Barnes (1972) define a Análise de Redes Sociais (ARS) como a metodologia que estuda os padrões de relacionamento entre pessoas, organizações e estados. Cross, Parker e Borgatti (2000) consideram a ARS como um instrumento importante para o estudo dos relacionamentos, propiciando o compartilhamento das informações e do conhecimento.
Para Marteleto (2001), a análise de redes é um meio para avaliar os aspectos estruturais da rede, buscando estabelecer uma relação entre a forma da rede e os fenômenos a serem analisados. A finalidade é evidenciar que as interações entre dois atores (díades) passam a ter sentido quando analisadas dentro do contexto global da rede, pois sua disposição estrutural tem efeitos sobre sua forma, seu conteúdo e sua função. Deste modo, a função e o
status de uma relação são dependentes da posição estrutural dos elos, assim como o papel dos
atores.
A autora também alerta que para examinar a influência das estruturas sobre o comportamento individual é necessário investigar o conjunto de relações estabelecidas por estes mesmos indivíduos. A estrutura se revela como uma teia de relações e de restrições que influenciará nas escolhas, orientações, comportamentos e opiniões dos sujeitos na rede. Em 2004, esta mesma autora definiu a análise de redes sociais como uma técnica que ajuda a compreender o impacto da rede sobre a vida social dos atores que dela participam, e tem como base a relação entre seus diversos membros.
Guimarães e Melo (2005) apresentam um breve histórico da aplicação da técnica de Análise de Redes Sociais e relacionam as principais escolas que influenciaram na concepção dos métodos de análise de rede utilizados atualmente. Segundo tais autores, esta técnica tem sido utilizada por vários pesquisadores das mais diversas áreas do conhecimento, e foi utilizada pela primeira vez por Jacob Levi Moreno em 1933. Este apresentou um sociograma que possibilitava a análise dos relacionamentos interpessoais em um grupo determinado. A partir deste instrumento, era razoável apontar líderes e sujeitos isolados.
O termo “Redes Sociais” foi cunhado por Radcliffe Brown (1940) e John Barnes (1954), a partir de trabalhos que procuravam compreender as características das estruturas formadoras da sociedade. Max Gluckman, e mais tarde, J. Clyde Mitchell coordenaram trabalhos na década de 60 e 70, que analisaram os processos migratórios rural-urbano em países da África, tendo como base a identificação das redes sociais envolvidas nestas migrações.
Em 1963, Frank Harary utilizou a teoria dos grafos na Psicologia, na Sociologia e na Antropologia. David Douglas Massey (1990) fez uso da técnica de Análise de Redes Sociais – ARS para tentar entender o processo migratório dos mexicanos para os Estados Unidos. A técnica também foi utilizada no Brasil por Dimitri Fazito e Weber Soares (1991) para compreender as redes de migração interna.
Quanto às origens das técnicas atuais de análise de redes sociais, Scott (2000) afirma que três foram as correntes que deram origem aos conhecimentos atuais sobre redes sociais: os analistas sociométricos embasados pela teoria dos grafos, os pesquisadores de Harvard com seus estudos de relacionamento interpessoais informais, e os antropólogos de Manchester com suas pesquisas sobre estrutura das relações sociais em comunidades pequenas.
Já segundo Molina (2004), as técnicas de ARS foram derivadas de quatro principais escolas: de Manchester, de estudos de comunidades, de estudos de estimativas de tamanho das redes pessoais, e de capital social. A escola de Manchester pautou-se nas redes sociais, na tentativa de explicar comportamentos que não podiam ser explicados pelo paradigma teórico estrutural funcionalista. Segundo aquele modelo, existia uma rede de instituições que permeavam e tornavam possível a vida social do indivíduo. Pesquisadores desta escola, como Barnes (1954), Bott (1955) e Mitchell (1969) entre outros, documentaram as relações entre a estrutura da rede pessoal e a conduta dos indivíduos em situações de conflitos sociais e lutas políticas.
A escola de estudos de comunidade investiga as redes de apoio social constituídas por amigos, parentes, conhecidos e pessoas que fazem parte da vida social dos indivíduos. Estas redes propiciam a socialização, o fluxo de informações e molda uma rede de apoio. Entre seus principais representantes podem ser citados Laumann (1973), Barry Wellman (1979,1982,1988,1997,1999) e Fisher (1982).
A escola de estudo de estimativas de tamanho das redes pessoais procura entender os fenômenos sociais a partir dos laços fortes (relações de maior intensidade, frequência e/ou antiguidade) de contatos que um indivíduo acumulou e que mantem ativos. Pesquisadores como Freeman e Thompson (1989) e McCarty (1997, 2000) fazem parte desta escola.
A escola do capital social é uma escola mais recente, pautando-se em três linhas: o capital social centrado na pessoa, o capital social centrado na rede e o capital social das sociedades civis. Nesta escola, estão pesquisadores como Burt (1992) e Van der Gang (2004).
Molina (2004) sistematizou e resumiu as principais contribuições de cada escola para a análise de redes pessoais e as agrupou em uma tabela que apresentamos a seguir:
Quadro 3 - As quatro principais escolas ARS
Tradição Enfoque teórico Principais estudos Métodos
Escola de Manchester
Complemento do paradigma estrutural funcionalista em um mundo urbano fluido.
Barnes (1954) Bott (1955, 1957) Epstein (1957, 1963) C. Mitchell (1969) Boissevain (1973) Kapferer (1972) Sociogramas, observação participante, conceitos sobre a teoria dos grafos e álgebra de matrizes.
Estudos de Comunidades
Laços comunitários além dos limites residenciais, apoio social e mudanças da rede pessoal ao longo do tempo. Laumann (1973) Fisher (1982) Wellman (1979,1982,1988,1997,1999) Litwin (1996) Tilburg (1998) Ferrand (1999) Grandes pesquisas egocêntricas. Bases de dados públicas com dados de redes
sociais. Estimativas do tamanho das redes pessoais Tamanho, estrutura ou amostras representativas das redes pessoais.
Poole e Kochen (1978) Killworth e Bernard (1978, 1984) Freman e Thompson (1989) Bernard (1990, 2001) McCarty (1997, 2000) Amostras de guias telefônicos locais ou listas de nomes <<Mundo Pequeno ao contrário, RSW>> Método <<Scale-up>>. Capital Social Acesso a pessoas em
posições sociais superiores e a seus recursos associados.
Lin (1982, 2001a, 2001b), Lin et. al. (2001),
Burt (1992), Flap et. al. (1999), van der Gaag e Snijders (2004) Gerador de nomes a partir de posições sociais, gerador de nomes a partir de recursos acessíveis. Fonte: Molina (2004).
O quadro 3 mostra que as técnicas atuais de análise de redes sociais receberam colaborações de diversas áreas do conhecimento, não se evidenciando uma teoria única e uniforme que abarque todos os conceitos envolvidos na área de redes sociais. Marteleto (2001) afirma que, desde sua origem até os trabalhos mais recentes, não há uma concordância explícita sobre a existência de uma “teoria de redes sociais”. Os conceitos subjacentes às pesquisas sobre este assunto mostram que a técnica pode ser aplicada a diferentes contextos e faz uso de complementos advindos de diferentes teorias sociais.
Uma vez conceituada a análise de redes sociais, e após a apresentação de breve histórico sobre a técnica, abordar-se-á, em seguida, alguns conceitos sobre ARS que ajudaram a compreender os dados obtidos neste estudo. O primeiro conceito a ser apresentado é o de centralidade. Segundo Scott (2000), centralidade é a posição de um ator em relação aos outros, tomando-se como medida o número de elos existente entre eles. Gomes et. al. (2003) define centralidade como um recurso sociológico sem uma definição clara, explicitado de forma indireta. A grande maioria dos autores concorda que um indivíduo é central quando possui um grande número de conexões com outros, ou quando está próximo de muitos atores na rede, ou ainda quando existem muitos atores que o utilizam como mediador em suas conversações.
Na literatura, existem diversas medidas de centralidade mapeadas. Para efeito deste estudo, consideraremos quatro delas. Primeiramente, a Centralidade de grau ou “in-degree” e “out-degree”, como conceituados por Wasserman e Faust (1994), que seria o número de laços que um ator possui em relação a outros atores na rede. Estas medidas só consideram os atores imediatamente conectados, ou seja, a centralidade local dos atores. Segundo Hanneman (2001), atores com muitas ligações possuem uma posição privilegiada na rede, pois podem se valer dessa condição para satisfazer suas necessidades e aproveitar melhor os recursos disponíveis na rede.
A Centralidade de proximidade ou “closeness” seria a medida de proximidade entre os atores, obtida somando-se as distâncias geodésicas (número de laços entre dois atores) entre todos os participantes da rede. Neste caso, consideram-se tanto as medidas diretas quanto as indiretas. Segundo Gómes et. al (2003), a centralidade por proximidade tem um significado de autonomia, pois possibilita a comunicação com diversos atores com um número pequeno de intermediários. Marteleto (2001) a considera como uma medida de independência em relação ao controle de outros atores na rede.
A Centralidade por intermediação ou “betwenness” que, conforme Hanneman e Riddle (2005), mede o grau de intermediação de um determinado ator que está no caminho de
comunicação (caminhos geodésicos) entre outros atores. O grau de mediação de um ator é de extrema importância quando consideramos que este nó pode controlar os fluxos de informação na rede. Marteleto (2001) alerta para o poder nas mãos do intermediador no que tange tanto ao controle de fluxo quanto ao trajeto das informações na rede.
Por fim, a Centralidade de fluxo considera todos os caminhos existentes entre os atores em uma rede, diferentemente da centralidade por intermediação que leva em consideração apenas os caminhos mais curtos (geodésicos). Hanneman e Riddle (2005) alegam que, caso exista um bloqueio da informação por intermediários que sejam indiferentes à temática tratada, outros caminhos serão utilizados para fazer com que a informação chegue ao seu destino, mesmo que estes sejam mais longos e ineficientes que os anteriores.
Para além das medidas de centralidade existem outros conceitos relativos à ARS que devem ser explicitados, pois podem revelar características interessantes em relação à rede:
Densidade: a medida de densidade da rede é calculada dividindo-se o número de conexões existentes pelo número de conexões possíveis. Esta medida é importante, pois possibilita classificar as ligações como fortes ou fracas. Segundo tal conceito, introduzido por Granovetter (1973), esta classificação é relevante, pois, como já foi discutido, as ligações fracas representam pontes entre subgrupos de ligações fortes, fazendo com que a informação dimane entre estes grupos.
Coesão: medida obtida pelo somatório dos tamanhos dos menores caminhos entre os nós, dividido pelo número total de caminhos da rede. Segundo Wasserman e Faust (1994), esta coesão aparece em subgrupos que detêm ligações fortes, frequentes e intensas. Hanneman e Riddle (2005) acreditam que estes subconjuntos possuam suas próprias regras, apegos, costumes e orientações. Estas características propiciariam uma maior identificação entre seus membros, um comportamento de solidariedade e uma conduta coletiva.
Reciprocidade: indica o percentual de relações bidirecionais que existem na rede em relação ao total de conexões. Esta medida revela o nível de mutualidade na rede.