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Appendix 14.11 Comparing distribution for the different socio-economic categories when the

14.12 Commands used in Stata to produce the result – dofile

“Além do Bastidor” é o segundo conto do livro em questão. É uma narrativa com linguagem lírica, onde podemos perceber que o percurso gerativo do sentido vai sendo construído num processo artesanal em que Colasanti descreve a forma como a personagem principal borda um jardim, com riqueza de detalhes até confundir criador e criatura. Quando a irmã vê a menina dentro do bordado, ela o considera de tamanha perfeição que decide bordá- la e incorporá-la à paisagem perfeita que contempla. Percebemos que o texto possui um colorido intenso que surge da cor verde, que caracteriza o começo do processo artístico da protagonista. “O verde brilhante” torna-se grama e, a partir daí, os outros elementos do jardim vão amealhando-se até que o lugar esteja pronto.

Assim, aos poucos, sem risco, um jardim foi aparecendo no bastidor.

Obedecia às suas mãos, obedecia ao seu próprio jeito, e surgia como se no orvalho da noite se fizesse a brotação.

Toda manhã a menina corria para o bastidor, olhava, sorria, e acrescentava mais um pássaro, uma abelha, um grilo escondido atrás de uma haste.

O sol brilhava no bordado da menina. (1976, p. 7)

Ao contrário do conto anterior, a protagonista deste conto não vive em estado contemplativo, mas sim em constante fase de construção, o que é expresso por verbos que indicam transformações de um estágio para outro ou verbos de ação que mostram, por sua vez, a capacidade ativa e criativa da personagem que aos poucos vai construindo sua realidade, o que podemos denotar no trecho: “Obedecia às suas mãos, obedecia ao seu próprio jeito, e surgia como se no orvalho da noite se fizesse a brotação”. Já nos referimos a este conto no capítulo anterior e vale ressaltar que a menina constrói, conforme o mito bíblico da construção do Jardim do Éden, em fases: cada dia surge algo novo em seu bordado, até que

ele esteja pronto e dele desfrute. Esta capacidade de agir e construir é demonstrada no conto por meio de vários verbos, tais como os de ligação, os apassivados e os de ação; no entanto, todos obedecem à vontade da menina que borda: ela comanda o processo de criação, seja por meio de seu desejo ou de sua ação, e mesmo os verbos que são de ligação e que estejam na voz passivas obedecem à voz de comando da personagem central. Os tempos verbais, no pretérito ou no gerúndio, denotam um processo de construção contínuo, o que se assemelha com a passagem da linha que vai construindo o bordado.

As sinestesias geram um clima de beleza que encanta os olhos do leitor por meio da descrição dos elementos do jardim, tais como o vermelho das flores, o verde do capim e o roxo das frutas que aguçam o olhar. O olfato é despertado pelo cheiro do orvalho da manhã que provoca a sensação da vida nascendo por meio da brotação, enquanto brota o texto no papel. Aos poucos, Colasanti vai descrevendo e despertando os sentidos por meio do traçado do desejo da menina, dos sons dos pássaros, do vento que se movimenta nas árvores. A menina age e interage com sua criação, o que desperta-lhe um prazer nunca conhecido, até que desfruta do prazer maior que é o doce da fruta, no qual se lambuza. À medida que o texto evolui, os verbos de ação vão aumentando: a menina corre, pula, sobe, trepa, olha, ri, brinca, deita, como se observa neste trecho:

Foi no dia da árvore. A árvore estava pronta, parecia não faltar nada. Mas a menina sabia que tinha chegado a hora de acrescentar os frutos. Bordou uma fruta roxa, brilhante, como ela mesma nunca tinha visto. E outra, até a árvore ficar carregada, até a árvore ficar rica, e sua boca se encher do desejo daquela fruta nunca provada. (1976, p. 8)

O jardim é seu e nele se imortaliza. Colasanti alinhava todos os pontos do texto ao mesmo tempo em que a ficção concede vida ao jardim, até que criador e criatura se entrelaçam a tal ponto que é chegada a hora de cortar o fio do bordado e colocar um ponto final na narrativa.

O bordado já estava quase pronto. Pouco pano se via entre os fios coloridos. Breve, estaria terminado. Faltava uma garça, pensou ela. E escolheu uma meada branca matizada de rosa. Teceu seus pontos com cuidado, sabendo, enquanto lançava a agulha, como seriam macias as penas e doce o bico. Depois desceu ao encontro da nova amiga. Foi assim, de pé ao lado da garça, acariciando-lhe o pescoço, que a irmã mais velha a viu ao debruçar-se sobre o bastidor. Era só o que não estava bordado. E o risco era tão bonito, que a irmã pegou a agulha, a cesta de linhas, e começou a bordar.

Bordou os cabelos, e o vento não mexeu mais neles. Bordou a saia, e as pregas se fixaram. Bordou as mãos, para sempre paradas no pescoço da garça. Quis bordar os pés, mas estavam escondidos pela grama. Quis bordar o rosto, mas estava escondido pela sombra. Então bordou a fita dos cabelos, arrematou o ponto, e com muito

cuidado cortou a linha. (1976, p. 8-9)

3.1.3 “ Um espinho de marfim”: sete luas para a sublimação do amor

“Um espinho de marfim” narra a história de amor entre uma princesa e o unicórnio. A marca desta produção é a impossibilidade amorosa, um dos temas mais relevantes dentro da produção colasantiana. O eixo sintagmático vai sendo construindo à medida que se intensifica a dualidade entre a liberdade versus a imposição. O texto trabalha os aspectos duais que distinguem o amor passional e livre entre a princesa e o unicórnio e o sentimento de posse expresso pela opressão do pai da princesa, que deseja ter o animal contra a sua vontade. Tal como no conto “Entre as folhas do verde O”, a temática se estabelece entre o envolvimento amoroso de um ser mítico, que de vontade própria se entrega ao ser que ama. Percebemos que o jogo entre os elementos claro e escuro permeiam toda a narrativa, sendo o claro – o dia, o sol nascente – indícios da predominância da vontade da princesa e seu contato com o unicórnio. ao passo que o escuro – a noite, o sol morrente ou poente – estão ligados à figura opressora do rei que impõe seu desejo. Por meio de elementos que expressam a claridade desde o início da narrativa percebemos que o símbolo “Sol” é usado para construir a ideia de objetividade, assertividade e equilíbrio que une o casal. Por meio do uso das vogais nasalizadas e das sibilantes, consoantes que possuem o fonema /s/, Colasanti confere musicalidade ao conto. Observamos no excerto que segue que a escritora utiliza-se várias vezes das sibilantes, a citar: amanhecia, sol, estava, pastando, princesa, flores, depois, esperava, escadaria descendo, escuro, e floresta

Amanhecia o sol e lá estava o unicórnio pastando no jardim da princesa. Por entre flores olhava a janela do quarto onde ela vinha cumprimentar o dia. Depois esperava vê-la no balcão, e quando o pezinho pequeno pisava no primeiro degrau da escadaria descendo ao jardim, fugia o unicórnio para o escuro da floresta (1976, p.14).

Outro aspecto que observamos ainda neste excerto é o uso da aliteração, com o som repetido da letra p que sugere a descida da princesa, mesmo que de forma inconsciente, ao universo do unicórnio que já a amava, mas escondia-se no escuro da floresta. A forma como Colasanti utiliza-se do nível sintático dos vocábulos exprime a primeira aproximação entre a princesa e o animal, como vemos nesta citação: “e quando o pezinho pequeno pisava o primeiro degrau da escadaria”. A própria organização sintática e sua função dentro do texto remetem ao movimento da descida suave da princesa, que possui pés pequenos que pisam o primeiro degrau. Sorrateiro o unicórnio se esconde na floresta. O branco, a claridade, está

ligado à figura do ser mitológico que se escondia debaixo de moita de lírios. No entanto, a princesa terá que cumprir seu ritual iniciático: a perda do primeiro amor e da ingenuidade. O pai deseja de forma egoísta o animal e a filha promete dá-lo de presente ao pai no prazo de três luas, ou seja, vinte e um dias, que corresponde ao ciclo menstrual da mulher. “E como um estar-se preso por vontade”, a princesa confecciona uma armadilha com seus cabelos e o unicórnio se vê agora prisioneiro por vontade.

E logo ao chegar foi ao quarto da filha contar o acontecido. A princesa, penalizada com a derrota do pai, prometeu que dentro de três luas lhe daria o unicórnio de presente. Durante três noites trançou com os fios de seus cabelos uma rede de ouro. De manhã vigiava a moita de lírios do jardim. E no nascer do quarto dia, quando o sol encheu com a primeira luz os cálices brancos, ela lançou a rede aprisionando o unicórnio. Preso nas malhas de ouro, olhava o unicórnio aquela que mais amava, agora sua dona, e que dele nada sabia. A princesa aproximou-se. Que animal era aquele de olhos tão mansos retido pela artimanha de suas tranças? Veludo de pelo, lacre dos cascos, e desabrochando no meio da testa, espinho e marfim, o chifre único que apontava ao céu. Doce língua de unicórnio lambeu a mão que o retinha. A princesa estremeceu, afrouxou os laços da rede, o unicórnio ergueu-se nas patas finas. (1976, p. 14)

O unicórnio é usado no processo de construção do conto, também como símbolo da mulher, dispondo de um chifre em espiral, representa “a união e a força”. Denotamos que o amor que enlaça os dois seres é constituído de desejo, pureza e beleza, mas a princesa teria que enfrentar a dor; a entrega do unicórnio ao pai, que o desejava por capricho. O tempo é simbólico e indeterminado apesar da dimensão das três luas, símbolo do feminino marcado pelas suas constantes mutações. A princesa e o unicórnio viveram de forma sublime o amor que os ligava, mas terminado o prazo, que é marcado pela indeterminação, Colasanti utiliza-se do “sol morrente” índice do escuro, que está, como afirmamos, ligado à relação entre o desejo egoísta do pai e o animal. As palavras selecionadas e combinadas para estabelecer a função poética são, então, ligadas ao branco do dia nascente, à moita de lírios em que o animal se escondia e deles se alimentava, a “o passar do tempo”, que a escritora denomina de “maré das horas”.

Doce língua de unicórnio lambeu a mão que o retinha. A princesa estremeceu, afrouxou os laços da rede, o unicórnio ergueu-se nas patas finas.

Quanto tempo demorou a princesa para conhecer o unicórnio?

Quantos dias foram preciso para amá-lo? Na maré das horas banhavam-se de orvalho, corriam com as borboletas, cavalgavam abraçados. Ou apenas conversavam em silêncio de amor, ela na grama, ele deitado a seus pés, esquecidos do prazo. (1976, p. 15)

que remete à claridade, à suavidade e à paz que marcavam o relacionamento entre os amantes. Também percebemos vocábulos que indicam a vida tais como “borboleta” e “orvalho". Ainda ocorre uma seleção de palavras que apontam para a movimentação, para a vida em êxtase, agora vivenciada pelo casal que se entrega de forma total, esquecidos do prazo, mas o prazo se extingue é a hora da separação chega.

Amanhã é o dia. Quero sua palavra cumprida – disse o rei –, virei buscar o unicórnio ao cair do sol. Saído o rei, as lágrimas da princesa deslizaram no pelo do unicórnio. Era preciso obedecer ao pai, era preciso manter a promessa. Salvar o amor era preciso.

Sem saber o que fazer, a princesa pegou o alaúde e a noite inteira cantou sua tristeza. A lua apagou-se. O sol mais uma vez encheu de luz as corolas. E como no primeiro dia em que se haviam encontrado a princesa aproximou-se do unicórnio. E como no segundo dia olhou-o procurando o fundo de seus olhos. E como no terceiro dia segurou-lhe a cabeça com as mãos. E nesse último dia aproximou a cabeça do seu peito, com suave força, com força de amor empurrando, cravando o espinho de marfim no coração, enfim florido.

Quando o rei veio em cobrança de promessa, foi isso que o sol morrente lhe entregou, a rosa de sangue e um feixe de lírios. (1999, p. 39)

No excerto acima, ao contrário do que apontávamos até agora, ocorre a predominância da vontade do pai, que embora egoísta procura impor-se, levando consigo o animal. É durante a noite que a princesa chora a distância entre o unicórnio. É no escuro que o pai aguarda pelo havia lhe prometido a filha. O desfecho se dá com a morte da princesa que acaba por penetrar o seu próprio peito com o chifre do unicórnio, elemento que representa o “fálico”. O vermelho do sangue metaforiza a iniciação sexual da jovem. O ato da defloração representado pela penetração do chifre do animal no peito ensanguentado soma-se ao branco dos lírios que são apresentados desde o começo do texto, ou seja, o texto vai se estabelecendo sobre o paradoxo do claro escuro, do branco e do preto. O animal se escondia na moita de lírios e deles se alimentava. A planta, enquanto símbolo de pureza, mistura-se ao vermelho, dando origem ao rosa, elemento representativo do amor. Era esta a decisão da jovem quando o pai veio em cobrança de promessa, pois “salvar o amor era preciso”.

3.1.4 “Entre as folhas do verde O”: o encontro consigo mesma

“Entre as folhas verdes O” também recupera os elementos medievais, o príncipe, o castelo, os vassalos, etc. Durante toda a construção da narrativa, uma palavra “impera” sobre todas as outras: a “voz”. A voz do homem é predominante em quase todo o conto. O príncipe saiu para caçar e isto podia ser algo comum, no entanto sua saída era sempre marcada pelo

feito grandioso, o príncipe é que iria caçar, e o texto mostra a visão androcêntrica que se impõe forte, pois todos têm medo do “poder” daquele homem, as pessoas o respeitam, a ele são submissas e os animais se refugiam com medo de serem capturados. Somente a mulher- corça – metade mulher, metade corça – não fugiu ouvindo o alarido dos cães, sinal que era dia de caçada. O texto vai se estruturando com base na ambiguidade de desejos. A corça se deixou capturar, sua metade mulher era nesse momento mais forte. O príncipe amou sua metade mulher, mas desejou matar a corça. Dentro do nível lexical, percebemos que os verbos que estão ligados ao homem expressam poder e domínio sobre todas as coisas. Por outro lado, a corça é um dos animais mais ágeis que existem, entretanto, permaneceu imóvel, como se desejasse ser capturada, e quando o príncipe lança mãos de seu poder, seu lado supostamente indefeso dá vazão à função do homem enquanto predador.

Só a moça não se escondeu. Acordou com o som da trompa, e estava debruçada no regato quando os caçadores chegaram. Foi assim que o príncipe a viu. Metade mulher, metade corça, bebendo no regato. A mulher tão linda. A corça tão ágil. A mulher ele queria amar, a corça ele queria matar.

Se chegasse perto será que ela fugia? Mexeu num galho, ela levantou a cabeça ouvindo. Então o príncipe botou a flecha no arco, retesou a corda, atirou bem na pata direita. E quando a corça-mulher dobrou os joelhos tentando arrancar a flecha, ele correu e a segurou, chamando homens e cães. (1979, p. 21)

Percebemos que Colasanti, neste momento da narrativa, apresenta o príncipe caçador como ser atuante, dominante: é ele quem decide e comanda as ações, ainda que de forma arbitrária, pois seu poder é superiormente desigual ao da caça, além de possuir todos os aparatos para captura-la ainda contar com a ajuda de outros homens e cães. Destarte, o uso dos verbos querer, mexer, flechar, retesar, atirar, correr e segurar concedem o domínio ao poder falocêntrico. A voz que se ouve, a que determina o destino da mulher corça, é a voz do príncipe, embora haja uma sugestão bastante paradoxal de que, tal como o unicórnio do conto já citado, “Um espinho de marfim”, a mulher também se entrega por vontade própria ao algoz.

Conduzida ao castelo, como em tantas outras referências dentro ou não das obras de Marina Colasanti, a corça mulher é isolada do convício social, cabendo a outrem a decisão sobre seu destino. Fato notável é que a mulher-corça é um ser dúbio, que está à procura de seu próprio eu e que, por isto, se divide em caça e caçadora ao mesmo tempo. Longe de seu

habitat natural, sua voz é definitivamente suprimida, portanto a comunicação entre ela e o

amado se ambienta apenas no campo da sugestão, da imaginação. Salienta-se que não há de nenhuma das partes uma renúncia de seu próprio eu para que a aquela união se tornasse

viável. Ambos se amavam, mas não podiam expressar em palavras seus sentimentos. Ele desejava que ela se tornasse somente mulher, ela desejasse que ele tivesse pelagem de corça. Em decorrência da inexpressividade da mulher e do domínio da voz por parte do príncipe, ao vê-la chorar entende aquela lágrima como o desejo de se tornar somente mulher, não mais corça. Então, impõe por meio de seus recursos que ela seja transformada em mulher somente, subtraindo-lhe seu instinto natural, que era marcado pela dubiedade entre ser mulher e ser corça.

Ele queria dizer que a amava tanto, que queria casar com ela e tê-la para sempre no castelo, que a cobriria de roupas e joias, que chamaria o melhor feiticeiro do reino para fazê-la virar toda mulher.

Ela queria dizer que o amava tanto, que queria casar com ele e leva-lo para a floresta, que lhe ensinaria a gostar dos pássaros e das flores e que pediria à Rainha das Corças para dar-lhe quatro patas ágeis e um belo pelo castanho.

Mas o príncipe tinha a chave da porta. E ela não tinha o segredo da palavra.

Todos os dias se encontravam. Agora se seguravam as mãos. E no dia em que a primeira lágrima rolou dos olhos dela, o príncipe pensou ter entendido e mandou chamar o feiticeiro. (1979, p. 22)

6Salientamos que a situação em que os amantes se encontram expressam a voz mandatária por uma parte e a desvantagem do silêncio por outra: ele “tinha a chave da porta” e ela “não tinha o segredo da palavra”, o que a deixa em situação de desigualdade, ou seja, o agrupamento semântico condensa a relação de opressão em que ela se encontra trancada, pois a ela é sonegada o segredo da chave em contraposição ao domínio que é imputado a ele, pois possui, além do segredo da chave, o “poder” da palavra. Denotamos que Colasanti utiliza-se destas ambiguidades para ir construindo o percurso gerativo do sentido. Notamos que a situação inicial da mulher corça altera-se quando, à força, ela é transformada em mulher. Aos poucos, ela se descaracteriza, pois passa a se vestir como princesa, aprende a andar, enfim, assume, mesmo contra sua vontade, um papel agora restritivo: era mulher conforme a vontade dele, no entanto, a própria capacidade de caminhar proporciona-lhe a fuga. Neste momento, Colasanti rompe com o que o leitor espera do texto: que ela, transformada em princesa, se case e “seja feliz para sempre”.

Sete dias ela levou para aprender sete passos. E na manhã do oitavo dia, quando acordou e viu a porta aberta, juntou sete passos e mais sete, atravessou o corredor, desceu a escada, cruzou o pátio e correu para a floresta à procura de sua Rainha. O sol ainda brilhava quando a corça saiu da floresta, só corça, não mais mulher. E se pôs a pastar sob as janelas do palácio. (1979, p. 22)

6 Importa, mais uma vez, esclarecer que as apreciações apresentadas no que se refere à análise dos contos foram produtos de minhas leituras.

Denotamos que o símbolo representado pelo número “sete” representa uma indefinição no tempo que esta mulher levou para aprender a pensar e agir de acordo com sua própria vontade, pois o número sete representa o número da completude, do infinito, o tempo necessário para que algo esteja perfeitamente a cabo. Caminhou ela sete passos mais sete, até que vai ao encontro de sua Rainha e torna-se corça somente por vontade própria, não mais se submeteria à vontade dele. Ressaltamos que embora haja uma inversão no papel desta mulher que se entrega ao amor por vontade própria e se machuca por não se adaptar a uma realidade