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Para contornarmos as diferentes especificidades dos diversos locais e bus- carmos a visão de conjunto do problema, propomos a abordagem de como se distribuem e se combinam os principais fatores determinantes do dengue em escala nacional, selecionando alguns indicadores relativos aos fatores determi- nantes, já discutidos no texto, e os agrupamos em um único mapa. Recorremos a diversos indicadores, disponíveis por municípios, e selecionamos alguns que seriam mais significativos. elencamos os seguintes:

1. Porcentagem de domicílios particulares permanentes com abasteci- mento de água por rede geral, dado captado por meio do censo demo- gráfico de 2000;

2. Porcentagem de domicílios particulares permanentes com coleta de lixo, dado captado por meio do censo demográfico de 2000;

3. Porcentagem de domicílios particulares permanentes com banheiro li- gado a rede de esgotamento sanitário, dado captado por meio do censo demográfico de 2000;

4. densidade demográfica – habitantes residentes no município no mês de referência do censo demográfico 2000 por área (habitantes/km²); 5. Porcentagem da população com situação de residência urbana, dado

captado por meio do censo demográfico de 2000;

6. População total de cada município, dado captado por meio do censo de- mográfico de 2000;

7. altitude em metro da sede do município, dado disponível no Atlas de

Desenvolvimento Humano no Brasil, ano de 2000;

9. densidade de fluxo rodoviário por município para o ano de 2004, dis- ponível no Ministério dos transportes.

esses dados estão em formato vetorial e foram trabalhados na base censitá- ria do ano de 2000 com 5.507 municípios. os três primeiros são relativos à cobertura de serviços e podem ser relacionados a uma disponibilidade virtual de criadouros. o terceiro, contudo, é um indicador sensível às condições de moradia, não sendo diretamente ligado ao dengue. o quarto e quinto indica- dores são relacionados à concentração de população, e o sexto indicador é rela- tivo ao tamanho da população de determinando município. os indicadores sete e oito são referentes ao suporte de vida do vetor e do vírus: caso o municí- pio esteja numa área com temperatura média mais baixa, ou uma altitude mais elevada, o vetor pode não existir, ou existir em densidade insuficiente para uma situação endêmica/epidêmica duradoura. o último indicador é relativo à fluidez do território. Uma vez que boa parte dos fluxos no Brasil é realizada por meio de rodovias, essas podem orientar as epidemias em escala nacional e atingir diferentemente as cidades.

Para analisar os determinantes do dengue com base nesses dados, precisa- mos verificar quais desses estão direta ou inversamente relacionados à produ- ção da doença e como quantificar essa relação. os indicadores relativos ao ta- manho e à concentração de população, fluidez do território e clima são diretamente proporcionais, ou seja, quanto mais presentes ou presentes de maneira mais intensa, mais auxiliam a produção da doença. Já os indicadores de cobertura de serviços e altitude são inversamente proporcionais, ou seja, quanto menor sua presença ou menos intensa, mais propícios são para o esta- belecimento da doença em determinado lugar.

o próximo passo é determinar que intensidade dos fatores pode ser consi- derada baixa ou alta para o estabelecimento de uma situação de transmissão autóctone do dengue. Por exemplo, qual seria a densidade demográfica míni- ma para se poder ter uma epidemia? ou qual seria o percentual máximo de domicílios ligados à rede de água e com coleta de lixo para se poder criar uma barreira ao dengue?

sem dúvida essa tarefa fica mais difícil quando tomamos os indicadores em separado e de maneira descontextualizada, ainda mais em um país com grande heterogeneidade de situações, grande volume de municípios e uma doença cujo principal vetor se adapta a quase todos os espaços produzidos pelo ho- mem. a resposta a esse problema é parcial e genérica. decidimos criar quatro classes de intervalos variáveis a partir da distribuição dos dados. somente ana- lisando o conjunto dos dados em todo o país é que podemos considerar se um

valor pertence a uma classe alta ou baixa. apenas a temperatura média e a alti- tude foram classificadas de maneira diferente, seguindo parâmetros preestabe- lecidos.

as classes variam de 1 a 4 para todos os indicadores. Quando atribuímos o valor 1, isso significa que naquele município existe baixa intensidade ou pre- sença da variável e, portanto uma situação menos favorável ao desenvolvimen- to do dengue. a classe 4 indica o município que, para aquela variável, apresen- ta características favoráveis ao desenvolvimento do dengue. as outras duas classes são valores intermediários.

após classificarmos os municípios de acordo com a intensidade das va- riáveis, decidimos atribuir pesos a cada uma. esses pesos variam de 1 a 5, e servem para colocar em evidência os determinantes mais importantes, como clima, fluxo rodoviário e densidade demográfica. atribuímos os pesos e de- cidimos somar os indicadores. Com isso, podemos analisar a maneira como se combina cada indicador nos diversos municípios, analisando que em al- guns municípios existe maior presença de determinantes. Para finalizar, uti- lizamos um procedimento de interpolação chamado IDW – Inverse Distance

Weight, a fim de simularmos uma superfície contínua de dados em vez de

apenas dados discretos, e visualizarmos a maneira como se combinam em escalas mais amplas.7

o resultado pode ser visto na figura 27. Nesse mapa, colocamos a distri- buição de todos os nove determinantes escolhidos com suas respectivas classes em pequenos encartes. em seguida, colocamos o mapa gerado a partir do pro- cedimento de interpolação, com oito classes de diferentes intensidades.

essa coleção de mapas nos indica as áreas onde há maior intensidade da presença dos fatores determinantes, e nos possibilita analisar as áreas mais vul- neráveis a essa doença no território nacional. todavia, devemos nos lembrar que esses são apenas os fatores estruturais, ou seja, aqueles que demoram um período maior de tempo para se modificar, como a população total ou a densi- dade demográfica.

os outros fatores, ou fatores conjecturais, que mudam mais rapidamente, modulam a sazonalidade e interferem na dinâmica da doença devem ser estu- dados à parte, de acordo com cada ano ou mês, e em escalas geográficas com mais detalhe. alguns fatores conjunturais são determinantes para epidemias ou situações endêmicas longas, como por exemplo, uma greve de funcionários

7 os pesos, a forma como foram classificados, o número de municípios por classes e os valores de referência desse mapa estão no apêndice C da dissertação de mestrado que originou este livro, disponível em: <www4.fct.unesp.br/pos/geo/dis_teses/11/ms/rafael_catao.pdf> .

do serviço entomológico, anos de El Niño/La Niña, fluxos de turistas em de- terminadas épocas do ano, entre muitos outros. acreditamos que na escala geográfica local, e em períodos específicos, esses fatores devem ser analisados com uma ênfase maior, correlacionando-os com os fatores estruturais.

decidimos também não fazer nenhum tipo de tratamento estatístico de correlação entre os determinantes e os casos de dengue. entendemos que essa análise é somente um guia, uma direção, e que a grande heterogeneidade exis- tente no interior dos municípios, e entre os diversos municípios, poderia dis- torcer a análise, consistindo em uma falácia ecológica.

Figura 27 – síntese dos determinantes em escala nacional.

fonte: IBGe, 2000; Ministério dos transportes, 2004; atlas do desenvolvimento Humano, 2000. Base Cartográfica: Malha Municipal de 1997 (Censitaria).

Método de interpolação do Mapa síntese - IdW Pontos são referentes as sedes Municipais. Produzido por Rafael de Castro Carão

a combinação dos determinantes escolhidos se mostrou mais intensa em três regiões metropolitanas da região Nordeste: (fortaleza (Ce), salvador (Ba) e Recife (Pe), e os municípios de Natal (RN), teresina (PI), Ilhéus e feira de santana (Ba), Codó, Caxias e são luís (Ma).

No sudeste, as regiões metropolitanas do Rio de Janeiro e de Vitória (es), e os municípios de Campos dos Goytacazes e Macaé também apresentaram a combinação mais intensa de determinantes. Já na região Norte, a combinação foi mais intensa na região metropolitana de Belém (Pa) e nas cidades de Boa Vista (RR) e Marabá (Pa), bem como em Cuiabá (Mt) e Goiânia (Go) na região Centro-oeste. Na região sul, os maiores índices foram em foz do Igua- çu (PR) e Porto alegre (Rs).

Nesta última região, há continuidade de fatores determinantes menos in- tensos, cobrindo quase toda a extensão da região e se prolongando para o esta- do de são Paulo. Minas Gerais apresenta quatro áreas com intensidades meno- res. a principal é a serra da Mantiqueira, nas divisas com são Paulo e Rio de Janeiro, que alia altitudes mais elevadas, temperaturas médias mais baixas, municípios com populações de menor porte e menor porcentagem de popula- ção urbana. a serra do espinhaço também tem as mesmas características, mas situada em latitudes mais baixas. a Chapada diamantina, na Bahia, e o espi- gão Mestre, na divisa de Goiás, tocantins e Bahia, são também áreas mais ele- vadas com grande proporção de população rural e densidades demográficas baixas, resultando em menor intensidade dos fatores determinantes.

Podemos também analisar esses dados segundo outra metodologia, que nos permite a identificação dos fatores determinantes na escala regional. essa me- todologia é a do transecto, que consiste na sistematização, em forma de painel, dos dados de uma secção ou corte.

elaboramos um painel (figura 29) utilizando alguns municípios do estado de são Paulo com características diversas em relação aos fatores determinan- tes, dispondo os fatores determinantes nas linhas e os municípios selecionados nas colunas. as classes utilizadas para a elaboração do Mapa de determinantes em escala Nacional (figura 27) são as mesmas do transecto. o corte do tran- secto está representado na figura 28.

DENGUE NO BRASIL

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Figura 28 – Corte do transecto.

selecionamos para esse transecto municípios com incidências diferentes de dengue e combinações diferentes de determinantes. Há propositalmente al- guns extremos, como, por exemplo, municípios litorâneos e de “serra”, muni- cípios com populações pequenas como divinolândia até grandes centros me- tropolitanos, como Campinas e são Paulo. o transecto consiste em uma metodologia interessante para este estudo, pois nos permite identificar situa- ções semelhantes em uma área mais restrita e que se modifica gradualmente. Pudemos notar, por exemplo, que embora contenha quase todas as classes mais intensas para os determinantes do dengue, a cidade de são Paulo tem temperatura e altitude desfavoráveis.

Por se tratar de classes definidas em escala nacional a partir do conjunto de municípios brasileiros, os determinantes relativos à cobertura de serviços e à concentração e ao tamanho da população parecem homogêneos, quando toma- dos nessa escala. Por fim, colocamos o acumulado de casos de dengue no perío- do, evidenciando apenas a concentração de casos em poucos municípios, e isso não deve ser tomado como um indicador de correlação, pois não reflete a inci- dência ponderada pela população e através dos anos.

DENGUE NO BRASIL

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Município

Jales Gentil Valentim tanabi Mirassol Preto Preto Ribeirão

s.Cruz da Mococa apiratiba

Jundiaí Caieiras são Paulo Cubatão

icente Fluxo Rodoviário 3 3 3 3 3 3 4 4 2 2 2 3 2 4 4 4 4 3 3 3 Temperatura 3 3 3 3 3 2 2 2 2 2 2 1 2 2 1 2 1 2 2 2 Altitude 3 2 2 2 3 2 2 2 2 2 1 2 2 2 2 1 2 4 4 4 Densidade 3 3 3 3 4 3 4 4 2 3 3 3 3 4 4 4 4 4 4 4 População Total 2 1 2 2 4 3 3 4 1 3 1 1 3 4 4 3 4 3 4 4 População Urbana 4 4 4 4 4 4 4 4 3 4 3 2 4 4 4 4 4 4 4 4 Abas. Água 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 2 2 1 1 1 1 1 1 1 1 Coleta de Lixo 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 2 1 1 1 1 1 1 1 1 Dom.com Banheiro e Esgoto 1 1 1 1 1 1 1 1 2 1 1 2 1 1 1 1 1 2 1 2 Acumulado de casos de dengue 2001 2008

Síntese da situação recente do dengue no território: