O movimento dos trabalhadores em São Paulo, assim como a atuação anarquista neste Estado, foi possibilitada graças à industrialização paulista, realizada em consonância com o maior desenvolvimento do complexo cafeeiro no Estado. Predominavam as indústrias com grande concentração de força de trabalho e capitais, as pequenas indústrias e oficinas tinham importância reduzida mesmo durante as primeiras décadas do século XX. O capitalismo no Brasil “saltou etapas” e se caracterizou pela implantação de indústrias relativamente grandes, mesmo que fossem de bens de consumo e não de bens de produção. Esta característica aponta para o equívoco das teses que afirmam ser o anarquismo um movimento característico de sociedades onde predominam as pequenas oficinas e o artesanato.
Além disso, o excedente de força de trabalho, alcançado graças a massiva imigração a este Estado, fez com que existisse uma concentração proletária que gerou as pré-condições para o fortalecimento do movimento dos trabalhadores. Outro aspecto relacionado ao excedente da força de trabalho, é que este gerou a manutenção do salário dos trabalhadores em um nível baixíssimo, obrigando os trabalhadores a lutarem por melhorias salariais caso quisessem sobreviver.
O Brasil até a década de 1930 possuía uma economia essencialmente agrária, centrada no complexo cafeeiro, que foi perdendo espaço paulatinamente para um processo de crescimento centrado na industrialização. Uma industrialização que até o fim do período que estudamos, 1935, ainda não possuía as bases fundamentais de uma indústria de bens de produção
desenvolvida, sendo, neste sentido, uma industrialização ainda restrita,57porém
com importante concentração de força de trabalho e capitais na indústria de bens de consumo58. De acordo com João Manuel Cardoso de Mello este
processo se estenderia até a década de 1950.59
Durante o início da industrialização no Brasil, o capitalismo internacionalmente já se encontrava em sua fase imperialista. Um dos aspectos centrais do imperialismo, que o distingui da fase em que predominava a livre- concorrência, é o papel importante que passa a ser desempenhado pela exportação de capitais60, fazendo com que o comércio mundial passe a estar subordinado ao próprio desenvolvimento da produção capitalista em escala internacional.61
No Brasil, “a expansão cafeeira e a industrialização aparecem como dois estágios da transição capitalista.”62 Nos países que se encontram nesta fase de transição capitalista, o desenvolvimento apresenta contradições particulares
57 À medida que a atividade relacionada à economia cafeeira foi se desenvolvendo, passou a induzir o desenvolvimento de atividades urbanas, como escritórios, armazéns, oficinas de estradas de ferro, comércio atacadista e de importação e exportação, atividades bancárias, indústrias, e a própria expansão do aparelho estatal. Com o desenvolvimento destas atividades outras mais relacionadas ao processo de urbanização também se desenvolveram como a construção civil, transportes urbanos comércio varejista, comunicações, etc. CANO, Wilson. Raízes da Concentração Industrial em São Paulo. São Paulo-Rio de Janeiro, Difel, 1977, p. 69
58 Outro fator que merece destaque é que quando começa a industrialização brasileira, as modificações na indústria internacional de bens de produção ocorridas durante o processo conhecido como “Segunda Revolução Industrial” fizeram com que os investimentos nas indústrias que tinham uma “planta mínima” grande fossem altos, além de não existir disponibilidade no mercado internacional da tecnologia deste tipo de indústria. Já na indústria de consumo leve a tecnologia era mais simples, principalmente na têxtil, e mais estabilizada, possuindo equipamentos amplamente disponíveis no mercado internacional, sendo que o tamanho da planta deste tipo de indústria e o investimento inicial necessário para a sua implantação não eram tão grandes, sendo acessível para a possibilidade da economia brasileira. Estes fatores determinaram o desenvolvimento da indústria de bens de consumo leve durante o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, começando a existir modificações apenas em meados da década de 1920, com o desenvolvimento incipiente de algumas indústrias “pesadas”, como a siderúrgica por exemplo. Ver em: MELLO, João Manuel Cardoso de. O Capitalismo Tardio. Brasiliense São Paulo, 1987, passim.
59 Ibid., p. 110
60 “O que caracterizava o antigo capitalismo, onde reinava a livre concorrência, era a exportação de mercadorias. O que caracteriza o capitalismo atual, onde reinam os monopólios, é a exportação de capitais,
O capitalismo é produção de mercadorias no grau mais elevado do seu desenvolvimento, onde a própria força de trabalho se torna mercadoria. O aumento das trocas, tanto nacionais como, sobretudo, internacionais, é um traço distintivo, característico do capitalismo. O desenvolvimento desigual, e por saltos, das diferentes empresas, das diferentes indústrias e dos diferentes países é inevitável em regime capitalista.” LENIN, V. I. Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. São Paulo, Global, 1979, p. 60 61 SILVA, Sérgio. A Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1985, pp. 30 e 31
devido a posição que ocupam na economia mundial, uma posição subordinada.63
A economia e o capital cafeeiro não se restringem as plantações. Os principais produtores de café não se limitavam a organizar e dirigir suas plantações, eles eram compradores da produção de outros cafeicultores, também exerciam a função de banco, ao emprestar dinheiro aos fazendeiros em dificuldade, financiar o estabelecimento de novas plantações ou a modernização das já existentes.
Aos poucos estes principais produtores foram se afastando da gestão direta das plantações, se estabelecendo nas grandes cidades, pois as suas atividades comerciais necessitavam que os mesmos não se ausentassem por largos períodos dos centros de negócios cafeeiros.
Com o desenvolvimento da economia cafeeira o papel das casas de exportação cresce, centralizando a compra de toda a produção.
O capital cafeeiro tinha diversas faces, ao mesmo tempo apresentava características do capital agrário, do industrial, bancário e comercial. Desta forma, os mesmos homens se encontravam a frente de empresas que desempenhavam funções diversas. Ao mesmo tempo se encontravam a frente do Estado.
“Na economia cafeeira, caracterizada por um grau ainda fraco de desenvolvimento capitalista, essas diferentes funções são reunidas pelo capital cafeeiro e não definem (pelo menos diretamente) frações de classe relativamente autônomas: não havia uma burguesia agrária cafeeira, uma burguesia comercial, etc, mas uma burguesia cafeeira exercendo múltiplas funções. (...)A análise dessas relações faz ressaltar a dominação das funções comerciais. Em outros termos, a caracterizar o capital cafeeiro como um capital dominantemente comercial.” 64
62 Ibid., p. 19
63 Segundo Sérgio Silva “O desenvolvimento desigual é uma característica fundamental do modo de produção capitalista que se manifesta de uma maneira particularmente aguda quando ele se torna dominante ao nível internacional.” SILVA, Sérgio. A Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no
Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1985, p. 26 64 Ibid., pp. 59 e 60
Desta forma, podemos afirmar que a grande burguesia cafeeira, era uma burguesia essencialmente comercial. Isto não quer dizer que deixasse de ser produtora, não havia uma divisão de frações de classe claramente definida.
A economia cafeeira cumpriria o papel de gerar previamente a massa de dinheiro concentrada nas mãos das pessoas ligadas diretamente à atividade cafeeira. Dinheiro este passível de se transformar em capital industrial. Além disso, transformou a força de trabalho em mercadoria, possibilitando também a existência do excedente desta mercadoria com o incentivo a imigração que visava abastecer de força de trabalho a atividade produtiva cafeeira, gerando também um mercado interno.65
Neste sentido, a burguesia ligada ao complexo cafeeiro foi a matriz social da burguesia industrial, sendo a única classe com capacidade de acumulação suficiente para promover o surgimento da indústria.
Assim,
“o capital cafeeiro é, ao mesmo tempo, agrário, industrial e mercantil, e que convém pensar num complexo exportador cafeeiro, integrado por um núcleo produtivo, que inclui as atividades de beneficiamento, e por um segmento urbano, que acolhe os serviços de transportes (estradas de ferro, portos, etc), as atividades comerciais (casas importadoras e exportadoras) e financeiras (bancos). Deste ponto de vista, a acumulação cafeeira é, em grande medida, acumulação urbana, que absorveu boa parte da força de trabalho imigrante e exigiu a importação de meios de produção (trilhos, materiais de construção, equipamentos ferroviário e portuário, etc).”66
Aqui afirmamos que a burguesia ligada ao complexo cafeeiro foi a matriz social da burguesia industrial, não que a burguesia agrária transformou-se em burguesia industrial.
Por exemplo, entra na relação do desenvolvimento da indústria no país o papel desempenhado pela exportação de capitais realizada pelos países
65
O capitalista que promoveu o início da industrialização foi o que estava ligado ao capital cafeeiro acumulando grande capital em forma financeira durante a primeira metade da década de 1890, possibilitando a inversão deste capital na indústria com garantias de retorno. Graças ao auge exportador da economia cafeeira, o complexo cafeeiro acumulou capital-dinheiro que se transformou em capital industrial e gerou o número excessivo da força de trabalho, aludida acima, e a capacidade para importar bens de consumo e meios de produção.
imperialistas. Esta exportação de capitais não foi, na maioria das vezes, aplicada diretamente na indústria, mas possibilitou a realização da mais valia em relação às exportações de café, sustentando o seu preço. Possibilitou também o desenvolvimento ainda maior do comércio de exportação e importação, que a partir desta época encontrava participação massiva do capital estrangeiro , principalmente na comercialização do café e com a instalação das filiais de bancos estrangeiros, etc67. Fatores estes que colaboraram posteriormente para que um setor da grande burguesia cafeeira nacional (ligada principalmente a atividades comerciais, embora também fosse “produtora”) e também imigrantes estrangeiros que desenvolveram atividades comerciais, pudessem investir parte de seus capitais na indústria.
Aliás grande parte da burguesia industrial era de origem européia e desenvolveu atividades relacionadas ao comércio de importação e exportação.
“Para a burguesia industrial nascente, a base de apoio para o início da acumulação não é a pequena empresa industrial, mas o comércio, em particular o grande comércio cujo centro está na atividade de exportação e importação. Do mesmo modo que na exportação, a importação é controlada em parte por empresas estrangeiras. Graças às suas origens sociais, o burguês imigrante encontra facilmente um lugar no grande comércio. Ele torna-se representante de firmas e marcas estrangeiras e se encarrega da distribuição de produtos importados pelo interior do país. (...)
A situação privilegiada do importador durante esse período implica particularmente a possibilidade de dispor de capitais relativamente importantes, seja aplicando lucros de seus próprios negócios, seja recorrendo ao crédito dos bancos estrangeiros com os quais ele mantém relações comerciais. Graças ao controle do grande capital comercial, o importador está muitas vezes na origem das empresas industriais que se constituem a partir dos anos 1880 (...)
Dean mostra como o crescimento da demanda conduz o importador a realizar no próprio Brasil um certo número de
66 MELLO, João Manuel Cardoso de. O Capitalismo Tardio. Brasiliense São Paulo, 1987, pp 128 e 129 67 “Mas o capital estrangeiro não domina inteiramente a comercialização do café e as atividades bancárias. A seu lado, desenvolvem-se os bancos e casas de exportação pertencentes à burguesia do café, ou mais precisamente, à camada superior da burguesia do café (...)Esses bancos nacionais e estrangeiros, cujo capital em 1913 eleva-se a 3,23 bilhões de mil-réis (ou seja mais de 4,5 vezes o capital industrial em 1910), desempenham um papel importante no desenvolvimento capitalista no Brasil. Rapidamente eles penetram em todos os setores da economia brasileira, financiando as atividades mais deversas: o comércio, a importação, a exportação, o açúcar, o café e também a indústria.” SILVA, Sérgio.
operações industriais . Para certas mercadorias, como a cer- veja por exemplo , o transporte do produto acabado torna-se pouco rentável. Outras, como as massas alimentícias, correm o risco de sofrer deterioração, durante a viagem através do Atlântico. A partir de certos limites, a armazenagem de determinados utensílios é pouco rentável. Em conseqüência, com o próprio desenvolvimento do mercado uma série de empresas são criadas como se constituíssem verdadeiros apêndices da importação; elas são, em geral, controladas por importadores. Temos então que entre 65 firmas de importação existentes no ano de 1910, 37 pelo menos tinham capitais aplicados na indústria . Em resumo, grande parte dos mais importantes represen- tantes da burguesia industrial nascente, em particular da burguesia industrial paulista, a principal fração da burguesia industrial brasileira, chega ao Brasil como imigrante no final do Século XIX ou início do Século XX e trabalha como importador. Matarazzo começa como importador de óleos alimentares, farinha e arroz. Os irmãos Jafet, Crespi, Diederichsen também começam no setor de importação. Roberto Simonsen — um dos mais importantes líderes da indústria brasileira já na década de 1920 — foi também importador”68
Portanto, a atividade de exportação e importação possibilitou para alguns imigrantes estrangeiros, que já possuíam em seu país de origem certo recurso financeiro, não sendo, neste sentido, pobres, como a maioria dos imigrantes que vieram para o Brasil, o acúmulo necessário de capitais para investir na indústria, que se constituiu, de certa forma, como atividade complementar ao próprio comércio de importação. Por outro lado, parte da grande burguesia cafeeira nacional, aquela ligada ao comércio, como Prado, também investiu na indústria. Sendo que nesta época o investimento estrangeiro direto na indústria é relativamente pouco importante.
A exportação de capitais promovida pelos países imperialistas também colaborou para o desenvolvimento das pré-condições do capitalismo no Brasil. Os empréstimos realizados pelos governos no Brasil serviram para o financiamento da imigração massiva, organizando o mercado de trabalho e criando a massa de trabalhadores que constituíram o núcleo operário do país.
68
SILVA, Sérgio. A Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1985, pp. 95 e 96
As próprias estradas de ferro, grande parte financiadas com capital estrangeiro, colaboram posteriormente para a migração de trabalhadores de outros Estados para São Paulo, contribuindo para o achatamento ainda maior do nível salarial dos operários deste Estado.
Estes capitais também foram responsáveis pelo financiamento da implantação de serviços públicos, como eletricidade, gás, transportes urbanos, etc.
“o valor total dos investimentos ingleses no Brasil elevavam- se já em 1900 a, aproximadamente, três vezes o valor das exportações e mais de dois terços do produto interno líquido.”69
Portanto, são as formas de reprodução do capital cafeeiro e a própria forma de subordinação da economia brasileira no contexto mundial que levam ao desenvolvimento da indústria no país. Esta forma de inserção brasileira na economia mundial leva a certa especialização das nascentes indústrias no setor de bens de consumo, enquanto os bens de produção eram produzidos nos países imperialistas.
Por outro lado,
“Graças às possibilidades de importação de equipamentos, os mais modernos, o capital industrial brasileiro pôde ‘saltar etapas’ e, desde o início, adotar técnicas avançadas e garantir-se uma rentabilidade elevada.
Assim, o Brasil pode passar diretamente à grande indústria, sem atardar-se nas formas anteriores de desenvolvimento do capitalismo na indústria”70
No ano de 1907 as indústrias de São Paulo demonstram uma grande concentração de capitais e força de trabalho, os dados do Centro Industrial do Brasil, que devem ser relativizados por não abarcarem a totalidade das empresas do estado, apontam uma concentração de 85% do capital e 80% do número de operários nas empresas com 100 operários ou mais. 71
69 SILVA, Sérgio. A Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1985, p. 38
70
Ibid., pp. 114 e 115
71 Lênin considerava as empresas importantes, para o caso alemão, aquelas que empregavam mais de 50 trabalhadores assalariados. LENIN, V. I. Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo. São Paulo, Global, 1979, p. 16
Dados do ano de 1920, que podem ser trabalhados com maior segurança, demonstram que em São Paulo as empresas com 100 ou mais operários concentravam 65% do número total de operários da cidade72,
enquanto aquelas que empregavam 500 ou mais operários empregavam cerca de 30 mil trabalhadores.73 A década de 1920 veio referendar o processo de
concentração da industrialização em São Paulo, aumentando ainda mais a defasagem de crescimento do restante do país.
Desta forma é possível demonstrar que mesmo com uma indústria subordinada ao capital comercial, dominante no complexo cafeeiro, e centrada na produção de bens de consumo (desenvolvimento possível no contexto do imperialismo do início do século passado), o que predominou foram empresas com plantas grandes e não pequenas empresas manufatureiras ou de tipo artesanal, dispersas pelo país e destinadas ao mercado local.
Desta forma equivoca-se Boris Koval (e outros autores), quando afirma que a atuação dos anarquistas só foi predominante entre o operariado de São Paulo pois havia alto peso das camadas pequeno-burguesas da população, na qual ele inclui os artífices e similares, com a sua ideologia pequeno-burguesa, muito similar a anarquista, de acordo com ele. 74 Fora a discussão sobre a pertinência ou não da caracterização da concepção de mundo anarquista e sua consciência social como pequeno-burguesa, há a evidência de que onde a atuação anarquista mais predominou no país, São Paulo, a realidade era da concentração industrial, mesmo que nas indústrias de bens de consumo. Por outro lado, nas localidades onde menos existia concentração industrial o anarquismo sucumbiu mais rapidamente.
Em relação ao excedente da força de trabalho, este se estabeleceu, como dissemos, com a necessidade de força de trabalho para a lavoura cafeeira que fez com que viessem para o Brasil milhões de imigrantes.
72 Outro elemento que devemos ressaltar é que a expansão industrial de São Paulo entre 1907 e 1919 cresceria 8, 5 vezes aumentando a sua participação na indústria brasileira de 15,9% para 31,5%. Já a indústria do resto do país cresceria apenas 3,5% diminuindo a sua participação no total da indústria brasileira de 84,1% para 68, 5%.
73 SILVA, Sérgio. A Expansão Cafeeira e Origens da Indústria no Brasil. São Paulo, Alfa-Ômega, 1985, pp. 87 e 91
Entre 1887 e 1930 entraram em São Paulo 2, 5 milhões de pessoas das quais 280 mil eram migrantes brasileiros, boa parte nordestina e 85 mil japoneses. Wilson Cano estima que, de acordo com a taxa de permanência dos imigrantes, que tinha uma quebra de cerca de 70 %, seriam 850 mil o número de imigrantes que ficaram neste período em São Paulo.75
De todos os imigrantes italianos registrados como havendo entrado no Brasil de 1822 a 1930, 74% entraram aqui antes de 1903.76 De 1923 a 1929 se dá à entrada maciça de migrantes nacionais para as fazendas de São Paulo, com cifras próximas a da imigração estrangeira para o mesmo período. A partir de 1927 com o fim dos subsídios para a imigração do Governo do Estado de São Paulo, passam a chegar mais imigrantes de origem japonesa, a partir de 1928, subvencionados no próprio Japão.77
A partir deste período a participação dos migrantes sobre os imigrantes estrangeiros passaria a pender em benefício dos primeiros.
Grande parte desta força de trabalho que imigrou para o Brasil veio com sua locomoção subsidiada, seja pelo Estado de São Paulo, Brasil ou pelo país de origem, fazendo com que o número de trabalhadores fosse abundante. Somando-se a isso o emprego enorme de mulheres e crianças como força de trabalho e a ausência de mecanismos protetores dos trabalhadores, o valor da força de trabalho se manteve baixo.
A alteração que acontece durante a década de 1920 em relação à imigração tem uma certa importância para colaborar ainda mais para a depressão do valor da força de trabalho. Os imigrantes japoneses, por exemplo, embora parte tenha sido alocada na lavoura cafeeira, outra parte também significativa promoveu a diversificação na produção de alimentos. Já os migrantes, vindos principalmente de regiões onde a seca assolava no país, tendo uma taxa de salário muito baixa, vieram engrossar a quantidade de força
75 CANO, Wilson. Raízes da Concentração Industrial em São Paulo. São Paulo-Rio de Janeiro, Difel, 1977., p. 48
76 PINHEIRO, Paulo Sérgio. “Proletariado Industrial na Primeira República” in FAUSTO, Boris (direção). História Geral da Civilização Brasileira: O Brasil Republicano- Tomo III- Sociedade e
Instituições, volume 2, (1889-1930). Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, p. 138
77PETRONE, Maria Tereza Schorer. “Imigração” in FAUSTO, Boris (direção). História Geral da
Civilização Brasileira: O Brasil Republicano- Tomo III- Sociedade e Instituições, volume 2, (1889- 1930). Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, p.103
de trabalho em São Paulo, fazendo com que o valor da força de trabalho não se elevasse.
O baixo valor da força de trabalho, pressionado, entre outras coisas, pelo excedente de força de trabalho, fez com que aumentassem os motivos para as manifestações operárias por melhorias salariais. Fato este intensificado