pessoas distribuídas no espaço de socialização em planos diferenciados em sua inserção nesse locus. É, portanto, iniciado com as primeiras experiências formativas do sujeito, que é alvo de transformações nesse percurso. Logo, todo sujeito possui um habitus, sendo este agregado com base nas interações com outros agentes e com o meio onde está.

Bourdieu (1994) ressalta a importância de se estudar o modo de estruturação do habitus por intermédio das instituições de socialização dos agentes, considerando esta como um processo que se desenvolve ao longo de uma série de produções de hábitus distintos. Esses comportamentos coletivos decorrem das aprendizagens vivenciadas desde a infância em seu ambiente cultural, em especial as que se realizam no período de formação das primeiras categorias e valores que orientam a prática futura do agente (esse

aspecto demonstra aproximação do pensamento de Bourdieu com a Escola Fenomenológica).

Compreendo que a socialização inicial das pessoas é, em grande medida, responsável pela constituição de habitus, princípio de geração e de estruturação das práticas dos agentes. Toda pessoa, ao nascer, é inserta num determinado contexto social. É nesse espaço que ela deverá assimilar, inicialmente, princípios, conhecimentos, costumes e aptidões que deverão determinar sua primeira visão de mundo. Com efeito, as primeiras experiências são de singular importância quando se analisam práticas, na medida em que estas caracterizam um determinado tipo de condições de existência e produzem as estruturas do habitus. Cabe, agora, conhecer as duas primeiras instâncias de socialização das pessoas no que se relacionam à constituição do habitus.