2. MATERIALS AND METHODS
2.9 Protein analysis by western blotting
A formação acadêmica, a concepção teórica que norteia seus estudos e a trajetória como docentes de disciplinas de Psicologia da Educação são apresentadas por Anita e Clarice em
suas entrevistas.
Com relação à formação acadêmica, Anita (docente de Psicologia da Educação A) afirma
que ingressou na graduação em Pedagogia no ano de 1985 e concluiu três habilitações (conforme se denominava nessa época) em Pedagogia: habilitação em Orientação Educacional, em Supervisão e em Magistério das Matérias Pedagógicas. Após a graduação, desenvolveu as pesquisas de mestrado e doutorado em Educação, fundamentadas na Psicologia Histórico-Cultural, sendo esta a abordagem teórica que embasa seus estudos, que têm Vigotski como principal autor de referência.
Ao se referir às bases teóricas de sua formação acadêmica, a docente esclarece que no período em que cursava a graduação em Pedagogia, na década de 1980, este curso apresentava, de modo geral, uma perspectiva crítica (referindo-se, inclusive, a leitura de textos de Maria Helena Patto) e um enfoque sociológico bem desenvolvido pelos docentes, assim como uma crítica à psicologização na Educação, presente em discussões não realizadas propriamente nas disciplinas da área de Psicologia, mas de Sociologia e Didática, com base em textos de autores como Bourdieu e Libâneo:
99 Anita: Nessa época, década de oitenta, havia muita crítica à Psicologia no curso de Pedagogia e também à Psicologia na Educação de um modo geral.
Karina: E como era essa crítica?
Anita: Ao psicologismo na Educação, que explica tudo por fatores psicológicos. Então, por exemplo, a gente lia muito Bourdieu e eu já lia a Patto na minha graduação. (...) Foi um curso bem crítico, mas nem tanto nas disciplinas propriamente ligadas à Psicologia; a gente via muitas críticas à Psicologia nas outras disciplinas.
Karina: Que disciplinas?
Anita: Sociologia, Didática. Quando eu fiz habilitação em Orientação Educacional (...), tinha muita coisa criticando a atuação, a influência da Psicologia na Pedagogia, na Educação e na escola. (...) Eu li Libâneo nas aulas de Didática.
(Entrevista com Anita)
Diante disso, Anita relata que ao longo do curso teve acesso a textos de autores marxistas e que o conteúdo ministrado com base nesta perspectiva durante todo o curso contribuiu para a fundamentação de um pensamento crítico em sua formação na graduação (“Eu tinha tido muito autor marxista no curso. (....) Lembro que todos os trabalhos acadêmicos que eu fiz na
graduação foram com esse tom crítico” – Entrevista)94.
O estudo de Anita sobre a obra de Vigotski iniciou-se por volta do ano de 1989, quando assistiu a uma palestra sobre este autor em um congresso, no mesmo período em que trabalhava como orientadora educacional em uma escola particular. De acordo com Anita, a necessidade de compreender o processo de alfabetização com base em outros autores, além dos que já havia estudado (como Piaget e Emília Ferreiro), aliada à perspectiva marxista presente nos pressupostos de Vigotski (coerente com sua formação na graduação) e suas considerações sobre temas como a zona de desenvolvimento proximal, o brinquedo e a imitação suscitaram o interesse em aprofundar o conhecimento sobre as ideias e conceitos apresentados pelo autor. A partir de então, Anita propôs um grupo de estudos sobre a obra de Vigotski nesta escola e, enquanto finalizava sua terceira habilitação na Pedagogia (1990), teve acesso a textos do autor que foram discutidos neste curso por uma docente da área de Linguística.
Após concluir a graduação, Anita deu continuidade a estes estudos, desenvolvendo suas pesquisas de mestrado e doutorado em Educação, fundamentadas na abordagem Histórico-Cultural, enquanto participava como pesquisadora auxiliar de um grupo de pesquisas sobre pensamento e linguagem (embasado nesta mesma concepção teórica), vinculado à instituição em que cursou a pós-graduação. Nestas pesquisas, centrou-se na
investigação de temas como memória, alfabetização, escolarização e narrativa, com base na obra de Vigotski e Luria. Além destes autores, Anita cita as contribuições teóricas do sociólogo Halbswachs e da psicóloga social Ecléia Bosi para a realização destes trabalhos.
Ao mencionar sua trajetória como docente de disciplinas de Psicologia da Educação em
cursos de Pedagogia, Anita conta que após concluir o mestrado começou a ministrar as seguintes disciplinas em uma universidade estadual: Distúrbios de Aprendizagem (oferecida nos cursos de Pedagogia), Psicologia da Educação (nos cursos de Pedagogia e de Licenciatura) e Psicologia (no curso de Serviço Social).
Anita questiona o conteúdo previsto originalmente no programa da disciplina Distúrbio de Aprendizagem, que se embasava em uma concepção organicista e cognitivista sobre o processo de aprendizagem e na exposição de distúrbios, tais como dislexia ou disgrafia. Ao ministrar esta disciplina, criticou o reducionismo de questões socialmente constituídas ao âmbito individual, por meio de textos de autores como Saviani e Marx, bem como Patto, Moysés e Collares, além de Vigotski, referindo-se à constituição social e histórica dos fenômenos educacionais e do sujeito e à crítica a tal reducionismo no processo educacional:
Anita: Eu revolucionei a disciplina [Distúrbios de Aprendizagem] e causei muito problema, muita briga lá (...). Peguei o programa, que era dado assim: um capítulo de livro sobre dislexia, um sobre disgrafia, discalculia..., todas as ‘dis’. Aquele enfoque bem cognitivo. (...) E comecei a trabalhar com um texto do Saviani, que se chamava ‘Problemas de aprendizagem ou problemas de escolarização’...
Karina: E a sua proposta então era tirar o foco do indivíduo?
Anita: E ir para o institucional, social. (...) Eu trabalhei até com Marx. Eu lembro de falar em superestrutura, em infraestrutura (...), que o material produz o espiritual (...), produz a ideologia. Discuti com eles sobre História, sociedade e escolarização, o lugar social da escola e como o indivíduo é constituído historicamente. E até o final tinha aluna perguntando se a gente não ia trabalhar dislexia (...). Trabalhei com textos da Patto e vários autores que discutem essa questão, Collares, Moysés e Vigotski, com o texto em que ele critica os testes psicológicos e fala da zona de desenvolvimento proximal.
(Entrevista com Anita)
A respeito da disciplina Psicologia da Educação ministrada naquele curso, Anita
menciona que apresentava aos estudantes as abordagens cognitivista, psicanalista, inatista, behaviorista e histórico-cultural e, então, discutia sobre questões referentes ao processo de escolarização (“temas ligados à questão de sala de aula, do trabalho do professor” – Entrevista).
101 Acrescenta que como estas disciplinas eram anuais e não semestrais, havia tempo para se dedicar a estas diversas linhas teóricas no campo da Psicologia e que realizava estas discussões explicitando a perspectiva que embasa seus próprios estudos.
E, então, na disciplina de Psicologia para o curso de Serviço Social, introduzia conceitos de psicanálise e da Psicologia Histórico-Cultural, que originalmente também não estava inserida neste plano de ensino.
Após concluir o doutorado, Anita continuou ministrando as disciplinas de Psicologia da Educação nos cursos de Pedagogia e na Licenciatura na universidade em que trabalhara até
então e passou a ministrá-las em uma universidade particular, onde também assumiu disciplinas na pós-graduação. Nesta instituição, o programa original da disciplina de Psicologia da Educação baseava-se em textos de Piaget e, ao ministrá-la, Anita passou a incluir nesta
bibliografia produções de Vigotski e Wallon, cuja obra não costuma ser discutida durante a graduação, mas a conheceu durante o mestrado, por meio do grupo de estudos sobre pensamento e linguagem95.
Por fim, no ano de 2009, começou a ministrar a disciplina Psicologia da Educação A nos
cursos de Pedagogia e Licenciatura na instituição em que realizamos a pesquisa de campo, onde permanece como docente até o presente momento.
Clarice (docente de Psicologia da Educação B) relata que é formada em Psicologia e que
ao longo da graduação se identificou com as discussões realizadas em disciplinas da área de Psicologia Escolar e Psicologia Social. Conta que antes de optar por este curso, havia cogitado estudar Serviço Social ou Ciências Sociais e que participava de movimentos sociais, com a “crença nas possibilidades de transformação por via da organização da sociedade civil”. Acrescenta que assistir à disciplina Psicologia Escolar na graduação foi muito importante por propiciar a reflexão sobre a relação entre Psicologia, sociedade e escola, de modo a contribuir para despertar seu interesse por esta área. Sendo assim, ao se referir à sua escolha pela Psicologia Escolar, afirma: “quando a Psicologia faz sentido para mim, (...) não é a Psicologia Clínica, também não é
95 Ao se referir a esse aspecto, Anita afirma que enquanto alguns colegas, docentes destas universidades,
demonstravam certo incômodo em função de sua perspectiva teórica (que diverge epistemologicamente da abordagem psicogenética proposta por Piaget) e da inserção da obra de Vigotski e Wallon no programa desta disciplina, também concordavam com o fato de Anita assumir a discussão destes textos, pois estes autores eram pouco estudados e a leitura de sua obra era exigida nas provas de seleção em concursos públicos para o cargo de professor. Asse respeito, afirma: “Havia, de um lado, uma resistência à minha figura, que já foi relacionada ao Vigotski. marxista. Mas ao mesmo tempo, tinha também um pouco de respeito, porque Vigotski caía no concurso de professor, então eles também davam graças a Deus que eu cheguei pra trabalhar alguma coisa que caía no concurso (...); caía, inclusive, Wallon e ninguém sabia quem era. Então, por um lado, tinha um ranço por eu não ser piagetiana, mas, por outro, pensavam: ‘ai, que bom que você está trabalhando Vigotski e Wallon, vai ser importante para as meninas’” (Entrevista).
bem a Social, mas uma Psicologia que pensa as relações em sociedade, tendo a escola como um objeto”
(Entrevista).
Ao se referir à sua formação e à trajetória profissional, um dos aspectos mencionados por Clarice consiste na experiência de estudo e trabalho junto a Maria Helena Patto, de quem foi aluna na graduação. A entrevistada cita como um fato marcante e estruturante de sua carreira a participação, ainda na graduação, como colaboradora de uma pesquisa coordenada por Patto e por meio da qual Clarice começou a se encantar pela atividade acadêmica. Após a finalização deste projeto, passou a trabalhar como pesquisadora na mesma instituição a que tal pesquisa estava vinculada. Durante o mestrado dedicou-se ao estudo do sucesso escolar como tema de investigação e, no doutorado, à formação de professores. Depois de atuar brevemente como supervisora de estágio em Psicologia Escolar em um curso de graduação em Psicologia, assumiu o cargo de docente nos cursos de Pedagogia e Licenciatura na universidade em trabalha atualmente. Ao se referir à sua trajetória, declara que seus professores e os colegas de trabalho, no campo da Psicologia e da Educação, contribuíram tanto para sua formação quanto para o modo como exerce a docência (ou para o seu “jeito de ser
professora”, conforme afirma).
Segundo Clarice, sua formação, bem como suas atividades profissionais e acadêmicas, fundamentam-se teoricamente na obra de autores como Agnes Heller, Pierre Bourdieu, Maria Helena Patto, José de Souza Martins, Marilena Chauí, José Mário Azanha, Justa Ezpeleta e Elsie Rockwell.
Sendo assim, a entrevistada considera que não há exclusivamente um autor como referência para seu trabalho e, ao mencionar os autores acima, explica que busca em seus textos reflexões sobre a vida cotidiana, o cotidiano escolar e a escola “na dimensão das práticas e
dos processos escolares”. Nesse sentido, faz alusão à obra de Agnes Heller, salientando que seu
estudo propicia a compreensão da constituição social do indivíduo e das “marcas da dimensão histórica no cotidiano”, com base na análise “da presença do micro e do macro, da articulação do individual com o social, por via da História” (Entrevista). E acrescenta que no campo da Psicologia,
especificamente, centra seu estudo em textos de Maria Helena Patto, bem como de psicólogos contemporâneos com esta mesma concepção ou formação teórica (“a autora da Psicologia contemporânea [em que me baseio] é a própria Maria Helena, [bem como] as pessoas que ela formou” –
Entrevista).
Diante disto, ao se referir à perspectiva crítica que embasa teoricamente suas pesquisas e atividades acadêmicas, a docente enfatiza a importância de se questionar “as
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certezas” e de não reproduzir a ideia de que ser crítico significa necessariamente seguir os
pressupostos do pensamento marxista ou do materialismo histórico, como se não houvesse outras possibilidades de crítica:
Tem uma coisa que a gente chama de raciocínio crítico, pensar de uma forma crítica. Mas é importante que não seja também um crítico que tenha todas essas ideias de que ‘eu sei o que o outro não sabe’, de que ser crítico é ser – que eu acho horrível –, é pensar como nós pensamos e quem não pensa dessa forma não é crítico. A gente toma posse dessa ideia de que quem é crítico é marxista; uns materialistas dizem que são críticos e que os outros não são. É muito difícil [sair disso]. Isso me distancia um pouco da forma como algumas pessoas se apropriam dessa perspectiva.
(Entrevista com Clarice)
Clarice relata que ao iniciar o exercício da docência na universidade em que trabalha há aproximadamente vinte e cinco anos, ministrou uma disciplina no curso de Pedagogia que foi extinta da grade curricular e, posteriormente, uma de Introdução aos Estudos de Educação, na Licenciatura, em que discutia questões referentes à Psicologia Escolar, escola e etnografia. Esclarece que no começo de sua experiência como docente nesta universidade, havia maior quantidade de disciplinas de Psicologia oferecidas como obrigatórias no curso de Pedagogia, porém, diante de reformas curriculares ao longo deste período, algumas foram extintas, tal como a primeira disciplina ministrada por Clarice neste curso, reduzindo-se a duas que estão presentes na grade curricular em vigor.
Sendo assim, afirma que no currículo anterior havia maior diversidade entre as disciplinas de Psicologia, enquanto no atual, o conteúdo centra-se fundamentalmente em temas embasados na Psicologia do Desenvolvimento ou, ainda, da Personalidade, com a Psicanálise como base teórica. Ao se referir à prevalência da Psicologia do Desenvolvimento em uma das disciplinas de Psicologia da Educação, considera que isto decorre tanto da trajetória ou formação dos docentes que as ministram quanto do modo como a Psicologia se insere, historicamente, no curso de Pedagogia, em que se priorizam discussões voltadas para questões relativas ao desenvolvimento humano:
Essas disciplinas da Pedagogia vão tendo uma cara das pessoas que estão encarregadas, mas também uma cara dessa tradição da Pedagogia de calcar na Psicologia do Desenvolvimento, sem tanta tentativa de apresentar outros conteúdos que não os da Psicologia do Desenvolvimento e isso também comparece nas disciplinas optativas. Quando eu entrei não era assim; eram cinco
(Entrevista com Clarice)
Diante disso, Clarice explica que atualmente ministra a Psicologia da Educação B como
disciplina obrigatória oferecida regularmente no curso de Licenciatura, cujo conteúdo se assemelha muito ao da ministrada esporadicamente, como optativa, no de Pedagogia (“[a optativa] é uma versão bem parecida com essa que você assistiu, só que [ministrada] na Pedagogia” –
Entrevista). A partir de então, a docente passa a se referir à estrutura desta disciplina, que será explicitada a seguir.