4. Research Methodology
10.1 Questionnaire
Sugeriu-se que, apropriando-se de figuras de mulheres para aludir à categoria, Kruger evoca gênero servindo-se de recursos das estruturas identitárias, e argumentou-se também que logra descontinuar alguns de seus processos de identificação, especialmente aqueles que promovem a correspondência entre a figura representada e o público (devido ao fato de que não se tratam de “representações afirmativas”). Argumenta-se que a interrupção de alguns canais que relacionam sujeito e figura gera lacunas que são interpeladas pela identificação do público com o texto, mais precisamente através dos pronomes pessoais, os quais, segundo Owens (1983), atribuem corpo e gênero à obra.
Primeiramente pode-se dizer que, na obra de Kruger, os pronomes pessoais tendem a criar um canal direto e imediato com o público, semelhante àquele promovido pela linguagem publicitária que visa capturar a atenção de espectadores/as espontâneos/as que estejam de passagem. Acerca desse tema a artista coloca que:
O texto é sucinto para agir diretamente. Eu só quero que o público se identifique de uma forma muito direta. É por isso que sempre uso pronomes, porque eles atravessam cortando caminho na mesma direção. A referência direta tem sido uma tática consistente em minha produção, independente do meio com o qual trabalho. Eu tento lidar com a complexidade do poder e da vida social, mas com relação à apresentação visual, eu evito propositadamente um nível alto de dificuldade. Eu quero que as pessoas sejam atraídas para dentro do espaço do meu trabalho. E muitas pessoas são como eu nesse sentido: elas têm momentos de concentração relativamente pequenos. (Goodeve; Krueger, 1997)
Outra função da linguagem escrita e, principalmente, dos pronomes pessoais, é uma espécie de “incorporação” do público à obra, uma vez os empregos deles demandam posicionamentos. Nos textos que compõem as obras de Kruger não são especificados os sujeitos aos quais os pronomes se referem, o que permite ao público deslocar-se como referencial tanto do pronome pessoal “eu” ou “nós” como do “tu”, sendo que essa oposição binária se manifesta e alterna automática e constantemente. Esse deslocamento é possível porque, conforme apontado por Owens, os pronomes pessoais são embreantes (shifters), significando que pertencem a uma categoria de signos linguísticos vazios que são momentaneamente preenchidos. Em uma conversa, por exemplo, os referentes dos pronomes “eu” e “tu” variam conforme se alternam os interlocutores. Essa característica permite interpelar o público (e de certa forma inseri-lo na discussão) sem se referir especificamente a ele: trata-se de um artifício que se articula cognitivamente na medida em que o/a espectador/a define seu posicionamento individual (o qual tampouco é fixo). É importante ressaltar que a alternação ou oscilação do posicionamento também é constante e não é arbitrária.
Segundo Owens, os pronomes pessoais “eu”, “nós e “tu” implicam o público indicando posicionamento em relação ao conteúdo exposto na obra, ou seja, não indicam pessoas reais que poderiam existir independentemente do discurso. É necessário distinguir os pronomes que abrigam o público (tu, eu e nós) daqueles
que designam e gerenciam um significado fixo estabelecido dentro do discurso (ele/ela). Owens aponta que Émile Benveniste caracteriza a terceira pessoa como rigorosamente excluída dos pronomes pessoais por não manifestar um posicionamento e sim uma existência, um objeto existente. Dessa forma a primeira e a segunda pessoa se referem sempre aos corpos da pessoa “falante” ou “receptora da fala”, enquanto a terceira pessoa é meramente citada e não possui uma posição ativa. Talvez o fato da terceira pessoa raramente ser empregada na obra de Kruger para referenciar “mulher” se deve à sua característica de conferir fixidez e definição em vez de indeterminação.
Na análise de Owens, o público, ao defrontar-se com a obra, identifica-se como referente oscilante ora ao “eu” ora ao “tu”, e, dessa forma, toma posição no discurso, o que, segundo o autor, confere corpo (ou um sujeito) à obra – ainda que o pronome seja imperativo e impessoal, seu uso permite relacionar-se de forma particularmente individual com o conteúdo expresso, ou seja, é o dispositivo que agencia engajamento com as retóricas evocadas e possibilita posicionar-se diante delas de maneira alternada.
A identificação com os pronomes pessoais evidencia uma característica da obra de Kruger denominada por Owens de double address (dupla referência), que é notada principalmente nos trabalhos em que a artista emprega o plural (nós). Primeiramente o autor coloca que o pronome “nós” se referencia ambiguamente ao pessoal (individual) e ao impessoal (coletivo ou “outro”). Entretanto explica que, na realidade, o emprego do “nós” não remete exatamente ao plural de “eu”, pois, como explicado por Benveniste, “nós” não significa sujeitos idênticos, mas uma junção entre “eu” e “não-eu”; nesse caso, o que é determinado pelo “não-eu” pode ser de caráter pessoal (eu e você) ou impessoal (eu e elas). A dupla referência é o dispositivo que viabiliza posicionar-se e deslocar-se alternadamente ora exprimindo subjetividade (singularidade) ora referenciando uma categoria identitária (coletividade).
Owens (1983, p. 6) também coloca que o pronome pessoal plural da primeira pessoa “força a/o espectador/a a alternar desconfortavelmente entre inclusão e exclusão; mas também permite à artista acolher espectadoras nos seus trabalhos.” No mesmo sentido, Linker (1996, p. 62-63) coloca que “Kruger
declarou seu desejo de ‘acolher a espectadora dentro do público masculino’” e concorda com Owens, adicionando que “nas mãos de Kruger, esses pronomes deslocam o efeito magno da imagem, mostrando que o lugar da espectadora ou do espectador pode mudar, ser indefinido e recusar o alinhamento com gênero.” Acredita-se que esse emprego dos pronomes pessoais tanto plurais como singulares é um artifício linguístico que abriga ambiguamente os dois gêneros especialmente no caso da língua inglesa.
Linker propõe que devido a essa característica os pronomes permitem formular retóricas e posicionamentos independentemente do pertencimento do público a uma ou outra categoria da matriz sexo/gênero, dissolvendo alguns preceitos identitários culturalmente enraizados. Essa ideia parece paradoxal: sabe-se que os pronomes pessoais potencialmente promovem retóricas e posicionamentos alinhados às identidades de gênero evocadas nas imagens, perpassando o pertencimento ou exclusão nessas categorias. Argumenta-se, inclusive, que através da associação com gênero, os pronomes podem engendrar oposições dicotômicas (homem/mulher, feminino/masculino) que se estabelecem analogamente com as polarizações “eu/você”, “nós/vocês” e “meu/seu”, para citar alguns exemplos. Tendo em vista esse efeito e a ideia de Linker sobre a contingência da correspondência entre o público e o gênero evocado, cabe investigar até que ponto essa relação orienta a identificação com a obra e determina os posicionamentos por ela incitados, especialmente levando-se em consideração a maleabilidade do sujeito evocado pelas duas linguagens (imagem e texto). Para tanto, retomar-se-á à análise de Untitled (You are not yourself).
3.5 As relações entre a representação de marcadores sociais e os processos