2.3 F IELDWORK AND M ETHOD
2.3.2 Qualitative Approach
O Dicionário Brasileiro de Terminologia Arquivística define a correspondência como comunicação escrita, expedida (activa) ou recebida (passiva), por entidades colectivas, pessoais ou familiares (Borges, 2008: 2). No caso da correspondência do escritor Sousa Costa toda a correspondência é passiva e pode ser classificada como particular, pois as cartas podem ser oficiais, no caso de instituições públicas ou privadas, internas ou externas, conforme o destino e a procedência.
A carta é a comunicação manuscrita ou impressa endereçada a uma ou mais pessoas que desempenha um importante papel no processo de interacção social, (Paiva, 2006). É uma partilha que pode ser uma porta aberta para o conhecimento de algo ou de alguém. A prática comunicativa epistolar de Sousa Costa, é como que um laboratório da sua criação literária, é um território fértil para o estudo da sua biografia. Mas o género epistolar pode também lançar luz sobre a movimentação dos bastidores do sistema literário e, de um ponto de vista mais abrangente, enquadra-se dentro de um contexto histórico, social e emocional, o que torna a epistolografia um terreno fecundo para diversos campos de pesquisa (Moraes, 2009).
20 O Decreto-Lei n.º 16 de 23 de Janeiro de 1993, no seu capítulo III, artigo 17 é bastante elucidativo desta
No Brasil, por exemplo, denota-se um crescente interesse pela correspondência de intelectuais, por parte de críticos da literatura e de pesquisadores de arquivos pessoais. Sendo cada vez mais frequentes as publicações que privilegiam os paratextos arquivados pelos escritores, na busca constante de pistas que revelem mais sobre o autor e sua obra (Paiva, 2006: 30).
Se atendermos ao facto de que esta correspondência foi criada na primeira metade do século XX podemos ainda alargar o campo de pesquisa para a instituição que a fazia circular, os serviços postais. Estas instituições que colocam em trânsito esta forma de comunicação, através dos seus selos, carimbos e sobrescritos levam-nos para um tempo em que a informação demorava a chegar, podia desviar-se ou até perder-se, distante que está da nossa era da informação digital. Isto, corrobora o que já tivemos ocasião de afirmar, o ecletismo deste tipo documental que interessa às narrativas de diferentes disciplinas como a retórica, a filologia, a história, a política, a psicologia, a sociologia, a genealogia ou até mesmo, a economia.
Alguns investigadores das ciências sociais não hesitaram, em meados do século XX, a pedir a alguns indivíduos que arquivassem as suas vidas, como experiência, tendo sido a Escola de Chicago que nasceu no Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago, na segunda década do século XX, pioneira neste tipo de estudos (Artières, 1998). O acto de guardar correspondência está intrinsecamente ligado à memória, à consciência de si, à materialização de todo ou uma parte de um percurso de vida que se deseja que faça parte de uma memória colectiva, pois é um indivíduo com a sua ligação com o mundo, um espelho da socialização com o mundo. Numa perspectiva biológica, a memória é a capacidade humana de reter factos e experiências do passado e durante muitos séculos foi encarada como uma capacidade puramente individual. Apenas no século XIX, passou a ser estudada como uma construção social.
Mas foi a obra de Halbwachs La memóire Collective, (1968) que se começou a encarar a memória como algo indissociável do fenómeno colectivo ou social, inaugurando uma corrente de pensamento que identifica na memória a capacidade de reforçar a coesão social (Oliveira, 2009: 3). Segundo alguns estudos sociológicos, a memória colectiva refere-se às crenças e ideias comuns a um grupo de indivíduos que juntos produzem um sentido de comunidade e
solidariedade (Home, 2002: 62). Para Philippe Artières arquivamos as nossas vidas para responder a uma injunção social:
O anormal é o sem-papéis, mas não pomos nossas vidas em conserva de qualquer maneira; não guardamos todas as maçãs; fazemos um acordo com a realidade, manipulamos a existência. Arquivar a própria vida é se pôr no espelho, é contrapor à imagem social a imagem íntima de si próprio (Artières, 1998: 3).
É também um testemunho que pode ser filtrado ao longo da vida, isto quer dizer que temos que perceber que aquilo que nos fica de alguém pode não ser a totalidade daquilo que recebeu, mas que entendeu ser conveniente ser deixado como prova, ou o que restou. Ao contrário dos arquivos de instituições, cuja documentação deve ser preservada até aos limites impostos pela lei, mediante portarias com tabelas de temporalidade que são instrumentos fundamentais para a determinação do prazo de vigência de um documento num arquivo corrente e seu destino final, de acordo com a sua natureza, devemos ter sempre presente que nos arquivos pessoais a preservação é feita de forma subjectiva. Eles são arquivos permanentes por natureza, tendo quase sempre uma classificação e descrição arquivística feitas após o encerramento do fundo, com a morte do titular (Lopez, 2002: 75).
Por outro lado, como afirma Heloísa Bellotto a preocupação principal dos profissionais e dos investigadores ligados à ciência arquivística centra-se no estudo de arquivos públicos, sendo os arquivos pessoais muito menos estudados e referenciados, (Belloto, 2005). No entanto, denota-se um crescente interesse por este tipo específico de arquivos. A percepção de que os documentos pessoais são, em muitos sentidos, criações do self que reflectem o carácter e especificidade de uma vida, leva o arquivista a tratá-los não como simples e objectivos documentos de arquivo, mas como documentos que foram alvo de uma vontade subjectiva de alguém. Daqui pode-se depreender que as questões de recolha, sonegação e destruição de papéis apresentam facetas mais complexas quando se trata da área privada (Bellotto, 2005: 258).
Por outro lado, Terry Cook considera que muitas vezes os arquivos pessoais são considerados como mais artificiais, antinaturais, algo realmente mais próximo de um material de biblioteca do que de documentos de arquivo como os documentos de arquivos oficiais e públicos. Porém, este mesmo autor contesta esta posição como sendo uma visão estreita e limitada da
visão do arquivista como alguém neutral, imparcial e passivo. Os arquivistas evoluíram de uma suposta posição de guardiães imparciais, para se tornarem agentes intervenientes, construtores activos da memória social (Cook, 1998: 132).
Um arquivista que tenha entre as mãos um arquivo pessoal é muitas vezes confrontado com o poder do seu criador, o que é completamente diferente dos arquivos institucionais. Sobretudo, os arquivos de escritores que nunca estão inteiramente afastados do seu trabalho e dos detalhes da sua própria vida (Hobbs, 2001). Não estando dissociados da sua própria vida, ligam-se muitas vezes aos seus familiares ou herdeiros designados cabendo a estes o destino a dar tal legado. Mas se por vezes, são esquecidos em caixas cobertas pelo pó do tempo acabando por desvanecer-se pela passagem dos anos outras vezes, muito tempo depois, são resgatados do esquecimento e colocados à disposição de profissionais da Ciência da Informação e, por fim, do leitor.