As considerações que faço a seguir tratam de uma trajetória individual que merece um relato e análise à parte. Diferente dos demais jovens pesquisados, que reúnem em suas trajetórias, experiências ou situações em que a violência aparece como algo presente no cotidiano, o jovem que chamo de Rodrigo, além de ter vivenciado tais experiências, incorreu em atividades criminosas.
Rodrigo tem 22 anos e atua como traficante em dos bairros da periferia da cidade, o Shopp Park; ou melhor, conforme sua própria definição, atua como “comerciante”. Embora guarde uma incomoda singularidade em relação aos demais entrevistados dessa pesquisa, Rodrigo se assemelha a muitos dos jovens dos grandes centros urbanos brasileiros, em especial aqueles que se envolvem com o tráfico de drogas. A história de Rodrigo começa no interior de São Paulo, quando na adolescência após fazer vários “bicos”, trabalhar na pastelaria e na feira com os pais se envolve, por causa do irmão, em uma briga ou “treta” como chama, com um dos bandidos de sua cidade. Daí se viu obrigado a deixar a cidade e se mudar para Uberlândia, há cinco anos. O jovem, de acordo com suas narrativas, tem uma relação tensa com os pais. Sua mãe chama de “vagabunda”, pois “chifra” seu pai e não quer saber de trabalhar. Seu, pai um “bêbado”, que “vivia espancando todo mundo em casa”. Embora já conhecesse como funciona o “sistema” em São Paulo, nunca se envolveu diretamente com o tráfico. Em Uberlândia conheceu uns “trutas”, pessoas que considera amigos e aí se envolveu “para valer” com o tráfico local.
Esse jovem traficante, não muito disposto a revelar detalhes de sua trajetória anterior a sua chegada em Uberlândia, se mostrou extremamente desconfiado ao longo da entrevista. Rodrigo, um jovem, negro, que gosta de usar boné, bermudões folgados,
correntes no pescoço e no pulso esquerdo apresentou um ar de tristeza em seu semblante, embora sua fala transmitisse um sentimento de ódio e revolta que intimida até o entrevistador. Não conversa ou mantém mais contato com seus pais, porque eles “não aceita sua vida do jeito que ela é”. Não pretendo aqui, fazer uma biografia, traçar um perfil detalhado desse jovem, mas tentar compreendê-lo a partir de suas representações. Seu ethos machista, está presente em afirmações do tipo, “...não confio em mulher nenhuma, elas são
traiçoeiras... Por isso não confio em mulher nenhuma...”
Rodrigo não considera a vida de traficante uma vida muito tranqüila, não há muitas experiências positivas para contar. Segundo ele,
“...a gente só tem experiência ruim, entendeu ? A gente de repente está andando ali com um monte de chegado, aí de repente chega a policia ou então um cara que é seu considerado, truta ali te traiu, te entregou para alguém ali, entendeu ? No máximo a gente sai pra dar uns rolé e só...”
Constitui-se uma existência cheia de riscos, sempre se deve suspeitar até de seus parceiros no “comércio”. Rodrigo também não vê muitas perspectivas para seu futuro. Porém, reconhece que tem alguns “desejos de consumo” que gostaria de realizar: possuir uma moto, um “carrão” e até uma casa. Mas, curiosamente bate uma espécie de “dor na consciência” por causa da origem do dinheiro que poderia realizar tais “sonhos”:
“...Pô, o cara quando tá envolvido na vida errada, sempre sonha alto, entendeu ? Quer
ter uma casa, um carro, uma moto ali, ele quer ter sua independência, entendeu ? Só que de uma maneira errada, porque todo mundo sabe que o dinheiro que vem do crime é um dinheiro vazio, quanto mais você tem, mais você gasta. E de repente você ta com muita grana ali e amanhã você já não tem mais nada, entendeu ? Então não adianta o cara sonhar muito alto não, porque na chega muito alto nessa vida não...”
O jovem traficante ainda tem uma perspectiva bastante crítica de sua atividade comercial. Segundo ele, as drogas acabam com a vida das pessoas, “destroem famílias” e é
o caminho “mais curto para o cemitério”. É perceptível sua insatisfação e angústia com relação a sua “profissão”. Todavia, não vê mais condições de sair. A escola, segundo ele, não “serve mais”, embora reconheça sua importância. Segundo ele, “...a escola é o
alicerce, né, se você quer conseguir alguma coisa estuda muito... Mas se for para ser bandido, não mexe com estudo não... Tá perdendo seu tempo...”
Segundo Rodrigo, a solução para resolver o problema seria um consenso universal no combate às drogas. Embora, reconheça que caso isso ocorra ele pode perder “seu ganha pão”, ele aponta tal medida como principal no combate á violência. O jovem traficante ainda se revela com uma “pessoa religiosa” e coloca “Deus” como principal ente que admira. Por quê ?!
“...Pô se fosse, se coloca no meu lugar. Você acha que qualquer coisa que você fizer, se acha que Deus guardaria rancor de você na hora de te julgar, na hora de fazer alguma coisa para você ? Deus não tá interessado nas coisas que você fez no passado, entendeu !? Na vida que você leva, se você pedir a Deus ali, e Deus estiver olhando por você, ele faz por você, se você fizer por merecer também. Eu acho que ninguém aqui nessa terra faz o que ele faz pela gente, não ! ...”
A ‘história’de Rodrigo, pareceu sugestiva pois, como afirmei anteriormente, apesar de sua singularidade, tem muito em comum com trajetórias de alguns dos jovens entrevistados, alem de comportar traços, aspectos e elementos que são constitutivos do sistema de representações dos jovens de Uberlândia. Sistema este cujas categorias mais presentes nos depoimentos dos entrevistados poderiam ser assim listadas: policia, justiça, escola, consumo, drogas, crime, laser, agressividade, desigualdade social, roubos, renda morte, sobrevivência ( simbólica, senão física ), em uma ordem aleatória, sem um propósito hierarquizador, visto que não foi objeto da dissertação definir tal ordem de importância. A multiplicidade de sentidos produzidos pelos jovens de Uberlândia permitiria outros tantos trabalhos científicos com perspectivas asa mais diversas. A juventude de Uberlândia, apesar da sua pronunciada heterogeneidade cultural, social demonstra que o fenômeno da violência fez e faz parte de sua existência, sendo demarcador de lembranças
amargas, inscritas nas personalidades dos jovens entrevistados. A complexidade de suas trajetórias e de suas representações não se esgota no espaço dessa dissertação, ao contrário, apenas começa.
Após ter exposto as dimensões e aspectos das representações sociais dos jovens de Uberlândia, bem como o esforço interpretativo e analítico dessas construções simbólicas, no presente capítulo, penso ser pertinente fazer algumas considerações fundamentais acerca dos objetivos e hipóteses que orientaram essa dissertação.
Acredito ter cumprido os objetivos postos na parte introdutória dessa dissertação. Busquei a partir das significações construídas, bem como das experiências e vivências retratadas em várias das narrativas dos entrevistados, compreender como estes constroem suas representações sociais da violência. Assim, temas como o consumo, espaços de lazer, renda, juntamente com os demais, listados no parágrafo anterior, contribuem para a construção e comprensão que os jovens pesquisados possuem sobre a violência. E estas representações apontam para uma rica e complexa definição do fenômeno da violência, orientada por experiências incorporadas a sua personalidade, ao seu “modo de ser” e de se expressar. Alem disto, esta pesquisa captou algumas nuances nas representações construídas sobre a violência, determinadas pela posição social diferenciada desses jovens na estrutura de relações de poder simbólico e material.
Por um lado, percebeu-se que os jovens de posição social marginalizada, ao construírem suas representações sobre violência, fornecem simbolicamente uma maior “riqueza” de elementos que comporiam suas representações. As situações de preconceito, que vivenciaram, a discriminação pelo fato de serem negros, da “periferia”, por exemplo, interferem em sua forma de construir sentidos para a violência. Já os jovens de melhor posição social se reportam mais, em suas representações, à modalidade criminal do fenômeno da violência. Falam de roubos, de agressões físicas como principais manifestações da violência e da desigualdade social como principal fator causador da violência.
Coincidem os jovens, na percepção que têm da cidade, como violenta, na polícia como protagonista de “excessos” no seu trabalho, mas se diferenciam quando tratam do fenômeno da violência em si, de seus espaços de ocorrência e, como já mencionado, nas
experiências individuais, ditadas pela sua posição social. A seguir faço algumas considerações finais acerca da pesquisa e dos seus resultados.