II. FORORD
4: STRATEGISK ANALYSE
4.4 R ESSURSBASERT ANALYSE – SVIMA RAMMEVERKET
A violência social que adentra a escola tem grande influência na constituição das tensões escolares. Autores como Nogueira (2000) e Silva (2004) defendem que existe no meio
escolar uma violência decorrente do aumento da criminalidade e do desenvolvimento da violência social nas cidades; ainda que ela não represente a violência propriamente escolar.
A escola não está imune às influências sociais, portanto, a compreensão das causas geradoras da violência deve considerar o contexto sócio-histórico em que essa ocorre. Contudo, os autores citados reconhecem que a violência social presente na escola e em seus arredores não é o único fator explicativo da problemática. Se os problemas sociais, entre eles a exclusão social e a criminalidade, por si só gerassem a violência, não saberíamos explicar, por exemplo, por que existem alunos que vivem em extremas situações de exclusão e criminalidade que não são violentos na escola.
Conforme aponta Debarbieux (2007), a análise da violência compreende uma abordagem complexa e não determinista. Portanto, sua causa não pode ser compreendida como resultado único de um processo social ou familiar ou biológico, tratando o assunto de maneira isolada; tampouco podem ser desconsideradas as características sociais, culturais e históricas que permeiam o contexto em que está inserida. A violência situa-se num contexto, e, se devemos considerar as variáveis sociais e individuais, igualmente devemos examinar as variáveis que explicam o clima escolar interno.
Álvarez-García et. al. (2010a,) também defendem que as condutas violentas na escola não se devem a uma única causa, principalmente se considerarmos a grande variedade de condutas a que se referem. Os autores pontuam que, na esfera escolar, ocorrem uma variedade de causas que interagem entre si, algumas delas se relacionam a fatores externos à escola: “la educación que ha recibido el alumnado de sus familias, las condiciones socioeconómicas en las que ha crecido o los valores y modelos ofrecidos por los medios de comunicación y otras formas de entretenimento”; outras se referem a fatores individuais: “presencia de algún tipo de trastorno, la carência de habilidades sociales o problemas de autoestima o de autorregulación de la propia conducta”; outras ainda se referem ao próprio centro educativo: “la organización del centro, la forma de impartir las clases o la presión de los compañeros” (ÁLVARES-GARCIA, et. al., 2010a, p. 36).
Blaya (2002, 2003), por sua vez, defende que a violência não é um fenômeno social isolado, mas sim reflexo de problemas mais globais. A autora aponta que nos últimos anos há um reconhecimento entre pesquisadores de que a forma como a escola é administrada tem certo impacto sobre o comportamento dos alunos e sobre o clima social nas aulas: “A gestão da disciplina e a coerência dessa gestão são elementos da maior importância para a construção de um ambiente positivo” (BLAYA, 2003, p. 42).
Para Charlot (2002), os jovens são os principais autores e também as principais vítimas da violência na escola; contudo, a questão da violência escolar não deve ser enunciada somente em relação aos alunos, “o que está em jogo é também a capacidade de a escola e seus agentes suportarem e gerarem situações conflituosas, sem esmagar os alunos sob o peso da violência institucional e simbólica” (p. 436).
O autor considera que os incidentes violentos se produzem sobre situações cotidianas de forte tensão social e escolar. Algumas das fontes dessa tensão, segundo ele, estão imbricadas ao estado da sociedade e do bairro: quando o entorno em que se encontra o estabelecimento escolar é violento existe uma probabilidade de que a escola seja atingida por essa violência; todavia, nem todas as escolas situadas em bairros violentos são igualmente violentas.
Outra importante fonte de tensão social cotidiana, segundo Charlot (2002), está na própria relação com a escola e com o saber, isto é, os problemas escolares parecem residir no modo como escola e sociedade se articulam e no sentido da escola dado por esse modo. O autor defende que, atualmente, a representação da escola como via de inserção profissional e social apagou a ideia de escola como lugar de sentido e de prazer. A lógica da instituição escolar, assim como a lógica do saber e do ato ensino/aprendizagem, mostram-se obscuras para muitos alunos. De acordo com Andrade (2001), hoje a instituição escolar não é mais vista como local de oportunidade de vida e passou a ser um lugar de frustração, onde eclodem problemas sociais, ou ainda, muitas vezes, os alunos não entendem por que estudar determinados conteúdos. Essa questão, para Charlot (2002, p. 442), está vinculada ao estado da sociedade, às formas de dominação, à desigualdade, às práticas da instituição, suas regras e relações interpessoais; mas é, também, uma questão ligada às práticas cotidianas de ensino, afinal “é bem raro encontrar alunos violentos entre os que acham sentido e prazer na escola”.
Nesse sentido, Silva (2004) afirma que a escola, além de reproduzir as desigualdades sociais, excluindo e estigmatizando os alunos, adota um modelo extremamente autoritário em suas práticas pedagógicas e disciplinares. Esse autoritarismo pedagógico se manifesta pela dificuldade da escola em oferecer um ensino de qualidade e estabelecer normas, regras e punições justas. Assim, “a violência resultante desse autoritarismo institucional se caracteriza como uma forma de protesto e expressão crítica contra essa violência simbólica praticada pela escola” (SILVA, 2004, p.15); ou seja, um sentimento de ruptura com a ordem excludente e injusta estabelecida. Conforme apontou Guimarães (2006), a violência escolar reflete formas de resistência em relação às instituições escolares que tendem a homogeneizar as diferenças existentes, impondo seus valores aos alunos como dominantes.
Abramovay (2003, 2006) igualmente defende que a violência na escola traduz um fenômeno múltiplo e diverso que se origina tanto de fatores externos à escola – como a penetração de gangues, o tráfico de drogas, a exclusão social e institucional, a crise e o conflito de valores e o desemprego – quanto das dificuldades de gestão da escola e das suas próprias tensões internas, inerentes a cada instituição e ao sistema de ensino, bem como às relações sociais nas escolas. A autora defende a importância de se relativizar a concepção de que a violência na escola é apenas um reflexo de processos sociais mais amplos, abrindo-se a possibilidade para abordar, também, a violência como um fenômeno produzido na e pela escola.
Para a pesquisadora, a violência escolar deve ser compreendida como resultado das relações tensas e conflituosas entre os membros da comunidade escolar. Essa questão se expressa claramente, quando há um descompasso entre a cultura escolar e a juvenil, quando os professores demonstram falta de sensibilidade pelas formas de ser dos jovens, quando os alunos não são escutados, quando os jovens são “etiquetados”. Abramovay (2006, p. 72) afirma que a cultura escolar, muitas vezes, se baseia em uma violência institucional, fundamentada na inadequação de diversos aspectos do cotidiano escolar em relação às características, expectativas e demandas dos alunos, como “o sistema de normas e regras muitas vezes autoritárias; as formas de convivência; o projeto político pedagógico; os recursos didáticos disponíveis e a qualidade da educação”; como consequência, surgem as tensões nos relacionamentos entre os atores escolares.
Como podemos perceber nos autores aqui citados, a violência tem causas diversas, portanto, não podemos considerar em sua análise um único fator. Os problemas sociais que adentra a escola têm grande importância na constituição das tensões escolares, porém não podemos atribuir unicamente a eles as causas da violência. Ao investigarmos o tema é preciso, também, realizar uma análise contextual que considere as tensões cotidianas ligadas ao próprio estabelecimento escolar e as relações de sociabilidade que emergem no interior da instituição (DEBARBIEUX, 2007). A escola, por meio de práticas de violência simbólica, pelo estabelecimento de regras e normas coercitivas, pela imposição de valores e atitudes aos discentes, pode gerar e potencializar uma violência em seu interior. Assim, consideramos indispensável uma análise das variáveis escolares. Essa abordagem é necessária para uma melhor compreensão das possibilidades de prevenção e contenção da problemática escolar.