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M ETODER OG TEKNIKKER

In document Ledelse av prosjekter (sider 21-25)

“Colocar lado a lado pesquisador e pesquisado, sujeito e objeto, sujeito e sujeito, pesquisa e mundo considerando a força da interpelação e perturbação

que esta atitude inclusiva provoca. Fazer de tal lateralidade menos um antagonismo do que a agonística que nos anima e força a pensar”.

Eduardo Passos, Virgínia Kastrup e Sílvia Tedesco95.

A ciência moderna assenta-se na separação entre o ‘sujeito dito cognoscente’ e o objeto de estudo, pressupondo entre ambos uma hierarquização e dominação do primeiro pelo segundo; uma relação que requer neutralidade - um despir-se de si - para que o sujeito- pesquisador possa demonstrar e validar seus ‘achados’, aproximando-os cada vez mais de leis e conceitos universais, comprovando, assim, sua veracidade cientifica. É a proposição do conhecimento como construção da verdade.

A neutralidade científica é cara ao positivismo, que toma em seus pressupostos a ideia apresentada por Francis Bacon, retomada por Pereira (2001), na “Indução para o

conhecimento e o conhecimento para a vida prática: Francis Bacon”. Bacon (apud Pereira, 2001), ao falar sobre as noções falsas impeditivas do alcance da verdade e da produção de um conhecimento útil para o homem, caso ele se deixe levar por seu impulso natural, aponta para quatro tipos de erros, que ele denomina de ídolos, entre eles, o da caverna.

O ídolo da caverna refere-se aos erros decorrentes do uso de referenciais teóricos, culturais, crenças, valores, hábitos, enfim, a formação do estudioso e suas características pessoais, que influenciam na elaboração do conhecimento, quando da adoção de uma abordagem determinada sobre seu objeto de estudo.

94Para abordar a neutralidade científica retorno às discussões propiciadas pela disciplina “Fundamentos da Epistemologia da Saúde Coletiva”, reverberando o percurso cartográfico vivenciado para e na produção desta Tese. Esta disciplina foi ofertada pelo Doutorado em Saúde Coletiva, da Universidade Federal do Ceará, ministrada pelo Professor Doutor Ricardo José Soares Pontes.

Preconiza, então, a neutralidade científica, onde o pesquisador para a construção do conhecimento dito verdadeiro e útil deve se manter neutro, em hierarquia e mando sobre o seu objeto de estudo. Assim, a verdade, busca central e necessária à ciência moderna, impõe a condição da neutralidade científica, determinando a separação entre sujeito e objeto de estudo.

A dicotomia presente na relação sujeito-objeto é constituída pela tradição filosófica ocidental, cujo discurso é construído “[...] desde a supervalorização do sujeito, como no racionalismo de Descartes, até a objetivação característica do empirismo lógico”. (MIRANDA, 2005, p. 30).

Não seria o discurso da neutralidade científica uma certa norma para determinar

o justo e o correto caminho, a ser seguido na produção do conhecimento reconhecido como verdadeiro?

Stengers (1993 apud Barros e Kastrup, 2014, p. 54) aponta que

[...] a ciência moderna emerge como uma invenção singular, configurando-se de determinada maneira e portando como uma de suas principais características a separação entre o objeto científico e o cientista [...] a distinção entre sujeito e objeto existe para garantir que o saber produzido possa ser validado de modo coletivo pela comunidade científica.

Mais adiante, ainda com base em Stengers (1993), Barros e Kastrup (2014) destacam que “[...] o dispositivo experimental, concebido para realizar a separação entre sujeito e objeto, surge como dispositivo político, operando a hierarquização das invenções, ou, antes, convertendo uma delas na única representação legítima do fenômeno em questão” (p. 55, grifos meus).

A neutralidade e a separação entre sujeito e objeto de estudo são forjadas em um discurso, tornando-as condições sine qua non na construção do conhecimento dito e reconhecido cientificamente como verdadeiro. Araújo (2007, p. 9), discorrendo acerca do discurso, segundo abordagem foucaultina, registra não haver “[...] enunciado neutro, ele funciona e toma efeito numa prática discursiva que é prestigiada, em geral, pelo fato de produzir verdade. Verdade, por sua vez, especialmente na modernidade, é a da ciência”.

Porém, sendo o discurso da neutralidade científica uma produção, há que se reconhecer a possibilidade de outros enunciados, que rompam com esta lógica cristalizada e hegemonizada, mediante tensionamentos constituídos por outras perspectivas teórico-

Passos e Barros (2014, p. 30), ao construírem as pistas do método cartográfico, defendem que toda pesquisa é intervenção, apontando para a exigência de o cartógrafo mergulhar

[...] no plano da experiência, lá onde conhecer e fazer se tornam inseparáveis, impedindo qualquer pretensão à neutralidade ou mesmo suposição de um sujeito e de um objeto cognoscentes prévios à relação que os liga. Lançados num plano implicacional, os termos da relação de produção de conhecimento, mais do que articulados, aí se constituem. Conhecer é, portanto, fazer, criar uma realidade de si e do mundo, o que tem consequências políticas. (PASSOS; BARROS, 2014, p. 30, grifos meus)

Nessa mesma linha de discurso, Stengers (1993 apud Barros e Kastrup, 2014, p. 54, grifos meus), afirma que “[...] a experimentação, enquanto prática singular, não pressupõe, mas cria a diferença entre sujeito e objeto. Trata-se, então, de uma distinção prática, e não filosófica. Sujeito e objeto não são categorias transcendentais, mas configurações históricas”.

Nessa perspectiva, a cartografia se coloca como possibilidade conceitual e metodológica, provocando tensionamentos e linhas de fuga para novos modos de produção de saber, onde sujeito e objeto não estão dados a priori, mas se constituindo em relação quando da “experimentação do real”.

Na Apresentação do livro “Pistas do Método da Cartografia - Pesquisa-

intervenção e produção de subjetividade”, Passos, Kastrup e Escóssia (2014b) indagam sobre como conceber a direção metodológica em um sistema acêntrico, considerando que a cartografia, como um princípio rizomático (Deleuze e Guattari, 2011), coloca-se com múltiplas entradas? A isto respondem que:

A metodologia, quando se impõe como palavra de ordem, define-se por regras previamente estabelecidas. Daí o sentido tradicional de metodologia que está impresso na própria etimologia da palavra: metá-hódos. Com essa direção, a pesquisa é definida como um caminho (hódos) predeterminado pelas metas dadas de partida. Por sua vez, a cartografia propõe uma reversão metodológica: transformar o metá-hódos em hódos-metá. Essa reversão consiste numa aposta na experimentação do pensamento – um método não para ser aplicado, mas para ser experimentado e assumido como atitude. (PASSOS; KASTRUP; ESCÓSSIA, 2014b, p. 10-11, grifo dos autores).

Apostar nesta experimentação do pensamento, leva-me a traçar as noções teórico- metodológicas do fazer-saber cartográfico em perspectiva de um hódos-metá.

4.2 O fazer-saber da cartografia: potência de invenção no ato de mapear relações de saber-

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