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R ELASJONER

In document Ledelse av prosjekter (sider 25-30)

“Desinventar objetos. O pente, por exemplo. Dar ao pente funções de não pentear. Até que ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou uma gravanha. Usar algumas palavras que ainda não tenham idioma.”

Manoel de Barros96

A produção desta Tese abriga-se em uma abordagem qualitativa, compreendendo o qualitativo como uma análise dos sentidos que se produzem nas práticas, em engendramento no plano comum da vida, no cotidiano da realidade.

O sentido é a virtualidade que pulsa nas ações, é processualização da vida e atravessa o significado, uma vez que está na ordem das intensidades. Desse modo, o desafio dos pesquisadores é ir além do reconhecimento das representações estabelecidas na comunidade investigada, dos consensos que dão forma e apresentam a vida como uma estrutura definida nos seus valores, produções e expectativas. O qualitativo refere-se, então, à possibilidade de recuperar as histórias dos movimentos dessa comunidade, sendo percebido no plano dos conflitos, nas divergências, nas ações que fazem diferença, que facultam a produção de sentidos outros, frente ao hegemônico, pa ra um futuro indetermina do. (ROCHA; AGUIAR, 2003, p. 66, grifos meus).

Os sentidos são tomados “[...] como campos de força, enquanto os significados estão mais relacionados à forma, a um conjunto representacional.” (BARROS, 2014, p. 109). Daí a pertinência do uso da cartografia para guiar a produção desta Tese.

Diferente do método da ciência moderna, a cartografia não visa isolar o objeto de suas articulações históricas nem de suas conexões com o mundo. Ao contrário, o objetivo da cartografia é justamente desenhar a rede de forças à qual o objeto ou fenômeno em questão se encontra conectado, dando conta de suas modulações e de seu movimento permanente. (BARROS; KASTRUP, 2014, p. 57, grifos meus).

Martines, Machado e Colvero (2013) afirmam a cartografia como um método relativamente novo quanto ao seu uso na pesquisa qualitativa no Brasil, apontando-a como inovação para a produção de conhecimento na área da saúde.

Passos, Kastrup e Escóssia (2014b), ao traçarem alguns movimentos, como a elaboração de livros, os trabalhos de grupos de pesquisa, entre outros, mapeiam os processos experimentados em torno da cartografia, destacando a ampliação desse debate no campo da pesquisa sobre as práticas de gestão e de cuidado em saúde. Esses autores apontam que o

método da cartografia se apresenta “[...] como alternativa importante para acompanhar o movimento da reforma sanitária brasileira e as lutas macro e micropolíticas para a produção de políticas públicas no Brasil”. (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2014b, p. 12).

Além de possibilitar a produção de saberes e práticas no campo da Saúde Coletiva, a cartografia é adotada como um método não restrito a um fazer metodológico, mas que se desenha em atos e posicionamentos no plano cotidiano de produção da vida, pela experimentação do real. Segundo Passos, Kastrup e Tedesco (2014b, p. 9),

[...] o método da cartografia se ancora em uma compreensão da cognição inventiva e em uma política cognitiva criadora, reafirmando seu afastamento da abordagem teórica e da política cognitiva da representação de um mundo supostamente dado. Nesta direção, o método cartográfico não se define pelos procedimentos que adota, mas é uma atividade orientada por uma diretriz de natureza não propriamente epistemológica, mas ético-estético-político. (Grifos meus).

Portanto, em abandono de qualquer perspectiva de neutralidade acadêmico- científica. Trata-se, para mim, de um certo modo de existência, de compor e de me relacionar com os sujeitos, as instituições, os processos em curso, por isso, também, teórico-metodológico em produção da vida e, nela, o ato de pesquisar.

Novos modos de pesquisar, possibilitando outras formas não só de ver-dizer, mas de se inventar, de se inovar, de se constituir. Nas palavras em poesia de Barros (1993), dar ao pente funções de não pentear, até que ele vire begônia; usar palavras que ainda não tenham idiomas. Um processo de produção de si, de diferenciação de si, pela potência de mutações constantes nas experiências reais.

Como método, a cartografia "[...] visa acompanhar um processo e não representar um objeto [...] trata-se sempre de investigar um processo em produção". (KASTRUP, 2014, p. 32, grifos meus).

Trago de novo para a cena a produção de Deleuze e Guattari e a perspectiva da cartografia como possibilidade de aproximação analítica aos espaços concretos de produção. Isso se faz a partir de um trabalho cartógrafo, que busca produzir mapas, busca seguir as linhas e as conexões, para permitir ampliar a visibilização dos territórios existentes, procurando ao mesmo tempo escapar deles. Os mapas que o cartógrafo rabisca nesse caso pretendem produzir visibilidade às expressões de ações e manifestações da subjetividade interrogada. (FEUERWERKER, 2014, p. 31-32).

Ora, para traçar os mapas, as cartografias, o diagrama das forças que atuam nos espaços concretos da regionalização da saúde, no duplo gestão e cuidado, como pretendido neste estudo, era necessário mergulhar e experimentar a produção regionalizada do SUS,

delineando o acompanhamento de sua processualidade. “Conhecer o caminho de constituição de um dado objeto equivale a caminhar com esse objeto, constituir esse próprio caminho, constituir-se no caminho. Esse é o caminho da pesquisa-intervenção.” (PASSOS; BARROS, 2014, p. 31).

Concordamos com Kastrup (2008) ao afirmar que o método cartográfico é um método geográfico e transversal. A ideia de uma pesquisa -intervenção associada a uma cartografia traz consigo a noção de território como algo movente, permanente tornar- se e desfazer-se pontuado por Haesbaert (2006). Esse deslocamento assíduo entre territorializar, desterritorializar e reterritorializar não se coloca em oposição binária ou em uma lógica contraditória, mas são modos contínuos de se estabelecer, de funcionar. É preciso salientar que a desterritorialização não é o ponto de chegada, mas faz parte de um processo de criação de novos territórios. Nesse sentido, o transversal corresponde ao atravessamento de linhas, forças, vetores, que desestabilizam determinado território e podem derivar em agenciamentos coletivos. (PAULON; ROMAGNOLI, 2010, p. 96-97, grifos meus)

Dessa forma, aliada a cartografia, a perspectiva da pesquisa-intervenção mostrou- se potente às questões como: a experimentação do território em sua qualidade real, movente e processual; a possibilidade de afetação pela realidade em engendramento, pelos sujeitos que a constituem e são por ela constituídos em relação; a interrogação das instituições, suas tecnologias, estratégias, procedimentos e instrumentos em operação; a problematização das relações de saber-poder em exercício e das práticas discursivas e não discursivas na produção real do SUS.

Como prática desnaturalizadora , o que inclui a própria instituição da análise e da pesquisa, as estratégias de intervenção terão como alvo a rede de poder e o jogo de interesses que se fazem presentes no campo da investigação, colocando em análise os efeitos das práticas no cotidiano institucional, desconstruindo territórios e facultando a criação de novas práticas. Procedemos, desse modo, à crítica ao estatuto da Verdade, interpelando o poder das teorias, das organizações e das formas constituídas no que tange ao conhecimento e às relações sócio-institucionais, frente à realidade complexa e diferenciada. (ROCHA; AGUIAR, 2003, p.71, grifos meus).

Assim, o desafio posto era o de traçar os mapas das (in)visibilidades que se punham nas linhas de forças, em atuação e atravessamentos nos territórios percorridos, nos lugares da regionalização da saúde habitados. Como desnaturalizar os modos instituídos e tomados como verdadeiros nos processos de gestão e de cuidado em saúde regionalizados?

Uma das pistas cartográficas é a de tomar a experiência como

[...] como um saber-fazer, isto é, um saber que vem, que emerge do fazer. Tal primado da experiência direciona o trabalho da pesquisa do saber-fazer para o fazer-saber, do saber na experiência a experiência do saber. (PASSOS; BARROS, 2014, p.18, grifos meus).

Rocha e Aguiar (2003, p. 71), ao destacarem alguns aspectos centrais que vêm orientando o desenvolvimento da pesquisa-intervenção, indicam a

[...] mudança de parâmetros de investigação no que tange à neutralidade e à objetividade do pesquisador, acentuando-se o vínculo entre gênese teórica e social, assim como a produção concomitante do sujeito e do objeto, questionamento dos especialismos instituídos, ampliando as análises do nível psicológico ao microssocial [...] ênfase na análise da implicação, acentuando-se que, para além dos vínculos afetivos, profissionais ou políticos, a análise se realiza com as instituições que atravessam o processo de formação.

Assim, a aliança entre a cartografia com a pesquisa-intervenção e uma análise da implicação mostrou-se bastante procedente e frutífera na composição teórico-metodológica desta Tese. A análise de implicação pelo fato de não só questionar as práticas institucionais, mas também por potencializar uma análise do percurso implicado do sujeito-pesquisador, no meu caso, meu entrelaçamento político-profissional com o SUS, conforme delineado na Introdução desta Tese.

Permeando tais perspectivas teórico-metodológicas, a cartografia, a pesquisa- intervenção e a análise de implicação, retomo alguns pressupostos já delineados, os quais se constituem como os acentos, por onde pouso e constituo esta trajetória de pesquisa: a inexistência da neutralidade dita científica; toda pesquisa é intervenção; o acompanhamento de processos em produção na realidade; a problematização da dicotomia da relação sujeito-objeto, assumindo a interação producente entre sujeito-objeto, onde ambos são fabricados e afetados no ato de pesquisar e de intervir na realidade, sem hierarquia de um sobre o outro; a não dissociação entre a produção de saberes e práticas e a transformação da realidade, concebendo que tal produção acontece em um plano de imanência; e a adoção do posicionamento de pesquisar com e não sobre algo, conforme Moraes (2014).

Quando já não nos contentamos com a mera representação do objeto, quando apostamos que todo conhecimento é uma transformação da realidade, o processo de pesquisar ganha uma complexidade que nos obriga a forçar os limites de nossos procedimentos metodológicos. O método, assim, reverte seu sentido, dando primado ao caminho que vai sendo traçado sem determinações ou prescrições de antemão dadas. (PASSOS; BARROS, 2014, p. 30-31, grifos meus).

Dessa forma, tomo a cartografia como um método ad hoc (Kastrup, 2014), não dado a priori. Um método cuja aplicação desenha-se pela inversão metodológica, um hódus-metá onde o caminho percorrido contribui para a proposição das metas da pesquisa (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2014a; 2014b).

Não podemos, pois, dizer que todo método antecipa o caminho a trilhar, mas podemos dizer que todo caminho traçado a priori impõe, sim, um olhar objetificante, porque ao tentar antecipar alguma ação/conclusão reduz a sensibilidade do olho do pesquisador, impede-o de captar aquilo que se apresenta como inusitado. Com isto estamos afirmando que o que não pode faltar nem à modalidade de pesquisa-intervenção, nem ao método cartográfico aqui discutidos é o compromisso ético-estético com a vida – paradigma da esquizoanálise – e o exercício de análise de implicação do pesquisador

– ferramenta da análise institucional. (PAULON; ROMAGNOLI, 2010, p. 98).

Na construção metodológica desta Tese, e mais especificamente, na minha entrada no campo da pesquisa, nos lugares da regionalização da saúde, mantive-me aberta à positividade dos improvisos e das mudanças de rumo, compreendendo tal abertura como um diálogo com as situações, os sujeitos, as instituições, os jogos de verdade, as relações de saber- poder, enfim, com tudo aquilo que se tecia no real, através dele, com ele e a partir dele. Uma produção forjada em imanência, assim, sem possibilidade de a priori, mas em tecitura do real, pelo presente em experimentação.

Na sequência, passo a debulhar o caminho experimentado-construído, ele mesmo, como uma cartografia que mapeia e faz parada nas questões metodológicas relacionadas ao desenvolvimento do campo da pesquisa, as problematizações suscitadas e as produções possíveis.

4.3 O caminho metodológico percorrido-construído: a experimentação positiva do

In document Ledelse av prosjekter (sider 25-30)