78 Não predominantes no país por causa da imigração, mas sim por especificidades do próprio desenvolvimento capitalista do país.
A relação da imigração com o anarquismo mereceu o destaque de muitos historiadores que identificaram a predominância do anarquismo no movimento revolucionário dos trabalhadores no Brasil à origem imigrante dos anarquistas, fato já questionado por trabalhos da historiografia brasileira.
Neste tópico resgataremos a relação entre a questão da imigração e o posicionamento político dos anarquistas em relação ao tema, pois este posicionamento acaba por refletir uma determinada inserção dos anarquistas na realidade paulista. Além disso, entendemos ser necessário resgatar o posicionamento dos anarquistas em relação ao nacionalismo e como este se vinculava a uma questão de classe, em um contexto no qual começavam a abundar entidades nacionalistas e aumentar o preconceito contra estrangeiros portadores de ideais de transformação social.
Apesar de o anarquismo ter aportado em terras brasileiras devido a imigração, a maioria dos imigrantes que vieram ao Brasil era de origem agrária, sem uma experiência de participação anterior nos sindicatos, sendo até mesmo resistentes a este. Segundo Sheldon Leslie Maram, a maioria dos imigrantes que vieram para o Brasil tinham como objetivo elevar-se acima dos operários. O Brasil seria um lar temporário, e participar de movimentos dos trabalhadores poderia causar problemas para aqueles objetivos que vislumbravam alcançar, uma vez que um trabalhador em greve, corria o risco de perder o emprego, ser preso ou até mesmo deportado.
A própria predominância do militante estrangeiro entre o proletariado industrial de São Paulo era questionada pelos anarquistas desde o início do século. Afirmavam que só existiam militantes estrangeiros porque a maioria dos trabalhadores de São Paulo também o era, mas proporcionalmente os militantes brasileiros constituiriam a maioria. No final da década de 1920 a maioria dos militantes anarquistas já era brasileira em números absolutos.
No início do ano de 1920 a imprensa desenvolvia intensa campanha contra os anarquistas. Esta campanha os obrigou a se posicionar e rebater os principais argumentos de seus detratores, argumentos essencialmente xenofóbicos, acusando os anarquistas de serem estrangeiros, expulsos de
seus países, agitadores profissionais e exploradores do proletariado. A isso, assim respondiam os anarquistas:
"É verdade que muitos dos militantes anarquistas, entre nós, são estrangeiros, não nasceram no Brasil. Mas isso nada tem de extraordinário. País essencialmente de imigração vivendo as suas indústrias principalmente do braço e da inteligência do imigrante, naturalíssimo que os centros de maior população operária no Brasil contenham forte e predominante percentagem de estrangeiros. E como o anarquista se propaga e se radica especialmente entre as classes operárias, não é menos naturalíssimo que muitos desses operários estrangeiros sejam anarquistas. O contrário disso é que seria absurdo e extraordinário. Agora, o que é absolutamente falso é que todos os anarquistas entre nós, sejam estrangeiros. (...)
Mas, além de tudo, a pecha de estrangeiros, com que os melindrosos do nacionalismo pretendem estigmatizar os anarquistas, entre nós, é incongruente e ultra-hipócrita. Estrangeiros, em última análise, somos todos e tudo no Brasil. Brasileiros autênticos e puros são exclusivamente os índios que os nossos avós estrangeiros e nós próprios dizimamos e vamos dizimando, no passado e no presente. A nossa língua é estrangeira. Os nossos costumes são estrangeiros. As nossas religiões são estrangeiras. As nossas letras são estrangeiras.As nossas ciências são estrangeiras. As nossas industrias são estrangeiras. A nossa politicalha é estrangeira. A nossa república e constituição são estrangeiras. Já tivemos um império estrangeiro. Numa palavra: tudo que possuímos em matéria de civilização é absolutamente estrangeiro"79
Depois de levantar as razões para a naturalidade da predominância de militantes estrangeiros entre os anarquistas, ressaltando que os costumes, a língua, as ciências, as indústrias eram estrangeiras,80 o texto diz que não há nada mais falso do que acusar os anarquistas de bandoleiros ou expulsos de seu país de origem. Argumenta que a maioria dos anarquistas brasileiros aqui se formou anarquista, boa parte vindos pra cá ainda criança, formando a sua
79 “Os anarquistas brasileiros ao povo do Brasil” in A Plebe. São Paulo, 17 de abril de 1920
80 Devemos lembrar que em 1920 64,2% dos estabelecimentos industriais de São Paulo eram de imigrantes, e sua população era composta em dois terços por imigrantes Ver em :PETRONE, Maria Tereza Schorer. “Imigração” in FAUSTO, Boris (direção). História Geral da Civilização Brasileira: O Brasil Republicano- Tomo III- Sociedade e Instituições, volume 2, (1889-1930). Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 1997, p.120
personalidade inteiramente neste país, portanto, se havia alguns militantes estrangeiros que já chegaram aqui anarquistas estes poderiam ser contados nos dedos, afirma o texto. Lembremos que a maioria dos anarquistas estrangeiros de São Paulo era formada por italianos e que a maioria destes imigraram para o Brasil antes de 1903.
Os anarquistas, também, não são agitadores profissionais, afirmava o texto, pelo contrário, todos têm profissão definida e se sustentam graças a ela, e nunca exploraram os trabalhadores. Se alguém é explorado, continua, são os anarquistas que utilizam seus parcos recursos para a obra de propaganda necessária para a melhoria das condições presentes, portanto, se há alguém que explora são os operários que se aproveitam da altivez e ação dos anarquistas.
Assim, procurava-se travar o embate político numa conjuntura na qual a imprensa buscava formar na opinião pública uma corrente antianarquista. Os anarquistas se defendiam politicamente, com uma consistente argumentação por um lado, e, por outro lado, procurando construir uma auto-imagem positiva em relação ao conjunto dos trabalhadores, ressaltando os sacrifícios e os percalços que passavam para proceder à defesa das classes trabalhadoras.
A defesa das virtudes da imigração como elemento civilizador também foi feita no jornal A Obra em 1920. Neno Vasco em artigo intitulado “Imigração e Civilização” diz que para as nações e para os indivíduos a solidariedade é uma lei iniludível, a imigração é um fator desta solidariedade e leva a civilização para os lugares mais longínquos do mundo.A imigração leva idéias novas para os países que recebem situações novas capazes de provocarem revoltas.
Por outro lado, quando se proíbe a imigração de pessoas, são os capitais que imigram, qualquer proibição da imigração é algo inútil.
Mas é necessário, argumenta, fazer uma campanha de esclarecimento para aquelas pessoas que desejam emigrar de seus países para que elas não sejam enganadas, não as aconselhando a não emigrar, mas sim expondo a verdadeira condição social e econômica do país que se pretende ir.81
Já Bittencourt em seu texto “A universalidade da doutrina libertária”, desenvolve uma boa argumentação, retomada depois por muitos pesquisadores, para defender a pertinência do anarquismo diante da realidade brasileira.
Bittencourt diz que lê nos jornais, órgãos que exprimem o pensamento das classes privilegiadas, que no Brasil, república que conhece todas as liberdades, “nação onde há justiça e pão para todos, ser o anarquismo uma doutrina exótica e, portanto, desnecessária e condenável”. 82
Portanto, no Brasil não haveria motivos para a propaganda revolucionária e os anarquistas não passariam de agitadores estrangeiros. Bóris Fausto já nos disse,
“O pensamento reacionário forjou a imagem botânica da "planta exótica" para rotular as correntes revolucionárias que deitaram raízes na sociedade brasileira. Planta exótica as "idéias francesas" dos liberais brasileiros, em voga a partir de fins do século XVIII, o anarquismo de cem anos depois, o socialismo inspirado na III Internacional, a partir da década de vinte. Mantendo a imagem, convém lembrar que as espécies ideológicas dos países dependentes, qualquer que seja a sua classificação germinaram sempre com o auxílio das sementes importadas” 83
Segundo Bittencourt, “repele-se, portanto, esse anarquismo forasteiro, que vem perturbar a paz da família brasileira e provocar revoltas absurdas em um meio onde a evolução tem o caminho aberto e garantido”, mas, segundo o autor, este argumento é repetido na França, onde acusam o anarquismo de ser de origem eslava ou teutônica, na Alemanha, onde mesmo os socialistas acusam o anarquismo de ser de origem latina, revelando uma suposta tendência idealista e individualista dos latinos.
Para Bittencourt:
“Esta unanimidade em considerar o anarquismo estrangeiro em todos os paises, é realmente singular, mas o fato desta doutrina se aclimatar desde logo em toda a parte devia levar os seus inimigos a serem menos levianos na escolha dos
82 BITTENCOURT, A. “Universalidade da doutrina libertária” in A Obra. São Paulo, 15 de agosto de 1920.
argumentos para combatê-lo. Pois é certo que uma doutrina, uma teoria que com tanta facilidade é aceita por todos os povos, sem perder nenhum dos seus caracteres essenciais, devia convencer os seus maiores adversários da excelência do valor sociológico e moral que uma tal doutrina representa. (...)
É claro que não bastariam as simples razões idealísticas do anarquismo para fazer dele um movimento de ação revolucionária em toda a parte do mundo em que é propagado, na Europa como na Ásia, na África como na América, se uma tal doutrina não encontrasse também nas condições econômicas e políticas de cada país em que logo se aclimata a sua razão de ser e de existir e com as quais estabelece confronto para uma crítica demolidora (...)
O anarquismo, concepção sociológica que pretende estabelecer uma sociedade, baseada na liberdade integral e na igualdade econômica é, portanto, uma doutrina aclimatável em todos os países porque representa uma aspiração comum a todos os oprimidos, seja qual for o grau de opressão que sobre eles pese."84
Assim, para Bittencourt, o anarquismo tinha sua validade graças às condições econômicas e políticas do país e se espalhou pelo mundo por causa da existência da opressão, que não é particular do Brasil existindo em diferentes níveis em países diversos.
Magnani também é da mesma opinião: “A difusão do anarquismo em São Paulo não deve ser atribuída somente à origem estrangeira recente da classe trabalhadora, mas antes deve ser vinculada às condições sociais, políticas e econômicas imperantes na República Velha”.85 E de fato foi o que aconteceu.
Casada com a análise anarquista sobre a questão da imigração e da acusação em relação aos anarquistas estrangeiros, tínhamos uma crítica ao nacionalismo burguês e a defesa do “patriotismo” popular, como sentimento do povo em relação ao lugar onde nasceu, cresceu, viveu emoções, etc.
Para Florentino de Carvalho o patriotismo é um “sentimento afetivo, nostalgia, saudade intensa pelo lugar onde obtivemos maior soma de
84 BITTENCOURT, A. “Universalidade da doutrina libertária” in A Obra. São Paulo, 15 de agosto de 1920.
85 MAGNANI, Silvia Ingrid Lang. O Movimento Anarquista em São Paulo 1906-1917. São Paulo, Brasiliense, 1982, p. 49
felicidades”, portanto, um sentimento natural próprio dos seres humanos. Mas, este sentimento “foi deturpado, explorado, transformado em apostolado de idéias nativistas, em evangelho do nacionalismo e do estatismo, e dos seus subseqüentes elementos nocivos, o militarismo, o elecionismo, etc."
Florentino nos diz ainda que os brasileiros que conduzem o país e os que lhe servem de satélites
"intensificaram o ensino nacionalista, difundiram o nativismo, o jacobinismo, instituíram o serviço militar obrigatório, criaram as linhas de tiro, as sociedades da Cruz Vermelha (...)
E não faltam poetas, como Bilac, que cantem hinos de glória a esses ideais tenebrosos, e escritores como Coelho Netto que dêem a luz mandamentos, provocadores da exaltação nativista"86
Para o autor, este ambiente nacionalista deturpa a realidade por não fazer compreender que muitas das coisas que são realizadas no país são produtos do desenvolvimento da humanidade e não glórias de uma pátria. Continua seu texto criticando a instituição do serviço militar obrigatório e do exército.
A defesa do “nacionalismo popular” também foi tema de um artigo assinado por Frederico, em 1921.O nacionalismo era entendido como um sentimento nascido entre o povo, ao contrário do nacionalismo de governo.
O nacionalismo do povo, demonstrado através do ódio que este povo sente contra o estrangeiro que invade o seu país deveria ser admirado. 87
O que chama a atenção neste texto é que o autor considerava crime a interferência de um povo civilizado na vida de outro povo civilizado, mas não faz a mesma defesa em relação a intervenção dos países civilizados nos países que não seriam civilizados na sua concepção. 88
Frederico continua seu texto afirmando que no Brasil havia uma intensa campanha nacionalista e fundaram-se várias instituições para a promover, a Defesa Social Nacionalista, Cruzada Social, Legião da Mulher Brasileira, Liga
86 CARVALHO, Florentino de. “Os brasileiros do ‘Kaiser’” in A Obra. São Paulo, 13 de maio de 1920. 87 Não nos esqueçamos que o neocolonialismo era discutido com as invasões das potências européias sobre outros países africanos e asiáticos.
de Defesa Nacional, Centro Acadêmico Nacionalista, etc., mas se perguntava, porque foram fundadas tantas agrupações com o intuito de defender o nacionalismo, acaso o país estava em guerra com outro país limítrofe ou em iminência disto, ou então haveria uma invasão de um país europeu ou da América do Norte? Como o autor responde pela negativa estas indagações, a conclusão que ele chega é que este não era o nacionalismo legítimo emanado do seio do povo, era o nacionalismo governamental que atendia aos interesses dos opressores.
Cláudio Azas no texto “Nacionalismo de Fancaria”, nos diz que o nacionalismo constitui a defesa das instituições do presente, é demonstração do fracasso dos valores da demagogia burguesa e do desmoronamento do autocrático regime do republicanismo.
Para ele o nacionalismo está intimamente ligado e tem por base o capital estrangeiro e a sua segurança, garantindo a propriedade privada, elaborando leis para melhor dominar o povo, incrementando o Estado, impedindo o avanço do progresso, das artes, ciência, das indústrias e incitando “as massas a suportarem a escravidão econômica”. 89
A crítica ao nacionalismo é realizada no contexto do pós-primeira guerra, no qual os anarquistas demonstravam os efeitos da guerra para fazer a sua propaganda contra o nacionalismo, por outro lado mostra-se nos textos a preocupação dos anarquistas contra a propaganda nacionalista no Brasil, fazendo com que os jornais anarquistas se posicionassem e defendessem o fim do nacionalismo burguês. A crítica também demonstra a clara vinculação do Brasil com a dominação imperialista, transformando o nacionalismo em argumentação e fator a favor da dominação de classe.
Neste primeiro período por nós estudado, principalmente no início da década de 1920, a discussão sobre o nacionalismo em conjunto com o posicionamento sobre a questão da imigração foi necessária para os anarquistas. Procuraram demonstrar, em primeiro lugar, que os ideais anarquistas não eram alheios a realidade do país e que a própria constituição do que entendiam por civilização brasileira estava intimamente ligada ao
desenvolvimento de outros países. Além disso, buscaram valorizar o nacionalismo popular, como um sentimento natural de pertencimento a determinada localidade, contra o nacionalismo burguês, utilizado para facilitar a dominação de classe.