4.2 B RING IN THE R EINFORCEMENTS
4.2.3 Less Cooperation: a Means to an End? (2017-)
Sério és
Tema da faculdade em que não pode por os pés
(Emicida)
Neste capítulo falarei sobre alguns dados e experiências reveladoras da presença indígena na Universidade Federal de Roraima (UFRR), das quais tomei conhecimento na qualidade de observador participante. O encontro com pensadores indígenas dentro do meio acadêmico, às vezes no papel de palestrantes, por sua vez, demonstra que essa presença não é apenas física ou uma questão numérica (estatística), mas cada vez mais integra o campo de diálogos, produções e preocupações da Universidade. O espaço acadêmico, portanto, vai sendo transformado, na medida do possível, pois também resiste, por essa movimentação de pessoas, costumes, saberes e práticas. A convivência com não-índios dentro desse ambiente ainda suscita questões problemáticas, como incompreensão, preconceito e manifestações racistas por parte destes. A entrada na Universidade é vista pelas organizações indígenas como um projeto coletivo, resultado de muita luta, debates e reuniões, que culmina na criação do Instituto Insikiran e de vagas específicas para indígenas nos demais cursos. A criação de medidas institucionais que visem garantir o acesso e a permanência de acadêmicos indígenas na Universidade torna-se assim um fator determinante para a continuidade desse processo. A afirmação da identidade indígena, por sua vez, pode ser vista como uma forma de indivíduos e grupos atuarem dentro do cenário interétnico que é o estado de Roraima, produzindo efeitos os mais diversos, inclusive quando essa afirmação parte de uma alta autoridade acadêmica.
Primeiras aproximações ao campo: “acho que estou no lugar certo”
A UFRR tem três campi em Boa Vista, o principal é o campus Paricarana, onde ficam os órgãos administrativos como a Reitoria e Pró-Reitorias, o Departamento de Registro e Controle Acadêmico (DERCA), além da Biblioteca Central, do Restaurante Universitário e da maioria dos cursos, incluindo o Instituto Insikiran de Formação Superior Indígena81 – situado próximo a uma das entradas, pela Av. Venezuela, à direita de quem entra. Os outros dois, o campus Cauamé e o campus Murupu, estão fora dos limites urbanos da cidade, após
81
116
atravessar o rio Cauamé e pegar a BR 174 no sentido da fronteira com a Venezuela. No campus Cauamé funcionam os cursos de Agronomia, Zootecnia e Medicina Veterinária. No campus Murupu, localizado na sede da antiga Fazenda Bamerindus, está a Escola Agrotécnica (EAGRO). Conheci somente o campus Paricarana, não apenas por ser o principal e por abrigar o Insikiran, mas também devido ao isolamento dos outros dois ambientes, o que representava uma dificuldade física de acesso. Entretanto, os alunos de Agronomia e dos demais cursos afastados do centro frequentam bastante o campus central, seja para almoçar, utilizar a biblioteca, descansar, utilizar as dependências do Diretório Central dos Estudantes (DCE), ou resolver questões burocráticas como matrícula etc. Pude conhecer muitos desses acadêmicos ali mesmo, num ambiente mais aberto e propício a conversas e interações, algumas das quais muito proveitosas.
Figura 4: Fachada do Bloco I, UFRR, pintada pelo coletivo de artistas venezuelano Urbano Aborigen
(Foto do autor, 2016)
A UFRR, a primeira instituição de ensino superior (IES) a se instalar em Roraima, foi fundada oficialmente em 1989, através do Decreto. nº 98.127, embora já tivesse sido autorizada quatro anos antes, pela Lei nº 7.364/85 – ou seja, antes mesmo da transformação do Território de Roraima em estado autônomo – que previa inicialmente a criação dos cursos de graduação em Agronomia, Geologia, Economia, Administração, Pedagogia e Serviço Social. Hoje a Universidade conta com por volta de quarenta cursos de graduação, além de cursos de especialização, mestrado e doutorado, dividindo-se em ao menos doze Centros
117
Didáticos e Institutos. São mais de 8 mil alunos matriculados atualmente na UFRR82. A paisagem atual do Campus Paricarana, entretanto, veio a assumir a presente forma somente após o Programa de Apoio a Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI), criado em 2007, que direcionou aportes significativos de verbas para investimentos em infraestrutura. Muitos blocos de aulas e prédios administrativos, como o da Reitoria, são relativamente novos, tendo sido construídos nos últimos dez anos com as verbas desse Programa.
Apesar de eu realizar boa parte de minhas observações na própria UFRR, que merece por isso a apresentação acima, a instituição não é o tema de minha pesquisa, e sim o contexto e o ambiente no qual esse tema (cujo termo equivalente em inglês seria subject, palavra que quer dizer, ao mesmo tempo, assunto, objeto, sujeito...) por mim escolhido – os acadêmicos indígenas em Roraima – pôde melhor ser acessado e observado, e onde contei com mais abertura de professores, estudantes e funcionários para me inserir. Como mencionei na Introdução, inicialmente meu escopo de pesquisa não se limitava à UFRR mas tentava abarcar, literalmente, os acadêmicos indígenas de Roraima, o que abrangia também outras IES, públicas e privadas, como a Universidade Estadual de Roraima (UERR), que tem diversos campi no interior do estado, ou as Faculdades Cathedral. Acabou que estas outras instituições fizeram-se presentes de forma apenas complementar, nas falas de indígenas que por elas passaram ou que nelas estudam – com exceção da UERR, com a qual desenvolvi uma parceria inicial, mas que infelizmente não se prolongou, uma vez que meu principal contato ali dentro solicitou uma licença para aperfeiçoamento profissional durante o período do meu campo.
Quando participei da X Reunião de Antropologia do Mercosul (RAM), em 2015, no Uruguai, no Grupo de Trabalho (GT) em que apresentei meu trabalho (baseado no projeto desta pesquisa) conheci duas jovens pesquisadoras que, como eu, realizavam suas pesquisas de mestrado ou doutorado sobre estudantes indígenas em uma universidade brasileira específica. Mas ambas, ao contrário de mim, pesquisavam em suas próprias universidades, isto é, estavam matriculadas na instituição em que faziam seu trabalho de campo. O fato de eu ser matriculado na UnB e estar fazendo boa parte do meu trabalho de campo nas dependências da UFRR representou, assim, algumas dificuldades para mim no início. Um dos Pró-reitores, à época, sugeriu que eu me vinculasse a alguém de dentro da instituição, uma espécie de tutor para me orientar ali dentro. Nem eu nem meu orientador achamos essa uma boa ideia, pois
82
118
associar-me logo de início a um nome ou grupo da UFRR poderia dificultar meu acesso aos outros grupos. Acabei conquistando a confiança de muitos profissionais e alunos da UFRR, sem que para isso eu precisasse estar submetido a tais cuidados e mantendo, assim, uma independência que sempre julguei salutar para o trabalho de campo. Alguns funcionários foram muito solícitos em fornecer dados quantitativos – que, afinal, são públicos – que solicitei formalmente, sobre o número de estudantes indígenas matriculados.
Os espaços que frequentei e usei no início eram aqueles ―abertos à comunidade‖, de livre acesso, e aos poucos fui tendo permissão ou sendo convidado para participar mais ativamente de aulas e eventos. Com o tempo, enquanto ia conhecendo pessoas, fui conhecendo também os meandros institucionais, as disputas internas, os conflitos interpessoais e entre grupos, mas também, em alguns lugares, um forte espírito de cooperação, espaços de diálogo entre alunos e professores, a construção e os esforços de muitos na direção de uma educação superior intercultural. Presenciei muitas atividades acadêmicas interessantes, seja no Insikiran, no Instituto de Antropologia (INAN), no Centro Amazônico de Fronteira (CAF), no Centro de Ciências Humanas (CCH), no próprio DCE, no Auditório Alexandre Borges e em outros lugares do campus Paricarana. Em algumas dessas atividades, participei ativamente, como palestrante ou me apresentando e fazendo perguntas no momento do debate. Nos períodos em que estive em Boa Vista, e sobretudo quando morei próximo ao campus Paricarana, no bairro Aeroporto/Jardim Floresta, pude presenciar parte da vida acadêmica da UFRR: além de seminários, palestras e congressos, enquanto estive lá o campus teve alguns momentos de efervescência, com atividades culturais, manifestações, assembleias, uma greve de professores, uma eleição para Reitor, entre outros eventos que ofereceram uma rica oportunidade de observação e interação.
A primeira atividade de que participei, como ouvinte, coincidiu com minha primeira ida ao estado, ainda em novembro de 2014. Foi o II Seminário Internacional do Programa de Pós-graduação Sociedade e Fronteiras (PPGSOF), evento que foi denominado como
Fronteiras Contemporâneas: desenvolvimento, conflitos e sociabilidades nas Amazônias,
organizado pelos professores do Programa na UFRR. Entrei numa sala de aula no CCH em que estavam sendo apresentados trabalhos no GT sobre conhecimentos tradicionais. Chamou- me atenção a diversidade dos temas explorados e as conexões possíveis com disciplinas acadêmicas ‗clássicas‘. Alguns trabalhos eram apresentados por estudantes indígenas da UFRR ou de instituições particulares como a Faculdade Estácio/Atual. Dentre esses trabalhos, por exemplo, um era sobre Economia Solidária: ―uma análise da I Feira Indígena Makunaima
119
no alto São Marcos‖. Outro sobre Educação Intercultural: ―A construção de propostas educativas interculturais: o aproveitamento da casca de mandioca para fazer ração para animais‖ e ainda um outro sobre ―A cultura popular dos indígenas da Amazônia Brasileira na perspectiva dos Macuxi e sua inter-relação com os fenômenos contábeis‖83. Passei o dia tentando acompanhar o resto da programação do evento, com Seminários Temáticos e Mesas Redondas, aproveitando para conhecer e pegar os primeiros contatos com alguns professores da casa, preparando-me para o campo que faria a partir do início do ano seguinte. Essa pequena amostra, no entanto, já era suficiente para me convencer da quantidade de temas regionais pertinentes para a realização de pesquisas e, também, da qualidade e seriedade dos pesquisadores – mulheres e homens, estudantes e professores, alguns bem jovens, outros não – daquela região do país, tão pouco mencionados nos ‗centros‘ como Brasília, mesmo quando o que aqui se debate é o lugar onde eles vivem e trabalham, ou os temas que pesquisam.
Nos meses de fevereiro e março de 2015, morei em Boa Vista na Casa do Estudante do bairro Asa Branca. Pude ficar ali afortunadamente, sem precisar pagar nada além de uma pequena taxa simbólica de manutenção, após conversar com os ‗líderes‘ da Casa e explicar minha situação. Trata-se de um espaço construído pelo governo do estado, mas abandonado logo em seguida, tendo sido recuperado e totalmente gerido por estudantes nos últimos anos84. É um belo exemplo de autogestão, mas quando usei essa palavra ela pareceu não fazer o menor sentido entre os moradores da Casa, que se viravam em rodízios de limpeza, construção de móveis, pequenos consertos, estudos, refeições, ajudas mútuas, mutirões etc. O bairro é um tanto afastado do centro e do campus principal da UFRR, aonde eu chegava após pegar duas conduções (ônibus ou um táxi coletivo, chamado Lotação), o que limitou um pouco meus movimentos. A desolação das ruas de asfalto sem calçada para pedestres e sem sombra de árvores – quase uma regra em bairros como esse – só aumentava quando caía a noite, quando ficavam desertas, mal iluminadas e, segundo me alertaram várias vezes, perigosas. Nos fins de semana não havia absolutamente nada para fazer nas redondezas. A sensação de tédio era monstruosa e se somava ao calor acachapante do verão, sensações que se intensificavam pelo fato de a Casa estar ao lado de um parque aquático público desativado e (também) abandonado há anos85. Nessa época eu ainda não possuía a melhor maneira de me
83
Os autores dos referidos trabalhos podem ser conferidos no site do evento:
http://ufrr.br/fronteirascontemporaneas/index.php/programacao/grupos-de-trabalhos.
84
Ver, por exemplo: http://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2014/08/moradores-da-casa-do-estudante- denunciam-abandono-do-local-em-rr.html.
85
120
livrar dessas duas coisas (o calor e o tédio): uma bicicleta, algo que eu só iria adquirir em setembro, quando ficaria na cidade por um período mais longo.
Na Casa do Estudante, porém, ao contrário do que eu supunha anteriormente, praticamente não havia moradores indígenas, com exceção de uma menina que estava grávida e do irmão dela, com quem eu pouco conversei. No período em que morei ali, eu ia diariamente à UFRR e também passei a frequentar a Secretaria do Índio do estado de Roraima (SEI), onde eu tinha alguns contatos, dentre os quais o principal era Alfredo Silva Wapichana, que eu havia conhecido em novembro do ano anterior na comunidade de Nova Esperança, situada no alto São Marcos, bem próximo à fronteira com a Venezuela, no município de Pacaraima. ―Seu Alfredo‖, que é formado em Letras e fez mestrado em Desenvolvimento Sustentável em Brasília, é o tuxaua de Nova Esperança, dividindo seu tempo entre a comunidade e a Secretaria, onde exerce o cargo de assessor86. Alfredo é um exímio articulador de projetos e condutor de reuniões, nas quais agrega uma ampla gama de apoiadores e aliados, tomando a iniciativa de diversas atividades, seja com um projeto de trilha arqueo-ecológica já implementado em sua comunidade87, seja nos eventos da SEI que coordena.
Pude acompanhar algumas das reuniões conduzidas por Alfredo e participar de atividades na SEI nos primeiros meses de 2015. Envolvi-me direta e ativamente no planejamento e organização do evento de comemoração da Semana dos Povos Indígenas, intitulado ―Somos todos índios: Macunaima no século XXI‖, que ocorreu entre os dias 13 e 16 de abril. Esse evento foi realizado em parceria com a Universidade Estadual de Roraima (UERR), que forneceu palestrantes e uma equipe de apoio formada por alunos que receberiam certificado.
86
A SEI é um ambiente propício para observar a complexidade das políticas indígenas e indigenistas no estado de Roraima, e aqueles primeiros meses de 2015 eram o início de um novo mandato de governo estadual, em que a família Campos – um dos mais poderosos clãs políticos no estado – voltava ao poder em uma configuração heterogênea, tendo como vice na chapa o fazendeiro Paulo César Quartieiro, um dos opositores declarados à demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS), ao mesmo tempo em que essa mesma chapa contava com o apoio da coligação PT/PCdoB, pela qual concorreram ao legislativo, sem êxito, algumas lideranças indígenas naquele pleito. É sintomático da instabilidade de tal conjunção de forças o fato de que o vice-governador, Quartieiro, tenha declarado rompimento com o governo antes do quarto mês de mandato e – simultaneamente e por motivos completamente opostos – algumas organizações indígenas tenham feito o mesmo.
87
Recentemente, Seu Alfredo foi entrevistado em reportagem intitulada ―Funai cria norma para regularizar visitas às terras indígenas em RR‖, no site da Globo, elogiando a norma enquanto algo que propiciará, através do
turismo, maior conhecimento da cultura e dos valores indígenas:
http://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/2015/09/funai-cria-norma-para-regularizar-visitas-terras-indigenas-em- roraima.html.
121 Figura 5: Evento na SEI
(Foto do autor, 2015)
Retornei a Roraima no mês de abril especialmente para essa ocasião, em que coordenei uma mesa redonda intitulada ―Indígenas e Ensino Superior: experiências e trajetórias‖, para a qual convidei, com o intuito de que compartilhassem suas histórias pessoais, três indígenas já formados na universidade e exercendo carreiras profissionais com relativo sucesso, sendo um médico (Miqueias Napoleão), um advogado (Wenston Raposo) e um professor e pedagogo que cursa o doutorado na PUC-SP (Geisel Bento Julião). Eu já conhecia os três de experiências anteriores, e o tema da mesa redonda condizia com o de minha pesquisa de doutorado, focada na relação entre povos indígenas e o ensino superior em Roraima. Aquela era uma oportunidade para ‗testar‘ a pertinência do assunto. As falas deles tiveram um forte tom edificante e visavam a incentivar os jovens indígenas que pretendiam acessar a universidade, porém o público-alvo esperado não se concretizou e os presentes eram, em maioria, não-índios ou indígenas mais velhos.
Nesse início de 2015, enquanto eu participava das reuniões na SEI, fui estreitando os contatos com alguns professores e estudantes da UFRR e aproveitando para me inteirar daquele ambiente acadêmico. O campus Paricarana e a SEI ficam bem próximos, o que me permitia ir a pé de um ao outro, trajeto que fiz inúmeras vezes. Na mesma semana do evento na SEI ―Somos todos índios‖ (cujo cartaz tentava retratar uma versão infantil do ‗mito das três raças‘, mesmo que o fenótipo indígena tenha ficado – absurda e contraditoriamente – ausente), foi realizado no Instituto de Antropologia da Universidade Federal de Roraima
122
(INAN/UFRR) um Seminário sobre Povos Indígenas88, tendo como palestrantes dois estudantes indígenas (Roberlandio Wapichana, estudante de direito, e Alvino Andrade Macuxi, de ciências sociais) e um professor indígena do Curso de Licenciatura Intercultural (Celino Raposo).
O acadêmico de ciências sociais, Alvino Andrade, que também é professor formado em filosofia e teologia e está concluindo sua terceira graduação, fez uma análise contundente dos efeitos da ―noção de etnodesenvolvimento e a experiência dos Macuxi‖ nas terras indígenas do estado. Afirmou que ―todas as 32 [TIs] têm conflitos‖ e que em algumas comunidades, como o Contão (a maior comunidade macuxi, com 1200 pessoas) a língua indígena está muito fragilizada, pois ali apenas 25 pessoas a falam e por volta de 100 compreendem: ―A língua está fragilizada nesse contexto de modernização. Com tanto aprendizado e tecnologia nós não estamos conseguindo preservar a nossa língua‖. Alvino também analisou o quadro de estudantes indígenas no estado: ―hoje somos aproximadamente mil acadêmicos, em várias instituições, e esse acesso teve início a partir do ano 2000. Tem alunos que já estão no estágio de pós graduação‖.
Alvino, que com 14 anos veio ―para a capital estudar‖, hoje é um intelectual e cientista social indígena e considera a si mesmo um ―observador de nossas próprias comunidades‖, afirmando para o público presente – composto em boa parte por outros estudantes indígenas – que ―hoje estou voltando [para as comunidades] como pesquisador, questionador, observador‖. É a essa dupla qualidade de indígena e cientista social que ele fazia referência para situar seu lugar de fala quando mencionou ter vindo falar de ―etnodesenvolvimento, o que é muito complexo‖. O abandono de certas atividades produtivas, como a roça tradicional, substituída pela lavoura, estaria trazendo sérios problemas ligados à segurança alimentar, pois algumas comunidades não estão mais trabalhando com a roça, e no próprio Contão ela seria posta em prática por somente 50 famílias. ―Com o mundo moderno, aumentam as necessidades, o consumo exige isso, o capitalismo é tão forte que te obriga a comprar coisas novas, camisa, sabonete...‖, diz Alvino, para quem o conhecimento deve ter um fim claro: ―nosso aprendizado não é para buscar concurso público, mas para resolver problemas das nossas comunidades‖.
O principal exemplo utilizado pelo palestrante ilustra bem sua posição crítica em relação ao conceito: um projeto de etnodesenvolvimento na TIRSS, implementado pela própria SEI junto a lideranças da organização indígena Sociedade dos Índios Unidos do Norte
88
123
de Roraima (SODIUR), concentrou máquinas e material caríssimos na comunidade do Contão, mas não forneceu o conhecimento técnico para utilizar o equipamento. A SODIUR contrapõe-se diretamente ao Conselho Indígena de Roraima (CIR), uma vez que ambas tomaram posições opostas quanto à desintrusão dos invasores da TIRSS durante o processo demarcatório – a SODIUR defendia a permanência dos fazendeiros e foi derrotada com o julgamento final da questão pelo Supremo Tribunal Federal, sendo ainda hoje mais associada aos interesses do governo do estado. As máquinas levadas ao Contão seriam para plantar arroz, cultura estranha àquela comunidade, em que se planta sobretudo milho e mandioca. E assim, Alvino concluiu sua exposição: ―Tem máquina lá que nunca plantou um grão, então eu pergunto: o que é etnodesenvolvimento? Será uma forma de o estado impor o que ele quer?‖. Quando a palavra foi aberta ao debate, inscrevi-me para falar. Apresentei-me e disse que estava fazendo meu doutorado em antropologia pela UnB sobre os acadêmicos indígenas de Roraima, ―acho que estou no lugar certo‖, falei. Fiz uma intervenção e tentei argumentar que esse não havia sido um bom exemplo de etnodesenvolvimento, pois para merecer assim ser chamado um projeto deve respeitar as formas indígenas de produção e não simplesmente