Fundada em 1934, a universidade de São Paulo foi proposta como 'Modelo paulista' e, assim como a Universidade do Brasil no Rio de Janeiro, teve sua implantação prolongada e retardada até os anos 50. Os motivos que levaram a esse atraso foram, principalmente, a descontinuidade na administração pública e, consequentemente, a interrupção no processo de implantação, que se diferenciava pela localização fora da área urbanizada e que exigia investimentos monetários para sua infraestrutura física, além da resistência das faculdades tradicionais já existentes em seus edifícios isolados que relutaram em uma mudança.
A primeira proposta6, em 1935, para a Cidade Universitária foi estruturada tendo como centro básico a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), em torno da qual se agrupariam as demais faculdades, com o objetivo de integrar e propiciar a convivência no campus. Esse modelo defendido por Ernesto de Souza Campos, professor do Instituto de Educação e responsável por diversas publicações sobre temas universitários, colocava esse conceito como norteador da universidade contemporânea. Porém, no longo processo de definição e ocupação do campus, essa referência de integração foi se perdendo e, posteriormente, abandonada.
Importante salientar, na formação do território da Cidade Universitária, as referências internacionais trazidas pela equipe responsável pela conformação do
6 A comissão responsável pelos primeiros estudos era composta pelo Reitor Reynaldo Porchat e
pelos professores Ernesto Leme, Fernando de Azevedo, Alexandre de Albuquerque, Afrânio do Amaral e Ernest de Souza Campos, que também participou do projeto para a Universidade do Brasil.
campus. No livro ‘Universidade - Cidades Universitárias’, de Campos, o autor relata suas viagens realizadas pelo governo do Estado nas décadas de 20 e 30 por diversas universidades estrangeiras na América do Norte, Europa, Japão e África do Sul, com o objetivo de acrescentar e atualizar as propostas para a USP. A própria localização da Cidade Universitária em São Paulo foi justificada por Campos, tendo como base seu conhecimento em universidades de outros países, que possuíam áreas extensas e localização periférica às cidades.
Ao longo do processo de escolha e definição dos limites físicos da universidade, muitos embates foram colocados, e a primeira área escolhida pela comissão responsável se localizava entre a Faculdade de Medicina e o Instituto Butantã (ver figura 14), e era justificada pela extensão e pelo baixo custo imobiliário. Essa área foi, ao longo do tempo, sendo reduzida e mais bem delimitada, finalizando numa área de 450 hectares, segundo Macedo:
"É interessante observar como, desde a forma ambiciosa e dispersa da proposta inicial, tentando ocupar toda área entre o Araçá e a Fazenda Butantã, o desenho vai se compactando, tomando corpo e procurando sentido de totalidade dentro das limitações impostas pela realidade, para chegar à relação mais equilibrada de escala na proposta resultante de onze estudos iniciais." (Macedo, p. 14, 1987).
Figura 14 – Primeiro estudo para a Cidade Universitária. Fonte: Campos, E. S. Estudos sobre o problema universitário.
O escritório técnico dirigido por Campos desenvolveu, entre 1935 e 1937, diversos estudos para a implantação e chegou à chamada 'Solução Butantã', que propunha a ocupação da fazenda estadual do Instituto Butantã, localizando apenas a área esportiva na margem direita do rio Pinheiros. Essa solução diferenciava-se da proposta de 1935, já que ocupava na sua maior parte a margem direita do rio. Com o golpe de Estado em 1937, os estudos foram interrompidos. Dois pontos principais podem ser destacados na propostas para a Cidade Universitária: a centralização da escolas e a setorização buscando a integração entre estas e a administração da universidade.
Figura 15 - Plano geral da Cidade Universitária – Solução Butantã. Escritório técnico, 1937. In: Campos, 1938, p.236. Fonte: Cabral, p. 69
Segundo Cabral, em 1943, foi apresentado um novo plano idealizado por Mário Whately, ainda influenciado pela 'Solução Butantã', que também carregava as diretrizes do plano da Universidade de Virgínia, EUA, com edifícios agrupados em torno de uma grande praça. Porém, esse plano também não foi executado, e indefinições sobre as dimensões da área e os limites de implantação fomentavam discussões de projeto e ocupação.
Nos anos seguintes, alguns planos foram idealizados para a Cidade Universitária e, apesar de não terem sido executados, contribuíram de forma a ampliar a discussão e as diversas possibilidades de implantação do campus. A autonomia, mesmo que parcial, concedida em 1944 e a Semana da Cidade Universitária foram acontecimentos importantes para a universidade. No ano de 1945, um novo plano foi elaborado pelo Escritório Técnico, incorporando soluções dos planos anteriores e avançando nas definições urbanísticas.
Figura 16 – Plano para a Cidade Universitária (1945). In: Americano, 1947. Fonte: Cabral, p. 103.
O plano realizado a partir de 1949 tem o diferencial de contar com verbas para a execução das obras e não considerou mais em sua base a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Até o ano de 1954, as obras foram voltadas para a infraestrutura e urbanização. Segundo Cabral, o memorial do Plano de 1949, apresenta, em linhas gerais, as seguintes características: setorização viária, zoneamento em função do uso e subdivisão dos setores em unidades da área.
"[...] cada setor se constitui como agregado mononucleado e o conjunto se apresenta como organismo polinucleado. A unidade se realiza por meio de distribuição equilibrada e não por centralização". (Campos, 1954 / Cidade Universitária da USP, p. 24 e 25)
No texto de Campos, a partir de 1954 fica evidente a preferência pela implantação com edifícios distanciados entre si, buscando assim a configuração de um parque. Sua justificativa se deu pela dimensão da área e pela projeção de que a
universidade cresceria e se desenvolveria, exigindo novos edifícios, que não poderiam estar agrupados como numa implantação urbana.
"A comissão da Cidade Universitária está compondo magnífico parque no
campus da Butantã. [...] Não será um parque vazio, silencioso. ao contrario,
será freqüentado pela mocidade estudiosa, transitando em busca dos seus setores escolares ou do campo esportivo. Coletivos internos de acesso facultarão rápidas comunicações, ao lado de automóveis, motocicletas e bicicletas. Em geral, porem, cada um dirige-se para o seu setor de interesse, sem necessidade de se pôr em contato com os outros. E quando quiser comunicar-se tudo se fará com maior facilidade. Para isso constituíram-se setores específicos [...]" (Campos, p. 127 e 128, 1954).
Nesse mesmo período, renomados profissionais elaboraram projetos arquitetônicos para o campus, como Rino Levi, Roberto Cerqueira Cezar, Plínio Croce, Amaral Lyra, Roberto Burle Marx, entre outros.
A partir de 1955, ocorreu uma renovação de chefias e de professores na Universidade de São Paulo, e o arquiteto Hélio de Queiroz Duarte assumiu a direção do Escritório de Engenharia e Arquitetura da C.C.U.A.S.O. (Comissão da Cidade Universitária 'Armando Sales Oliveira'). Através dele, uma nova diretriz de projeto passou a ser idealizada e implantada seguindo os preceitos da arquitetura moderna. Segundo Cabral, o plano de 1956 reviu o sistema universitário da USP considerando que a proposta inicial de integração através da FFLC não havia ainda sido implantada.
A ocupação do campus se consolida no período subsequente sofrendo alterações e passando por diferentes coordenações. Vale ressaltar nesse período a tentativa de retomada de uma área de convivência para o campus com a idealização do core7 conceituado por Mário Pedrosa e concebido por Oswaldo Arthur Bratke. O texto publicado em 1967, 'Parecer sobre o Core da Cidade Universitária'8 de autoria de Pedrosa, revela a busca por estabelecer uma dimensão cultural no campus e a preocupação com a instalação do Museu de Arte Contemporânea na Cidade Universitária para abrigar as obras doadas por Cicillo Matarazzo.
7 Em 1956, Hélio Duarte já havia projeto de um core para a Cidade Universitária.
8 Pesquisado no texto de Aracy Amaral publicado na Revista Risco da EESC. 'Mário Pedrosa e a
"Nos debates sobre a criação das universidades brasileiras a questão de sua organização espacial aparece quase sempre vinculada à sua importância como elemento de promoção do convívio e integração universitaria. Neste contexto o espaço físico se apresenta como meio imprescindível à formação do preconizado espírito universitário." (Oliveira, p. 22)
Segundo Cabral, no entorno do core, estaria implantada a Reitoria, o Conselho Universitário e a Aula Magna, a Biblioteca Central e o Museu de Arte Moderna. Porém o core não chegou a ser implantado. Um novo plano foi realizado em 1972, de autoria do arquiteto Anhaia Mello, mas apenas as vias e a Torre Universitária projetada por Rino Levi na década de 50 foram executadas.
Figura 17 - Vista da Torre Universitária (1975). COESF. Fonte: Cabral, p. 227.
A implantação da Cidade Universitária teve em sua história embates ligados tanto a questões físicas de planejamento e viabilidade de implantação, quanto a posições políticas e administrativas, que geraram, no processo de desenvolvimento do campus, atrasos e descontinuidade nos projetos para a universidade. Mas é importante ressaltar a participação de arquitetos e urbanistas representativos na sua concepção e a busca de uma valorização dos espaços e edifícios para a universidade.
Nos primeiros estudos para a USP, com a participação de Ernesto de Souza Campos, as referências internacionais apareceram marcantes, resultado das suas viagens e estudos no exterior. Posteriormente, com a disseminação da arquitetura moderna e de novos conceitos de organização, formou-se o repertório para a consolidação da universidade, que hoje é referência para o país. Neste contexto, atualmente a Coordenadoria de Espaço Físico elabora e implanta os projetos para os campi da universidade, como o da USP Leste, campus objeto de estudo desta pesquisa.