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2. THEORETICAL BACKGROUND

2.1 R ADICAL I NNOVATION

Com o objetivo de construir um projeto temático que abarcasse todo o conteúdo desenvolvido nas oficinas anteriores, foi preciso construir um caminho para que os participantes obtivessem um grau cada vez maior de envolvimento e consciência de suas produções, que seriam relacionadas com o projeto. O ponto de chegada deste percurso foi formar um grupo coeso com todos envolvidos em um trabalho conjunto, e o caminho para chegar a este estágio consistiu nas propostas de percepção, expressão e improvisação, em que se utilizaram movimentos corporais.

O que também contribuiu para o envolvimento dos participantes, tanto nas propostas corporais no projeto final, foi a criação, em todas as oficinas, de um espaço lúdico, no qual cada participante do grupo colocasse sua singularidade, criando novas formas de interação com o conteúdo musical e sonoro, inventando maneiras de atuar nas brincadeiras e jogos, modificando algumas regras e acrescentando, ás atividades, conotações de brincadeira de “Faz-de-conta”.

3.8.1CORPO:PERCEPÇÃO,BRINCADEIRA EOBJETO SONORO

As propostas com movimentos do corpo e percepção foram trabalhadas a partir de sons e músicas executadas pelo grupo e da escuta de CDs.

Estas atividades tinham a função de possibilitar aos clientes a percepção e vivência de variações de freqüências, contorno melódico, intensidades, timbres e ritmos. Ao trabalho corporal e de percepção destes parâmetros, também deveria ser acrescentado um conteúdo imaginário; era preciso fazer os participantes perceberem a história contada pelas músicas, na qual são representados fatos e eventos que fazem parte da vida das pessoas, tais como paisagens, sentimentos, caminhos e acontecimentos no tempo e no espaço. A partir desta conclusão, trabalhou-se em uma proposta muito importante para a construção do projeto final “Sons de uma Viagem de trem”. Esta proposta desenvolveu-se a partir da música

“Trenzinho do caipira”, de Heitor Villa-Lobos, que evoca uma viagem de trem.

A primeira atividade foi ouvir a música. Os participantes já sabiam que se tratava de um trem e procuraram imaginar o trem, a paisagem, o percurso, com o auxílio da própria música. Foram enfatizadas, com os participantes, as diferenças de clima, intensidade, andamento, e outros fatos musicais que pudessem ser percebidos por eles. Assim, eles perceberam a diminuição de andamento, o aumento da intensidade e a densidade da música. Sugeriu-se que a diminuição da velocidade parecia simbolizar a força que o trem faz para subir a montanha. Após esta audição, ouvimos novamente, desta vez, nos movimentando em roda, imitando com o corpo os movimentos de subidas e descidas do trem, nos pontos em que a música sugere esta imagem. Estas atividades de percepção resultaram na integração dos alunos e compreensão do tema que a música desenvolve. Em todas as oficinas, sempre que uma atividade se realizava no campo lúdico de jogo e faz-de-conta, havia algum tipo de reação dos participantes com maior grau de dificuldade.

Nesta proposta, B, uma cliente que não falava, gostou de se posicionar ao centro da roda e girar seu corpo em sincronia com o giro da roda. Na sua ação corporal, ela estabelecia um jogo dialógico com o grupo, provocando reações em outros clientes, como foi o caso de L que a chamava para voltar à roda. Era visível também a sua interação com a música, pois seus movimentos estavam conectados ao ritmo que percebia-se na audição.

As atividades relacionadas a brincadeiras infantis, davam abertura para interpretações relacionadas com o “faz-de-conta”, como, por exemplo, a brincadeira de

“seguir o mestre”. Nessa proposta, realizada no parque externo, todos os participantes em fila indiana imitavam o gesto do primeiro da fila.

Cantando a canção “Trem de ferro” (musica folclórica, também chamada de “Trem

maluco”), todos seguiam e imitavam o mestre, que representava, também, a máquina do

trem. Nesta atividade, o participante levava um apito de êmbolo, que lembrava o apito de um trem e o acionava de vez em quando.

Algumas vezes, o pesquisador interrompeu a atividade, para acrescentar outros desafios, como, por exemplo, relacionar as variações de grave e agudo obtidas no apito de êmbolo, com os movimentos corporais do grupo. A proposta solicitava que, quando o apito soasse na região grave, todos andassem agachados e quando o apito soasse na região aguda, todos andassem normalmente, com as mãos levantadas. Desta atividade todos participaram sem dispersão, por ser uma atividade corporal, o que era sempre mais aceito pelo grupo do que as que não exigiam movimento. O caminho para atuar em dimensões cada vez mais simbólicas da realidade deveria ser percorrido, primeiro, por meio de propostas corporais; as atuações de representação da realidade deveriam ser feitas pelo corpo para, só depois, atingirem o entendimento mais completo do código, o que, também, facilitava a integração do grupo na atividade; era a abertura para o “faz-de-conta”, contida nas propostas.

Como exemplo destas possibilidades de brincadeiras, cite-se o fato de um participante ficar deitado em cima do escorregador, falando: “a máquina entalou”. Sendo um pouco obeso, talvez este participante relacionasse o problema da largura e do peso da “máquina imaginária” à imagem de seu corpo. Esta constatação foi tirada de dados das reuniões, em que foi comentado o estágio pelo qual este cliente vinha passando, relacionado à busca de sua identidade corporal. A partir destas experiências positivas com atividades que coligavam propostas de percepção sonoro-musical, movimentos corporais e jogo de faz-de-conta, concluiu-se que era necessário, como fechamento das oficinas, a elaboração de um projeto que juntasse produção gráfica, gravações de improvisações sonoras, e coleta de material sonoro pelos arredores do pavilhão do “Tecer”.

Este projeto foi chamado de “Sons de Uma Viagem de Trem”.

FIGURA 7-Sons e Símbolos