4. Research Methodology
5.2 Experiences
representatividade de mulheres na produção do conhecimento pode ser explorado com as análises das obras Untitled (You thrive on mistaken identity) e Untitled (we
construct the chorus of missing persons).
3.3.2 Artifícios de irrepresentabilidade: “mulher” como ausência, anonimato e negativa
A obra Untitled (You thrive on mistaken identity) é composta por uma fotografia cujo recorte revela a cabeça e parte do torso da figura que, por ser fotografada através de uma peça de “vidro fantasia” que possui padrões redondos, aparece nebulosamente como um vulto desfocado. Sob essa figura é justaposto o texto “you thrive on mistaken identity” (você prospera com a identidade equivocada), sendo que o trecho “you thrive on” encontra-se alinhado na extremidade superior esquerda da imagem e “identity”, escrita também em preto sobre uma tarja branca, é disposta na extremidade inferior esquerda. Já a palavra “mistaken” é sobreposta à fotografia (mais precisamente posicionada sob os olhos da figura representada, numa posição mais central que as demais) e levemente inclinada no sentido diagonal. Essa palavra ganha destaque na composição, pois está escrita em tipografia branca sobre uma tarja negra, possui uma dimensão maior que as outras e não está disposta nas margens da imagem.
Figura 9. Untitled (You thrive on mistaken identity), fotografia, 152.4 x 101.6 cm, 1981,
Barbara Kruger
Nessa obra o anonimato da figura é realçado e redobrado: além de tratar-se de uma imagem apropriada dos mass media (o que, conforme previamente mencionado, impossibilita a identificação da pessoa retratada), a fotografia sugere pouco mais que um perfil. Devido ao embaçamento da imagem, a mulher representada só pode ser percebida através da diferenciação dos tons de cinza dispostos nos padrões arredondados do vidro, de forma que os elementos do rosto aparecem borrados e têm seus contornos e detalhes parcialmente comprometidos. Essa representação, ao mesmo tempo em que evoca “mulher”, não confere uma apreensão completa da figura, a qual oscila entre a sensação de presença e ausência.
Nessa obra, “mulher” é reconhecida através de poucos signos que sutilmente a inserem nas convenções que agenciam a inteligibilidade de gênero. Pode-se dizer que esse processo se dá com a associação de determinadas proporções e tipos físicos aos biotipos designados aos gêneros: é possível identificar artifícios representativos que suavizam a linha do maxilar, alongam o pescoço e encurtam o comprimento das clavículas, produzindo uma angulação
tipicamente vinculada à suposta “anatomia feminina”. Ademais a figura aparenta possuir cabelos compridos que estão presos num arranjo capilar comumente associado à feminilidade.
Diferentemente de outras obras, aqui “mulheridade” não se manifesta na pose da figura (que geralmente expressa vulnerabilidade, fragilidade e docilidade), nota-se que além do arranjo capilar tampouco é representado algum elemento estético ostensiva e estereotipicamente vinculado à feminilidade (como, por exemplo, unhas pintadas, maquiagem, adereços como colares e brincos etc) ou anunciado qualquer papel social atribuído às mulheres. Nesse sentido é evidenciado que são proporcionadas muito poucas informações acerca da figura representada, o que, somado ao fato de que sua expressão facial em parte se esvai devido ao embaçamento da imagem e é também suprimida com a ocultação dos olhos, permite perceber essa figura como sinônimo de ausência, uma figura que anuncia a identidade de gênero, mas não denota subjetividade.
Resumidamente, pode-se dizer que essa imagem dificulta uma apreensão completa, estável e segura da figura, possibilitando o acesso (reconhecimento) ao gênero, mas interrompendo uma assimilação afirmativa de um sujeito: trata-se de uma evocação de “mulher” vinculada à irrepresentabilidade, ocultação, ausência e incompletude.
Com características muito semelhantes, a obra Unitled (We construct the
chorus of missing persons) também é composta por uma fotografia apropriada, na
qual se vê uma figura que possui grande parte do rosto escondida. Na imagem a cabeça e uma pequena porção da parte superior do torso aparecem veladas pelos cabelos lisos que encobrem e dificultam a assimilação de seus traços faciais. Na fotografia os olhos, o nariz, o queixo, a testa, o pescoço e parte da silhueta do rosto da figura são simultaneamente revelados e ocultos pela textura dos grossos fios capilares (que têm aparência espessa, dura e seca), os quais são arranjados de forma a permitir o reconhecimento desses traços e elementos faciais. Nessa imagem gênero é suprido principalmente pelo comprimento do cabelo, pela exposição de uma pequena porção da sobrancelha que aparenta ser estilizada em conformidade com algumas convenções estéticas vinculadas à feminilidade e pelo
formato de um de seus olhos, que aparenta haver sido delineado por um contorno negro que ressalta o comprimento dos cílios.
Figura 10. Untitled (We construct the chorus of missing persons), impressão
prateada sobre gelatina, 121.9 x 213.3 cm, 1983, Barbara Kruger
Justaposto a essa imagem lê-se o texto “we construct the chorus of missing
persons” (nós construímos o coro das pessoas desaparecidas) escrito com tipografia negra e inserido em três faixas brancas com bordas negras. A informação escrita é dividida em três partes, sendo que duas tarjas estão inseridas nos extremos superior e inferior da imagem e a outra, que ocupa a porção central- superior, está localizada sobre a boca da mulher fotografada e divide a figura em duas partes desiguais. A tarja central está situada entre duas finas faixas vermelhas adicionais que, para fins compositivos associados ao equilíbrio visual da composição, dividem a imagem em três partes que possuem as mesmas proporções.
Na fração superior da imagem, por estarem velados por mechas mais finas de cabelo, destacam-se os olhos da figura representada, que aparentam fitar diretamente o público de forma fixa e confrontadora, conforme sugerido pela sutil
elevação de uma de suas sobrancelhas. Na metade inferior vê-se parte de seu queixo, seu pescoço e o busto igualmente rígidos, estáticos e velados. Essa composição sustenta uma sensação difusa de hostilidade que permeia a figura: seu olhar parece delatar e condenar uma espécie de conivência do espectador com o estado de omissão e ocultação na qual ela se encontra e especialmente no tocante de seu silenciamento, referenciado com a supressão de sua boca pela justaposição da tarja e do texto, o qual paradoxalmente inclui a palavra “coro”.
Conforme sugerido, nessas duas obras a representação nebulosa e velada resulta na construção de uma figura enigmática, se não incompleta, que não expressa afirmativamente um sujeito reconhecível. Entretanto, indica-se que essa espécie de ausência, cuja intensidade excede o anonimato, é transposta ao patamar crítico, tornando-se um elemento retórico da imagem: é possível associar as sensações difusas de vazio, ausência, ocultação ou inexistência (advindas da forma como “mulher” é anunciada na imagem e no texto) ao apagamento ou à exclusão das mulheres na historiografia.
Nesse sentido, indica-se que na obra Unitled (We construct the chorus of
missing persons) a alusão a pessoas desaparecidas, combinada à representação
de uma mulher cujos traços não são reconhecíveis, parece referenciar a questão da representatividade da categoria e aludir ao desaparecimento ou perda dos registros das contribuições (por exemplo, para o campo da literatura, artes visuais, história, ciência etc.) e conquistas de mulheres.39
Nessa chave, a menção de que alguém se aproveita ou prospera com a “identidade equivocada” (You thrive on mistaken identity) alude ao fato de que artistas, poetisas, escritoras e musicistas assumiam (e ainda assumem) recorrentemente pseudônimos masculinos com a finalidade de terem seus trabalhos legitimados em contextos artísticos que tradicionalmente desvalorizam ou desqualificam a produção de mulheres. Assim sendo, essa obra critica o fato de que o mérito das conquistas e produções culturais e políticas foi em grande
39 Cabe ressaltar que esse mesmo texto também aparece justaposto a outra imagem produzida
pela artista, na qual se vê uma pessoa que aparentemente transcreve a informação advinda de um livro a um caderno. Nessa obra (também intitulada Untitled), pouco mais que a mão, o livro e a roupa da figura são facilmente reconhecíveis, uma vez que todos esses elementos aparecem encobertos por estampas de padrão listrado. O senso de anonimato criado por essa imagem faz alusão, na opinião de Masako Kamimura (1987), ao desaparecimento da psique e da identidade feminina.
parte atribuído ao gênero masculino. Aqui o anonimato redobrado da figura pode ser associado à famosa citação de Virginia Wolf (1928, p. 62): “De fato, eu me arriscaria a supor que Anônimo .... foi muitas vezes uma mulher.”.
Nota-se que nessas obras Kruger, explorando as possibilidades de se evocar a identidade de gênero associada a uma espécie de negação da subjetividade, equilibra representação e ausência ao relacionar a formação da noção de “sujeito” com a produção de conhecimento e com o mérito advindo dessa prática, que confere presença.
Até então se sugeriu que, em suas obras, Kruger explora e explicita alguns recursos representativos capazes de dissociar sujeito de figura nas representações de mulheres, dificultando a assimilação de “sujeitos do feminismo” e visando a interrupção de alguns processos de identificação do público com a imagem. Estima-se que alguns recursos que conferem correspondência entre as/os espectadoras/es e a figura representada são descontinuados e deslocados ao plano da linguagem escrita, o que, conforme será apresentado, se configura como uma transposição da identificação, a qual passa a ser canalizada pelos pronomes pessoais que permitem à obra abrigar sujeitos múltiplos.