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Na trajetória do pensamento ocidental e da Geografia moderna a paisagem é uma categoria polissêmica que serve às artes e às ciências (ROUGERIE; BEROUTCHACHVILI, 1991; SALGUEIRO, 2001; BESSE, [2000] 2006). Está presente no temário da Geografia Humana, da Geografia Física, da Ecologia, da Agronomia, da Arquitetura, da Antropologia e de outros ramos do conhecimento.

Para a análise foram buscados autores na Geografia e na História, visando a reunir um referencial teórico-conceitual adequado ao entendimento das relações da paisagem com o espaço geográfico, e da ação humana sobre a natureza, ambas colocadas no tempo.

A análise é mediada pela noção de impacto ambiental, para desembocar depois no conceito de georrelevo. A discussão sobre paisagem vai direto à perspectiva aqui adotada, a do espaço-paisagem, sem a pretensão de elaborar um amplo resgate epistemológico, tarefa feita por vários autores (e.g.: ROUGERIE; BEROUTCHACHVILI, 1991; BESSE, [2000] 2006; SALGUEIRO, 2001; MATEO RODRIGUEZ; SILVA; CAVALCANTI, 2004). Um resgate epistemológico mais profundo seria, metaforicamente, outra estrada longa a percorrer, tendo em vista a farta literatura geográfica e não geográfica existente sobre paisagem.

Segue-se a explanação por um atalho, reunindo alguns referenciais em torno daquela perspectiva. Foram consultados e citados, também, autores de outras correntes, o que revela a “espessura” do debate sobre paisagem no temário geográfico, onde a categoria ocupa um eixo epistemológico central.

Nesta etapa, a operacionalização da categoria paisagem incluiu a sua definição e a apresentação das escalas e elementos/fatores de análise.

2.1 Primeiro trecho: um conceito de paisagem, um conceito de espaço geográfico

A paisagem é, inicialmente, uma perspectiva do olhar humano sobre a terra, dito em outras palavras, sobre o espaço ou o território. Besse ([2000] 2006, p. 20-21, grifos do autor) indica que na construção etimológica da palavra paisagem, surgida do vocábulo holandês

Antes de adquirir uma significação principalmente estética, ligada ao desenvolvimento específico de um gênero de pintura a partir dos séculos XVII e XVIII, a palavra landschap (Landschaft, paese) possui uma significação que se pode dizer territorial e geográfica. […]

Nesta perspectiva geográfica, a “paisagem” não é definida de início como a extensão de um território que se descortina num só olhar desde um ponto de vista elevado, segundo a fórmula tornada clássica a partir do século XVII na história da pintura. Ela é entendida como espaço objetivo da existência, mais do que como vista abarcada por um sujeito.

O conceito de paisagem, deste modo, nasceu confundindo-se com o próprio espaço de vivência imediata, assumindo depois um sentido abstrato de representação que pode estar presente, por exemplo, em um desenho, pintura, texto ou mapa (Fig. 1-5, Mapas 2 e 3). No último caso, elabora-se uma abstração em plano cartográfico, vinculado à noção de área. As representações geográficas, especificamente, não estão limitadas ao mapa, e nelas a paisagem se torna a geopaisagem (“géopaysage”), termo utilizado por Giblin (1978).

Ao longo do século XX e, sobretudo, após 1960, a narrativa geográfica da paisagem passou por mudanças profundas quanto à sua definição, métodos de pesquisa e relação com outras categorias de análise. Salgueiro (2001) agrupou os geógrafos envolvidos com o temário paisagem em dois enfoques:

 o “objectivável”, mais tradicional, no qual a paisagem é identificada com uma porção da superfície terrestre, uma realidade material com características próprias, analisáveis objetivamente. Este foi o enfoque que predominou na Geografia Clássica,2 seguindo, majoritariamente, o método positivista, a exemplo do esquema vidalino, que associou a paisagem à escala média, aos quadros (“tableaux”) regionais, definindo paisagens- tipo para as diferentes porções do espaço individualizadas como regiões homogêneas (GIBLIN, 1978). Permanece como o enfoque predominante nas disciplinas da Geografia Física, havendo a renovação da visão naturalista pela adoção da Teoria Geral de Sistemas (TGS), que permite entender a natureza como ecossistema, um conjunto ordenado, em perspectiva basicamente vertical, de cadeias tróficas e processos ecológico-funcionais. Esta noção foi vertida para a Geografia como o geossistema, no qual a ordem da natureza é tomada horizontalmente, em diferentes

2 Expressão utilizada com o mesmo sentido epistemológico que lhe atribui Moreira (2008), abrangendo a fase da

ciência geográfica que vai da segunda metade do século XIX até meados da década de 1960. Para esta fase é amplamente empregado o rótulo “Geografia Tradicional” (Cf. MORAES, [1983] 1999). Claval (2002) utiliza o termo “enfoque naturalista”, uma alusão ao método positivista compartilhado com as Ciências Naturais. Ainda sobre Geografia Clássica, verifica-se seu uso para se referir ao conhecimento geográfico das antigas civilizações grega e romana – Antiguidade Clássica (Cf. TATHAM, 1959).

grandezas espaciais (DELPOUX, [1972] 1974; SALGUEIRO, 2001; MATEO RODRIGUEZ; SILVA; CAVALCANTI, 2004);

 o “fenomenal” (fenomenológico), ligado à Geografia Cultural e Humanista, que tem no intercâmbio entre a paisagem e o lugar o seu principal aparato conceitual. A paisagem, neste enfoque, é subjetiva, um produto dos valores sociais e estéticos, das percepções e atitudes dos sujeitos perante o espaço, sendo importante, também, a noção de ambiente (SALGUEIRO, 2001; CLAVAL, 2002). Estudos da percepção geográfica, dos valores e dos saberes culturais têm sido feitos na Geografia Física, mesmo que a paisagem não seja a categoria-chave, incorporando-se as definições e metodologias de ramos das Ciências Naturais que se aproximaram da Antropologia, como o são a Etnobotânica e a Etnopedologia. Outro exemplo é a interpretação de formas de relevo na paisagem como geomorfosítios (“geomorphosites”), dotados de forte valor histórico, cultural e estético (REYNARD, 2005).

A problemática da tese se alinha ao primeiro enfoque: a paisagem exterioriza, objetivamente, elementos materiais e imateriais do espaço geográfico.

Figura 1 – Exemplo de pintura romana de paisagem encontrada em Pompeia, de função decorativa em parede (afresco), descrita por Ling (1991, p. 145) como “Landscape with villa and fishing labour”, cerca de 20 A. C., pintor desconhecido. O autor citado explica que este gênero se desenvolveu entre o segundo e o terceiro estilos da pintura romana antiga, e mostra elementos estilizados que fundem natureza e artifício humano, a primeira subordinada ao segundo, numa perspectiva ainda limitada da paisagem no que diz respeito à visão de horizonte.

Figura 2 – Exemplo da milenar pintura de paisagem chinesa, que também possui, essencialmente, uma função decorativa. Nessa ilustração de Dong Yuan (934-932), traduzida por “Os rios Xiao e Xiang”, século X, o relevo tem papel de destaque na representação da paisagem, um aspecto comum nas obras desse pintor. A perspectiva de uma paisagem divisada no horizonte, pelo olhar, já era nítida séculos antes disso se tornar uma técnica usual de representação na pintura ocidental.

Fonte: Palace Museum, Beijing. Domínio público.

Figura 3 – Desenho de Leonardo Da Vinci (1452-1519), “Paessagio com la veduta dell’Arno”, datado de 1473. É típico do estilo renascentista que consolidou, na tradição ocidental da pintura, a perspectiva de horizonte e o plano de fundo, tal como o mundo visto do alto, aspecto tratado por Besse ([2000] 2006) em relação às obras do pintor holandês Peter Brueghel, o “Velho”, na série “Grandes Paisagens”. Enquanto em Brueghel a pintura de paisagem é o instrumento de um discurso que se abre para o conhecimento do mundo, nas obras de Da Vinci ainda se trata da descrição das regiões, associada à função do desenho para o estudo de fenômenos naturais.

Mapas 2 e 3 – As cidades de Cusco, no Peru, e da cidade do México, que fazem parte da obra