1. REFLEKSJON OM EIGEN PRODUKSJON
2.1. B ILDESKAPANDE LYD I RADIODOKUMENTAREN
176
Descontração de fim de expediente. Fotos Marcelo Min
177 Conclusões
Meninos no centro de São Paulo. Foto Marcelo Min
Custamos a nos livrar da idéia de que todo sistema possuiria uma espécie de estabilidade original a que ele tenderia inexoravelmente. (GRUZINSKI, 2001, p. 59)
Há décadas observamos a luta pela revitalização do centro histórico da cidade de São Paulo. Porém, na última gestão da prefeitura, a revitalização tornou-se uma bandeira, uma luta com a assinatura pessoal do prefeito. Seu projeto de centro histórico para a região da Luz enquadra-se nos modelos neoliberais de cidade, que transformarão a região num parque cultural, recebendo investimentos de empresários da construção civil e distribuindo concessões de comercialização, de negociação direta das desapropriações, etc. Foram feitos inclusive seminários com urbanistas estrangeiros responsáveis por uma revitalização similar, a de Barcelona, que, segundo alguns urbanistas espanhóis, foi um ―urbanicídio‖.
A região da Luz é ocupada por populações não só não previstas na agenda neoliberal como indesejáveis para qualquer governo. São as populações de rua e os consumidores de crack; por isso a região é conhecida
178 como cracolândia70. O que vemos a prefeitura empreender na região é uma verdadeira cruzada, não contra as drogas e a exclusão, mas contra os ―drogados‖. Apesar das incursões midiatizadas de ação policial na região, não só a cracolândia persistiu, como houve a dispersão dos consumidores de crack pelo centro, alcançando bairros de classe alta como Higienópolis.
O projeto de revitalização avança e empaca, recua e avança novamente. E este movimento incerto começou a incomodar os investidores, que por enquanto tiraram a mão do bolso, mas não o olho.
Verificamos que o paradoxo da simultaneidade entre dominação e emancipação, liberdades e autoritarismos é um traço constante na história do nosso continente e que se torna materialmente presente nas cidades. Atualmente observamos que o neoliberalismo submete às leis intransigentes do mercado financeiro questões do desenvolvimento social, tais como a habitação social. Este processo induz à definição de cidadania a partir da capacidade de inclusão no mercado de trabalho e de consumo, fato que aumenta muito a segregação entre quem está dentro e fora do sistema financeiro. E, justamente através da segregação, o neoliberalismo alimenta o aumento da informalidade, tanto para aqueles que precisam sobreviver sem cidadania como para aqueles que aproveitam-se da ausência do Estado como centro para tirar vantagens, tais como concessões de uso do solo, privatizações, etc. Portanto, a informalidade não é apenas fruto da pobreza social, mas um mecanismo que facilita apropriações quando o poder central é fraco, no sentido de não ser densamente determinante, de ter brechas e vazios que podem ser ocupados por vetores de força alertas às possibilidades.
O exemplo da luta entre a prefeitura e os meninos da cracolândia é uma ilustração de um caso de insubordinação radical às estriagens do Estado, mesmo sob a saturação da vigilância que os governos empreendem. Tanto quanto a favela Vila Praia e a rua 25 de março, que analisamos no terceiro capítulo.
70 Antes da revitalização a região era ocupada pelas prostitutas que faziam ponto na Estação
da Luz. Hoje em dia, apesar da existência da prostituição, a cracolândia é a irregularidade que mais chama atenção da mídia.
179 Quanto mais os dispositivos se difundem e disseminam o seu poder em cada âmbito da vida, tanto mais o governo se encontra diante de um elemento inapreensível, que parece fugir... (AGAMBEN, 2009, p. 50)
Agamben nos mostra que a insubordinação não nos dá a esperança de uma revolução, nem nos indica um modo de frear a máquina governamental, mas, para o autor (2009, p. 51), o ingovernável ―é o início e o ponto de fuga de toda a política‖. Na América Latina, elementos de ingovernabilidade e governabilidade se mesclam, num trânsito alucinado entre profanações e institucionalizações.
Quando analisamos as arquiteturas modernistas através do edifício Copan em São Paulo e do Edifício Pedregulho no Rio de Janeiro, já as compreendemos como o resíduo, embora ativo, de um sistema estético-político que já não emana forças do ―centro‖ para as ―margens‖, do idealizado para o vivido. Se o modernismo ainda reverbera, é através de vestígios, ora através de um piloti, ora através de um fragmento da promenade architectural. Portanto, o que o modernismo entabula com o informal nestes dois edifícios é uma conversa, mas entre margens - nenhum é determinante sobre o outro.
No entanto, o que talvez interesse mais aqui seja demonstrar como essa experiência restabelece o vínculo do homem com o mundo. Não se trata de um outro mundo, de um além do mundo, mas deste mundo, o nosso mundo... (LEVY, 2003, p. 92 - 93)
Assim como verificamos que o trânsito dialógico entre o formal e o informal está definitivamente incorporado nas urbanidades de cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, entendemos que estas hipóteses poderão ser verificadas, com variáveis desejáveis, em outras cidades da América Latina, ou até mesmo em cidades de países de cultura que tendam ao aberto, tais como a Turquia e a Grécia, recentemente incluídas no bloco da União Européia, portanto sujeitas a novos poderes em jogo. Acreditamos que a continuidade deste trabalho se daria no sentido de verificar nódulos tradutórios entre as exigências do capitalismo avançado e vetores culturais já instalados e em relação nestes territórios, além de estender a verificação do barroco como
180 ferramenta analítica em espaços comunicacionais da cidade que exijam sintaxes complexas.
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