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Lecture et nature

Outra marca lingüística, em termos de ethos, encontra-se na seleção verbal, nesse sentido, faremos uma análise das discursividades que trabalham os verbos nas seqüências abaixo:

Seq. 35. A sociedade brasileira majoritária, permeada pela visão evolucionista da história e das culturas, continua considerando os povos indígenas como culturas em estágios inferiores, cuja única perspectiva é a integralização e a assimilação à cultura global (p. 34, grifo nosso).

Seq. 36. Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e

revividas. Terras tradicionais estão sendo reivindicadas, reapropriadas ou reocupadas pelos verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas e praticadas na aldeia, na escola e nas cidades. Rituais e

cerimônias tradicionais há muito tempo não praticados estão voltando a fazer parte da vida cotidiana dos povos indígenas nas aldeias ou nas grandes cidades brasileiras.

Isso é um retorno ao passado ou puro saudosismo? De modo algum. Isto é identidade indígena e orgulho de ser índio. É ser o que se é, como acontece com todas as sociedades humanas em condições normais de vida (p. 39, grifos nossos).

Seq. 37. Estimativas menos otimistas indicam que em 1500, quando da

chegada de Pedro Álvares Cabral, viviam no Brasil pelo menos 5 milhões

de índios (p. 49, grifo nosso).

Para pensar discursivamente nos sentidos produzidos acerca da escolha de alguns verbos, a princípio observamos a regularidade das formas nominalizadas na seqüência discursiva “Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas. Terras tradicionais estão sendo reivindicadas, reapropriadas ou reocupadas pelos verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas [...]” as quais emergem sentidos positivos e esperançosos acerca da cultura, tradições, terras e línguas indígenas, desconsiderando assim, pontos de vista que circulam acerca dos índios terem perdidos elementos considerados necessários para identidade desses povos, bem como para se denominarem como índio diante da sociedade branca. Trata-se de um discurso influenciado pelo discurso pedagógico que se estrutura a partir de uma visão otimista do processo de contato e transformação do índio.

Por outro lado, quando uma forma verbal é nominalizada, há um apagamento das suas condições de produção passando a funcionar como pré-construído e produz um efeito de evidência de “já-lá” do qual o enunciador se apropria para fundar seu dizer, sua argumentação.

Vejamos também, nas seqüências discursivas em análise, a regularidade na escolha da derivação prefixal para formar os verbos resgatar, revalorizar, reviver, reivindicar, reapropriar, reocupar, reaprender, ou seja, têm como prefixo “re” que é de origem latina e produz efeito de sentido de um movimento para trás, repetição. Efeito de sentido esse que remete a uma atualização de memória em torno do que já foi e continua sendo de propriedade e característica constitutiva dos índios. Em outras palavras, constrói uma história do presente, simulando acontecimento em curso que estão eivados de signos do passado.

Na verdade, pronunciados esses verbos nominais na atualidade, inseriu-se em outro campo da memória, aquele que confere estatuto de indivíduo/sujeito a todos os que, antes da chegada dos europeus, já desenvolviam seu processo cultural e histórico. No caso das terras, por exemplo, elas estão sendo “reapropriadas ou reocupadas pelos verdadeiros donos originários”, afirmando que não são invasores, reivindicam algo que lhes é próprio, dono. Há uma relação de temporalidade entre presente e passado que mostra o conflito relacionado à questão da terra que se apresenta latente.

Quanto à substituição do verbo “invadir” por “reapropriar ou reocupar” sugere uma posição enunciativa que considera a independência dos índios, sua história e sua cultura. Dito de outro modo, “as palavras, expressões, proposições, etc., mudam de sentido segundo as posições sustentadas por aqueles que as sustentam” (PÊCHEUX, 1995, p. 160).

Vale notar a sequência abaixo

Seq. 38. O processo de reafirmação da identidade indígena e o sentimento de orgulho de ser índio estão ajudando a recuperar gradativamente a auto- estima indígena perdida ao longo dos anos de repressão colonizadora. Os dois sentimentos caros aos povos indígenas estão possibilitando a retomada de atitudes e de comportamento mais positivos entre eles [...]. A

reafirmação da identidade não é apenas um detalhe na vida dos povos

indígenas, mas sim um momento profundo em suas histórias milenares [...] (p. 42-43, grifos nossos).

A forma “reafirmação” é uma forma nominalizada a partir do verbo “reafirmar”. O verbo reafirmar traz embutido um agente que reafirma, não mostrado, indeterminado. Alguém reafirma sua identidade a alguém. O sujeito/autor se isenta da responsabilidade de explicitar os agentes das ações. Parte dos fatos como sabido por todos, parte de um pré-construído.

No que diz respeito à sequência “Os índios conservam suas línguas, suas experiências e sua relação com a natureza e com a sociedade. Eles mantêm a tradição oral e os rituais como manifestação artística e maneira de vinculação com a natureza e o

sobrenatural” (p. 50), a mesma se inscreve como uma constatação. O uso do verbo “conservar” e “manter” no presente produz um efeito de verdade provada e constatada. A produção desse efeito de sentido, porém, é obtida pela necessidade que o enunciador tem de argumentar a favor da existência/permanência de traços marcantes da sociedade indígena. A língua, por exemplo, é historicamente elemento simbólico e identitário dessa sociedade. Nesse caso, conservar a língua aparece como um atributo do ser índio.

É preciso considerar a afirmação “A sociedade brasileira majoritária, permeada pela visão evolucionista da história e das culturas, continua considerando os povos indígenas como culturas em estágios inferiores, cuja única perspectiva é a integralização e a assimilação à cultura global”, na qual o verbo “continuar” também está conjugado no presente, produzindo um efeito de verdade que enfatiza uma continuidade entre um discurso que menospreza os povos indígenas de hoje e do passado remoto referente à colonização. Dito de outro modo, o verbo “continuar” pressupõe um ontem e um hoje de discriminação.

Outro aspecto observado é a relação de antonímia criada entre a imagem pejorativa que geralmente os “brasileiros brancos” fazem do índio, descrita na seqüência “o índio representa um ser sem civilização, sem cultura, incapaz, selvagem, preguiçoso, traiçoeiro etc. Para outros ainda, o índio é um ser romântico, protetor das florestas” (p.33) e a imagem que o sujeito enunciador produz acerca do índio na seqüência 36 “Culturas e tradições estão sendo resgatadas, revalorizadas e revividas. Terras tradicionais estão sendo reivindicadas, reapropriadas ou reocupadas pelos verdadeiros donos originários. Línguas vêm sendo reaprendidas e praticadas na aldeia, na escola e nas cidades”.

Nesse momento, o enunciador evidencia a busca de desconstrução da imagem negativa do índio por meio de um discurso de oposição enfatizado nos verbos resgatar, revalorizar, reviver, reivindicar, reapropriar, reocupar, reaprender, em que o enunciador índio dirá justamente o contrário, que os índios estão em plena atividade de resgate do que lhe é peculiar, isso por ser “identidade indígena e orgulho de ser índio”.

Assim, a adesão do leitor se dá pautada pelos sentidos de dignidade, orgulho e realização que é ser índio no momento atual. No entanto, no questionamento “Isso é um retorno ao passado ou puro saudosismo?” e diante da resposta “De modo algum. Isto é identidade indígena e orgulho de ser índio. É ser o que se é, como acontece com todas as sociedades humanas em condições normais de vida”, há um ethos de militância, demonstrando atitude, compromisso e coragem.

Essa forma de apresentação pode dar a entender que se trata de domínios/marcas independentes um dos outros, mas na verdade eles se encontram

estreitamente entrelaçados na atividade discursiva que, por sua vez, estreita relação entre o emprego do verbo, pronome, advérbio de tempo, léxico e o ethos. Conforme afirma Maingueneau (2001, p. 131) “A cada vez, com efeito, a enunciação estabelece com o leitor um modo de comunicação considerado como participando do mundo evocado pelo texto”.

Diante da reflexão apresentada, pode-se afirmar que os enunciados produzidos pelo formador de formadores se organizam a partir da retomada de uma memória discursiva que estes enunciados estão impregnados e influenciam o discurso do sujeito enunciador. Assim, o ethos construído pelo enunciador está, frequentemente, imbricado com uma memória discursiva da sociedade branca. Isso fortalece a idéia de que os sentidos não são controlados pelo sujeito, o que se diz já foi dito, o qual constitui a memória.

Considerações finais

Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes. Nem era muito que eu me arrumasse por versos. Aquele arame do horizonte Que separava o morro do céu estava rubro. Um rengo estacionou entre duas frases. Uma descor Quase uma ilação do branco. Tinha um palor atormentado a hora. O pato dejetava liquidamente ali.

Manoel de Barros em Retrato Quase Apagado em

que se Pode Ver Perfeitamente Nada

A temática indígena ainda é fortemente marcada por estudos lingüísticos de base descritiva e explicativa, os quais têm uma contribuição relevante que possibilita reunir um conjunto de dados mais fidedignos para a elaboração de políticas públicas de preservação das línguas indígenas. No entanto, entendemos que uma análise discursiva pode evidenciar que a Análise do Discurso tem muito a contribuir também com a questão indígena.

Valemo-nos da Análise do Discurso no trabalho com a linguagem para a qual a língua é considerada da ordem material, opaca, construída também por equívocos, por marcas da historicidade. O discurso é definido como “efeito de sentido entre interlocutores” (Pêcheux, 1995) invalidando assim a afirmação de que os sentidos são fixos e podem ser qualquer um. O sujeito é constituído pela linguagem, pelo inconsciente e pela ideologia. Como nos diz Paul Henry “O sujeito é sempre e ao mesmo tempo sujeito da ideologia e sujeito do desejo inconsciente e isso tem a ver com o fato dos nossos corpus serem atravessados pela linguagem antes de qualquer cogitação” (HENRY, 1992, p. 188).

Também fomos tocados pela teoria do ethos discursivo proposto por Maingueneau (2001, 2007; 2008a; 2008b), visto como a imagem que o sujeito constrói de si ao produzir seu discurso. O sujeito ao produzir seu discurso, não está simplesmente dizendo alguma coisa, mas, sobretudo, apontando uma imagem de si. Construído na própria cena da enunciação como efeito do discurso e não como o produto linguageiro da intenção de sujeito, o ethos está imbricado com cena englobante, cena genérica e cenografia.

Assim, nessa perspectiva discursiva fizemos uma (re)leitura do livro O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje cujo autor é um pesquisador-professor pertencente a etnia Baniwa - Gersem Luciano. Tal livro faz parte de uma coleção denominada Educação para todos que integra a série Vias dos Saberes,

destinado a fornecer respaldo teórico aos professores que trabalham com a formação de estudantes indígenas em cursos de nível superior.

Diante desse corpus empírico de análise nos propusemos a compreender como se dá a construção de um ethos no discurso do professor indígena e em que medida práticas discursivas historicamente estereotipadas pelo não-índio, enquanto elementos pré-dicursivos, determinam a imagem, o ethos que o sujeito “índio” professor constrói de si nos discursos didáticos destinados à formação de formadores. Vale notar que:

como toda fala, essa nossa também constrói, certamente, muitos outros silêncios e apagamentos. O que nos propomos, entretanto, não é falar de um lugar ‘neutro’, já que sabemos que ele não existe, mas é apenas tornar tenso, problematizar o campo de reflexões sobre as questões indígenas (ORLANDI, 1990, p. 72).

Assim, nesse trabalho não buscamos nenhuma verdade a respeito da questão indígena e sim provocar/problematizar um olhar na construção da imagem de si no discurso do sujeito/enunciador, bem como trilhar um caminho que vai da língua ao discurso, como traços de ethos para analisar algumas marcas lingüísticas no nível do léxico, pronomes, advérbios temporais, orações subordinadas adverbiais temporais e verbos, como lugares de atualização de memória.

Interessou-nos considerar a memória discursiva que sustenta a produção, constituição e circulação de sentidos sobre o que é ser índio na atualidade, observando que os sentidos inscritos nos enunciados lingüísticos só podem ser entendidos se tomarmos o que já foi dito antes em outro lugar e que agora aparece deslocado, deslizante, dito de outro modo por sobre um já-dito anterior.

Outro aspecto fundamental concerne ao fato de que ao formularmos a nossa hipótese de que os discursos produzidos pelo sujeito autor, no livro para formação dos estudantes indígenas, são constituídos pelo Outro que não é o seu par, seu semelhante, pelo contrário é o não-índio com quem vive uma relação conflitante desde que os portugueses desembarcaram no continente americano em 1500, já colocávamos em discussão que há uma minoria falando constituindo um lugar de fala, por isso, precisávamos repensar esse discurso e verificar que na maioria das vezes o enunciador fala de um lugar ideológico que não é o seu (índio), algo que não é inerente a esse discurso.

Desse ponto de vista observamos que os discursos produzidos pelo enunciador/autor sobre o que é ser índio no livro O índio brasileiro: o que você precisa saber sobre os povos indígenas no Brasil de hoje são dependentes das cenas enunciativas:

englobante, genérica e cenografia. A cena englobante a qual o enunciador se inscreve nesse corpus empírico é de um discurso pedagógico e tendo em vista as coerções desse tipo de discurso percebemos que o que se produz é essencialmente institucionalizado que busca credibilidade diante de seu interlocutor, gerar efeito do real, adesão ao discurso.

Em relação à cena genérica – livro didático que constitui a cena englobante discurso pedagógico, em nossas análises observamos que o discurso do enunciador respeita alguns “contratos” inerentes ao livro didático e ao mesmo tempo perpetua alguns efeitos de sentidos existentes na sociedade acerca do índio.

Demonstrando assim que a produção discursiva feita em torno da questão indígena no Brasil é, pois, inconcebível de uma desvinculação do passado colonizado deste país e de todas as vozes que chegam desse momento. O modo como o índio é projetado na sociedade atual, a idéia de um povo submisso às leis do branco, “romântico” é uma produção discursiva que nos chega e nos toca a partir de discursos produzidos no interior de um sistema em que milhões de índios foram assassinados, escravizados e repreendidos desde a chegada dos portugueses no território brasileiro. É, portanto, no interior de um funcionamento interdiscursivo que produzimos discursos que, por sua vez, darão vozes a outras produções.

Em relação à cenografia, construída no próprio texto, constatamos que se trata de uma receita culinária, isso devido aos inúmeros ingredientes que são apresentados no decorrer do livro considerados necessários para ser o índio almejado nos dias atuais. Quanto ao modo de fazer isso, é narrado por meio de enunciados lingüísticos e discursivos insinuando o percurso ideal a seguir como forma do enunciador construir e legitimar o quadro de sua enunciação.

Também se construiu uma cenografia contratual que provocou no co- enunciador um compromisso em seguir o que foi acordado com aquele que se considera índio e quer permanecer como tal. Muitas das cláusulas desse contrato representam imagens estereotipadas, valorizadas pela sociedade branca.

No caso do ethos visto como efeito do discurso e construído nas cenas enunciativas discurso pedagógico, livro didático e cenografias receita culinária e contratual a imagem que o enunciador constrói de si discursivamente é de um militante que fala com conhecimento (intimidade) dos costumes indígenas. A organização de todo enunciado demonstra essa proximidade do locutor com relação aos fatos acontecidos, o fazer indígena, mas ao mesmo tempo incorpora elementos do discurso do não-índio.

Nesse sentido podemos afirmar que o sujeito se mostra dividido, cindido. Num momento enuncia enquanto índio, no outro, se distancia deste, se colocando numa outra

posição de sujeito. Ao mesmo tempo que o enunciador se coloca num outro lugar que não seja o lugar do índio, se mostra constituído pelo lugar do índio frente aos males do contato.

No caso das marcas lingüísticas analisadas como traços de ethos, em nosso trabalho, podemos pensar que a relação da língua ao discurso denuncia deslizamentos de sentidos de um discurso para outro, embora os novos sentidos produzidos estão, a nosso ver, determinados pela memória do discurso no qual o sentido se inscreve.

Além disso, o discurso do enunciador/índio é marcado por uma regularidade de elementos lingüísticos temporais que se organizam numa perspectiva evolutiva na qual o índio é representado num estágio do processo de mudança não acabado. Esse tempo se desenvolve numa progressão linear onde presente, passado e futuro fazem parte de um contínuo. Na verdade, a representação do tempo é constitutivo do discurso do sujeito/índio.

A realização dessa pesquisa nos permitiu compreender que, apesar do Outro ser constitutivo do discurso do Eu, isso não se dá de maneira simples no caso do discurso do índio com o do não-índio. De acordo com o que observamos, por exemplo, o enunciador/índio encontra-se num lugar nômade, em constante mutação, que demonstra o conflito existente entre o discurso do Eu (índio) com o discurso do Outro (branco), nesse caso, um Outro que não é o seu semelhante e sim o seu oposto por questões historicamente construídas há milhares de anos que marcam o discurso destes.

Neste trabalho, além de conhecer como se dá a construção de imagem de si do enunciador autor, pude repensar a relação entre sujeito e linguagem no que se refere à produção da evidência dos sentidos, bem como observar como se dá a relação da língua ao discurso, marcada por uma memória discursiva.

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