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Marcelo Ganzela Martins de Castro, em Marina Colasanti: os arquétipos e interação

leitor-texto (2005), no capítulo II de sua dissertação de mestrado “As construções

arquetípicas”, analisa os dez contos do livro Um espinho de marfim e outras histórias (1999), de Marina Colasanti, com base nas construções arquetípicas pressupostas por Jung.

2.3.1 Nem ele quis uma mulher desautomatizada

O conto “Pra que ninguém a quisesse” trata de um enredo em que o marido enciumado poda a personalidade da mulher, tirando-lhe o direito de arrumar-se, de vestir-se com elegância e de maquiar-se, tornando-a desinteressante diante dos olhos de outros homens. Quando percebe que os homens não olham mais para sua esposa, sente que nem mesmo ele a deseja. Procura reverter o quadro, mas a mulher automatizada pela realidade imposta já não sente mais vontade de estar bonita. Percebemos que, neste conto, Colasanti trabalha dois elementos fundamentais que se opõe: o altruísmo, ou doação, versus o egoísmo. O homem descaracteriza a mulher por ciúmes, não dela, mas de sua beleza física. Desta forma, percebemos que não há relacionamento amoroso, mas apenas um sentimento de posse que faz que uma parte ceda aos caprichos da outra. Ao contrário do conto A moça tecelã, que passa pelo “caminho da individuação”, a personagem aqui descrita, de forma mimética, vai aos poucos perdendo sua “persona” e se automatizando ao ponto de circular pela casa sem vida. De certa forma, existe nesta personagem uma forma de dizer “não” ao seu algoz, permanecer para sempre na forma como ele a deixou, ao invés de ceder ao desejo de vê-la bela

novamente, uma vez que o sentimento que une o marido a ela é meramente superficial, pois ele não deseja conhecê-la enquanto pessoa.

Alguns símbolos são usados na construção da narrativa. Os cabelos são uma representação de força, poder e sensualidade. Ao despojar a mulher de seus longos cabelos, o marido sonega sua força de reação perante a situação a que é exposta. Rapunzel e suas longas tranças e Sansão, cujos cabelos compridos lhe davam força descomunal, são exemplos da importância do cabelo dentro do inconsciente coletivo. As joias representam, entre outras coisas, a anima “junguiana”, ou seja, o conhecimento superior. Uma vez despojada de tudo que a caracterizava como uma mulher vivaz – a esposa torna-se um ser “automatizado”, que já não se reconhece como mulher – ocorre uma morte simbólica, produto da violência sofrida. Esta morte, embora seja simbólica, segundo a pesquisadora, remete à leitura interdiscursiva com a obra Othelo, de William Shakespeare, em que Othelo mata Desdêmona por ciúmes de sua beleza, que lhe impingia um sentimento de inferioridade, pois, além de bonita, a mulher é proveniente de outra classe social, havendo, portanto, uma relação desproporcional. Othelo, como forma de auto afirmar-se, acaba por assassinar a esposa.

2.3.2 Perigo ou prazer? Bela ou fera?

No segundo conto, “Semelhança”, Colasanti utiliza-se de uma leitura dúbia da palavra

pantera. O conto, mesmo possuindo somente três linhas, mescla um jogo de sedução e perigo,

pois a personagem pode ser uma fera ou uma mulher sensual, representada pelo símbolo da pantera, enquanto mulher perigosa, no entanto, Colasanti insere neste mesmo contexto atributos animalescos, pois esta pantera “miava”, ao mesmo tempo que utilizava o termo “apanteirava-se”, como a fera que seduz a presa. O desfecho quebra a expectativa do leitor, pois o clima de sensualidade é rompido quando a pantera ataca ferozmente a vítima. Podemos entender que a fera dentro da narrativa pode representar a beleza sem brilho do materialismo que seduz e cega. O que vemos na sociedade de consumo é um comércio generalizado de pessoas produzidas pela mídia que, de forma dual, seduz pela sua semelhança que externa com a beleza, mas, no fundo, atua como fera que acaba por engolir a verdadeira essência do homem. Se fizermos uma ligeira leitura com a filosofia platônica, poderíamos ver a falsa beleza da fera que distancia de sua verdadeira forma, que, constituída a priori como “ideal”, revela ao mundo dos sentidos apenas como cópia, desprovida, então de sua ancestralidade.

2.3.3 Revisitando o mito da caverna

Em relação ao conto “Hidra”, o pesquisador aponta a intertextualidade do mito de Hidra, que tendo uma cabeça cortada em seu lugar nascem outras duas. O deus Hércules consegue vencê-la ao cortar sua cabeça imortal, cauterizando a ferida em seguida. Percebemos que o conflito se dá entre o homem, símbolo do poder patriarcal, e a televisão que ocupa seu lugar. Ao contrário do mito, em que o herói vence o monstro, no conto o monstro vence o herói, que se multiplica e acaba por vencê-lo, seduzi-lo, mostrando uma falta de dignidade da personagem, que não tem mais força para lutar, mas anda “de cabeça baixa”. A narrativa destrona o herói – o homem já não mais o centro das atenções –, Colasanti cria um ambiente que contrapõe o moderno e o antigo, pois se utiliza tanto da descrição de um ambiente moderno como de elementos do mundo antigo, a exemplo do uso da espada para destruir a televisão. A televisão representa a passividade do ser humano diante da mídia. Este já não consegue sequer imaginar a vida sem esses recursos imagéticos. O homem é vencido pela máquina (televisão), uma vez que esta determina a moda, os costumes, o pensamento político, filosófico, etc. Sendo impotente na luta contra a invasão da “informação”, sua luta se faz inglória, pois os meios de comunicação proliferam de tal modo que não pode discernir a voz que se impõe.

2.3.4 O eterno feminino: a mandala da vida-morte-vida

“No silêncio que o sol queima” apresenta um enredo mágico que alia fatos da vida real com elementos míticos. Colasanti faz uma clara referência ao mito de Gaia, ou Mãe Terra, ao construir uma personagem que possui características divinas. Este ser mítico abriga pardais entre as pernas e os protege, os alimenta, exercendo sua função de mãe, mesmo debaixo do sol quente.

O caráter elementar do Feminino é a tendência a conservar em si o que gerou, portanto, num eterno pertencer e mantê-lo assim próximo. É típico do matriarcado, ou seja, quando o ego e a consciência ainda estiverem indiscriminados do inconsciente, isto é, este é ainda dominante. Ele é a base dos aspectos conservados, estável e imutável do Feminino que é a característica do Maternal. O caráter elementar pode se manifestar de modo positivo (provedor de proteção, calor, alimento) ou negativo (repúdio, privação). (JUNG, 2002, p. 96)

humano, o animal, o vegetal e o mineral, que é representado pelo Sol, que por sua vez representa o masculino, a clareza, a lucidez e o equilíbrio. É o sol que proporciona o estado de “gestação” da Mãe Terra. Esta aninha entre as pernas a vida do pardal que ao anoitecer vai servir de alimento ao gavião. O movimento cíclico que remete a esta perfeição estabelecida pela cadeia alimentar, denota um trabalho com os primeiros arquétipos. Juntos no texto, opõe- se prazer e dor, os princípios de Eros e Thanatos. Enfim o texto caminha para um fim inusitado, o grito do pequeno pardal. Se, de início, tudo remete a proteção da mãe, a vida se alimenta da morte. Esta quebra de expectativa leva ao que Roland Barthes caracteriza como “prazer” e “fruição”. O rompimento com prazer leva o leitor a deparar-se com o outro lado do belo, da vida. A fruição ocorre por meio da transgressão do primeiro momento do texto onde tudo é luz.

No conto “O tigre”, Colasanti trabalha o arquétipo da relação entre o homem e o animal. Este arquétipo representa a “força”, que por sua vez denota domínio do instinto através da “anima”, domínio do nosso lado animal, equilíbrio e também força interior. Dentro da tessitura, o narrador vai mostrando uma relação de desconfiança entre o protagonista e o tigre, desconfiança esta que se atenua à medida que o protagonista vai se aproximando do animal. Ocorre, portanto, uma dupla leitura entre a intimidade ou não do homem com a fera. Do embate dos dois poderá nascer o equilíbrio. Como duas forças que se opõe, uma terá que ser dominada. Há, pois, uma quebra de expectativa quando o tigre ataca o homem, mesmo que haja em todo o corpo do texto uma explicitação de que o tigre não é manso. Ao mesmo tempo, o leitor é levado a uma empatia com o animal. Quando o inesperado acontece e a fera assume sua natureza de fera, o leitor defronta-se com um estágio de transformação repentina, de mudança de comportamento que é caracterizado pelo arquétipo da morte.

2.3.5 O arquétipo da mãe: o Messias feminino

“Maria, Maria” é um intertexto com a vinda do Messias. Dividido em quatro partes distintas, a obra é situada na modernidade. Uma mulher chamada Maria recebe a visita de um anjo, que afirma trazer-lhe um presente. Num misto de sacro e profano, Colasanti apresenta um anjo que desperta sensualidade na protagonista. Ocorre um rompimento na narrativa e Maria aparece grávida, à procura de um apartamento, o que leva o leitor a preencher as lacunas do texto com o que sabe sobre o nascimento de Cristo. Contrapõe-se dados da realidade – ruas, apartamento – com dados que remetem ao ideário cristão. Na terceira parte, Maria está em trabalho de parto. Encontra-se sozinha à espera do “Salvador” que o anjo

mencionara. No entanto, a desautomatização se dá quando nasce uma menina. Percebemos que a pesquisadora se utiliza do “arquétipo da mãe”, não sabemos nada sobre a protagonista apenas que ela está grávida e vai mudar-se. Segundo Jung, são inúmeros os símbolos da transformação que se referem à figura da anima ou mãe, e são três as suas características: a bondade nutritiva e dispensadora de cuidados, a emocionalidade orgiástica e a obscuridade subterrânea. Ainda, segundo sua perspectiva, são inúmeras as representações dadas às mães:

Como todo arquétipo, o materno também possui uma variedade +-incalculável de aspectos. Menciono apenas algumas das formas mais características: a própria mãe e a avó; a madrasta e a sogra; uma mulher qualquer com a qual nos relacionamos, bem como a ama-de-leite ou ama-seca, a antepassada e a mulher branca; no sentido da transferência mais elevada, a deusa, especialmente a mãe de Deus, a Virgem (enquanto mãe rejuvenescida, por exemplo Demeter e Core), Sofia (enquanto mãe que é também a amada, eventualmente também o tipo Cibele- Átis, ou enquanto filha-amada (mãe rejuvenescida); a meta da nostalgia da salvação (Paraíso, Reino de Deus, Jerusalém Celeste); em sentido mais amplo, a Igreja, a Universidade, a cidade ou país, o Céu, a Terra, a floresta, o mar e as águas quietas: a matéria, o mundo subterrâneo e a Lua; em sentido mais restrito, como o lugar do nascimento ou da concepção, a terra arada, o jardim, o rochedo, a gruta, a árvore, a fonte, o poço profundo, a pia batismal, a flor como recipiente (rosa e lótus); como círculo mágico (a mandala como padma) ou como cornucópia; em sentido mais restrito ainda, o útero, qualquer forma oca (por exemplo, a porca do parafuso); a yoni; o forno, o caldeirão; enquanto animal, a vaca, o coelho e qualquer animal útil em geral. (JUNG, 2002, p. 101)

Na última parte do conto, Maria chega ao apartamento. É época de Natal e o berço da menina não chegara. Colasanti constrói um presépio de palavras que levam o leitor mais uma vez a recorrer ao nascimento de Cristo. A protagonista agasalha a menina em um caixa, provavelmente proveniente da mudança, recheada de papéis que remetem a palha da manjedoura, onde, segundo a Bíblia, Jesus foi deitado e vai alimentar o cachorro e o gato. Mais uma vez a construção das imagens remetem ao nascer de Cristo, pois os animais não obedecem ao chamado da protagonista para se alimentarem. Ao chegar na sala, Maria encontra os animais sentados em torno do “berço” da pequena, trazendo à lembrança do leitor a imagem do presépio cristão, onde os animais esquentam o recém-nascido com o hálito quente de suas bocas. Toda a construção do texto remete, conforme é citado, à “desautomatização” do leitor, pois o “Enviado” era do sexo masculino e sua mãe, também Maria, carrega consigo a missão de trazer ao mundo seu Salvador. No conto, nasce uma menina, o que pode levar o leitor a questionar o porquê da representação de Deus sempre por elementos do sexo masculino. Sendo menina, o recém-nascido é amado e bem-vindo, o que contraria a tradição do patriarcalismo em dar preferência aos bebês do sexo masculino. Enfim, todo o texto é uma desconstrução de valores, de ideologias impostas.

3 A PROSA E A POESIA: LINGUAGEM EM AMPLITUDE NA PRODUÇÃO DE