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Entre os jovens pesquisados, a diferença nas representações sociais se verificou sobretudo nas categorias utilizadas para definir outros grupos ou indivíduos ou mesmo situações. Por parte dos jovens da periferia por exemplo, tornou-se constante o uso das categorias “playboy” ou “safado”. O primeiro se refere ao conjunto de jovens que, por possuírem maior acesso a determinados bens ou espaços, se exibem ou agem com alguma arrogância quando se aproximam ou cruzam com jovens que não possuem esses recursos simbólicos e materiais. Quase sempre o tom é de rancor, rejeição e ás vezes, até ódio. A figura ou a representação do jovem “playboy”, significa ou expressa a representação ou imagem de um “outro” possível ou alternativo com o qual os jovens da periferia se defrontam freqüentemente no seu cotidiano, mas que não adotam como modelo ou exemplo

a ser imitado, copiado. Não nego aqui, que os jovens da periferia objetivem ou tenham como anseio possuir boa parte dos recursos materiais ou simbólicos que a posição do “jovem playboy” dá acesso. Mas, que a posse desses recursos viria acompanhada de uma nova coloração “ética”, “moral”. Ao serem questionados, por exemplo, sobre o shopping centers, como espaço de lazer e interação entre pessoas, declarações como,

“...gosto do shopping, mas o problema é que lá tem muito playboy. Aí eu não vou...Acho

que falta para essas pessoas um pouco mais de humildade...” (entrevistada, 16 anos). tornaram-se comuns.

Já o “safado” é aquele tipo social que engana, mente e trai a confiança de alguém. Esse, além de sofrer uma incisiva rejeição por parte dos jovens da periferia, pode inclusive ser alvo de práticas violentas ‘plenamente justificadas’ pelo seu comportamento “desviante” em relação aos valores de honestidade e humildade, tão valorizados pelos jovens pesquisados, independente de sua inserção ou posição social. Ser portador desses valores funciona como uma espécie de “salvo conduto” para merecer o respeito e até admiração dos jovens uberlandenses.

Mas, e o termo “periferia”, como é representado? De imediato, constata-se que os jovens que residem em bairros mais afastados do centro da cidade não consideram os mesmos como bairros de periferia. Independente das discussões acadêmicas que se possa estabelecer sobre a pertinência ou não do termo, o que as representações sociais mostram é que o termo periferia para os jovens que residem nesses bairros, é um termo que não retrata somente a carência de serviços, infra-estrutura básica. Mas, está carregado de uma série de adjetivos e predicados negativos, depreciativos em relação aos seus moradores. Conforme a declaração de um dos entrevistados:

“...Periferia são lugares que tem pessoas nada estudadas (sic),malas, uma pessoa que

não tem uma base de educação, base cultural, não tem muita... O principal é o ambiente que não tem muita oportunidade, tem violência, pobreza... Se a prefeitura não dá oportunidade de escola, postinho de saúde, enfim, então as pessoas vai procurar (sic) um lugar assim mais fácil, coisas mais fáceis, então acho que daí que começou a periferia,

com o financeiro, a renda baixa, enfim, um ambiente meio barra, difícil...”

(entrevistado, 19 anos).

Já os jovens que ocupam uma posição social de maior status, grande parte universitários, com freqüência se referem aos bairros afastados do centro, como “perigosos”, “violentos”, inclusive surgindo questionamentos a esse pesquisador do tipo:

“...para você deve ser difícil ir até a periferia conversar com esses jovens... porque é mais arriscado...”. Tal questionamento surgiu no momento em que estava explicando a um dos entrevistados os objetivos da pesquisa e com quais espaços e entrevistados estava lidando. Da mesma forma que o “playboy” aparece para os jovens de bairros afastados como um “outro difícil” de tolerar, aceitar, para os jovens que ocupam outra posição social, o jovem que mora nesses bairros, aparece como um quase desconhecido, um “outro sobre o qual eu tenho pouca informação” e não “me interesso muito em conhecer”. São jovens que residem na mesma cidade, que passam por espaços públicos comuns (ruas, avenidas, locais de comércio), mas que não se interagem. O escritor Zuenir Ventura utilizou a metáfora da “cidade partida” para definir a relação (ou melhor, a distância entre elas) entre as diversas camadas sociais no Rio de Janeiro, além da situação de violência. Será que Uberlândia vivencia tal situação ? Não tenho a resposta.

Penso que as representações sociais que os jovens de Uberlândia constroem sobre o consumo e seus espaços de realização (como o shopping), sobre a escola, sobre a família além de tipos sociais como o “playboy”, o “safado”, o “mala” e,os “PM” e espaços como a “periferia” fornecem pistas relevantes para construirmos seu sistema de representações sociais. E nesse sentido, percebe-se que a violência aparece como uma forma de relação ou prática social que assume caráter multifacetado e que se espraia por vários espaços e contextos sociais. Assim, assumir-se como alguém da “periferia” significa assumir uma série de atributos e qualificativos negativos para “minha identidade”, enquanto jovem. Significa se “arriscar” ao receio e preconceito alheio. Ser da periferia também pode significar ser confundido com um “mala” (termo que define o jovem envolvido com grupos violentos ou praticantes de crimes) ou como um potencial bandido.

De acordo ainda, com as categorias usadas pelos jovens pesquisados, essa forma de violência, às vezes explicita, contidas no termo “periferia”, “lugar perigoso” reflete a forma

simbólica da violência. Freqüentar determinados espaços, antes vedados aos jovens de posição social marginalizados, implica em determinados “riscos” simbólicos que contribuem e influenciam a formação de estigmas. Constrangimentos, humilhações, frustrações se mesclam e se tornam parte da economia de sentimentos desses jovens. Peralva (1997) e Caldeira (2000) assinalaram tal tentativa de segregação simbólica em seus respectivos estudos. Entre os jovens de melhor posição social, também há uma relativa rejeição do tipo social conhecido como “playboy”. Embora, experimentem simbólica e materialmente uma posição social que lhes faculta o acesso a uma pluralidade de relações sociais, tal ostentação ou “exibicionismo” típica do “playboy” (roupas de marca, carro, recursos lingüísticos auto-afirmativos e eivados de “arrogância”) incomoda justamente por explicitar “algo” ou hierarquias ou diferenças sociais que devem ser vivenciadas de forma mais discreta.

Todavia, deve-se assinalar aqui que, conforme Calligaris (2000) Almeida et alii (2006), o adolescente, como jovem que é, ganha, nessa fase da vida, um espécie de “moratória”, em que seus gestos e em suas palavras, que são passiveis de serem relevados ou minimizados em seu possível impacto prejudicial a integridade física ou moral de indivíduos ou grupos. Tal relativa “tolerância” se verifica acentuadamente sobre jovens dos segmentos sociais abastados, seus crimes ou atos violentos apontados como “erros”ou “desvios”. Postura mais rigorosa é tomada em relação aos jovens de posição social dita marginalizada. Os jovens pesquisados nessa dissertação perceberam tais nuances e diferenças de tratamento e construção de representações sociais, constitutivas de um sistema de relações com formas desiguais de poder simbólico. Conforme afirmação de um dos jovens:

“...playboy num fica preso... Filho de polícia sem carteira de motorista, não vai pra

cadeia... Aí, vai um coitado da periferia, de ‘cabeça fraca’, cometer alguma ‘bobagem’ por aí... Se lasca, você entendeu !?... (entrevistado, 23 anos).