1. REFLEKSJON OM EIGEN PRODUKSJON
2.5. A VSLUTNING
O pensamento de Plotino foi sistematizado por seu discípulo Porfírio, em
cinqüenta e quatro tratados, dispostos em seis grupos, cada qual de nove tratados. Daí
porque a obra de Plotino recebeu o nome de Enéadas (ou grupos de nove tratados).
As Enéadas resultam de um agrupamento, realizado por Porfírio, de tratados
afins quanto à matéria tratada, não refletindo a ordem cronológica de sua composição,
tal qual levada a efeito por Plotino. As discordâncias do licopolitano, com relação aos
gnósticos que ele conheceu (provavelmente os sethianos) encontram-se expressas em
um grande libelo que foi cindido, por Porfírio, em quatro tratados distintos, quais sejam,
III, 8, V, 8, V, 5 e II,9, este último, intitulado “Contra os gnósticos”, se constituindo em
uma síntese de tais divergências.
Em homenagem ao didatismo, cumpre elencar as Enéadas e os tratados que as
compõem (QUILES, 1981, p. 15-16). Assim:
Primeira Enéada (tratados que se referem à ética):
Primeiro tratado: Sobre o animal e o homem; Segundo tratado: Sobre as virtudes;
Terceiro tratado: Sobre a dialética; Quarto tratado: Sobre a felicidade; Quinto tratado:
Se a felicidade aumenta com o tempo; Sexto tratado: Sobre o Belo; Sétimo tratado:
Sobre o Primeiro Bem e os demais bens; Oitavo tratado: Sobre a origem dos males;
Segunda Enéada (tratados que se referem à física,
sobretudo acerca do mundo e dos problemas que lhe são
comuns):
Primeiro tratado: Sobre o céu; Segundo tratado: Sobre o movimento do céu; Terceiro
tratado: Sobre o Influxo dos astros; Quarto tratado: Sobre a matéria; Quinto tratado:
Sobre a potência e o ato; Sexto tratado: Sobre a essência; Sétimo tratado: Da mescla
total; Oitavo tratado: Sobre a visão; Nono tratado: Contra os gnósticos25.
Terceira Enéada (tratados sobre o mundo e temas com ele
relacionados):
Primeiro tratado: Sobre o destino; Segundo tratado: Sobre a Providência, I; Terceiro
tratado: Sobre a Providência II; Quarto tratado: Sobre o daimon que nos tocou; Quinto
tratado: Sobre o amor; Sexto tratado: Sobre a impassibilidade dos incorpóreos; Sétimo
tratado: Sobre a eternidade e o tempo; Oitavo tratado: Sobre a contemplação; Nono
tratado: Considerações várias.
Quarta Enéada (tratados sobre a alma):
Primeiro tratado: Sobre a essência da alma, I; Segundo tratado: Sobre a essência da
alma II; Terceiro tratado: Aporias sobre a alma I; Quarto tratado: Aporias sobre a alma
II; Quinto tratado: Aporias sobre a alma III; Sexto tratado: Sobre a sensação; Sétimo
tratado: Sobre a imortalidade da alma; Oitavo tratado: Sobre a descida da alma no
corpo; Nono tratado: Se todas as almas são apenas uma.
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Os títulos em negrito referem-se aos tratados que compõem a denominada “tetralogia antignóstica”. Inicialmente, cuidava-se de um longo e único libelo no qual Plotino criticava algumas da idéias professadas pelos gnósticos com os quais ele travou contato. Porfírio, ao organizar os ensinamentos de seu mestre, na forma de Enéadas, desmembrou, o referido libelo, nos quatro tratados em destaque.
Quinta Enéada (tratados acerca da inteligência, bem como
da realidade que está além da inteligência):
Primeiro tratado: Sobre as três hipóstases; Segundo tratado: Sobre a gênese e a ordem
do que se segue ao Primeiro Princípio; Terceiro tratado: Das hipóstases que conhecem e
da transcendência do ser; Quarto tratado: Sobre o que procede do Primeiro Princípio;
Quinto tratado: Que os Inteligíveis não estão fora do Intelecto; Sexto tratado: Que
aquilo que transcende ao ser não pensa; Sétimo tratado: Sobre se há idéias dos seres
particulares; Oitavo tratado: Sobre a beleza inteligível; Nono tratado: Sobre o
Intelecto, as Idéias e o ser.
Sexta Enéada (tratados sobre o ser, os números, as idéias e
o Um):
Primeiro tratado: Sobre os gêneros do ser, I; Segundo tratado: Sobre os gêneros do ser
II; Terceiro tratado: Sobre os gêneros do ser III; Quarto tratado: Que o Uno está em
todas as partes I; Quinto tratado: Que o Uno está em todas as partes II; Sexto tratado:
Sobre os números; Sétimo tratado: Origem da multiplicidade das coisas; Oitavo tratado:
Sobre a liberdade e a vontade do Uno; Nono tratado: Sobre o Bem e o Uno.
Giovanni Reale (1994c, p. 425-426), estabelece seis eixos que perpassam as
Enéadas e em torno dos quais gravita o pensamento plotiniano, a saber:
• A nítida distinção entre mundo sensível e mundo inteligível, ser corpóreo e ser incorpóreo;
• A teoria das Três Hipóstases, segundo a qual o incorpóreo é formado pelas três hipóstases, quais sejam, o Uno, o Nous e a Psyché, ou Alma;
• A teoria da Processão26
das Hipóstases, através da qual o grau mais elevado
produz o mais baixo, sem se diminuir, apequenar ou empobrecer, daí decorrendo
que a segunda Hipóstase deriva da primeira, e a terceira provém da segunda; • A matéria sensível não constitui, por si mesma, um princípio subsistente, mas
derivado da última das hipóstases, daí decorrendo que o mundo sensível é
inteiramente deduzido do supra-sensível;
• Tudo está no Uno, e o Uno está em tudo; igualmente, cada uma das hipóstases inferiores está na superior, sendo produzida e sustentada por esta, de sorte que
não somente as hipóstases supra-sensíveis encontram-se unificadas, mas,
também, o mundo corpóreo e estreitamente envolvido pelo incorpóreo;
• Já que tudo procede do Princípio Primeiro, nada lhe é estranho, disto decorrendo ser possível o retorno ao mesmo Princípio, isto é, uma reunificação plena e total,
do homem, ainda em vida, com Ele, através da união mística e do êxtase; mercê
desta realidade, o ser humano pode, desprendendo-se do mundo exterior, entrar
nos abismos mais profundos de si mesmo, onde se encontra o Eu verdadeiro, a
alma (que, deriva do Espírito, o qual, por sua vez, deriva do Uno) e, assim,
retornar ao Princípio Primeiro.
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Tal teoria é denominada, geralmente, “emanatismo”. Entretanto, para Giovani Reale (1994c, p. 525- 528), a metafísica plotiniana não pode ser assim designada, porque, no emanatismo: a) as coisas fluem da substância do Primeiro Princípio, de modo que tal movimento implica no fluxo da própria substância de tal Princípio, enquanto que, em Plotino, as hipóstases subseqüentes ao Uno não se mostram como um fluxo da substância do Uno; b) em tal fluir da substância do Princípio, ocorre uma despotencialização gradual e sucessiva da própria substância, de modo que, neste processo, embora o Princípio se mantenha hígido e inexaurível, o fluxo vai perdendo a sua força, na medida em que se afasta do Princípio; já na processão, tal qual a concebeu Plotino, as hipóstases não se mostram como substância despotencializada do Uno, já que todas as coisas derivam e dependem da potência do Uno, não coincidindo, porém, com a substância Dele; c) o fluir caracteriza-se como uma necessidade física, independente da vontade e da razão; a processão, por outro lado, tendo em vista sua complexidade não se ajusta bem à condição de mera “ação natural”, não implicando, todavia, em um ato de criação, nos moldes cristãos, mas em um tipo de “necessidade” muito especial.
Neste rol de características fundamentais do pensamento plotiniano, emergem,
como criações realmente originais do licopolitano, a existência de três – não mais nem
menos – hipóstases. Isto porque, se por um lado, nos séculos I e II de nossa era, por
influência das escolas filosóficas que precederam o Neoplatonismo, já era usual a
estruturação do Inteligível em hipóstases, na época de Plotino, os grupos gnósticos
defendiam a existência de muitas destas, no âmbito da hierarquia do Incorpóreo; para os
valentinianos, por exemplo, havia não menos do que trinta hipóstases. Portanto, a
preocupação de Plotino não foi a de demonstrar a existência de uma hierarquia no
mundo superior (o que já era voz corrente na época), mas, sim, que as hipóstases eram
três (o Uno, o Nous e a Psyché) e não mais. A outra novidade trazida por Plotino foi a
teoria da processão, vale dizer, a explicação de como ocorre a derivação, de “cima” para
“baixo” das hipóstases, isto é, o modo pelo qual, da primeira hipóstase, procedem as
posteriores, e da última delas, provém o mundo sensível.
Afigura-se oportuno observar que a salvação da alma é o tema maior de Plotino,
já que esta é, para ele, a tarefa sublime a qual deve se dedicar o ser humano. A
epistrophê - o retorno ao Uno - é, assim, tratada, sob os mais diversos vieses no correr das Enéadas e não apenas nos tratados que compõem a denominada “tetralogia
antignóstica”.