5. Presentation of data, analyses and discussions
5.2 Analysis of survey, student interviews and observations
DISCUSSÃO
8.1 CONSIDERAÇÕES GERAIS
Considerando a afirmação de FROMM, citado por SMITH e FREEDMAN63 (1972), de que os grupos mantêm vivas as ideias, as organizações voluntárias podem ser consideradas, enquanto grupos de interesse175, como aquelas que mantêm viva na sociedade a ideia do voluntariado.
O estudo de diferentes organizações voluntárias apresentado no capítulo 5 sugere que as ideias são preservadas e consolidadas nos grupos na forma de valor. As ideias, enquanto elementos estruturados e estruturantes, ao se tornarem significativas para um grupo25 e assumirem um status de essencialidade, consagram-se em valores. O voluntariado apresenta-se assim, como elemento significativo e entranhado na vida organizacional da CAF, dando subsídios para percebê-lo como valor.
Como organização voluntária, a CAF ocupa um papel de intermediadora na relação entre os indivíduos com ela envolvidos e o Estado, promovendo uma integração entendendo o contexto organizacional como lócus legítimo para a afirmação e expressão de valores onde o voluntariado se destaca tanto como meio quanto como fim63,138,182.
A ação voluntária em franca atividade na organização, mesmo num período em que a AIDS passa a ser considerada doença crônica37,228, indica o voluntariado como elo de continuidade organizacional intimamente ligado à sua identidade de organização voluntária. A manutenção de gestores voluntários à frente da organização e gerando novas lideranças é um dos pilares na força de cultura do voluntariado dentro do que apresenta SCHEIN66 (1984).
Os gestores, como condutores no processo de preservação das ideias e construção de valores27,28, criam condições para que valores essenciais se tornem parte da vida e da memória organizacional, o que acontece na CAF pela constante revitalização de heróis, rituais e símbolos, segundo o que propõe HOFSTEDE, et al67 (1990), dando continuidade a uma história de atuação que tem no voluntariado sua identidade:
(...) eu me sinto motivada porque eu vejo que é uma organização séria, eu vejo que
é uma organização que não se limitou a fazer um pouquinho num pedacinho da cidade, mas à medida que as coisas foram chegando, que a necessidade foi aumentando, a demanda foi aumentando, ela também foi se reestruturando, em momentos de dificuldade ela soube se reestruturar, se reerguer novamente, então eu me sinto motivada porque eu vejo que é uma organização que tem com um potencial muito grande, né... é difícil explicar o que acontece ali, mas mesmo com todas as dificuldades que as organizações sociais têm... e a gente vê todas ali na CAF... é difícil ser profissionalizada, é muito difícil, é difícil lutar com as barreiras de captação de recursos, então tudo o que todas as organizações têm acontece ali, mas ali dentro tem um algo mais... é a mão de Deus (risos) bem forte! (I08-GII)
Na cultura da CAF, os paradigmas de SCHEIN66 (1984) se sustentam, indicando um ambiente dinâmico de subculturas que se ajustam e são conduzidas pela instrumentalidade de lideranças, gestores voluntários e
contratados. A dimensão organizativa se faz fortemente definida pela influência do perfil da epidemia da AIDS como elemento potencializador de mudanças, mas também pela necessidade de desenvolvimento organizacional dentro da realidade de organização voluntária, onde a gestão de valores aparece quase como um imperativo.
Os relatos dos gestores da CAF enriquecem a pesquisa por sua percepção do voluntariado como valor e como isso acontece enquanto gestão de valor, consolidando o voluntariado como um valor organizacional identificável em sua história, evidente nas suas práticas, inserido na identidade organizacional e compondo o legado de suas lideranças e o da própria organização como resultado de seu papel e contribuição social.
8.2 RELEVÂNCIA HISTÓRICA
Tendo como base a afirmação de ROKEACH, citado por HYDE e WILLIAMSON211 (2000) de que um valor passa pelo teste do tempo considera-se que um valor organizacional pode ser identificado atrelado a fatos significativos dentro de um constructo histórico. Em relação à CAF, o histórico registrado e declarado se tornou um recurso na identificação do voluntariado como valor.
Na CAF, o voluntariado marca a gênese organizacional e a recorrência com que o voluntariado aparece em documento e relatos sustenta a natureza de organização voluntária32.
A leitura de relatórios e documentos da organização, como Estatutos, Atas, Políticas (Proteção Interna de Proteção Infantil e Política de Marketing), relatórios e materiais promocionais revela o voluntariado como um elemento constante e característico, tendo um papel distintivo nos momentos de mudança que resultaram de estratégias de desenvolvimento, mas também em momentos de crises, como o caso do início e do encerramento do abrigo mencionado de diferentes formas e por diferentes sujeitos.
Em todo o processo de análise documental em busca dos sentidos da organização, é possível verificar o papel das lideranças deixando registrado aquilo que consideraram significativo para a construção de processos de continuidade daquilo que foi originalmente. Essa transmissão da história é assimilada pelos gestores como uma inspiração para a sua própria contribuição na continuidade organizacional como aponta o seguinte relato: (...) então ela surge porque algumas pessoas se movimentaram, algumas pessoas sentiram essa necessidade, como é o caso da CAF. Uma pessoa passa por uma situação, uma dificuldade, um problema muito sério que mexe com a sua própria vida e de repente ela percebe assim: “puxa... se eu fizesse algo eu podia minimizar esse sofrimento na vida de outros”, mas não tem ninguém pedindo pra ela fazer algo exatamente... surgiu de uma motivação, não é obrigação. (I08-GII)
A história dela (da organização) surgiu de alguém que resolveu fazer uma coisa que precisava ser feita, sem ganhar, sem ter retorno. Eu acho que ainda hoje ela (a
organização) não tem o retorno que ela precisaria ter... se a gente fosse falar o que
a CAF faz e o que ela recebe... assim, de moeda, né? ela não tem e continua fazendo e continua atendendo... e continua com a porta aberta... então é... (I01-GI)
Além dos documentos oficiais, outros, como notícias, boletins e fotos, apontam para os mesmos fatos com a naturalidade da informalidade,
sustentando-os. Essa mescla de registros evidencia assim, o voluntariado como valor assimilado e escudado até o presente momento.
O voluntário é um sujeito sobre quem recaem responsabilidades e a quem são atribuídos direitos. Ele figura, assim, como elemento na própria trama organizacional e não apenas como um agente pontual, diferenciando- se possivelmente da dinâmica do voluntariado em outros tipos de organizações:
Olha, eu acho que uma das coisas muito atraentes na CAF, que a CAF faz é essa questão da decisão, enquanto membro da diretoria, eu acho que, sabe... ouvir as pessoas, e a gente tem visão diferente, né? por exemplo, vamos decidir o que que a gente vai fazer a partir de agora, então sem o abrigo... pra onde que a gente vai? Então acho que essa questão é muito importante, porque a gente voluntário se sente realmente participando, a sua decisão é importante, o que você pensa é importante, entendeu? Então acho que isso tem que ser mantido, deve ser mantido muito, muito, porque isso é o que dá sentido muitas vezes pro voluntário, pra gente ser voluntário e a gente querer mais... o que você traz é importante e é levado em consideração, acho que isso é, sabe é o fundamento e faz com que a gente continue trabalhando... (I10-GII)
O reconhecimento dessa presença do voluntario na estrutura da CAF ao longo de sua história aparece na fala dos gestores como uma experiência significativa, marcando sua própria inserção na organização pelo voluntariado. A experiência significativa no voluntariado pode ser considerada uma experiência de encontro, o reconhecimento do outro dentro do que afirmam CORTINA4, RAWLS41 (2003) e ALVAREZ 79 (2011) ao referir encontros transformadores.
Nas narrativas carregadas de emoção, a dinâmica do voluntariado aparece como um elemento constante que costura a história de cada um dos entrevistados à historia da organização:
(...) várias... várias, mas eu acho que na minha vida... que influenciou a minha vida
e o fato de eu estar hoje por exemplo ainda na Casa Filadélfia... eu acho que foi uma vez que eu fui contar história... pros adultos lá no outro prédio ainda da CAF quando era ainda na Praça da Árvore... na Vila Mariana... (...) Naquela época eu tava com a vida tão sem sentido (...) E quando eu fui lá contar história pros adultos eu tive, eu tive um impacto muito grande de ver aquelas pessoas vivendo aquela experiência de ser soropositivos pra HIV, alguns com AIDS e eles estarem reconstruindo a vida (...) e eles estavam revendo a vida deles, estavam ressignificando, dando um outro significado pra vida deles (...) E eu fui lá contar história... (choro) E ver aquilo teve um impacto tão grande na minha vida, a minha experiência naquela ocasião foi de que eu teria que ressignificar a minha vida todos os dias (...) o que tava acontecendo com aquelas pessoas era algo que eu precisava (...) (I01-GI)
No relato percebe-se uma experiência que muda o curso do voluntário na organização e consequentemente interfere na história da organização sugerindo a CAF como um local de encontros significativos. A aproximação entre pessoas e realidades modifica a forma de enxergar o mundo correspondendo a uma ressignificação da própria experiência de vida, uma resposta que acontece dentro do que CORTINA4 (2009) apresenta como razão cordial porque implica em decisões que exigem da razão logica e da razão do coração.
O início do trabalho com o abrigo apresenta-se como um marco histórico para a organização pela representatividade de ter heróis e símbolos importantes para a CAF, a AIDS, a Criança e o Adolescente, como um elemento em si e a orfandade como elemento potencializador.
A realidade da primeira geração de crianças e adolescentes sobrevivendo à AIDS e vivendo em situação de abrigamento mostrava-se como uma realidade que exigia uma resposta imediata41. Nas referências dos gestores, o abrigo promovia essa resposta rápida, descrita como “cair da ficha”: