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Assim como o modelo do Pai Severo é produto de um sistema de conceitos que temos sobre moralidade, o modelo do Pai/Mãe Cuidadoso(a) também possui algumas metáforas que o justificam e caracterizam, sendo de maior prioridade do que outras. São elas: MORALIDADE É EMPATIA e MORALIDADE É CUIDADO.

Segundo Lakoff (2002), empatia é colocar-se no lugar do outro, sentir o que o outro sente. Na metáfora da moralidade como empatia, como você se coloca no lugar da outra pessoa, você buscar fazer com que ela se sinta bem.

Já a metáfora que entende moralidade como cuidado parte do princípio de que é nossa responsabilidade cuidar de outras pessoas que estão no nosso convívio social, assim como os pais cuidam dos seus filhos.

Lakoff (2002) aponta que outras metáforas também estão presentes na moralidade do Pai/Mãe Cuidadoso(a), inclusive metáforas que também fazem parte do sistema do Pai Severo. Porém, o que diferencia um modelo do outro é a prioridade que é dada a certas metáforas. Sendo assim, a metáfora da moralidade como cuidado também está presente no sistema do Pai Severo, mas está abaixo das metáforas da autoridade moral e da ordem moral, por exemplo. O mesmo acontece na família do Pai/Mãe Cuidadoso(a), a metáfora da autoridade moral e da ordem moral também estão presentes, mas devem ser entendidas em conformidade com a metáfora da empatia moral e do cuidado moral, que lhes são superiores.

No modelo do Pai/Mãe Cuidadoso(a) (em inglês the Nurturant Parent model, o que indica que tanto o homem – pai – quanto a mulher – mãe – podem ocupar essa posição indistintamente ou ela pode também ser ocupada pelos dois em posição de igualdade):

 A responsabilidade de cuidar da família é compartilhada;

 O papel do pai e da mãe é cuidar das crianças e criá-los para que eles também possam cuidar de outras pessoas;

 Cuidado, felicidade e interação formam o alicerce. Cuidado significa empatia, colocar-se no lugar do outro, responsabilidade por você mesmo e pelos que estão a sua volta;

 As crianças se desenvolvem através de relacionamentos positivos com outras pessoas;

 O cuidado e o amor fazem com que as crianças se tornem responsáveis, autodisciplinadas e autoconfiantes, cuidando de si e dos outros;

 A obediência é vista como consequência do amor e respeito aos pais;

 A disciplina é vista como algo positivo. Porém, ela é resultado do senso de cuidado e responsabilidade desenvolvido nas crianças;

 O cuidado, ainda, indica estabelecer limites e explicá-los;

 Há o respeito mútuo entre pais e filhos e esse respeito não é imposto, mas conquistado através do comportamento dos pais;

 Quando os filhos fazem algo errado, ao invés de serem punidos eles são incentivados a fazer algo para compensar o erro;

 O papel dos pais é proteger e transmitir aos filhos a dedicação para com a vida em comunidade, na qual um deve cuidar do outro;

 A comunicação e os questionamentos são incentivados e todos os membros da família participam das decisões, sendo ouvidos;

 O objetivo principal é que as crianças estejam satisfeitas e sejam felizes.

Mapeado para a política, o modelo do Pai/Mãe Cuidadoso(a) leva à ideias mais liberais, maior preocupação com causas sociais, simpatia pelos direito dos gays, lésbicas e transexuais, dentre outras questões.

Os dois modelos descritos acima, segundo Lakoff (2002; 2012), representam a visão conservadora e a visão liberal de como o governo deve ser e agir. Eles explicam, por exemplo, por que os conservadores são a favor da pena de morte, ao passo que os liberais são contra; por que os liberais são a favor de programas de distribuição de camisinhas e seringas descartáveis entre os jovens, enquanto os conservadores acham tais programas imorais e incentivadores do sexo entre os jovens e do uso de drogas ilícitas; e, ainda, por que os conservadores não aceitam a ideia de impostos progressivos, enquanto os liberais veem como algo justo e que deva ser aplicado.

Lakoff (2002) e Lakoff e Wehling (2012) chamam a atenção para o fato de que, embora sejam apenas dois modelos, eles dão conta de uma variedade de posições políticas, desde as mais radicais às mais moderadas e, ainda, que pode haver variações entre os dois tipos de modelo. Mas, essas variações não mudam o fato de que eles existem e representam a visão conservadora estrita e a visão liberal estrita.

Em Washing the brain: metaphor and hidden ideology (2007), Goatly afirma que, em seu estudo sobre a política americana e os modelos de família, Lakoff (2002) demonstrou como a ideologia é criada, reforçada e como ela se torna dominante, através do seu resumo sobre os temas mais importantes da ideologia de direita. No entanto, Goatly (2007) afirma

discordar de Lakoff em pelo menos dois pontos: ele não acredita que os modelos de família possam ser aplicados de maneira consistente às políticas liberal e conservadora e nem que as pessoas que têm uma visão conservadora são ideologicamente inocentes, ou seja, ele indica que, na menor das hipóteses, elas são seduzidas pela ideologia latente inerente às metáforas segundo as quais elas pensam. Goatly (2007) afirma, ainda, que elas não apenas são seduzidas por essa ideologia, mas estão comprometidas com ela, assim como todos nós estamos, simplemente pelas posições que tomamos e pelas relações (econômicas e sociais) que temos em sociedade. Para o autor (2007, p. 387), O fato de que estas duas metáforas familiares não são aplicadas de forma consistente sugere que no centro da tomada de decisão política estão o poder e a ideologia, ao invés de, simplesmente, os dois complexos metafóricos de Lakoff.45

Concordamos com Goatly, quando ele afirma que por trás dos modelos de família está a ideologia e que estamos comprometidos com essa ideologia pelas posições, ações e relações que temos em sociedade. No entanto, acreditamos que os modelos de família de Lakoff (2002) e Lakoff e Wehling (2012) representam, sim, duas visões ideológicas que caracterizam o pensamento político (não só americano, mas também brasileiro): a visão conservadora e a liberal. Porém, destacamos que é praticamente impossível encontrar uma pessoa ou partido político que siga uma visão estritamente conservadora ou estritamente liberal, ou seja, essas duas visões (co)existem e o que temos, na verdade, é uma mescla de aspectos de um ou outro modelo.

Como vimos, os modelos de família de Lakoff (2002) e Lakoff e Wehling (2012) surgiram a partir do estudo e exame da sociedade e política americana. Por essa razão, cabe destacar, em nosso trabalho, algumas diferenças existentes entre a política americana e a brasileira. Em primeiro lugar, os sistemas político-eleitoral dos dois países são diferentes. Uma das principais diferenças é que, enquanto nos Estados Unidos existem apenas dois partidos políticos: o Republicano e o Democrata, no Brasil, há o pluripartidarismo. Em 23 de Julho de 2015, por exemplo, existiam no Brasil 32 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em segundo lugar, enquanto nos Estados Unidos um partido representa o pensamento conservador e o outro o liberal – os partidos Republicano e Democrata defendem a bandeira do conservadorismo e do liberalismo, respectivamente. No Brasil, por outro lado, dificilmente poderemos classificar os partidos dessa maneira. Verificamos, inclusive que, em nosso país,

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The fact that these two family metaphors are not consistently applied, suggests that at the heart of political decision-making are power and ideology rather than simply Lakoff‘s two metaphor complexes.

há certo repúdio ao termo ―conservador‖. Os partidos não querem ser de direita, não querem ser conhecidos como conservadores, mas sim como de esquerda ou centro-esquerda.

De acordo com o cientista político Ricardo Caldas (apud CASTRO, 2011a), tal fato pode estar ligado à herança negativa deixada pelas legendas conservadoras no país, que foram contra a abolição da escravidão, contra o fim da monarquia e apoiaram o regime militar.

Em sua coluna na revista Veja, Castro afirma que Não há partidos conservadores no Brasil. No mesmo caminho, o filósofo Olavo de Carvalho, em entrevista concedida a mesma revista, afirma que a ausência de um partido conservador no país é resultado de um processo que começou durante o regime militar: [...] a classe política, que era de maioria direitista, acabou sendo marginalizada e deixando um espaço vazio. Esse espaço foi preenchido pelos políticos de esquerda que voltavam do exílio. Quando veio a Constituição de 1988, a

esquerda já era praticamente hegemônica.(CASTRO, 2011b)

Embora cientes das diferenças entre os dois países, principalmente das apontadas acima, acreditamos que os modelos de família podem ser aplicados e explicam o pensamento político-ideológico brasileiro, se não dos partidos políticos, dos próprios políticos, dos formadores de opinião, dos acadêmicos, dos jornalistas, da imprensa e das pessoas em geral. Por essa razão, quando falamos, em nosso trabalho, de ideologia conservadora ou liberal não estamos nos referindo a este ou aquele partido político, mas ao pensamento que subjaz ao que está presente, tanto nos discursos, quanto nas ações de determinados políticos, formadores de opinião e meios de comunicação e, no caso específico de nossa pesquisa, nas charges analisadas.

Também cabe ressaltar que quando falamos em pensamento político liberal não estamos nos referindo ao liberalismo enquanto doutrina política-econômica, mas a um pensamento político progressista que, em oposição ao conservadorismo, defende a liberdade individual e simpatiza com causas como legalização do aborto, a liberação regulamentada das drogas, os direitos dos LGBTS, os impostos gradativos etc.