O método cartesiano e mecanicista, ao fragmentar a realidade, levou a comunidade científica a um pensamento reducionista, valorizando uma visão fragmentada, não apenas da verdade, mas, de si mesmo, de seus valores e sentimentos (BEHRENS, 2009).
Esta ótica, estabelecia assim, um determinismo linear de causa e efeito, contaminando e fragmentando também a educação. A partir desta realidade, acrescenta a autora, que as universidades passaram a aceitar e assumir este paradigma, ocupando uma função de reprodutoras da atividade científica.
Com base nesta realidade, foi perguntado aos participantes qual eram suas percepções sobre o processo educacional fragmentado. Dois participantes, (20%) P1 e P6, responderam que a fragmentação do processo educacional está relacionada com o uso do conhecimento específico de alguma área. Já, 40% (P2, P3, P4 e P5) relacionaram fragmentação a um processo educacional isolado. P9 e P10, (20%), consideram a fragmentação um processo que produz barreiras e bloqueios. Para P8, (10%) a fragmentação está relacionada a um fenômeno ruim, enquanto P7 (10%) considera a fragmentação necessária para a compreensão do todo.
A seguir, a figura 24 apresenta o grupo de professores que relacionaram o processo de fragmentação como sendo um “processo isolado”.
EDUCAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO Concepção de fragmentação Isolamento das disciplinas Superação da fragmentação 3ª categoria 1º Aspecto 2º Aspecto 3º Aspecto
Figura 24: Representação do aspecto- concepção de fragmentação de quatro professores /terceira categoria. Fonte: Pesquisa de campo.
Na fala de P5, percebe-se que a questão da fragmentação do processo educacional, parece ser ainda bem presente, pois, para este participante é comum se deparar com professores que se isolam em suas disciplinas: “vejo muito isso enquanto professor [...] e me
deparo com alguns colegas que dizem assim: bom a minha disciplina...”.
Na visão de autores como Morin, Ciurana e Motta (2003), esta realidade ainda se
faz presente, pela dificuldade de compreender uma educação ecologizada, em que situe todo e “Eu acho que toda fragmentação
no primeiro momento ela não é boa, porque se fragmenta o saber, e acaba não se tendo a visão holística e integral do ser humano, e o que se vê hoje são fatias, e isso não é a realidade, a realidade é o todo. O processo educacional está fragmentado. Cada pessoa pensa a sua disciplina
isoladamente, e isso não é bom nem para nós profissionais e nem para o aluno, pois teremos aí um aluno pela metade e um professor pela metade”. (P4)
CONCEPÇÃO DE FRAGMENTAÇÃO
Quando você tem um processo de informação dividido por disciplinas que na minha opinião, é o processo
educacional fragmentado onde você tem a divisão por disciplinas especificas, [...]o aluno acaba não sabendo fazer a relação de como ele pode estar associando por exemplo uma administração da produção com a administração de materiais.[...]é preciso sempre trabalhar com a
interdisciplinaridade,[...] Muitas pessoas têm uma visão errada do que realmente seja interdisciplinaridade, acham que é simplesmente misturar todos os
conteúdos, [...]. A interdisciplinaridade é trabalhar as linhas de conhecimento de forma integralizada,[...].(P3)
“É importantíssimo isso, dentro da academia, e vejo muito isso enquanto professor [...] e me deparo com alguns colegas que dizem assim: “bom a minha disciplina”. E eu defendo que é um todo, é claro que o administrador se trabalha com aspecto generalista. Então a concepção sobre educação fragmentada é quando o professor acredita que só a dele é importante, e o professor precisa conhecer o projeto político – pedagógico da instituição pra ele saber até que ponto a disciplina dele contribui para o projeto, para ele saber encaixar as informações”. (P5)
“É um processo que não atende o que precisamos enquanto aluno, educadores e aprendentes, ou seja, não podemos trabalhar as matérias de maneira isolada[...]precisa de uma inter, uma trans e uma multidisciplinaridade[...]e hoje é muito difícil vermos isso dentro do processo educacional. Eu sempre procuro relacionar as coisas, por exemplo, dentro da disciplina de administração de matérias e dentro dessa disciplina eu falo de armazenamento de materiais, e tem outro professor de OSM (Organização, Sistemas e Métodos) que dentro dessa disciplina fala de layout então, eu preciso me relacionar com depósito de materiais para falar de administração de materiais que também se precisa entender como funciona o layout, e é por isso que eu estou sempre me relacionando com outras disciplinas.”(P2)
qualquer acontecimento em uma relação de inseparabilidade com o meio, contexto socioeconômico, político e cultural. Compactuando com esta visão, Capra (1996) explica que esta educação ecologizada ou visão ecológica, requer uma compreensão bem mais profunda do que a o usual, partindo do pressuposto do reconhecimento da interdependência dos fenômenos.
Na sequência da fala de P5, nota-se ainda, uma preocupação da necessidade do professor conhecer o Projeto Político Pedagógico da instituição onde trabalha. Preocupação esta bastante válida considerando que o PPP da instituição representa o documento norteador de todo o processo educacional que nela se desenvolve.
Para P3, quando o processo educacional trabalha fragmentado, ocasiona problemas no aprendizado do aluno: “Quando você tem um processo de informação dividido
por disciplinas, [...] o aluno acaba não sabendo fazer a relação de como ele pode estar associando, por exemplo, uma administração da produção com a administração de materiais.[...]”.
Em continuação, este participante afirma que a utilização da interdisciplinaridade configura-se como uma tentativa de se combater o processo de fragmentação: “[...] é preciso
sempre trabalhar com a interdisciplinaridade, [...] é trabalhar as linhas de conhecimento de forma integralizada, [...]”. Entretanto, acrescenta ainda que muitos professores desconhecem
o processo interdisciplinar. Realidade esta, colocada também por Luck (1994), ao explicar que uma das dificuldades de se trabalhar a interdisciplinaridade, encontra-se no fato de que os professores ainda não têm total consciência de sua importância.
Na concepção de P4, a fragmentação impede o desenvolvimento de uma visão holística e integral que temos da realidade, conforme destaca a fala de P5, “cada pessoa pensa
a sua disciplina isoladamente, [...]”. Na visão de P2, a fragmentação é um processo que não
atende às necessidades nem do aluno, nem do próprio educador. Em um tom de desespero, P2 considera que além da interdisciplinaridade, é necessário também uma: “[...] trans e uma multidisciplinaridade [...]”.
Em confirmação a esta necessidade, Moraes e Torre (2002) sugerem uma forma de ensino holístico em seus objetivos e integrador em suas estratégias. Algo que transcenda o conhecimento. Pois, segundo estes autores, a educação não se caracteriza pela transmissão, mas, pela construção e transformação do saber.
A figura 25 apresenta o mapa das falas de quatro professores. Dois destes, P9 e P10, relacionam o processo de fragmentação como “barreira para integração dos conteúdos”. Enquanto, P1 e P6 relacionam o processo de fragmentação como sendo “conhecimento específico”.
Figura 25: Representação do aspecto- concepção de fragmentação de quatro professores /terceira categoria. Fonte: Pesquisa de campo.
Os professores, P9 e P10 explicam que o processo educacional fragmentado, funciona como uma barreira para a integração dos conteúdos. P9: “Eu vejo falhas, porque às vezes inviabiliza o aluno de fazer a conexão de um conteúdo com outros [...]”. Esclarece que
quando isto acontece, gera grande complicação para o aprendizado.
Em uma similaridade conceitual com P9, P10 descreve esta mesma questão da seguinte forma: “a fragmentação é quase que um estanque o que dificulta muito a evolução em sala de aula”. Acrescenta ainda que esta dificuldade ocorre por não existir integração
entre as disciplinas: “[...] com o processo fragmentado não há uma integração entre as disciplinas [...].”
Para superar estas barreiras, típicas de uma educação fragmentada, é necessário que o professor passe a ter uma visão sistêmica, buscando alternativas que alicercem uma
CONCEPÇÃO DE FRAGMENTAÇÃO
“Professor, eu até sou contra esse sistema de educação porque eu acho que a gente prioriza apenas um
conhecimento e não os vários conhecimentos. E isso acontece não só na faculdade, mas no ensino fundamental e médio também, e isso acaba desenvolvendo um
„administrador técnico”. (P6) “Ele acaba atacando frentes distintas para fazer com que os educandos tenham
que juntar essas informações para a partir daí ter um conhecimento específico, então fragmenta-se muito a formação...sei lá, dependendo do caso, matérias muitas distintas uma das outras, e espera-se que os educandos junte isso tudo e forme uma opinião”. (P1)
“O nome já diz, é fragmentado, ou seja, não é vista como o todo. E isso agrava o nosso trabalho com os nossos alunados, pois com o processo fragmentado não há uma integração entre as disciplinas e isso é ruim, porque a fragmentação é quase que um estanque o que dificulta muito a evolução em sala de aula”. (P10)
“Eu vejo falhas, porque às vezes inviabiliza o aluno de fazer a conexão de um conteúdo com outros e acaba gerando uma enorme dificuldade no aprendizado”. (P9)
prática docente significativa e competente. Neste sentido, cabe ao professor repensar sua prática docente objetivando uma visão holística da realidade (BEHRENS, 2009). Cardoso (1995) acrescenta que para educar, é preciso que o professor desenvolva práticas pedagógicas que possam explorar vários aspectos, tais como, razão, intuição, sentimento, entre outros.
Ademais, o processo educacional estruturado de forma fragmentada, na visão de P1:
[...] “
acaba atacando frentes distintas para fazer com que os educando tenham que juntar essas informações para, a partir daí ter um conhecimento específico[...]”. De acordo com P6, este conhecimento específico, fruto do paradigma da fragmentação, é um resultado da própria ação do professor: “[...] eu acho que a gente prioriza apenas um conhecimento enão os vários conhecimentos.”
P6 ainda esclarece que trabalhar uma educação de forma fragmentada, resulta apenas em um conhecimento tecnicista: “[...] isso acaba desenvolvendo um „administrador
técnico”. Quanto a isto, Mizukami (1986) explica que a educação tecnicista desenvolve
apenas uma tarefa de treinar os educandos, tendo simplesmente, uma função de modelar o comportamento do aluno.
Neste caminho, o ensino baseia-se em uma realidade mecânica valorizando demasiadamente a repetição. Com isto, o treino surge como um objetivo para atingir a aprendizagem (LUCKESI, 1996).
Dentro deste cenário, o professor passa então, a ter a função de utilizar técnicas e procedimentos para o cumprimento do programa de sua matéria. Para tanto, recursos audiovisuais são utilizados com a finalidade de solidificar a fidelização de seus conteúdos (BEHRENS, 2009).
Da mesma forma, tem-se ainda mais dois participantes (P7 e P8) que contribuíram com o aspecto em pauta. Ao ser perguntado sobre a concepção que tem do processo educacional fragmentado, P7 explica que a fragmentação tem a sua importância: “De certa
forma é necessário, precisa se ter um cuidado com esse processo porque se você fragmenta demais você acaba prejudicando o aluno [...]”. Explica ainda, que é necessária a
fragmentação, desde que não se elimine a visão do todo: “De certa forma é necessário, precisa se ter um cuidado com esse processo porque se você fragmenta demais você acaba prejudicando o aluno, mas tem que fracionar e não eliminar o todo”.
Portanto, a visão do P7 é harmônica com a proposta da complexidade, que ao valorizar o todo, não exclui as partes. Sobre isto, Morin (1985) e Japiassu (1976), esclarecem que a proposta da complexidade não baseia-se em desvalorizar a realidade disciplinar, perdendo assim, sua competência. Mas sim, fazer que a integrem com outras disciplinas, pois a construção do conhecimento só é possível pela inclusão de toda e qualquer parte da realidade.
Consoante a P7, P8 explica ser ruim um processo educacional baseado no paradigma da fragmentação. Vejamos suas considerações:
Eu acho que é ruim, porque na verdade todas as disciplinas se completam, porque senão o curso era feito apenas de uma única disciplina, e nós sabemos que o curso precisa e necessita de várias disciplinas. Então não deveria e nem poderia ter essa fragmentação, tem que haver a multi e interdisciplinaridade para fazer com que o aluno entenda porque que ele está estudando psicologia num curso de administração. Por isso tem que haver essa interação para que o aluno entenda isso. (P8).
Ao não concordar com este tipo de educação, percebeu-se em seu discurso certa ironia ao dizer: “[...] senão o curso era feito apenas de uma única disciplina, [...]”. Para tentar superar esta fragmentação, explica a necessidade de uma ação multi e interdisciplinar.
Apesar de sua sugestão, talvez a ação multi não seria adequada para uma prática complexa. Pois, de acordo com Nogueira (1998), pode-se entender a multidisciplinaridade por dois vieses. Primeiro, quando acontece a interação de diferentes conteúdos de uma única disciplina e, segundo quando se trabalha diferentes conteúdos de disciplinas diferentes.
Para a autora, nenhum dos caminhos consegue estabelecer uma integração das disciplinas, sendo possível apenas através da interdisciplinaridade, conforme sugere P8.
O quadro 09 destaca os principais elementos que foram identificados nas falas dos professores, quanto ao aspecto, “concepção de fragmentação.
Quadro 09: Principais falas do 1º aspecto “concepção de fragmentação/3ª categoria. Fonte: Pesquisa de campo.
Conforme o quadro acima é possível verificar que todos os participantes apresentaram conceitos pertinentes à concepção de fragmentação, demonstrando não estarem de acordo com o processo educacional fragmentado, o que confirma a necessidade de uma ação interdisciplinar na prática docente.