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Publisering på tredjeparts plattformer

In document NRKs bidrag til mediemangfoldet (sider 97-103)

5.5 Publisering og tilgjengeliggjøring

5.5.2 Publisering på tredjeparts plattformer

Surgida a partir da crença popular de que “a prostituição é a mais antiga das profissões”, circula socialmente uma anedota, segundo a qual “a profissão é a mais antiga das prostituições”. É claro que, na vida real, o ato de professar, do qual deriva o termo “profissional”, está ligado à militância por uma causa em que se acredita profundamente, e,

nesse sentido, caberia ao profissional ser profundamente compromissado com seus valores éticos. O humor da paródia sobre prostituição e profissão está justamente na denúncia contra os limites desse compromisso. Muitas vezes, a perspectiva de grande compensação financeira, ou, pior, a efetivação dessa compensação, desperta a ganância em um profissional, e os dividendos monetários usurpam o lugar de outros interesses, reduzindo a ferramenta de obtenção de riqueza material o que antes era feito por amor e apego a um projeto de vida e

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ação social. Em outros casos, não se trata de ganância, mas das próprias circunstâncias opressoras de atuação, que, forçando o profissional, no caso, o artista, a acatar concessões, resultam em uma deturpação de um compromisso até então caracterizador de uma obra.

Em seu surgimento, o heavy metal brasileiro tinha como motivação quase que exclusivamente o desejo inocente de se produzir música, de se participar de apresentações, de se tocar uma guitarra. Tornar o heavy metal um meio de subsistência era um projeto vago e idealizado; fazer dele um meio de obtenção de riqueza era quase impensável. Esse espírito foi

bem representado em alguns versos de uma canção chamada “A chave é o show”, que a banda

A Chave do Sol registrou em seu álbum The Key, de 1987, e que já fazia parte de seu repertório em apresentações:

Não quero beber água em cristais

Nem ter guarda-costas por onde quer que eu vá Não quero primeira páginas nos jornais

Nem ter videoclipes na TV

Nesses versos, A Chave do Sol sintetizava o que, no imaginário da década de 1980, era associado à ideia de sucesso comercial. A letra da canção retratava um estilo de vida que era associado ao estrelato e que, de fato, inicialmente não estava em pauta no caso da maior parte das bandas brasileiras. Embora se tenha trabalhado muito por isso, foi surpreendente que algumas tenham de fato alcançado notoriedade, e, a partir de um olhar retrospectivo, é natural que isso tivesse acontecido, à medida que o movimento se estruturou e os próprios músicos evoluíram artisticamente. “A Chave é o show” captava um compromisso internalizado, que era também anterior a esses avanços, e com o qual muitos jovens músicos se identificavam.

Se a autenticidade dessa origem era inquestionável e permaneceu sempre forte e presente no heavy metal, protegendo-o, inclusive, ainda que apenas parcialmente, da influência ideológica do mercado, nem por isso ela deixa de ser uma manifestação de pueril e resultar em algumas contradições. Se esse caráter pueril é também singelo e tocante, nem por isso ele impede que a presença das bandas em um mercado provoque consequências sobre o espírito metaleiro. O próprio álbum The key, que trazia um lado com canções em inglês e outro com canções em português, era uma tentativa d´A Chave do Sol de inserção no grande mercado. Com números tradicionais de seu repertório, blues, canções que se aproximavam do heavy metal de arena norte-americano, o álbum, embora de grande qualidade, parecia uma investigação sobre os caminhos mais promissores do ponto de vista comercial. O próprio

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título parecia um indício disso: se suas várias acepções ele mostrava que a banda era mais do que capacitada para acertar o tom tanto nas performances quanto na atmosfera das canções, insinuava também que a chave para o sucesso é mais misteriosa e menos dependente de esforço e desejo, menos dependente de mérito do que a propaganda ideológica do sistema de consumo tenta dar a entender que é.

De fato, pode-se dizer que The key, a grande aposta d´A Chave do Sol, representou o fim da banda: renomeada The Key, em uma clara insistência na estratégia de sedução do mercado internacional, a banda gravou apenas mais um álbum, pouco conhecido, mesmo pelos fãs, lançado apenas em 1990, quando o movimento metaleiro já se reestruturava em outras bases no Brasil. Outras brandas de inquestionável mérito artístico passaram por experiências semelhantes. É conhecido o caso do Inox, banda que surgiu em meados da década de 1980 como grande aposta do heavy metal na conquista de um espaço na grande mídia. Com um álbum histórico e bem produzido, músicos de padrão internacional e o apoio de uma grande gravadora, fato raríssimo naquele contexto, o Inox pouco fez. Após receber algumas resenhas favoráveis em revistas especializadas, a banda se dissolveu no cenário, sem que se tivesse notícias de apresentações ou outras gravações.

Até mesmo os mineiros do Overdose, uma das bandas mais queridas e tradicionais em todo o cenário metaleiro do Brasil, enfrentou dificuldades no contato com o universo comercial. Seus álbuns, após a ascensão do Sepultura, com quem dividiram o trabalho de estreia, foram sempre de excepcional qualidade na composição, execução e produção, mas se caracterizaram por uma diversidade estilística que em alguns momentos pareceu a alguns fãs uma tentativa de descoberta da estratégia que levaria a banda a um sucesso comercial internacional, descoberta esta que não aconteceu, embora a banda, em mercados alternativos, tenha conquistado seu justo reconhecimento em vários países. Ainda assim, em certo período, a passagem aparentemente arbitrária do heavy metal tradicional para o experimentalismo, do experimentalismo para um rock mais comercial, deste para o thrash metal, para então haver uma volta às origens, era vista com alguma melancolia: o Overdose se provava em vários campos, e muitos fãs nutriam a sensação de que, se o sucesso fosse uma recompensa que se obtém através do merecimento ou de uma virtude diferenciada, era o Overdose que se deveria ter tornado a referência internacional do heavy metal mineiro internacionalmente.

Em outro campo dessa discussão, está o caso do Sarcófago, assim descrito por Pat, fundadora da Cogumelo Discos, no documentário Ruído das Minas: “O Sarcófago; eles são uma banda cult. Eles não estouraram como o Sepultura, mas têm toda uma história consistente

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e de influenciar bandas da Europa, o que eu acho riquíssimo, dentro do estilo deles,

naturalmente”. É importante a menção dela à consistência, uma característica que faz bom par

com a integridade, um valor que sempre esteve na pauta do heavy metal e que, no contexto do mercado musical, pode também ser associada à postura pueril sobre que cantava A Chave do Sol, ao desapego a cristais, guarda-costas e videoclipes; acima de tudo, à manutenção tanto de uma visão crítica a respeito do status quo quanto de um apego à música como um valor em si.

Afinal, uma caraterística amadora está na raiz do heavy metal brasileiro. Nos primeiros anos do movimento, as próprias apresentações ou as fitas de demonstração, mais conhecidas como demo tapes, eram a forma principal de divulgação das bandas. Uma boa demo tape seria gravada em estúdio profissional, com a contribuição financeira de amigos e dos próprios membros da banda, mas isso não garantia a melhor qualidade sonora: feitas com pouco conhecimento técnico por parte dos músicos e pouco preparo para o heavy metal por parte de produtores, que nem sempre se engajavam com afinco na tarefa, essas gravações eram depois copiadas domesticamente e repassadas a amigos, que faziam suas próprias cópias e davam sequência à corrente. Em geral, a fita a que o fã teria acesso conteria uma gravação de quarta ou quinta geração, o que significava uma significativa perda de qualidade em relação ao registro original. Mesmo assim, as demo tapes seriam cultuadas e preservadas como relíquias.

A divulgação das bandas e de apresentações quase sempre era feita através da fotocópia de folhetos datilografados, com adornos feitos manualmente e inserção de fotografias. Em um processo semelhante ao das demo tapes, esses releases, como eram chamados, eram divulgados através de uma cadeia de cópias, cuja qualidade diminuía sensivelmente a cada nova geração. A versão a que o fã teria acesso frequentemente teria a legibilidade comprometida, e as fotos podiam ter sido reduzidas a borrões sobre o papel. Não obstante, foi assim que muitas notícias circularam, e a Rock Brigade, o principal veículo de divulgação do movimento metaleiro, nasceu como um fanzine fotocopiado. Na segunda metade da década de 1980, a publicação já contava com uma estrutura profissional, embora não comparável à de grandes editores. Isso não impediu que a Rock Brigade exercesse sua influência. Ao contrário, foi a mais duradoura das publicações da época e, ironicamente, perdeu representatividade à medida que se tornou cada vez mais profissionalizada.

Fica claro que o contato com a mídia massiva interferiu na identidade do heavy metal brasileiro em diversos níveis. Em um movimento marcado pela postura de desafio e o exercício motivado pela paixão, o amadorismo carrega uma aura de aventura e coragem.

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Mesmo comprometidas por dificuldades técnicas, as demo tapes e os releases traziam um elemento intangível que era sedutor àquele público em particular. Esse romantismo, por outro lado, é incompatível com outras ambições do movimento: há que se garantir um público para as apresentações, para os álbuns, para as revistas. Toda essa produção só faz sentido se houver quem a deseje, e a conquista desse público depende de comércio e publicidade. Há que se resolver o problema da subsistência dos músicos, ou eles estarão indefinidamente condenados a tratar a música como simples passatempo, condicionado a outras exigências.

Os diversos espaços sociais pelos quais o heavy metal circula são sempre marcados por um conflito. Para que a rebeldia tenha o alcance necessário para que faça efeito, deve-se valer dos mesmos mecanismos de difusão em massa dominados pelas próprias ideologias que se pretende combater. Estabelece-se, assim, um território de confronto de posturas, no qual não há uma igualdade de forças, uma vez que a visão de mundo metaleira se choca com todo um sistema produtivo, estruturado e universal. Dessa forma, em sua inserção no universo do consumo, o heavy metal se coloca em uma posição de potencial fragilidade. Por outro lado, a percepção de que o enfrentamento se dá contra um poder opressor, mesmo que este seja imensuravelmente influente, desperta no metaleiro um senso continuamente renovado de valentia e um ardor rebelde sempre revigorado. Há, é verdade, uma inocência na crença na sobrevivência da integridade dentro da comercialização da cultura, mas, em um sistema caracterizado pela manipulação, a própria inocência há de ser celebrada.

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CAPÍTULO 4:

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