Anderson (1996) sugere que um modelo é a aplicação de uma teoria a um fenômeno específico. Consequentemente denomina de Modelo ACT* sua teoria de aquisição de habilidades cognitivas complexas de onde são extraídas explicações sobre aquisição da linguagem.
A capacidade de se manifestar através da linguagem é considerada por Anderson como uma habilidade complexa diferente de outras, pois nós, humanos, já nascemos com a propensão à utilização da linguagem. Desta forma, Anderson (1996; p.3) considera que a faculdade da linguagem seja um sistema cognitivo completo, que evoluiu com o tempo e hoje é
utilizado na evolução de outras habilidades. Antes de descrevermos o modelo ACT*, vamos pontuar algumas considerações acerca da cognição humana.
Para Anderson (1996; p.5) a cognição humana está baseada em pares
condição/ação, que são denominados de produções. À condição cabe o papel de especificar
as características das informações. Se os elementos da informação em questão estiverem na memória de trabalho, então a produção se aplica. A ação, por sua vez, especifica o que deve ser feito em cada situação. A ação mais básica seria adicionar novas informações à memória de trabalho. Para o autor, a memória de trabalho se assemelha em definição e em papel à memória de curta duração proposta por Norman (ibid.) e Shiffrin e Schneider (ibid.). É, portanto, na memória de trabalho que estão as informações recuperadas da memória declarativa de longa duração, assim como as estruturas temporárias depositadas pelos processos de codificação das
produções. Além disso, a memória de trabalho refere-se ao conhecimento declarativo
permanente ou temporário, que está em um estado ativo.
As produções formam um componente de um sistema procedimental. Para que uma produção se aplique, a condição deve estar coerente com as informações ativas na memória de trabalho. Essas informações fazem parte do componente declarativo do sistema. Como nem tudo que o sistema conhece está na memória de trabalho, as informações devem ser recuperadas da memória de longa duração e depositadas na memória de trabalho. A produção, portanto, culmina no uso de informações para a realização de uma tarefa ou no armazenamento de novas informações para serem utilizadas na resolução de tarefas futuras.
Podemos agora observar a aplicação da produção no modelo ACT proposto por Anderson. Iniciaremos com a descrição da ilustração abaixo:
Figura 1: Modelo do Controle Adaptativo do Pensamento
Fonte: Anderson (1996)
Quase todos os processos apresentados na figura acima envolvem a memória de trabalho. A definição dos papéis de cada processo é proposta por Anderson (1996; p.20) da seguinte maneira:
a) Processos de codificação: aqueles que armazenam informações sobre o mundo externo na memória de trabalho.
b) Processos de desempenho: convertem os comandos da memória de trabalho em comportamento.
c) Processos de armazenagem: podem criar registros permanentes dos conteúdos da memória de trabalho na memória declarativa, assim como podem aumentar a força dos registros existentes na memória declarativa.
d) Processos de recuperação: recuperam informações da memória declarativa. e) Processos de relação: estabelecem a correspondência entre os dados da memória de trabalho e as condições de produção.
f) Processos de execução: depositam as ações das produções relacionadas na memória de trabalho.
Todo processo de relação de produção seguido por execução é uma aplicação da
produção. Na figura 1, a seta correspondente à aplicação se volta para a memória de produção
expressando a ideia de que novas produções são aprendidas através das aplicações das produções existentes. Isso indica que o modelo ACT representa aprendizagem por procedimento, ou seja, pelo fazer.
Em seguida, são apresentados os 15 pressupostos que embasam o Modelo ACT*.
Memória Declarativa Memória de Produção Aplicação Armazenagem Relação Execução Recuperação Memória de Trabalho Performances Mundo externo Codificação
a) O tempo é contínuo: Os processos cognitivos na mente humana, unitários ou paralelos, acontecem continuamente, ou seja, não existem intervalos que os façam parar e voltar a serem processados.
b) Concepção básica: Há uma distinção entre o conhecimento procedimental e o conhecimento declarativo. Não há competição entre memória declarativa e as produções ao se recuperarem dados para a resolução de uma tarefa.
c) Representação declarativa: o conhecimento declarativo pode ser decomposto em uma hierarquia complexa de unidades cognitivas (proposições ou imagens espaciais, por exemplo) de um conjunto de no máximo cinco elementos em uma relação específica.
d) Ativação da memória declarativa: A qualquer momento, qualquer unidade cognitiva pode ser ativada. Essa ativação é uma propriedade continuamente variante, pois há um componente que controla o nível de sucesso das ativações e suas relações com o mundo externo. Esse componente atua principalmente quando dois elementos ambíguos podem ser relacionados.
e) Força na memória declarativa: Cada nó na memória declarativa tem uma força associada, em função da frequência de uso da unidade ou do elemento cognitivo. f) Divulgação da ativação: A divulgação da ativação de uma unidade ou de um elemento cognitivo se dá em função do input recebido ou em função de um nível espontâneo de desaceleração do nó.
g) Manutenção da ativação: Cada elemento que entra na memória de trabalho é uma fonte possível de ativação. Porém, apenas um único elemento pode servir como fonte permanente para a ativação.
h) Diminuição do ritmo de ativação: Quando um nó fonte é desligado, suas características de ativação rapidamente diminuem na rede neural.
i) Estrutura das produções: As produções são pares condição/ação. A condição especifica um conjunto de características que devem ser verdadeiras na memória declarativa. A ação especifica um conjunto de estruturas temporárias que são adicionadas à memória.
j) Estruturas temporárias de armazenamento: As estruturas temporárias podem entrar na memória de trabalho de duas formas: i) processos de codificação podem alocar descrições do ambiente na memória de trabalho; ii) a ação das produções podem criar estruturas para registrar os resultados das computações internas. Se uma unidade cognitiva temporária for criada na memória de trabalho, uma cópia
dela pode ser criada na memória declarativa de longa duração. Se essa cópia for criada, ela terá força. Se a cópia já existir, ela terá mais força ainda.
k) Força das produções: As produções ganham força com a prática bem sucedida. As condições das produções mais fortes são relacionadas com mais rapidez. l) Seleção de produção por característica relacionada: Relacionar características é um mecanismo que decide que produções se aplicarão. Quando a condição de uma produção alcança uma relação satisfatória de um conjunto de estruturas declarativas, a produção é aplicável. A relação é representada por um fluxo de dados característicos que são testados. Os testes são feitos no âmbito do nó relativo à produção em questão. O nível de ativação desse nó depende positivamente de sua força, do nível de ativação das estruturas dos dados sendo relacionados e do grau de relação entre essas estruturas. Contudo, a ativação desse nó depende negativamente das características que competem com os mesmos dados.
O processo de relação de características permite que as produções se apliquem, mesmo se as condições não estiverem completamente relacionadas. Isso pode levar a erros no desempenho de uma habilidade.
m) Processamento direcionado por objetivo: As produções podem especificar um objetivo em suas condições. Se a especificação do objetivo relaciona-se ao objetivo atual, elas terão preferência em relação a outras.
n) Compilação de produções: Inicialmente, todo conhecimento está em forma declarativa e deve ser interpretado por procedimentos gerais. Contudo, ao se desempenhar uma tarefa, a procedimentalização substitui gradualmente a aplicação interpretada com produções que se materializam comportamentalmente. Esse processo de procedimentalização é complementado pelo processo de composição que combina uma sequência de produções em uma só. Procedimentalização e composição, juntas, são chamadas de compilação do conhecimento e criam produções específicas através da prática.
É através da compilação do conhecimento que novas produções entram no sistema de cognição. Elas são adquiridas gradualmente e cuidadosamente, pois as produções controlam diretamente o comportamento. Antes que o sistema cognitivo pare de controlar as novas produções, erros serão detectados no processo de aprendizagem. Esse processo corresponde ao processo de automatização proposto por Shiffrin e Schneider (1977; p.131).
o) Ajuste das produções: Novas produções podem ser criadas por generalização ou discriminação das condições pré-existentes das produções. A generalização
trabalha a partir dos pares de produções mais específicas para criar os mais gerais. A discriminação funciona a partir do feedback dado às produções erradas para se criar produções mais específicas que evitem os erros.
Após a descrição do modelo teórico proposto por Anderson, em que a aquisição de uma habilidade cognitiva complexa se materializa quando as informações armazenadas na memória de longa duração são recuperadas pela memória de trabalho e externadas nas produções, passamos a descrever como Anderson concebe essa dinâmica da cognição na aquisição de línguas.