5.2 Research question 2: What existing information security practices are
5.2.2 Including security in the development process
Tomar as representações sociais da juventude de uma cidade de porte médio, como Uberlândia, para se estudar a violência se revelou uma experiência enriquecedora e que pode trazer contribuições valiosíssimas para a compreensão do fenômeno, que ainda tem espaço para múltiplas abordagens. O fenômeno da violência aparece, na sociedade brasileira, como um dos seus principais flagelos. Inspira medo, sofrimento, altera comportamentos, modifica o traçado e as formas de construção de edificações urbanas, entre outras conseqüências, profundamente negativas para a vida em sociedade. A impressão que se tem é que, passadas duas décadas e meia, aproximadamente, desde o fim do regime de exceção, a sociedade civil brasileira ainda não encontrou seu caminho. Os agentes públicos ainda agem com improviso, amadorismo, além de atualizarem práticas, típicas de um contexto rural, como o clientelismo e o autoritarismo. Não há por exemplo, casos bem sucedidos, de longa data, de políticas públicas de segurança que trouxeram uma maior pacificação social, com honrosas exceções de algumas poucas cidades.
As Ciências Sociais, além das demais Ciências Humanas, não têm faltado em dar “respostas” ao difuso sentimento de perplexidade que atravessa a sociedade brasileira. Não faltam estudos e análises bem fundamentadas, rigorosas sobre o fenômeno. O campo de estudos da violência nas “ciências da cultura”, está marcado pela pluralidade e diversidade de abordagens, objetos, enfoques. Os cientistas sociais brasileiros forneceram nas últimas décadas, um “arsenal” teórico-interpretativo de grande alcance e que poderia de forma singular, auxiliar na elaboração de políticas públicas de segurança. Talvez a juventude represente um segmento sócio-cultural que necessita com uma certa celeridade de políticas ou ações voltadas a atender suas demandas.
Com relação aos resultados da pesquisa e também às duas hipóteses levantadas, penso que estas foram confirmadas. Conforme apontei em vários momentos no capítulo anterior, entendo que as representações sociais que os jovens constroem sobre a violência guardam uma relação estreita com suas trajetórias individuais, fruto de sua posição diferenciada na estrutura de relações de poder material e simbólico. As experiências diferenciadas, por exemplo, entre jovens de melhor posição social e seus pares de posição marginalizada, apontam para uma maior “riqueza” ou complexidade das representações e
situações sociais em que o fenômeno da violência se manifesta. Com relação à segunda hipótese, pude perceber, a partir da pesquisa empírica, que foram várias as manifestações de uma forma de sociabilidade violenta, tanto tendo os jovens pesquisados como protagonistas como vítimas. E aí novamente, percebo uma certa nuance quando se trata dos jovens de posição social marginalizada, que através de suas representações, esboçam narrativas de situações em que tal forma de sociabilidade ganha predominância.
Um dos principais objetivos dessa dissertação foi chamar a atenção para a importância da interface entre violência e juventude como objeto de estudo. Tomar a juventude como objeto, como ponto de partida para se estudar o fenômeno da violência, a partir de suas representações sociais, pode abrir para as Ciências Sociais novos sentidos, novos significados, talvez ainda sub investigados. Como já apontei em vários momentos na dissertação, o segmento sócio-cultural da juventude constitui-se num objeto de pesquisa estratégico para se perceber a singularidade de determinado fenômeno, em especial o da violência. Pois representa um segmento social que é extremamente sensível às mudanças e metamorfoses pelas quais passa uma dada formação social. Neste sentido as Ciências Sociais têm na juventude um amplo campo para continuar sendo investigado, inclusive, aprofundando o diálogo e contato com outras áreas do conhecimento ou outras disciplinas acadêmicas. A interface entre juventude e violência pode ainda render muitos frutos. Citaria como exemplo, a investigação da emergência do fenômeno que Machado da Silva (1995; 2004; 2005) chamou de sociabilidade violenta, o qual comportaria vários estudos que envolvessem, além das representações sociais, também as práticas, que podem vir a se revelar constitutivas de tais representações.
Talvez um outro desafio importante para as Ciências Sociais, enquanto agenda de pesquisa para um futuro próximo, seja, em relação ao campo teórico, analítico e interpretativo, no sentido de buscar a formulação de uma teoria da violência que englobe a idéia de fragmentação cultural e sociabilidade violenta, que se adapte a variados contextos empíricos. Uma teoria que consiga apreender, no mesmo movimento, a mutação ou a crise pelas quais as instituições sociais tradicionais como a família, a religião, o próprio Estado- nação, por exemplo, vêm passando nas últimas quatro décadas, com a emergência e a vigência de formas de conflitualidade que envolvem vetores como o da construção da identidade social.
Penso que uma das contribuições importantes dessa dissertação é apontar para a necessidade de se valorizar e atentar para o papel e a dimensão que as múltiplas formas de inserção social dos jovens assumem para a elaboração de suas representações sociais. A pesquisa mostrou que, tomar de forma unilateral, variáveis como renda ou idade por exemplo, se revelaram como extremamente empobrecedoras ou simplificadoras para se compreender as representações dos jovens de Uberlândia. Assim, foi fundamental levar em conta o que chamei de trajetórias existenciais. Neste contexto, as representações revelaram- se mais ligadas às experiências na família, no bairro, na escola ou faculdade, nas suas relações sociais, do que à faixa etária ou a renda, por si só. Renda e idade são importantes sim, porém conjugadas ou entrelaçadas a outros aspectos. As representações sociais e as narrativas contidas nelas mostraram isso.
Uma outra conclusão que, em minha avaliação, merece destaque, é aquela que aponta para a adesão que chamaria “pragmática” dos jovens pesquisados para as regras de convívio social e que excluem a violência como prática aceitável de resolução de conflitos ou auto-afirmação. Como já apontei, os jovens reprovam tal prática, porém reconhecem que em determinadas situações, tais regras de convívio ficam suspensas e o uso da força se justifica. Principalmente, nas situações que envolvem uma carga emocional ou afetiva acentuada (traição, determinadas práticas criminosas).
A cidade de Uberlândia vem passando por um crescimento descontrolado nos últimos vinte e cinco anos. Faz parte de mesorregião do Triangulo Mineiro e Alto Paranaíba. Por um lado, atraiu para si, nas representações dos mineiros (mas não só destes), a imagem de uma região rica, próspera, cheia de oportunidades. Por outro, conforme apontaram os dados (CEPES, 2001; 2005), mais de dez por cento de sua população vive na linha de pobreza. Junto com a urbanização descontrolada vieram também os problemas, que se agravaram nos últimos anos. A cidade hoje, ostenta o incomodo título de terceira cidade mais violenta do estado de Minas Gerais. E lá se vão pelo menos, oito anos com esse título. Embora tenha um número baixo de homicídios, conforme aponta a Fundação João Pinheiro (2000; 2004; 2006), a representação social, ao que tudo indica, agora hegemônica, de uma cidade violenta já trouxe reflexos sobre seu traçado urbanístico. Já começam a proliferar construções de condomínios horizontais, devidamente segregados do resto da cidade. por muros, câmeras, vigias.
Entre os jovens pesquisados nessa dissertação, uma parte significativa revelou ter mudado de bairro ou modificado seu próprio comportamento devido a experiências vivenciadas pelos seus pais ou por eles mesmos, envolvendo violência. Segundo projeções feitas pelo CESPE (2005) a partir de dados do IBGE (censo 2000), a cidade alcançará um milhão de habitantes em 2020, daqui a treze anos. Portanto, a cidade possui desafios enormes, se não quiser se tornar um “Iraque”, conforme declarou um dos jovens pesquisados. Destaco ainda que, emergem nas representações sociais dos jovens pesquisados, padrões ou formas de comportamento que se enquadram na noção que Machado da Silva (1995; 2004) chama de sociabilidade violenta. Tal noção, nas representações dos jovens, expressa o que chamaria de adesão parcial ou condicional aos princípios de resolução pacífica e dialógica de situações de tensão ou conflito. Em outras palavras, emerge, como mostraram as representações sociais, uma “outra” lógica valorativa e orientadora de condutas em que “força”, sentimentos de ódio, intolerância compõe o
corpus siginificativo.
Exageros à parte, o fato é que a cidade se destaca no conjunto dos municípios mineiros, como um dos corredores de droga mais importantes (Fundação João Pinheiro, 2000), devido à sua localização estratégica. Aliás, sua dinâmica criminal já começa a ser afetada pela vendas e consumo de entorpecentes, segundo a fonte citada. Em pesquisa anterior (2001), constatei , a partir das representações de vários membros do Poder Judiciário e do Ministério Público do município (juizes e promotores), a precariedade do Sistema de Justiça Criminal da cidade. O município possui número de Varas criminais insuficientes, o número de policiais por habitante é inferior ao número recomendado pela ONU e o processo de racionalização e armazenamento através de programas modernos de informática, dos dados da criminalidade violenta, através de geo-processamento é fenômeno recente.
Por fim, espero que essa dissertação possa contribuir de algum modo para a melhor compreensão dos conteúdos valorativos, subjetivos que os jovens portam e que usam na orientação de suas condutas. Penso que, já é hora de os cientistas sociais brasileiros também voltarem seu foco para os contextos urbanos de médio porte, que começaram já há algum tempo a experimentar contradições e problemas que as grandes metrópoles nacionais já experimentam há décadas. A violência é um deles.