4. Method
4.4 Qualitative design
A decisão de aceitar um projeto na Zona Leste da cidade marcou um novo momento na organização. Como a ONG não tinha uma sede própria, passaria a ter uma referência, rompendo com suas origens num bairro de classe média para se aproximar mais da realidade dos atendidos, iniciando uma nova dinâmica de projetos focados no público estabelecido por sua missão.
A mudança da casa alugada na Praça da Árvore para um prédio na Zona Leste foi uma decisão importante que as lideranças da organização tomaram, cujo principal risco assumido foi a potencial perda do grupo de voluntários, uma vez que a distância dificultaria a presença deles no dia a dia da organização 32.
A mudança, no entanto, representava novos desafios, um momento de crescimento. O início do trabalho com o abrigo Nosso Lar, projeto assumido no Bairro do Burgo Paulista, foi distintivo pela representatividade simbólica da criança e do adolescente soropositivo, pela dimensão do envolvimento voluntário nas ações de cuidado, mas, principalmente, porque se tornou um dos elementos de maior influência para a composição dos valores organizacionais naquele período.
As diferentes ações desenvolvidas pela CAF foram surgindo das necessidades encontradas pela organização no próprio entorno de sua nova sede 33-34. Nos barracos construídos dentro de córregos, nos jovens desocupados nos pontos de tráfico de drogas, nas escolas depredadas, nas plaquinhas de igrejas organizadas em pequenas garagens, nos homens, mulheres, adolescentes e crianças fora dos muros do prédio e também dentro dele podia-se enxergar o que os dados epidemiológicos informavam sobre a região.
O abrigo havia sido criado por outra ONG no início da epidemia de HIV. Tratava-se da primeira geração de crianças e adolescentes vivendo com HIV/AIDS, diferentes dos que já eram atendidos pela CAF, pois iam perdendo os pais. Esses eram órfãos e haviam crescido dentro do abrigo.
Por conhecer o trabalho da CAF e por ter um parceiro comum que os havia auxiliado na compra da sede, a organização que fundara o abrigo decidiu transferi-lo para a CAF, que poderia dar continuidade ao projeto.
Os demais projetos da CAF foram instalados no mesmo prédio em que funcionava o abrigo. A estratégia de trabalho com o abrigo exigiu um aprendizado rápido e aprofundado sobre todas as questões ligadas a crianças e adolescentes vivendo em situação de abrigamento 227.
A legalização perante as autoridades, a formação e capacitação de uma equipe de cuidadores, a adequação predial para as atividades do abrigo tiveram que ser realizadas muito rapidamente.
Um grupo de voluntários que conhecia as crianças e os adolescentes se encarregou de recebê-las no período de férias escolares de janeiro, o que permitiu que as primeiras ações de adequação do espaço fossem iniciadas.
Um grupo de cinquenta voluntários trabalhou durante um dia inteiro para limpar o prédio e retirar móveis e utensílios quebrados, preparando o retorno das crianças após o período de férias, elas ficaram sob o cuidado de alguns voluntários enquanto a CAF preparava o prédio para o inicio do trabalho com o abrigo. Dentre essas pessoas crianças e adolescentes participaram em pequenas ações perto de seus pais e o grupo de voluntários era um exemplo do que hoje os estudos mostram sobre a diversidade dos que se dedicam para o voluntariado.
Era um grupo novo de voluntários, convocado pela diretora. Não conheciam as crianças e adolescentes abrigados, mas o simples fato de encontrarem o local em condições tão precárias sensibilizou aqueles voluntários para a realidade do abrigo e, a partir daí, surgiram outras formas de participação.
Conforme relatório ao parceiro no ano de 2004 e conforme mencionam alguns gestores no estudo de caso apresentado nesta pesquisa membros da diretoria se misturaram aos voluntários na limpeza e organização do espaço. Para os demais voluntários, presenciar membros da diretoria envolvidos no trabalho mais pesado foi um elemento impactante que transmitia comprometimento. No decorrer da semana, outros voluntários
deram continuidade às ações, lavando, concertando e passando roupas que foram coletadas nas diferentes partes das dependências.
Poucos móveis puderam ser aproveitados, e quando as crianças e adolescentes retornaram das férias encontraram o local limpo e ao mesmo tempo bastante vazio.
O grupo de voluntários que ajudou na limpeza do prédio também ajudou a nova direção a procurar doadores para a compra dos móveis de quarto. Um voluntário contatava outro, ajudavam na cotação de preços e contribuíam com dinheiro e com outros artigos que sabiam ser necessários.
Mesmo sem conhecer as crianças e adolescentes pessoalmente, estar no lugar que eles ocupavam os trouxe um pouco para essa realidade, fazendo com que se comprometessem com o trabalho. Pesava, para isso, o fato de serem crianças e adolescentes, órfãos e com AIDS 38. Ao virem o envolvimento da CAF em ações para mudar as condições de vida daquelas crianças e adolescentes, os voluntários passavam a reconhecer nela uma representante da causa.
A maioria dos voluntários do antigo abrigo conhecia as crianças e adolescentes desde que esses haviam chegado naquele lugar, tendo com eles um forte vínculo. Ao assumir o abrigo, que passou a se chamar “Nosso Lar”, esses voluntários foram gradualmente se aproximando da CAF.
Os voluntários providenciavam festas de aniversário, passeios de finais de semana, teatro, cinema, doavam presentes os mais diversos e
auxiliavam a equipe do abrigo revezando-se no hospital quando alguma criança ou adolescente era internado.
Havia um senso de compensação nas ações daqueles voluntários para com as crianças e adolescentes pela condição de soropositivos e de órfãos. Conforme o abrigo da CAF foi se tornando mais conhecido pelos órgãos de referência, passou a receber outras crianças e adolescentes que eram soronegativas, mas que haviam passado por situações graves de violência32.
Os voluntários vinham, preferencialmente, nos finais de semana pela facilidade das folgas de trabalho. Nesses dias, apenas os cuidadores que estavam em plantão se encontravam na organização. Assim, tinham pouco contato com os demais projetos que aconteciam ali durante a semana e com as necessidades administrativas da organização. Embora fossem convidados e até mesmo participassem de eventos promovidos em datas específicas, seu comprometimento era com as crianças e adolescentes do abrigo.
O trabalho da ONG se fortalecia no atendimento da criança e do adolescente e no enfoque da família, mas temas específicos surgiam como subtemas da AIDS, como a contaminação de crianças e adolescentes com o vírus HIV por abuso sexual. A quantidade de casos de violência chegando à organização estimulou o trabalho local de prevenção, que se iniciou a partir das próprias crianças do abrigo.
A complexidade e importância do tema exigiu que o trabalho fosse realizado por uma equipe técnica. A contratação de técnicos foi demorada porque, além de não contarem com recursos, muitos técnicos na área de psicologia e de educação encontravam dificuldade para lidar com o tema do abuso 34-35.
Além disso, a abordagem de arte educação desenvolvida para o trabalho era um empecilho para técnicos acostumados a seguir as técnicas próprias de sua formação profissional. Questões como o sigilo, a autonomia, a abordagem multidisciplinar e interdisciplinar, bem como o trabalho em rede, foram novos desafios que a CAF precisou aceitar ao trabalhar com o projeto de prevenção.
Ao mesmo tempo que a equipe técnica se tornava um grupo de apoio permanente para tratar situações relacionadas aos projetos e aos locais onde as atividades de prevenção eram realizadas, confirmava-se a dificuldade de atrair voluntários, porque as ações exigiam qualificação e continuidade, reduzindo o número dos que podiam ser incluídos como voluntários.