4. Research Methodology
5.1 Considerations
5.1.1 Benefits
A obra Untitled (You are not yourself) é composta por uma fotografia apropriada na qual se veem fragmentos sequenciados do rosto de uma mulher chorando, os quais são refletidos em pedaços de um espelho quebrado. As rachaduras se alastram a partir de uma fenda principal, cuja forma circular, disposta pouco acima do centro da imagem, indica que a ruptura do espelho se originou a partir de uma pancada direcionada. Na metade inferior esquerda da imagem está disposta a mão da figura refletida, que, em um gesto delicado (que pode ser associado à feminilidade) atribui destaque ao elevar um fragmento do espelho que reflete parte de seu olho esquerdo. A mão está em primeiro plano (não é mais um reflexo do espelho) e nela destaca-se a unha do polegar que aparece pintada referenciando simbolicamente “feminilidade”: trata-se de um dos índices que evocam “mulher” na fotografia.
Figura 8. Untitled (You are not yourself), fotografia, 182.9 x 121.9 cm, 1982, Barbara
Kruger
Ao expor a tensão entre as sobrancelhas apertadas e franzidas (as quais possuem um delineamento tipicamente associado às convenções estéticas vinculadas às mulheres), pode-se dizer que a porção do rosto refletida no fragmento delicadamente suspenso é o único elemento que revela uma expressão de desespero e angústia, pois os demais reflexos contidos em outros estilhaços não denotam conflito. Esse aspecto sugere certo dualismo e ambiguidade: na parte direita a expressão facial da figura representada não reflete uma situação de tensão, ao passo que a porção esquerda da imagem sugere o contrário. A figura, que é percebida através do reflexo no espelho, tem os olhos fechados e não parece contemplar sua imagem, mais bem sua expressão indica que se trata de um momento privado, de interiorização. Nota-se também a presença de um ponto arredondado que, situado sob o espelho ao lado da boca refletida, distorce um pouco a imagem e aparenta ser uma lágrima. Trata-se, portanto, de uma representação que emana vulnerabilidade e fragilidade, características estereotipicamente associadas à feminilidade.
Conforme sugerido, nessa obra gênero é suprido por atributos estéticos (unhas pintadas e sobrancelhas delineadas) vinculados à feminilidade e também
através da alusão à fragilidade emocional, ou seja, “mulher” é referenciada por convenções representativas que lhe atribuem inteligibilidade em conformidade com valores heteronormativos, através de signos associados ao estereótipo. Nota- se, ademais, que “mulher” é visualmente construída exclusivamente por gestualidades desconexas e por expressões faciais: a figura aparece desmontada (a cabeça flutua fragmentada e de forma descontínua sob um fundo negro e a mão, também desconectada do todo, coleta, num gesto controlado, meticulosamente delicado e suave, um estilhaço do espelho) e é sequenciadamente remontada como composição para agenciar uma ordem concisa de gestos simbólicos dissociados do corpo, que evocam “mulher” no campo visual.
Pode-se dizer que o corpo representado denota desconexão e falta de unidade: em suas obras a figura é geralmente composta pelo agrupamento de gestos e olhares e é desprovida de corpo e sujeito, ou seja, Kruger apropria-se de imagens em que os corpos representados são transformados em figuras, e a artista muitas vezes reforça essa característica até que as representações tenham a continuidade entre corpo, sujeito e imagem interrompida ou desfeita.
Pode-se dizer que a mencionada alusão ao estereótipo opera cativando o público através do reconhecimento, ao passo que a composição que fragmenta, divide, desintegra, vela e oculta o corpo representado gera estranhamento e desestabiliza o processo de identificação que é geralmente assegurado nas “imagens afirmativas”.
Segundo Linker, Kruger representa figuras sem corpos. A autora esclarece que esse efeito é alcançado devido ao fato de que a artista se serve de imagens de mulheres construídas por artifícios que subjugam e “descarnalizam” o corpo. Linker coloca que essas imagens são elaboradas através de uma convenção ou padrão representativo que desmonta o corpo e o remonta como uma série de gestos e poses descontínuos, resultando na expropriação do corpo e da subjetividade da figura representada, a qual é esvaziada de singularidade e passa a pertencer exclusivamente ao campo imagético, explicitando a noção de “mulher como imagem”.
Pode-se dizer que o resultado desse recurso é uma espécie de despersonificação que permite acessar gênero exclusivamente como categoria isenta de sujeitos. Ou seja, em muitas obras elaboradas pela artista (com exceção daquelas que consistem em retratos de celebridades como Marylin Monroe, Andy Warhol, Eleanor Roosevelt e Malcolm X) a figura representada não é percebida como sendo o retrato de um indivíduo, mas como uma categoria, isto é, é referenciada de forma semelhante aos anúncios publicitários (nos quais geralmente as figuras ou personagens representam grupos sociais em vez de indivíduos).
Além da fragmentação do corpo outro aspecto responsável pela descentralização ou dissolução do sujeito é o anonimato da figura, o qual é enaltecido por se tratarem de imagens apropriadas que dificilmente poderiam ter suas origens traçadas e definidas.
É importante pontuar que além de apropriar-se de imagens em que representações de mulheres aparecem cortadas, fragmentadas, borradas ou têm alguns elementos do rosto (especialmente os olhos e a boca) suprimidos (enaltecendo o anonimato das figuras), a artista muitas vezes intervém com a sobreposição de elementos textuais para cobrir alguns traços faciais e reforçar o distanciamento entre a pessoa e a figura (gestos e poses) representadas. Esse recurso se soma a outras particularidades da fotografia apropriada relacionadas à supressão dos elementos que atribuem singularidade à mulher representada (olhos, boca, detalhes dos traços do rosto, expressão facial etc.) e potencializa o efeito de esvaziamento de traços da personalidade ou individualidade da figura, o que interrompe ou fragmenta alguns processos do reconhecimento da imagem (desestabilizando principalmente sua apreensão como retrato de uma pessoa reconhecível) e resulta na apreensão de uma figura incompleta e, portanto, não afirmativa.
Assim sendo, na imagem em questão, devido aos artifícios que transformam o corpo em figura (em especial a representação fragmentada do rosto), nenhuma retórica concisa acerca da identidade ou personalidade da mulher representada é produzida e revelada, descontando-se as convenções que suprem mulheridade e feminilidade no campo visual (unhas pintadas, desenho da
sobrancelha, alusão à fragilidade e vulnerabilidade etc.) e evocam o gênero como marcador social organizado em forma de identidade e estereótipo. Ou seja, não se trata de uma imagem de uma mulher, mas de “mulher” como grupo e categoria evocados, porém não completamente definidos.
Essa estratégia que enfatiza o anonimato e desloca ou apaga os principais vestígios que permitem projetar subjetividade na figura da mulher é também empregada nas obras de Kruger para abordar a histórica exclusão de mulheres da cultura e da política, uma vez que concilia representação (evocação) e ausência