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A abordagem do processamento da informação, no âmbito da psicologia cognitiva, apresenta os comportamentos humanos como sendo de duas ordens: os mais complexos e os mais simples, em que os comportamentos simples atuam como base para os complexos e, autônomos como são, podem ser estudados e descritos independentemente da generalidade do comportamento complexo ou do processo geral que o constitui. A partir dessa visão reducionista, o processamento pode ser separado em uma série de estágios ou processos cognitivos.

Os estágios, ou processos cognitivos, segundo Norman (1980), estão presentes nos seres humanos através de sistemas cognitivos que se caracterizam por possuírem uma forma de receber informação sobre o mundo (receptores) e uma forma de atuar no mundo (controle motor). Os processos cognitivos são:

a) os de input8

(percepção) – uma forma de interpretar e identificar a informação recebida por receptores;

b) os de output (produção) – uma forma de controlar as ações praticadas no mundo; c) os de memorização (uma memória para a história das ações e das experiências); d) os de pensamento intrínseco (um meio para guiar as alocações dos recursos cognitivos quando há necessidade de atuação além da capacidade, o que demonstra a limitação de um sistema e de seus recursos).

Nessa categorização dos processos cognitivos está implicado que:

a) a limitação dos recursos causará momentos de dificuldade, pois o que se tenta realizar é mais do que se pode alcançar, causando maior alocação de recursos para a realização de tarefas difíceis;

b) a sincronia entre os problemas oriundos dos eventos externos com os internos requererá a atuação de memória de curta-duração.

Dessas implicações, podemos prever que aconteçam algumas reações naturais tais como:

8 Utilizamos os termos input e output, escritos em inglês nessa etapa do texto, apesar de haver palavras em

português que se refiram a eles, porque não queremos causar ambiguidade no termo produção (output), que está sendo utilizado na página 38 quando explicamos o que são produções de acordo com o Modelo do Controle Adaptado do Pensamento, proposto por Anderson (1996).

a) operações básicas de interpretação assim como alguns mecanismos de feedback que possam observar as operações e as mudanças que acontecem a partir delas no mundo;

b) formas de planejamento e monitoramento de tais operações – o que requer níveis de conhecimento e meta conhecimento;

c) interações nas operações entre modelos de ambiente, de si mesmo e dos outros; d) aprendizagem, mudança de comportamento e conhecimento de maneiras fundamentais (opostas às adaptações simples), o que provavelmente requererá capacidades tais como: inferência de causalidade, percepção de interelações entre conceitos e eventos e capacidade de auto-observação.

Algumas concepções de Norman (1980) sobre o processamento cognitivo da informação podem ser observadas no que McLaughlin e Heredia (1996; p.214)9 chamaram de características da abordagem do processamento da informação. São elas:

a) Humanos são considerados autônomos e ativos;

b) A mente é um símbolo de propósito geral de processamento de símbolos; c) O comportamento complexo é composto de processos (modulares) mais simples; d) Processos componentes podem ser isolados e estudados independentemente de outros processos;

e) Processos levam tempo para acontecerem; portanto, predições sobre a reação ao tempo podem ser feitas;

f) A mente é um processador de capacidade limitada.

McLaughlin e Heredia (1996) também reconhecem a limitação dos humanos e de suas habilidades de processamento da informação e, segundo eles, a atenção não pode ser distribuída para vários componentes de uma tarefa complexa ao mesmo tempo, o que faz com que a informação seja retida de forma compartilhada. Assim, os seres humanos desenvolvem formas de organizar as informações que recebem. As tarefas que requerem mais atenção podem requerer mais prática. Contudo, quando uma tarefa é bastante praticada ela pode vir a requerer

9 Essa e demais traduções neste trabalho são de nossa autoria:

1 Humans are viewed as autonomous and active.

2 The mind is a general-purpose, symbol-processing symbol.

3 Complex behavior is composed of simpler processes. These processes are modular. 4 Component processes are isolated and studied independently of other processes. 5 Processes take time; therefore, predictions about reaction time can be made. 6 The mind is a limited-capacity processor.

menos atenção. Resta, aos processos que demandam mais atenção, a carga atenciosa que não foi usada para os processos mais simples.

Com o passar do tempo e com a prática costumeira na execução da tarefa, os processos para sua realização tornam-se automáticos e, o que antes era uma tarefa difícil de ser realizada, torna-se uma tarefa possível e fácil. Para McLaughlin e Heredia, a noção de processos automáticos, que independem da habilidade do aprendiz, explica o aperfeiçoamento do desempenho do aprendiz.

A referência feita ao automatismo pressupõe a dicotomia entre o que é automático e o que é controlado, proposta por Shiffrin e Schneider (1977). Segundo os autores, o processamento automático da informação envolve a ativação de certos nódulos que se tornam ativos em resposta ao input gerado interna ou externamente ao indivíduo. Essa ativação é uma resposta aprendida que foi construída pelos mapeamentos consistentes do mesmo input aos mesmos elementos geradores de ativação depois de muitas tentativas. Como o processamento automático utiliza um conjunto relativamente permanente de conexões associativas na memória de longa duração10, a maioria dos processos automáticos requer uma quantidade suficiente de treinamento para se desenvolver completamente. Uma vez aprendidos, os processos automáticos fluem rapidamente e dificilmente são suprimidos ou alterados (SHIFFRIN & SCHNEIDER, 1977).

O processamento controlado não se trata de uma resposta aprendida, mas utiliza uma sequência temporária de nódulos ativados sob o controle e a atenção do sujeito. Como a atenção é requerida, apenas uma sequência pode ser controlada por vez, sem interferência. Os processos controlados são bastante limitados em capacidade e requerem mais tempo para ativação. Por outro lado, eles são relativamente fáceis de acontecerem, se alterarem e serem aplicados. Eles utilizam a memória de curta duração, de forma que a natureza de suas limitações é determinada em parte pelas limitações da capacidade de armazenagem de curta duração individual (SHIFFRIN & SCHENIDER, 1977).

Para Shiffrin e Schenider a aprendizagem envolve a transferência da informação para a memória de longa duração e é regulada por processos controlados. Ou seja, habilidades são aprendidas e se tornam automáticas apenas após o uso anterior de processos controlados

10 Shiffrin e Schneider (1977:155) definem memória como nódulos que se tornam interassociados e inter-

relacionados com a aprendizagem. A maioria desses nódulos é passiva e inativa e está na armazenagem de longa duração, quando inativos. Os nódulos ativos estão na armazenagem de curta duração. Armazenagem de longa duração é um repositório permanente e passivo de informações enquanto que a armazenagem de curta duração é um estado temporário e ativo. A informação de curta-duração é considerada perdida ou esquecida quando se converte de uma fase ativa para uma inativa.

que, por sua vez, regulam o fluxo da informação da memória de curta para a memória de longa duração. A aprendizagem demanda tempo, mas quando os processos automáticos são estabelecidos em um estágio de desenvolvimento de uma habilidade complexa de processamento da informação (habilidades cognitivas complexas controladas), pode-se considerá-los como aprendidos e prontos para se tornarem rotineiros (automatizados) através do uso inicial de processos controlados.

O processamento controlado requer atenção e leva tempo, mas através da prática as sub-habilidades tornam-se automáticas e os processos controlados são liberados para se alocarem em níveis mais elevados de processamento. Assim, pode-se dizer que o processamento controlado prepara as bases do processamento automático, à medida que o aprendiz se move de níveis mais fáceis para níveis mais difíceis na realização de tarefas (SHIFFRIN & SCHENIDER, 1977).

A abordagem do Processamento da Informação permite-nos analisar o desenvolvimento, por quatro semestres letivos, das habilidades orais e escritas de compreensão e produção de aprendizes de inglês como língua estrangeira, pois possibilita, através da diferenciação que traça entre processos controlados e processos automatizados, a averiguação dos processos de percepção e de produção (output) que se tornam automatizados nesse período. Assim, podemos também observar que modalidade de ensino aprendizagem – presencial ou a distância – oferece mais condições de prática e, assim, se torna mais propícia para que as habilidades controladas se tornem automáticas.