3 Methodology: Analyzing Party’s Electoral Program
3.1 Qualitative Systematic Textual Data Analysis of the Electoral Programs
A paisagem exterioriza a configuração e a organização do espaço geográfico. Neste sentido, a sua essência deve ser procurada nos modos pelos quais o espaço está organizado, fragmentado e articulado, nas “[...] formas múltiplas de organização que resultam em outras tantas aparências concretas” (SANTOS, [1971] 2008, p. 75).
Os elementos da paisagem são, praticamente, os mesmos da constituição do espaço geográfico, discussão feita no item anterior deste capítulo. A análise da primeira se dá no âmbito de unidades espaciais com escalas específicas, o que introduz, conforme Rougerie e
Beroutchachvili (1991), dois fatos: as divisões do espaço total; e as divisões dos (sub)espaços em frações concebidas como entidades paisagísticas.
A consideração destas unidades espaciais remete à questão de área ou de superfície, determinadas pela escala, aspecto principal que diferencia a Geografia em relação às artes e às demais ciências que utilizam a noção de paisagem.
Neste ponto, duas perguntas podem ser colocadas: quais as escalas máxima e mínima da paisagem? Como estas escalas devem ser trabalhadas?
A partir das ideias de Giblin (1978), podem ser distinguidos dois níveis de vivência, percepção e concepção escalar da paisagem:
a paisagem real (ou concreta), percebida diretamente pelo olhar sobre uma porção restrita do espaço, que pode ser o espaço de vivência/contato imediato, ou um local alto que aumente a perspectiva de horizonte, a exemplo de um mirante, montanha, balão ou avião. Esta é a paisagem concebida na pintura, à moda de um quadro;
a paisagem ideal ou tipo, analiticamente concebida como uma síntese geográfica (representação) tomada numa dimensão ampla que o olhar não pode apreender, mas que pode ser ainda o nível local, ou já o sub-regional ou regional. É o caso das paisagens-tipo regionais de La Blache, e da noção de unidade de paisagem, utilizada na perspectiva geossistêmica.
Aqueles níveis correspondem à escala topológica referida por Mateo Rodriguez, Silva e Cavalcanti (2004), que incluem os espaços locais e os regionais. Acima desses últimos posiciona-se a escala global (ou planetária) da superfície geográfica. Para a escala global, que corresponde às zonas (1ª grandeza) e domínios (2ª grandeza) da classificação de Cailleux e Tricart (1956) e de Bertrand ([1968] 1971), não é possível aplicar a categoria paisagem, sendo mais adequado falar de região (GIBLIN, 1978).
A passagem do nível “real” para o “ideal” se orienta da grande para a pequena escala, no sentido cartográfico. É preciso atentar para o quão homogênea ou heterogênea é a área considerada como uma parte do espaço, sem que isso altere o sentido de unidade. Pode-se esperar que o aumento em área conduza a uma homogeneidade maior, por simplificação de elementos, e vice-versa, o que nem sempre corresponde à realidade. O heterogêneo manifesta- se em função do grau de complexidade e de interação dos elementos e fatores que constituem o espaço e a paisagem.
Outro ponto do tratamento escalar é a associação, na paisagem, entre o “espaço total” (SANTOS, 1996) e a “história total” (BRAUDEL, [1958] 2007), ambos entendidos como
estruturas. Por isso, é necessário trabalhar a escala espacial conjugada à temporal, tendo em vista a (co)existência de temporalidades diversas, expressas em conteúdos e formas espaciais que possuem diferentes ritmos e idades.
Santos ([1988] 2014, p. 60) sintetizou o papel da escala no entendimento da relação entre a sociedade, e do espaço com a paisagem, assim como a influência do tempo sobre as mudanças espaciais:
A noção de tempo é fundamental. A sociedade é atual, mas a paisagem, pelas suas formas, é composta de atualidades de hoje e do passado. A noção de escala é igualmente importante, pois, se o espaço é total, a paisagem não o é. Não se pode falar de paisagem total, pois o processo social de produção é espacialmente seletivo. O espaço construído que daí resulta é variegado. Formas de idades diferentes com finalidades e funções múltiplas são organizadas e dispostas de múltiplas maneiras. Cada movimento da sociedade lhes atribui um novo papel.
A leitura de Santos ([1971] 2008, 1978, [1988] 2014, 1996) enfatiza os processos sociais e o trabalho humano sobre a natureza. As formas (ou objetos), tanto as naturais quanto as artificiais, são diferenciadas em seus conteúdos: idades, movimentos, relações, funções e processos. Os conjuntos das formas-conteúdos são, por várias vezes, modificados; algumas permanecem como “palimpsetos” ou “rugosidades” (SANTOS, 1996).
Faz-se preciso, assim, considerar na formação e na distribuição das paisagens todos estes aspectos, o que se pode sintetizar como ritmos e ocorrências desiguais, seja qual for a escala de tempo-espaço trabalhada.
A escala temporal é algo mais complexo que a espacial, adotando-se, para a presente discussão, as noções de tempo social-histórico de Braudel ([1958] 2007), que decompõem a história total em três níveis:
a curta duração (tempo curto), da História Tradicional, ocorrencial, e da Micro- História. É o tempo do evento, do relato jornalístico, dos indivíduos e da vida cotidiana, medido de segundos a alguns anos. Admite, também, os eventos breves da natureza, a exemplo de uma ventania e uma tempestade;
a média duração (tempo médio), da História Social e da História Política. É o tempo entendido como conjuntura social, política e/ou econômica, reproduzida em ciclos e interciclos de dez anos a meio século, aproximadamente, reconhecendo-se, quando muito, tendências que atingem a duração secular ou se aproximam dela;
a longa duração (tempo longo), de amplitude secular a milenar, a qual revela a espessura da história total, lentamente ritmada. Os ciclos, neste nível, repetem-se e se
sucedem com frequência. É na longa duração que se revelam as estruturas sociais, político-econômicas e geográficas mais estáveis, no contato com o tempo das coisas inanimadas da natureza.
Esclarece o autor que esses períodos cronológicos não têm um valor absoluto, embora se apresentem em planos escalonados (BRAUDEL, [1958] 2007, p. 48; p. 14). Ao tempo médio, no qual se desenrolam os eventos, pode-se atribuir a denominação de contexto histórico- geográfico, que se prolonga por décadas.14
É preciso esclarecer que as ideias de Braudel ([1958] 2007) tratam do tempo social- histórico, da civilização, uma parcela pequena no chamado “tempo geomorfológico” que diz respeito à idade/formação do relevo atual, restrito ao Quaternário (2,5 MI de anos A.P.) e ao Neógeno (23 MI de anos A.P..); e muito menor ainda do “tempo geológico” ou “tempo profundo”,15
que recua até os primórdios da formação da Terra, a cerca de 4-5 bilhões de anos atrás (SUERTEGARAY, 2009; SARAIVA JÚNIOR, 2013).
Contudo, o tempo social-histórico se superpõe e interconecta àqueles, questão que se coloca na interface entre as ciências (Quadro 1).
Tempo social-histórico Tempo geomorfológico Tempo geológico
- Até alguns milhares de anos - Até alguns milhões de anos - Até alguns bilhões de anos - Tempo da civilização - Tempo do relevo atual - Tempo do planeta Terra - Tempo da ação em curso:
medido pelo relógio
- Tempo da ação em curso: medido pelo relógio
- Não pode ser medido pelo relógio
- Tempo da ação recente: medido pelo calendário
- Tempo da ação recente: medido pelo calendário
- Tempo da ação recente: muito pouco medido pelo calendário - Avança pouco na escala
geológica
- Faz parte dos dois últimos períodos da escala geológica
- Abrange todo o espectro da escala geológica
- Predomina nas Ciências Humanas, com inserções das Geociências e Ciências Biológicas
- Predomina nas Geociências, com possibilidades de interfaces ambientais com as outras ciências
- Predomina nas Geociências, com inserções das Ciências Biológicas e Humanas
Quadro 1 – Interfaces dos tempos social-histórico, geomorfológico e geológico.
Fonte: elaborado pelo autor com base em Braudel ([1958] 2007), Suertegaray (2009) e Saraiva Júnior (2013).
14Existem vários trabalhos, no âmbito de uma Geo-História, discutindo a relação do tempo com o espaço, com
as regiões, as paisagens, os territórios etc. Barros (2006) cita o geógrafo Vidal de La Blache e os historiadores Lucien Febvre, March Bloch e Fernand Braudel. A respeito da aplicação das ideias de Braudel aos estudos geográficos, considerações foram feitas por Santos (1996), e uma dissertação dedicada a esta problemática foi elaborada por Poblet (2011).
15
A História Ambiental, especificamente, perpassa os três níveis do tempo, o que permite entender a relação sociedade/natureza acontecendo (tempo curto), isto é, a observação dos eventos do presente, como o são os impactos ambientais; produzindo tipos paisagísticos inseridos em contextos específicos (tempo médio), relacionados a determinados modos de produção; e o processo total (tempo longo) de transformação da natureza por intermédio do trabalho e das técnicas, de modo rápido ou lento, mas, em todo caso, de efeitos cumulativos (SILVA, 1997; ALMEIDA, 2011).
Esta discussão se justifica pelo fato de não existirem formas de georrelevo antrópico – definição apresentada no próximo item deste capítulo – fora do tempo social-histórico, pois a história delas é, igualmente, o das técnicas e do seu poder crescente de intervenção no ambiente e na paisagem (GOUDIE, 1981; TER-STEPANIAN, 1988; PANIZZA, 1996).
A análise do relevo pelo tempo social-histórico, assim, admite tanto os tempos curtos e médios das sociedade e da natureza, com o evento acontecendo ou pretérito em até algumas décadas atrás; quanto o tempo longo, com as estruturas duradouras, mais antigas, tanto da sociedade como da natureza.