6.2 Empirisk analyse av hvordan nrk.no bidrar til innholdsmangfoldet sammenlignet
6.2.3 Innholdsanalysens problemstillinger
É bem documentada e estudada a associação entre o ambiente e o Brasil, o que gera impactos sobre o heavy metal da década de 1980. Ao longo da historiografia literária brasileira, as representações da natureza sempre estiveram associadas a concepções em voga sobre o país. Desde a chegada dos colonizadores portugueses até o início do século XXI, a indagação sobre a identidade nacional esteve presente como pano de fundo ou tema principal de obras diversas. No caso do heavy metal, a questão da nacionalidade se tornou central, em função do ineditismo do movimento e do momento singular que o Brasil atravessava, seja do ponto de vista político, seja do ponto de vista econômico. As bandas em atividade naqueles anos muitas vezes mergulharam direta ou indiretamente nessa questão. Cabe, portanto, retomar as construções da representação nacional brasileira e analisar a forma como elas interferiram no heavy metal.
Um exemplo pertinente dessa interferência é a capa do LP ...conscience..., do Overdose, lançado em 1987. Exposta em uma capa dupla, um luxo quase inédito no movimento metaleiro da época, a imagem, de autoria do artista belo-horizontino Fernando Vignoli, tem, esteticamente, um cunho surrealista e, tematicamente, incorpora vários
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elementos ligados a uma tradição ufanista brasileira. A base da ilustração é a bandeira brasileira, que, em ondulação, toma a forma do mar de morros tão típico da paisagem mineira, compondo um cenário verde, que se estende ao horizonte, acompanhado, de ponta a ponta, ao fundo, pela silhueta de uma grande cidade, com altos edifícios. Comparável a Belo Horizonte quando vista de suas áreas mais montanhosas, essa cidade poderia ser também alusiva a uma grande metrópole, possivelmente ao Rio de Janeiro, como seria visto por um navegante que se aproximasse à noite.
Essa interpretação é reforçada, na face direita da imagem, por uma chamativa figura feminina nua, que está deitada como uma banhista e maquiada dentro de um padrão de beleza extravagante, semelhante ao das famosas Garotas do Fantástico, que faziam parte do imaginário erótico nacional na época. Dos mamilos e da região púbica, áreas erógenas mais evidentes no corpo da personagem, emanam pequenos relâmpagos, como a anunciarem uma promessa de êxtase. Esses relâmpagos emanam de outros pontos da ilustração também, como a demarcar uma circulação de energia na paisagem retratada. Ainda na face direita, que corresponde à capa frontal do LP, quando exposto para venda, há uma representação flutuante do globo terrestre, retratado em tal posição que a América do Sul ocupa um ponto central.
Uma outra figura nua, dessa vez masculina, também com relâmpagos emanando de sua região púbica, destaca-se na face esquerda da capa, em um mergulho em direção ao
círculo azul da bandeira nacional, em que o lema “Ordem e progresso” foi substituído pelo
nome da banda. Uma rua com casario simples e até decadente, possivelmente alusivo tanto às cidades históricas mineiras quanto a regiões então esquecidas de Belo Horizonte, onde se desenvolveu o heavy metal na cidade, ocupa a extremidade esquerda da imagem. Ao fundo, ergue-se no céu noturno e estrelado uma gigantesca lua, mais semelhante, talvez, a Júpiter, maior planeta do sistema solar, visível a olho nu e associado a várias divindades em culturas diversas, mais marcadamente a Zeus, na mitologia grega. Essa faceta astronômica confere à paisagem retratada uma característica cósmica, isto é, universalista e poderosa.
No centro da imagem, só claramente perceptível quando a capa é inteiramente aberta, põe-se no horizonte um astro vermelho, alusivo ao Sol, a Marte, talvez até ao próprio orifício no centro do disco de vinil, já que, na mesma área da imagem, um cogumelo nuclear se ergue, mas não de forma ameaçadora, e, como não há destruição, pode-se associar essa poderosa manifestação de energia à soma das forças em jogo na imagem, entre as quais está o poder do Overdose, cujo nome de fato indica também uma espécie de explosão, de êxtase. É possível que a imagem do astro poente, alusiva a um novo dia, seja interpretada como um sinal de
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mudanças, de instauração de uma nova ordem, em que Brasil e Overdose presumivelmente
ocupariam uma posição de destaque e liderança. Apesar de se dizer, em “Rebellion”, uma das canções do álbum, que a nação “ensina a esperar por um futuro que parece sempre se dissipar”, percebe-se uma postura de desafio, de coragem e de otimismo. A ideia do Brasil como “o país do futuro”, sintomaticamente inaugurada pela obra de um estrangeiro, o escritor
austríaco Stefan Zweig, e incorporada à autoimagem brasileira, parece ganhar credibilidade. Há nessa visão uma concepção claramente idealizada sobre o país. A exploração da sensualidade, das belezas naturais, da agitação social na noite urbana, todos esses elementos fazem parte de um imaginário, por assim dizer, turístico do país. Cabe destacar que ...conscience... foi uma aposta ousada do Overdose no mercado estrangeiro. Nesse sentido, representa uma tentativa de tornar sedutor ao público internacional o que o Brasil tinha a mostrar. De certa forma, essa era também uma questão de sobrevivência, já que nada indicava a viabilidade de um mercado sustentável para o heavy metal no Brasil. Esse rompante nacionalista, portanto, estava inserido na perspectiva de uma tentativa de estabelecimento de colônias metaleiras em outros países.
Não obstante, o trabalho gerou alguma controvérsia. Segundo Fernando Vignoli, ele e a banda foram convocados pela Polícia Federal a prestar esclarecimentos sobre a capa do disco. Conta o artista que o uso da bandeira nacional como base do cenário e principalmente a substituição do lema “Ordem e progresso” pelo nome “Overdose” despertou inquietude em alguns observadores. Indagados, artista e banda negaram qualquer intenção ofensiva e levaram adiante o projeto, mesmo temerosos de represálias. Além do incômodo representado pelo termo “overdose”, alusivo ao uso de narcóticos, havia a preocupação de que a mudança do lema expressasse posturas antinacionalistas. Esse anedótico episódio ilustra pertinentemente os melindres ainda muito vivos no Brasil em processo de redemocratização, mesmo que não houvesse justificativa clara para isso.
Há na capa de ...conscience... a ideia de um país para exportação, reforçada pelo ponto de vista em que o observador é colocado, que é um ponto de vista exterior, de quem está de fora da cena. Isso contribuía para uma elevação da autoestima do fã brasileiro, que, sendo também levado a enxergar a produção de seu próprio país de uma perspectiva nova, podia perceber potenciais até então ignorados. O título do álbum talvez fizesse menção a uma consciência cósmica voltada para a construção de um mundo melhor, mas representou também uma tomada de consciência de que o heavy metal brasileiro de alguma forma se propunha a abandonar um espaço de submissão e existir no cenário internacional em
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igualdade ao de qualquer outro país tido como mais dominante.
Para isso, avanços foram feitos no campo poético-musical também, embora os efeitos comerciais tenham sido mais tímidos do que o desejado. A música era sofisticada e original, exigindo alto nível técnico dos músicos, especialmente do guitarrista Cláudio David, já na época há muito reconhecido como um virtuoso, um dos mais capacitados do cenário brasileiro. As letras tratavam de assuntos de interesse universal, como as guerras, os descaminhos do progresso e as contradições sociais do sistema capitalista. Mais significativo era o fato de que eram cantadas em inglês, o que representava uma mudança de orientação por parte da banda, que até então era conhecida pelo apego ao idioma natal. De fato, também os textos do encarte eram em inglês, em uma sinalização ao mercado estrangeiro.
Tantas ideias novas em um mesmo lançamento, uma raridade na cultura de qualquer país e em qualquer modalidade, tornaram difícil sua assimilação pelo público metaleiro, e a circulação internacional também não foi a desejada, principalmente por dificuldades logísticas diversas. Prejudicado ainda por uma prensagem duvidosa em vinil, problema comum a vários álbuns da época, ...conscience... gerou alguma polêmica: foi um álbum festejado por alguns e tido como de audição difícil por outros. Considerando-se suas muitas contribuições ao movimento metaleiro e até à música brasileira de forma geral, cabe uma sensação de que o Overdose não recebeu o reconhecimento devido por esse trabalho. A banda continuaria seu caminho por muitos anos, mantendo uma postura de constante reconstrução de sua identidade, mas seria ...conscience... o trabalho a manter com o passar dos anos uma aura de originalidade, que se manifestava em vários aspectos, da construção das letras à concepção nacionalista da capa.
Em um movimento afim, mas com características diferentes, caminharam os cariocas do Dorsal Atlântica, em seu EP Cheaptapes from Divide and Conquer, lançado em 1988. Destinado ao mercado internacional, o disco teve comercialização limitada no Brasil, sendo vendido pelo sistema de reembolso postal, então usado para transações intermunicipais. Cheaptapes representava uma melancólica aposta em uma possibilidade de carreira internacional, já que, no final da década de 1980, o heavy metal nacional oferecia poucas perspectivas como carreira profissional. Assim, o EP se compunha por cinco canções, todas elas versões em inglês de canções que o Dorsal Atlântica já gravara em português. Em alguma medida, o repertorio em inglês representava uma concessão por parte da banda, cujos trabalhos sempre haviam sido compostos em português, de forma não alheia à tendência à adoção das letras em inglês, que gerava polêmica no meio. Diferentemente de muitas bandas,
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que seguiam ingenuamente intuições, o Dorsal Atlântica sempre se fizera notar por posturas conscientes e engajadas, e a afirmação da brasilidade era uma de suas marcas, o que se refletia nas letras em português.
As canções de Cheaptapes eram oriundas de Dividir e conquistar, álbum marcante que a banda lançara meses antes e que desde então se configurara como uma referência definitiva no heavy metal brasileiro. Extraído de uma famosa citação atribuída ao imperador romano Júlio César, o título do álbum faz referência ao próprio movimento metaleiro, então tumultuado, devido a embates internos entre os apreciadores de várias subdivisões do estilo, como o black metal, mais extremo, o hard heavy comercial e o nascente metal melódico. Surgia um intercâmbio também entre os metaleiros e os apreciadores de outros estilos, como o punk, o hardcore e o new wave. Embora seja retrospectivamente evidente que esse trânsito fosse já um indício de desgaste do próprio heavy metal e de flexibilização de suas fronteiras, ele foi incompreendido, o que gerou muitas questões, com as quais o público não estava preparado para lidar. Na visão presente no trabalho do Dorsal Atlântica, o heavy metal como movimento deveria enfrentar as disputas internas e se reafirmar como unidade, mesmo que acatando a diversidade. O título do álbum, portanto, representa um alerta contra esse perigo,
discutido explicitamente em uma das canções, “Metal desunido”.
Como ...conscience..., Dividir e conquistar representou uma proposta extrema de criatividade. A Heavy Discos, selo responsável pela produção de ambos, surgia nesse momento como o mais criterioso do cenário. Embora sonoramente as canções se aproximassem de vertentes mais velozes e ruidosas do heavy metal, eram complexas, com muitas variações internas e longas, apresentando-se efetivamente como suítes metálicas. Através de um esforço inédito de produção e masterização, o disco ganhou uma sonoridade seca, muito nítida, que permitia a apreciação de cada detalhe da elaborada performance dos músicos. Seria essa secura a perfeita representação fônica da relevância temática das letras do
álbum, já que, em “Violência é real”, descreve-se o som do disparo de uma arma como “um ruído seco”. Gutural mas claramente enunciadas por Carlos Vândalo, as letras das canções
soavam também como o estampido de um tiro. Lidavam com a tortura, a violência urbana, a pobreza das ruas, o descaso com idosos, o peso do passado, todas essas questões urgentes no Brasil do final do século XX, embora dificilmente estivessem em ampla circulação social. Antes, ocupam o espaço do que é silenciado, do tabu. Assim, embora estivessem ausentes símbolos nacionais, como a bandeira, uma concepção crítica, combativa, de brasilidade se fazia perceber em Dividir e conquistar.
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Transferir esse nacionalismo combativo para Cheaptapes from Divide and Conquer exigiria uma percepção delicada da brasilidade. Carlos Lopes, mais lembrado como Carlos Vândalo, principal idealizador do Dorsal Atlântica, eficientemente cumpriu essa missão na capa do EP, através de uma cadeia antropofágica. A região central da capa é dominada por um grande retângulo dentro do qual se inscreve um antigo mapa do território brasileiro, à moda das representações europeias dos séculos XVI e XVII. Tal escolha poderia sugerir a adesão a uma perspectiva internacionalizante do país; o mapa mostrado, entretanto, é cercado por outras imagens da iconografia colonizatória, que mostram principalmente cenas de índios. Tais ilustrações, publicadas pela primeira vez em obras associadas à chamada literatura de viagem, como Viagem ao Brasil, de Hans Staden, foram no século XX ressignificadas pelo Modernismo e outros movimentos que propunham uma releitura da relação entre o Brasil e a colonização, uma releitura em que a hierarquia entre colonizador e colonizado seria rompida e até invertida, como propunham os adeptos da literatura antropofágica, na década de 1920.
Assim, Cheaptapes from divide and conquer surge com uma postura desafiadora diante da força do mercado internacional, postura esta clara na imagem escolhida para adornar a contracapa, a reprodução de uma famosa gravura presente na obra de Hans Staden e que ilustra justamente um banquete antropofágico. Tal proposta se completa na escolha dos tipos usados para compor o título na capa principal, alusivos à capa do álbum Cheap Thrills, da banda Big Brother and the Holding Company, famosa, entre outros motivos, por ter contado com Janis Joplin como vocalista. Cheap Thrills, álbum famoso por sua sonoridade poderosa e experimental, sem dúvida é uma influência presente no som do Dorsal Atlântica, de modo que é pertinente esse reconhecimento, ao mesmo tempo que, nesse jogo de apropriações, a banda
opera uma inversão de perspectiva: se, na versão em português, “dividir” é o termo que pesa
no título, expressando uma crítica às fragilidades do movimento metaleiro brasileiro, na versão inglesa é o outro termo que ganha destaque, surgindo o Dorsal Atlântica no papel de conquistador.
Diante desses exemplos, fica evidente a relação conflituosa que o heavy metal brasileiro estabelece com a tradição nacionalista. Idealizada pelos românticos, no século XIX, em grande extensão a partir de relatos de viajantes europeus do século XVI, a nacionalidade brasileira foi colocada em debate em diversos outros momentos, notadamente na década de 1920, quando os modernistas propuseram novas interpretações da influência indígena e abriram caminho para um nacionalismo mais crítico, em relação tanto a si mesmo quanto ao colonizador. Ao longo da história brasileira, essas diferentes formas de se encarar a
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nacionalidade foram apropriadas por diferentes grupos e serviram a diferentes projetos de poder. No caso do heavy metal, embora se perceba mais evidentemente uma adesão a uma visão crítica de nacionalidade e de relacionamento com culturas hegemônicas, estão também presentes traços de visão idealizadora, romântica, glorificadora das belezas nacionais e da força do Brasil.