“É na beira do rio! Porque na beira do rio nós sabemos! E nós não compramos o peixe e essas coisas”
(Otávio das Chagas)
— (Motorista) Bom dia pessoal! Meia hora para tomar café e usar o banheiro! — A gente tá onde?
— Em Tucuruí já. Ao lado da rodoviária da cidade. Eles sempre param aqui. — É verdade. Lembro daqui. Vamos descer e tomar um cafezinho?
— Vamos sim!
— Essas duas pessoas que estão aqui em nossa frente, foram impactadas pelo projeto da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, sabia?
— Bom dia seu Otávio! Bom dia seu Leonardo71! — Bom dia!
— E como vão os amigos? — Estamos levando…
70 “Autores como Carlos Vainer e Shiv Visvanathan destacam a dimensão de violência e o substrato de intolerâncias presentes em projetos de desenvolvimento, como as barragens. A violência está presente também na suposta inevitabilidade do deslocamento, ao qual não se apresenta outra opção: é
compulsório, forçado. Decisões políticas travestidas de critérios técnicos, geralmente pautadas por
grandes corporações, tais como empreiteiras, são tomadas de antemão e só depois apresentadas à sociedade. Quando existem, os mecanismos de participação popular são transformados em meras formalidades legitimadoras dos empreendimentos. A opção de rechaçar o empreendimento ou de considerar outras alternativas viáveis, embora previstas, são inoperantes” (NOBREGA, 2011, p. 134, grifo nosso).
— Vou contar a história de um deles para você. Eu acompanhei o caso de ambos, mas, para não se alongar muito aqui, vou contar a história de seu Otávio, para que possas ir refletindo sobre alguns elementos que se fazem envolvidos, quando o assunto é “Grandes Projetos” na Amazônia. Essa região que nunca foi uma “terra sem homens”. Seu Otávio nem nascido era quando os pais dele chegaram por aqui, pelo Xingu. A família dele é um das mais antigas em uma localidade ribeirinha chamada de “Ilha de Serra”.
— Antiga quanto? Quando o senhor, realmente, chegou por lá seu Otávio?
— Na ilha72?
— Sim.
— Olha, eu mesmo não lembro, porque eu não era nascido. A mamãe chegou com idade de nove anos, ela morreu morando lá na ilha com 66 anos.
— E como era mesmo o nome da ilha?
— Ilha de Serra. Ilha de serra, onde está o paredão da barragem bem em cima. O papai é enterrado na ilha mesmo, ele viveu... Eu acho que ele tinha mais de 60 anos lá quando ele morreu, ele é enterrado na ilha mesmo.
— A sua família veio de onde? Os seus pais vieram de onde?
— Os meus pais eram daqui mesmo.
— Daqui da região?
— É, daqui da região, os pais dos meus pais que vieram do Ceará.
— Do Ceará?
— E no caso, eles trabalhavam com o quê?
— Eu não sei com o quê, mas... eles trabalhavam, nesse tempo, em algo que chamo Cauchu73… Aí depois que eu já me entendi como gente (que eu era menino, era criança), aí nós já trabalhávamos
com a seringa né?
— Então o seu pai era seringueiro?
72 Como já ressaltado antes, as falas em itálico, que compõe o prólogo deste trabalho, expressam o depoimento real, seja de um militante de movimento social de atuação histórica na região, seja de um socioespacialmente atingido pelo conjunto de obras do “grande projeto” UHE Belo Monte. Para ambos os sujeitos a UHE Belo Monte não representa um projeto de desenvolvimento, mas sim, um projeto “desenvolvimentista”, que, em termos gerais, visa (tão) somente o crescimento econômico de seus proponentes, destinando-se a atender interesses externos à região. Em outras palavras, projetos que buscam atender “lógicas exógenas”, “verticalizadas” (SANTOS, 2004b).
73 Árvore que atinge mais de 35 metros de altura ( Castilloa ulei ), da família das moráceas, nativa do Brasil (da região amazônica), com madeira própria para pasta de papel, látex de que se faz borracha, folhas oblongas, frutos com polpa mole, comestível, e sementes oleaginosas; cauchu.
— Era seringueiro! Criou nós todos cortando seringa e eu criei esses meninos (referência aos
filhos) cortando seringa também. Depois foi que eu parei, foi acabando o valor, porque naquele
tempo tinham os patrões (referência aos seringalistas) que a gente comprava as coisas e ia cortar
seringa para eles. Aí depois que acabou essas coisas, ficou difícil para a gente trabalhar.
— O seu pai era seringueiro e o senhor trabalhava na mesa atividade que o seu pai.
— Isso. Eu tinha carteira como seringueiro.
— Carteira de seringueiro esta que seu Otávio teve que emprestar para um tal “Bananal”, famoso por matar os outros nessa região. A carteira de seringueiro dava acesso “a casa grande”, casa de venda de produtos alimentícios e estivas em geral localizada na cidade de Altamira, destinada aos seringueiros. Segundo relato dos seringueiros como seu Otávio, os produtos saíam a um preço menor para quem tivesse a tal carteira74. Porém, o tal “Bananal” foi morto tempo depois. Mataram- no envenenado e, junto com ele, se foi a carteira que comprovava os anos de trabalho como seringueiro de seu Otávio. O fato é que, só pelo relato da atividade exercida pelos pais dele, para sustentar a família, e depois pelo próprio Otávio, com o mesmo propósito, demonstrava-se o quanto esta família era colona antiga nesta região. Mas, os anos e anos como morador da “Ilha de Serra”, uma das inúmeras localidades ribeirinhas impactadas pela construção da UHE Belo Monte, não lhe garantiram ser reconhecido pelo empreendedor como atingido e, portanto, sendo um “não atingido”, não tinha direito a qualquer espécie de compensação.
— Nossa! Que coisa revoltante. Antes, porém de chegar neste momento, permita-me indagá-lo sobre um aspecto. Seu Otávio depois que a seringa não foi capaz de gerar mais renda (durante a década de 1980 em diante), o senhor passou a viver do quê? Como fazia para sustentar a família?
— Aí eu pescava. Eu trabalhava assim, se alguém saía eu trabalhava para ele, na ilha mesmo, nós trabalhávamos de roça, era assim…
— Ele trabalhava para ele e para outras pessoas se preciso fosse. Seja como trabalhador braçal seja como vigia de propriedade alheia.
— Entendo. O senhor morou durante 60 anos na Ilha?
— É sim, 60 anos.
— E o senhor nunca teve casa nenhuma na cidade?
— Nunca tive… casa que eu tinha, eram os lotes dos outros que eu trabalhava, tinha vez em que eu fazia roça na terra dos outros para plantar as coisas para comer, mandioca, banana e essas coisas, na terra dos outros.
— E na ilha? O senhor tinha casa na ilha?
74 Não obstante, o tal “preço menor”, tinha por propósito tornar o seringueiro dependente da casa grande, também chamada de barracão, fazendo com que este, o seringueiro, se transformasse em devedor por longos anos do proprietário da casa de venda. O transformando em um eterno endividado, um típico caso de escravidão por dívida.
— Olha… lá nós tínhamos casa, tínhamos plantação, tinha reboque, tinha motor.
— E, no período de cheia do Rio Xingu, o senhor trabalhava em outro local?
— Isso! Em outra terra.
— Trata-se de prática comum na Amazônia caro amigo. Seu Otávio trabalhava em uma área que
não lhe pertencia, que não era sua, mas, o proprietário cedia a terra para que seu Otávio pudesse ali plantar e tirar dela o que precisasse. Com isso o proprietário, que por algum motivo se fazia ausente de seu lote, ganhava (em troca) um caseiro, um vigia, para sua propriedade, além de todas as benfeitorias construídas e feitas por seu Otávio na propriedade, tais como uma área de horta, a área frutífera, uma área de cultivo de mandioca, criação de animais, etc. Sem a necessidade de criar, junto a seu Otávio, qualquer vínculo empregatício de caráter formal.
— Ah… Era na meia, na parceria, o senhor dava uma parte para ele?
— Não, eu não dava nada para ele (refere-se ao dono da propriedade) não.
— O proprietário do local cedeu lá, para o seu Otávio para que, no período de cheia do rio, ele e sua família tivessem um local para plantar e tirar o sustento. Em troca, a propriedade ficava sempre sobre a presença de alguém, uma espécie de caseiro, de vigia da propriedade, inibindo assim a ação de eventuais posseiros. E esse local não inundava, não alagava. Aí se armou a confusão. A empresa Norte Energia dizia que seu Otávio era dono deste lote, do lote cedido para ele trabalhar. E, como este era em local não sujeito a inundação por Belo Monte, a empresa concluiu que seu Otávio não tinha direito à indenização. Entendeu agora?
— Sim, sim. Mas que confusão…
— E por isso a empresa não o considerou atingido.
— Eles não consideraram e ainda diziam que o lote era meu, aí foi preciso o dono do lote vir para poder fazer a declaração75.
— E tem mais… Como o seu Otávio trabalhava fora de sua propriedade durante boa parte do tempo, no dia em que a empresa fez o cadastro das pessoas que seriam indenizadas, ele não entrou na lista dos que tinham direito à “compensação”. Coloco aspas aqui porque entendo que não existe indenização/compensação para determinadas situações. Nem tudo pode ser convertido em uma quantia monetária. Ou seja, como os funcionários da empresa não encontraram seu Otávio em seu lote, eles o classificaram como “apenas um pescador” da região da ilha onde ele morava, a “Ilha de Serra”. Não o reconheceram como morador da ilha. E por não ser morador da ilha, não tinha direito a indenização como morador.
— É porque não botaram no cadastro (refere-se à empresa), fizeram como se eu não fosse morador e sim pescador. Não tinha nada a ver!
75 Ou seja, o imbróglio somente foi resolvido quando o verdadeiro dono da propriedade, que a empresa Norte Energia dizia pertencer a seu Otávio, apresentou junto a empresa os documentos comprobatório do título da terra. Dando-se por encerrado a questão.
— E, em virtude dessa confusão (feita pela empresa!), foi atribuída indenização irrisória a seu Otávio, apenas doze mil reais (R$ 12.000,00). Segundo o entendimento da empresa, o valor era mais do que suficiente para compensar os anos devotados a atividade da pesca por seu Otávio. A quantia indenizatória era justa quando da compensação de suas atividades como pescador.
— Eita! Sinto cheiro de confusão a vista.
— Exatamente! Seu Otávio procurou o Movimento “Xingu Vivo Para Sempre”76 e o movimento acionou a procuradora da república Thais Santi sobre o caso. E, por ocasião de uma audiência pública, que contou com a presença do IBAMA, do MPF, da Norte Energia e das populações socioespacialmente atingidas pelo “grande projeto” UHE Belo Monte, a questão da compensação atribuída a seu Otávio voltou a ser tratada. Tendo em vista a convocação, pelos movimentos sociais e pelo MPF, de todos aqueles que se sentiam prejudicados, penalizados e/ou injustiçados pelo empreendedor de Belo Monte, a empresa Norte Energia.
— E o que aconteceu na reunião seu Otávio?
— Nós fomos à reunião77 aí tem um rapaz lá da Norte Energia… Aí quando eu falei que a minha indenização tinha sido 12 mil, ele disse “vá lá no escritório da Norte Energia de manhã para você escolher a sua casa” (grifo nosso). Ele falou isso na frente da doutora Thais78 e do povo que estava lá. A doutora Thais disse “Pegue o meu cartão e o senhor, amanhã, fale comigo lá no Ministério Público. E você não deve aceitar nada que lhe derem que não seja a casa”. Aí, no outro dia cedo eu fui lá, chegando lá, o homem veio dizer para mim que nunca tinha me prometido isso (grifo nosso).
— Que absurdo! E o senhor, o que fez?
— Aí, eu fiquei até sem rumo. Aí, eu digo “rapaz você me prometeu, mas se está dizendo que não…”, Aí eu saí e fui direto lá na doutora Thais, chegando lá ela disse “Não, ele vai fazer o que prometeu! Ele vai fazer porque eu escutei!”. Aí fizeram outro processo para a juíza, aí por causa disso foi que saiu esta casa79.
76 Em Altamira, em virtude de tradicional atuação de lideranças e movimentos sociais na região, os moradores dessa cidade ou de cidades vizinhas, quando entendem que foram tolhidos de/em algum direito, costumam procurar primeiro os movimentos sociais para relatar algum fato. Estes por sua vez, os movimentos, a partir de uma espécie de “triagem”, encaminham os reclamantes para as instituições que julgam credenciadas para solucionar os diferentes problemas sociais. Passando a acompanhar os casos julgados mais graves. Os movimentos mais procurados nesses casos são: o Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVPS) e o Movimento Atingidos por Barragem (MAB).
77 Refere-se a uma das audiências públicas ocorridas em Altamira por ocasião da solicitação dos movimentos sociais e do Ministério Público Federal, na presença do IBAMA, da Norte Energia, dentre outras instituições e organizações, cujo objetivo era debater sobre as possibilidades de compensação, dos diversos grupos sociais atingidos por Belo Monte.
78 Refere-se a uma das procuradoras da República do MPF de Altamira, Thais Santi.
79 Refere-se à casa que conseguiu junto à empresa Norte Energia, em um Reassentamento Urbano Coletivo (RUC) na cidade de Altamira, como “compensação” por sua moradia na “Ilha de Serra”, fruto de sua luta, em conjunto com o Movimento Xingu Vivo para Sempre e o MPF.
— Mas que história. Agora, me deixa perguntar uma coisa, como era a sua vida na beira do rio, como era a vida de vocês, sua e de sua família, lá na Ilha de Serra? Como era a vida antes de Belo Monte?
— A minha vida lá era muito melhor, muito melhor! Lá, qualquer coisa que eu quisesse comer, tinha, aqui não interessa, os meus meninos trabalham, arruma dinheiro, mas não dá para nada, pelo tanto que nós somos, arrumamos 25 reais para comprar uma coisa para comer e amanhã já não tem mais nada. Está 25 reais o quilo da carne né? Aqui todo dia é vinte que é gasto, todo dia. Aqui eu pago, dessa casa aqui, estou pagando 100 reais de água. A energia, ainda ontem chegou de 114 reais, é desse jeito. Para mim ficou muito ruim, para mim ficou muito ruim. Eu, no mato, sei
fazer tudo no mato. Qualquer hora da noite eu saio e não tenho medo de bicho nenhum me encontrar, porque todo bicho do mato eu conheço. É como eu falo para os meninos, esses negócios desses biólogos que aprendem estudando, isso daí eu sei indo no mato, eu duvido qual é o bicho do mato que eu não conheço, duvido qual é esse bicho… eu estou com 60 anos e me criei andando no mato…
— Seu Otávio, o senhor disse ainda a pouco que seu pai está enterrado… — Na mesma ilha em que o paredão da barragem está em cima (grifo nosso). — E, o senhor tem quantos filhos? E onde eles nasceram?
— Seu Otávio tem nove filhos.
— Nove?! E todos nasceram na Ilha de Serra?
— Todos os nove nasceram lá, nascidos e criados! Nós conhecemos esse rio, como eu falo, nós conhecemos para que em qualquer hora da noite nós possamos andar.
— E o senhor sente falta de lá? Do seu lugar?
— E muita… Rapaz, a gente morando assim pelo mato, é bom demais e os meus meninos todos sentem falta porque aqui eles não andam muito e os poucos conhecidos que temos, mora longe daqui. E, os que eu não conheço eu não vou lá, porque eu não sei quais são os bons e quais são os maus. Aí, a gente fica assim, porque a pessoa lá do mato tem até medo de certas coisas, mas os daqui da rua (referência à cidade) não tem. Eu falo para os meninos “faz um ano que nós saímos de lá e eu nunca mais trabalhei, só andando dentro de uma casa”. É difícil… ver o dia amanhecer e anoitecer, é difícil. Todos os vizinhos lá, todos eles eram gente boa com nós. Se eu estiver mentindo, se tinha algum que não prestava, eu estou mentindo. Todos eles faziam festas lá e todo mundo ia, quando um não ia, mandavam atrás para saber por que. Se não tivesse uma embarcação que coubessem todos, eles mandavam buscar e era assim. Ainda hoje, quando eles topam a gente
(referência a encontros casuais pelas ruas de Altamira) é bom demais. Hoje em dia, não tem um
morador na beira do rio, não tem! É porque aqui (refere-se à vida na cidade) eu estou em uma
coisa sem futuro, porque aqui eu não estou fazendo nem raiva para os outros, pois eu não saio para que faça raiva a alguém. Aqui, os meus meninos ainda estão trabalhando porque eles sabem, nós não somos sabidos para uma coisa assim, aí o que eles arrumam, em um dia dá para comer,
porque é na diária, mas eles não são pedreiros nem nada. Agora, se for para pilotar em um rio desses, se for para trabalhar na roça, tudo nós faz.
— Vou lhe fazer uma pergunta: Quando o senhor deita na sua rede, na sua cama à noite, em o quê o senhor pensa?
— Eu fico pensando que ainda não arrumaram um lugar para mim trabalhar…
— Um lugar pro senhor trabalhar. E, esse lugar para trabalhar é onde?
— É na beira do rio! Porque na beira do rio nós sabemos! E nós não compramos o peixe e essas coisas80 (grifo nosso).
— Entendo.
— É… Tá na hora de voltar pro ônibus. — sim, tá na hora.
— Obrigado por compartilhar sua história seu Otávio. Obrigado mesmo! — Obrigado e boa sorte para o senhor e sua família.