1. REFLEKSJON OM EIGEN PRODUKSJON
1.3. R ESEARCH OG PLANLEGGING
171 Lixo, desordem, vagabundagem, degradação: essas são as palavras associadas aos camelôs e aos moradores de rua. Isso porque praticam a violação das distâncias confortáveis entre os corpos e entre as coisas. Criam pontos na trama da cidade que são como defeitos, porém desbancam leis e sistemas dominantes, gerando outras centralidades, complicando e multiplicando os contextos marginais, que se tornam realidades policêntricas. São realidades marginais-centrais, mas nunca homogeneamente uma coisa ou outra, vagando entre situações. As atividades ambulantes e nômades pertencem exclusivamente à rua e são responsáveis por sua vitalidade. Ambulantes, vagabundos e roleiros são sistematicamente contidos, reprimidos e expulsos em nome da reconsagração dos espaços centrais como espaços legítimos das populações solventes, que se não são mais os aristocratas de São Paulo, são as multidões de sequiosos consumidores culturais, sequiosos por cultura, depositada no patrimônio arquitetônico urbano histórico.
Já as populações que ocupam as ruas do centro e que tiram dali o sustento têm em comum o fato de terem um dia migrado; mesmo que vivam há décadas na cidade, com filhos e netos nascidos e criados aqui, sempre serão vistos como migrantes, como ―nenês famintos‖ (FLUSSER, 1983).
Mas estas mesmas populações que vivem da informalidade, que criam ricas texturas urbanas, um burburinho alegre e vital, sem o qual as ruas pereceriam
(...)camelôs, engraxates, desempregados, aposentados, ―plaqueiros‖, vendedores de ervas, de bilhetes de loteria, de churrasquinho, pregadores religiosos, videntes, prostitutas, travestis, homens e menores de rua, artistas de rua, rolistas, batedores de carteira, trapaceiros e muitos outros. (FRÚGOLI, 2000, p. 59)
As ruas, cuja efervescência é essencial para a vitalidade dos jogos sociais, tornam-se referências para convivências de diferenças em situações onde não se acreditaria que poderia florescer alternativas interessantes. São interessantes justamente porque lidam com a existência para além das idealizações, criam estratégias para escapar das retificações, mas para sobreviver e não para superfaturar a idéia de vida. São alternativas para
172 sobreviver sem a proteção da cidadania clássica que não os inclui. Na verdade criam manchas de cidadania, cidadanias falsificadas, partes de cidadania. O Socorro da Alegria: grátis, nas ruas
Alagamento na região do Minhocão, em São Paulo. Foto Marcelo Min
Um mau humor totalitário me tomava por completo numa tarde ensolarada na rua 25 de março. Eu desbravava, à força de cotoveladas, as calçadas lotadas com o único objetivo de comprar um tecido e voltar correndo para o estúdio de T.V, a fim de evitar mais uma madrugada em claro, montando uma cenografia difícil. Andando vigorosamente, de cabeça baixa, não olhava nada nem ninguém.
De repente ouço uma voz forte acompanhada de um cheiro pestilento e imediato. Olhei para frente e a menos de dois passos estava um mendigo muito alto, escuro, fedido e esfarrapado, de braços abertos para mim, repetindo: vem cá, me dá um abraço!!!
Abaixei rapidamente, passei por baixo daqueles braços enormes, e quando olhei para trás ele sorria com dentes inacreditavelmente brancos, destoantes da sua sujeira ancestral. Ele disse: ah, não foi dessa vez!
Seria ele um anjo ou escapei do abraço da morte? O fato é que sorri e o mau humor foi embora. Olhei em volta e os seguranças de porta de loja, os desviantes do mau cheiro do meu anjo, todos prontos para testemunhar o abraço, sorriram também...
173 O estranho é que, entretanto, a alegria permanece, embora suspensa em nada e privada de qualquer base. E é esse extraordinário privilégio da alegria: essa aptidão para perseverar quando sua causa é ouvida e condenada, essa arte quase feminina de não se render à razão alguma, de ignorar alegremente tanto a adversidade mais manifesta quanto a contradição mais flagrante. Pois a alegria, tal qual a feminilidade, permanece indiferente a qualquer objeção. (ROSSET, 2000, p. 8)
Nas formas de existir dos moradores de rua, dos sem teto e dos ambulantes, falar do acontecimento da alegria não é uma ilusão apaziguadora das culpas sociais, nem é ingenuidade acreditar nas suas manifestações. Embora nesses contextos a crueldade da vida se sobreponha a todo o resto, a alegria se dá não importa onde, excêntrica aos mecanismos de captura capitalista do desejo e de ilusões idealizadas de mundos sem sobressaltos. Entretanto a alegria se apresenta em condições inconcebíveis e é inclemente contra tudo aquilo que desaprova a vida. Seu paradoxo vital é a capacidade de compor-se com o trágico. A alegria conecta-se com o trágico, cuja presença é paradoxalmente necessária e invariavelmente ignorada para que a alegria aconteça. ―Rimos porque sabemos que vamos morrer‖. (PINHEIRO, 1994)
O humor que interessa, segundo Pinheiro, é o riso do traído, cujas convicções foram subitamente canceladas e não tem outra coisa a fazer além de conviver com a crise do descentramento. Este riso é o flagrante da nossa desproteção diante do estranho com o qual ainda não entramos em relação. Desta forma os discursos oficiais e o consenso se desnaturalizam e tornam-se novamente estranhos.
(...)só há comunicação dialógica e diferencial se nela está contida algum elemento de choque pelo riso, de consciência binária em fricção, de morte. Só se pode educar, só se pode informar com a morte, pois ela aparece sempre que qualquer setor do que pretendíamos como natureza é abalado. (PINHEIRO, 1994, p. 35 - 40)
Onde não há contraste a alegria se amorna. Pinheiro diz que o riso crísico é a festa de quem sabe que vai morrer. Este é o riso que festeja a vida da alegria sem pretensão nem ironia. A ironia deseja-se superior àquele do qual se distancia. O humor não se localiza nas causas, mas nos efeitos, sem jogos de palavras, mas criador de acontecimentos.
174 Fim de expediente, ainda dá tempo.